Numa tarde primaveril de 1997 estava eu calmamente sentado no sofá de casa, com dois outros amigos meus ao lado. Era uma tarde soalheira, de domingo, e tudo na ilha Terceira de Jesus Cristo estava sereno e bucólico como é habitual. Vía-se sem se ver um qualquer programa inarrável da RTP-Açores e planeava-se um mergulho nocturno. Disparatava-se muito, também.
De súbito, uma trepidação silenciosa, longa, muito longa, fez-nos calar. Um tremor de terra é algo de primevo – não admira que os animais o pressintam e se apavorem. Nós, sem esse sexto sentido, continuámos mudos e quedos. Lembro-me de pensar: “olha, o que é isto, um camião lá fora, não, porra!, camião algum faz abanar assim a casa, é um sismo, que giro, nunca tinha sentido nenhum, quando é que isto pára, ok, já chega, sim, será que isto vai aumentar de intensidade, ok, acabou, e agora?”
O agora era sair-se de casa e ver os vizinhos em pânico a escorrerem o mais depressa que podiam das ombreiras e até das janelas das casas em redor. (Na Terceira, muitos dos que sobreviveram ao sismo de 1980 têm, compreensivelmente uma autêntica psicose do abalo – não se experiencia impunemente um tremor de terra que, com a magnitude de 7 graus na escala de Richter que mata 71 pessoas, fere 400 outras e destrói mais de 15.500 habitações em três ilhas.)
Esse abalo dominical foi o primeiro de uma crise sísmica resultante de uma erupção submarina no Banco Dom João de Castro. Eram sempre abalos pequenos, de grau I a III da escala Mercali. Mas, o problema psicológico da gestão pessoal de uma crise sísmica reside sempre no facto de os abalos serem imprevisíveis. Tanto podem ocorrer dois numa hora como serem espaçados de uma semana.
Uma crise é isso: sabe-se sempre quando começa, nunca se sabe quando acaba, quando voltará e, especialmente, com que intensidade. Passados uns dias, também eu estava com a psicose do abalo: "e se houver um forte, agora que estou na casa de banho? Que vergonha, tirarem-me já cadáver debaixo dos escombros e ainda com a escova de dentes na boca ou os calções pelos tornozelos". Ou então, "é melhor não me debruçar deste muro alto porque pode haver um abalo, desequilibro-me e lá vou eu de cangalhas a parar lá abaixo".
Mas esses sismos de 97 eram peanuts, como o são quase todos os sismos de origem vulcânica. Os de origem tectónica é que são realmente tramados. Em 1998, um tremor de terra com a magnitude de 5.6 na escala de Richter e epicentro no nordeste do Faial provocou a destruição generalizada em quatro freguesias da ilha, matando 8 pessoas e desalojando 1.700.
Este senti-o na Terceira - acordei em sobressalto, quase fora da cama, às 5.20 da manhã - mas falhei a experiência in loco por um dia apenas: por ironia do destino, a expedição que tínhamos marcado para o Faial só se iniciava no dia seguinte.
Em todo o caso, posso ter tido falta de comparência no sismo principal, mas apanhei as réplicas quase todas num 5º andar de uma residencial da Horta construída nos anos 20. E acreditem: essa experiência é a mais próximo que eu consigo encontrar para poder definir o termo impotência.
2003/12/31
A pedra filosofal
Todos os dias me surpreendo com as palavras-chave digitadas por quem, pesquisando certos e determinados assuntos na Internet, vem parar a este blog através do Google ou do Yahoo. Hoje, por exemplo, houve alguém que até se deve ter congratulado pelos resultado obtido: veio à procura de "poesia de valter hugo mãe" e encontrou a ligação para a página do poeta, ali, mais abaixo, do lado direito.
Depois há quem se interesse por desporto: uns procuram "sapatilhas Puma em Portugal", outros apenas querem saber do "Sporting+Benfica+estacionamento na 2ª circular". Não estranho tal desiderato: tivesse este blog a resposta para esse problema rodoviário de tão magna importância e vendia-a já amanhã, à chucha calada, ao Departamento de Trânsito da Câmara Municipal de Lisboa.
Como a época é festiva, há quem também venha cá dar à procura de "postais ilustrados com desenhos de natal e passagem de ano". Lamento: não há. Acabaram-se-me ontem e o último foi para o senhor que queria uma "entrevista com toxicodependentes".
Depois, há os africanistas, a malta nostálgica da ilha de Moçambique e da praia do Mussulo. Ora pedem "kuduro letras" ora vão logo directos ao assunto, sem grandes danças e exigem "africanas nuas". Há também quem não seja esquisito com raças ou etnias: "cona aos saltos" ou "motas com putas" são duas das entradas directas para o top três.
Mas a melhor, a melhor mesmo do dia, a vencedora em todas as categorias é esta: "POMADA PARA APERTAR VAGINA LARGA"…. Assim mesmo, sem pruridos e em maiúsculas!
Lamento, meu caro utente do Arame, mas desconheço tal mezinha. Olhe, tente banana verde ou aquela parte de dentro dos dióspiros pouco maduros, sim, essa mesma, a que nos faz dessecar a boca toda em esgares de desconforto, essa que é muito rica em taninos.
Se não ajudar, sempre é rica em vitamina C. Ao menos que lhe previna o escorbuto.
Depois há quem se interesse por desporto: uns procuram "sapatilhas Puma em Portugal", outros apenas querem saber do "Sporting+Benfica+estacionamento na 2ª circular". Não estranho tal desiderato: tivesse este blog a resposta para esse problema rodoviário de tão magna importância e vendia-a já amanhã, à chucha calada, ao Departamento de Trânsito da Câmara Municipal de Lisboa.
Como a época é festiva, há quem também venha cá dar à procura de "postais ilustrados com desenhos de natal e passagem de ano". Lamento: não há. Acabaram-se-me ontem e o último foi para o senhor que queria uma "entrevista com toxicodependentes".
Depois, há os africanistas, a malta nostálgica da ilha de Moçambique e da praia do Mussulo. Ora pedem "kuduro letras" ora vão logo directos ao assunto, sem grandes danças e exigem "africanas nuas". Há também quem não seja esquisito com raças ou etnias: "cona aos saltos" ou "motas com putas" são duas das entradas directas para o top três.
Mas a melhor, a melhor mesmo do dia, a vencedora em todas as categorias é esta: "POMADA PARA APERTAR VAGINA LARGA"…. Assim mesmo, sem pruridos e em maiúsculas!
Lamento, meu caro utente do Arame, mas desconheço tal mezinha. Olhe, tente banana verde ou aquela parte de dentro dos dióspiros pouco maduros, sim, essa mesma, a que nos faz dessecar a boca toda em esgares de desconforto, essa que é muito rica em taninos.
Se não ajudar, sempre é rica em vitamina C. Ao menos que lhe previna o escorbuto.
2003/12/30
O mundo do silêncio....

... pode ser tudo menos silencioso. Há medos que não se calam. Nunca.
Banco Dom João de Castro, Açores, a 45 metros de profundidade, Kodak Elite 400
O canto dos canários
Na cidade iraniana de Bam, o canto de dois canários de estimação atraíu aos escombros de uma casa destruída pelo terramoto uma equipa de socorro. Ao lado da gaiola semi-destruída foram encontradas duas crianças, ainda vivas.
De acordo com a agência de notícias Irna, as crianças estão já a recuperar num hospital e aos canários foi-lhes dada a liberdade.
Afinal, vale sempre a pena cantar, mesmo que o mundo inteiro se desmorone à nossa volta.
De acordo com a agência de notícias Irna, as crianças estão já a recuperar num hospital e aos canários foi-lhes dada a liberdade.
Afinal, vale sempre a pena cantar, mesmo que o mundo inteiro se desmorone à nossa volta.
Se nos restaurantes chineses de Portugal houvesse a tradição de se dar ao cliente um bolinho da sorte do Ano Novo até aposto que me saía esta frase lá dentro: chorei por não ter sapatos, até que vi alguém que não tinha pés.
2003/12/29
O dilema
Ouço a tua voz e penso em dizer-te o que faço enquanto te escuto.
Se o fizesse, talvez desligasses. Talvez, só talvez o fizesses. Até pode ser que me surpreendas. Ou não.
Mas, a mim, tanto me faz: afinal, nunca gostei de supresas. E o que está feito, feito está.
Se o fizesse, talvez desligasses. Talvez, só talvez o fizesses. Até pode ser que me surpreendas. Ou não.
Mas, a mim, tanto me faz: afinal, nunca gostei de supresas. E o que está feito, feito está.
Los charolastras

Mais triste que a perda da inocência, é o desencanto que se lhe segue. Y tu mama tambien. Amanhã, terça-feira, com o Público.
E em que acredito eu mais convictamente? Acredito que haja, única e exclusivamente, morte para além da vida.
2003/12/28
Straight pride
Queixa-se o Avatares de existir na blogosfera uma ausência em termos mais mediáticos de blogues que se assumam como referência de algumas bandeiras, que se tornem vozes ouvidas - um blogue gay, um blogue feminista, um blogue anti-racista, um blogue que dê voz aos direitos dos imigrantes, das pessoas com deficiência, dos desempregados, etc.
E eu respondo que um blog vale por aquilo que está por detrás dele: um ou mais autor(es) e a sua capacidade em comunicar de forma interessante / divertida / polémica e/ou empolgante. O resto é chover no molhado e ausência mediática - ou seja, as escassas visitas e as mais escassas ainda citações noutros blogs.
Qualquer um, hoje em dia, com acesso à Internet, pode criar um blog. Isso é o mais fácil. O que é difícil é actualizá-lo regularmente e ter algo para comunicar. Algo de novo, algo de interessante, algo que dê prazer ler e comentar - e, fora as temáticas estafadas do sexo e do futebol, muito poucas coisas são aliciantes o suficiente para captar as tais audiências que muitos almejam alcançar e captar.
O problema dos blogs temáticos ou com causa é o de que estes tendem a cair rapidamente na monotonia. Por exemplo, recordo-me agora de alguns dos blogs da comunidade GLTB que por aí pululam e que por vezes leio: exceptuando talvez o do Miguel Vale de Almeida - que é, de todos, o mais genérico, o mais interessante e o mais bem escrito - todos os outros rapidamente caem no extremismo e no reducionismo ou numa discussão inter pares que nada acrescenta, em termos de mais valias, a quem se move fora do circuito fechado dos ambientes LGBT (gay, lésbico, transgender e bissexual). Para se ter uma ideia, todas as ligações que este, este, este e, em certa medida, este e este apresentam são única e exclusivamente para blogs ou sites de carácter LGBT. Se isto não é ser redutor, não sei o que será.
Volto a frisar: na minha opinião, retorna-se a um blog porque ele nos dá algo que escasseia nos dias de hoje - boa escrita, sentido de humor, inteligência e um ou mais temas interessantes. O tom panfletário, o ruído de fundo, a discriminação reversa (não me oprimam, deixem-me ser quem sou, não me discriminem, só nós LGBT é que estamos certos) incomodam-me. Incomodam-me porque não me revejo no papel de opressor de alguém só porque essa pessoa é judeu, islamita, gay, negro, mulher, alentejano, surfista ou paraplégico.
Quando a intolerância cresce do outro lado da barricada, também ela pode ser feia de se ver. E é tão fácil esquecer que um tom militante e aguerrido tende a ocasionar uma divisão maniqueísta das opiniões - porque há alturas em que também a mim me apetece gritar: este blog é 100% assumidamente heterossexual.
E eu respondo que um blog vale por aquilo que está por detrás dele: um ou mais autor(es) e a sua capacidade em comunicar de forma interessante / divertida / polémica e/ou empolgante. O resto é chover no molhado e ausência mediática - ou seja, as escassas visitas e as mais escassas ainda citações noutros blogs.
Qualquer um, hoje em dia, com acesso à Internet, pode criar um blog. Isso é o mais fácil. O que é difícil é actualizá-lo regularmente e ter algo para comunicar. Algo de novo, algo de interessante, algo que dê prazer ler e comentar - e, fora as temáticas estafadas do sexo e do futebol, muito poucas coisas são aliciantes o suficiente para captar as tais audiências que muitos almejam alcançar e captar.
O problema dos blogs temáticos ou com causa é o de que estes tendem a cair rapidamente na monotonia. Por exemplo, recordo-me agora de alguns dos blogs da comunidade GLTB que por aí pululam e que por vezes leio: exceptuando talvez o do Miguel Vale de Almeida - que é, de todos, o mais genérico, o mais interessante e o mais bem escrito - todos os outros rapidamente caem no extremismo e no reducionismo ou numa discussão inter pares que nada acrescenta, em termos de mais valias, a quem se move fora do circuito fechado dos ambientes LGBT (gay, lésbico, transgender e bissexual). Para se ter uma ideia, todas as ligações que este, este, este e, em certa medida, este e este apresentam são única e exclusivamente para blogs ou sites de carácter LGBT. Se isto não é ser redutor, não sei o que será.
Volto a frisar: na minha opinião, retorna-se a um blog porque ele nos dá algo que escasseia nos dias de hoje - boa escrita, sentido de humor, inteligência e um ou mais temas interessantes. O tom panfletário, o ruído de fundo, a discriminação reversa (não me oprimam, deixem-me ser quem sou, não me discriminem, só nós LGBT é que estamos certos) incomodam-me. Incomodam-me porque não me revejo no papel de opressor de alguém só porque essa pessoa é judeu, islamita, gay, negro, mulher, alentejano, surfista ou paraplégico.
Quando a intolerância cresce do outro lado da barricada, também ela pode ser feia de se ver. E é tão fácil esquecer que um tom militante e aguerrido tende a ocasionar uma divisão maniqueísta das opiniões - porque há alturas em que também a mim me apetece gritar: este blog é 100% assumidamente heterossexual.
2003/12/27
Kanimambo

Extracto de um recibo passado por Rodrigo Afonso, piloto do navio São Vicente, a Gonçalo da Fonseca, capitão do castelo de Arguim pela recepção de uma carga de peças de escravos. Escrito em Arguim, a 27 de Maio de 1507.
[...] [con]hiçimentos d[...] [...]as que o capitam gonçallo da fomsseca tem emtregues a Rodrigo afonso piloto pera leuar pera portugall e as entregar na casa da mjna
[à margem] no liuro do ano de bºbjjjº som pasados estes escravos f[olio] 173
Eu Rodrigo afomso piloto do naujo sam viçente conheço e comfesso que Reçeby de gonçalo da fonseca fidalguo da casa de el Rey nosso Senhor e capitam por sua alteza no castello d argujm cinquoeta e duas peças d[e] escrauos [a ] s[aber]
tres peças de xbij. ate xx annos - iij. peças
Item çinquo de xx ate xxb annos - b. peças
Item majs. biij. peças de xxb ate trjnta annos - peças [sic]
Item tres peças de trjnta e .b. annos ate corenta - iij. peças
Item tres moças de .x. ate xij. annos - iij. peças
Item duas moças de xb. ate xbij. annos - ij. peças
Item majs xiiij. peças de xx ate xxb annos - x iiij. peças
Item quatro de xxx ate trjnta e çinquo annos - iiij. peças
Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Corpo Cronológico, Parte 3ª, m. 3, doc. 23, fl. 8
Este post é dedicado ao Exmo. Sr. Ministro da Defesa, Dr. Paulo Portas, o homem que quer retirar o anti-colonialismo da Constituição, porque não tem vergonha da história.
A pintura chinesa I

Para além dos early morning blogs, o Abrupto tem uma outra marca oessoal, muito sua, também ela assaz conhecida: a inserção de pequenos fragmentos de pinturas, num jogo de toca e foge que conhece solução alguns posts mais tarde.
Tendo vindo a seguir com alguma regularidade esse jogo, noto que – à excepção de dois ou três exemplos com origem na Sublime Porta - quase todas as obras por si inseridas são de origem ocidental. E dou por mim a analisar esse olhar enviesado, esse etnocentrismo arreigado, tão inconsciente, tão nosso, fruto da ignorância do outro. Actualmente, pensamos por continentes. Afinal, que significado podem ter para nós conceitos e perspectivas que se arrogam o direito de ter validade universal mas cujo horizonte não ultrapassa, na realidade, a atmosfera intelectual do homem da Europa Ocidental?
Poderia falar da pintura africana ou até sul-americana mas como não acho apropriado falar do que não se conhece, optei por olhar para a pintura chinesa e lançar umas notas para o papel. Em resultado do meu contacto de há três anos para cá com a aprendizagem do mandarim e, por arrastamento, da civilização chinesa dei por mim a pensar que um ocidental que não seja versado em assuntos chineses passa, geralmente, por uma obra-prima desse país, sem que esta lhe desperte a mínima atenção.
Quando muito, dar-lhe-á uma vista de olhos tal como o faria a um qualquer objecto artístico, em marfim ou jade, de procedência oriental. Se esse ocidental tiver os conhecimentos artísticos que lhe permitam apreciá-la enquanto pintura, fá-lo-á do ponto de vista da arte ocidental, pensando que, se ela contém algum conceito elevado, o artista não soube interpretá-lo convenientemente, aparecendo-lhe como algo a que é alheio o génio.
E porquê? Porque, sendo a arte a manifestação sintética dos mais elevados sentimentos estéticos de um povo, resulta de tal facto que só indivíduos desse povo, que os símbolos apresentados fazem vibrar, estarão aptos a senti-los, pelo que não é exagero afirmar-se que, para se apreciar a pintura chinesa, é necessário ser-se chinês. Ou talvez porque na velha China, os pintores mantinham entre si um código de honra, à maneira dos cavaleiros medievais: não trocavam nunca a sua arte por dinheiro, apenas por vinho de arroz onde procuravam, inspiração e fecundidade...
Em todo o caso, uma pintura chinesa é essencialmente uma estrutura linear, o resultado lógico de um bom adestramento e controlo do pincel exercitado na arte da caligrafia, um tema a que já me referi anteriormente. Por isso, na China, tanto se diz escrever uma pintura, como pintar um texto já que o que se considera em relação à caligrafia aplica-se igualmente à pintura, dado que esta é essencialmente uma composição fluida de linhas e rasgos caligráficos.
Tal como na arte ocidental, a pintura chinesa tem as suas técnicas e regras própria. Um dos seus cânones refere-se à "estrutura das pinceladas", ou seja, ao dom que cada pintor tem em conseguir infundir, com maior ou menor sucesso, uma textura óssea em cada traço - se estes forem fracos, não importa que o desenho das figuras seja delicado e fino, porque estas não terão qualidade já que, sem contexto ou textura firme de traço, as figuras não se sustentarão por si próprias e serão arrastadas pelo seu próprio peso.
Para se saber o que é o contexto ou a textura óssea das linhas traçadas a pincel, é necessário conhecer-se um pouco da técnica e das regras da caligrafia chinesa. Segundo estas, o pincel deve segurar-se de forma a que o esforço do corpo se dirija para a sua ponta. Assim, todas as pinceladas terão vitalidade e vigor (na caligrafia chinesa, e ao contrário do que geralmente se supõe, esta vitalidade não se encontra a força com que se agarra o pincel ou no movimento do pulso. O pincel deve segurar-se com suavidade, deve permanecer em posição perpendicular e firme, de modo a que o esforço despendido pela mão lhe seja directamente transmitido. Só assim se conseguirão imprimir, na seda ou no papel, traços que possuam a suavidade do jade e a firmeza do aço.)
A pintura chinesa II

Apesar de a pintura chinesa ter evoluído, ao longo de mais de dois mil anos, para um vasto e variado leque de temas e motivos, os artistas chineses costumam, geralmente, agrupá-los em três grandes categorias:
1) aves, insectos, flores, frutos, arbustos e árvores em combinações harmoniosas e, mais raras vezes, outros animais nobres e simbólicos. É na pintura das aves, insectos, flores e árvores que um chinês patenteia, porém, a sua habilidade nos pormenores e na delicadeza dos desenhos. Na maioria das vezes, o artista pinta estes motivos para exprimir apenas o seu significado simbólico ou emblemático, em detrimento da sua figura real e palpável. Conhecer o valor dos símbolos é, pois, fundamental para compreender este tipo de pintura;
2) paisagens - as ditas montanhas e água. As montanhas, as rochas, as árvores, a água e as cascatas - quais torrentes que se despenham do céu - dominam sempre na reprodução duma paisagem chinesa. Os chineses pintam-na, tanto para reproduzir o seu esplendor que os fascinava, como para exprimir também, através dessas reproduções, os seus sentimentos, emoções e estados anímicos. Por isso, a sua execução difere da pintura de paisagens no Ocidente, tanto na técnica e na forma, como na perspectiva e na finalidade. A figura humana, se dela consta, é apresentada sentada ou de pé, imóvel, contemplando, em meditação, a brumosa distância e representa o erudito, o eremita taoista ou o poeta-filósofo, que, na quietude do seu retiro, vê as riquezas e as honras mundanas tal como se as contemplasse através da neblina, que o priva de ver os confins do horizonte. Ele próprio não é mais do que um ponto na imensidão cósmica. Noutros casos, a figura é a de um letrado, geralmente de passagem pelo local.
3) e mais raramente, figuras humanas. A arte de pintar a figura humana nunca se desenvolveu devidamente na China. Admite-se que tal facto ficou a dever-se à representação das figuras sempre vestidas, dado que, para um chinês, representar a nudez era uma demonstração não só de incivilidade obscena, mas também de mau gosto. Apenas se pintavam, para fins de culto ou de veneração popular, efígies de santos, imperadores lendários e sábios moralistas. Faziam-se também retratos para ilustração de histórias, cujas personagens se tinham distinguido pelas suas virtudes ou actos de abnegação, ou lendas de heróis mitológicos, que eram representados de acordo com a imaginação do seu executante ou retratos de antepassados envergando, geralmente, vestes mandarinais, retratos de encomenda destinados a figurarem nos salões durante as celebrações de Ano Novo Lunar, quando a família se reunia numa manifestação colectiva de vida eternamente renovada.
E depois, existem ainda os selos e os escritos caligráficas que são apostos nas pinturas, como factores de novidade aos nossos olhos ocidentais.
A pintura chinesa III

Os selos que surgem amiúde nas pinturas chinesas desempenham um papel muito importante na tradição artística do Império do meio. Se bem que o seu uso tenha surgido pouco depois da invenção do papel, no primeiro século da nossa era, foi apenas devido ao grande impulso que a imprensa veio dar à cultura chinesa, durante a dinastia Sung (960-1200 a. D.), que se incrementou, de forma inusitada, o uso dos selos. Foi também nessa data que os pintores começaram a apor os seus selos por debaixo da assinatura dos seus nomes, como prova de autoria.
Os selos eram estampados a vermelho, já que esta cor, além de simbolizar a felicidade, a alegria, a boa sorte e o êxito, não se apagava, outrossim ressaltava, ao ser impressa sobre uma obra feita totalmente a tinta-da-china ou em tons suaves de aguarelas.
Desde a dinastia Tang (818-690 a. D.) até aos nossos dias, foi uma mistura de cinábrio com água ou mel, ou de vermelhão com óleo vegetal ou cera de abelha, que serviu de tinta para a marcação dos selos. De uma forma geral, podem considerar-se selos de dois tipos: de impressão positiva ou yang (ou luminosa), aquela onde os caracteres aparecem traçados sobre um fundo branco, e negativa ou yin (ou sombria), na qual os ideogramas aparecem brancos sobre um fundo vermelho ou negro, segundo a tinta que se utilizou. De uma maneira geral, os selos usados pelos pintores chineses são entalhados pelos próprios autores, sobre pequenos blocos de pedra macia, utilizando, para tal fim, instrumentos extremamente sensíveis.
Quanto à forma, existem selos de muitos modelos, tamanhos e estilos, de acordo com o uso a que se destinam. No entanto, de entre todos os selos, os mais populares e os de maior beleza são os utilizados pelos calígrafos e pintores. Estes selos são, geralmente, de tamanho menor do que o dos usados pelos outros letrados, sendo também mais excêntricos não só no formato, mas também nas inscrições e na forma de entalhe.
É pelo efeito caligráfico desta pequena composição que o artista exprime algo de si próprio, algo que o elo identifica e torna inimitável. Por isso, os selos não só servem como rubrica ou assinatura pessoal, mas também como um elemento indispensável, que dá garantia e autenticidade a uma obra. Era por este motivo, noutros tempos, quando um artista falecia, os seus selos eram quebrados.
Além de tudo isto, o chinês vê nos selos um elemento indispensável para completar e embelezar qualquer obra de arte. Por isso mesmo, os selos devem estar sempre em harmonia com a obra executada. Daí cada pintor possuir sempre um número variado de carimbos de diferentes tamanhos, formatos e estilos.
Numa mesma pintura podem ser apostos, ainda, selos diferentes do mesmo pintor. Neste caso, o primeiro destes selos representa o seu nome, o segundo o seu título académico ou heterónimo, o terceiro a indicação do local do seu gabinete ou estúdio, podendo um quarto representar um dito popular, uma frase de sentido auspicioso ou o nome duma figura simbólica.
Os coleccionadores de arte chinesa costumam, também, apor os seus selos nos rolos que adquirem, como testemunho de posse. Por isso os selos não só servem como rubrica ou assinatura pessoal, mas também como elemento que, geralmente, valoriza a obra por lhe traçar o seu percurso. Podem ainda, muitas vezes, ler-se várias outras inscrições que são escritas pelos amigos do pintor, e que são, geralmente, elogios à pintura ou frases laudatórias do artista – o valor destas inscrições depende muito, por isso, de quem as escreve: se são de um grande crítico ou conhecedor de arte, tal facto valoriza sobremaneira o trabalho.
2003/12/26
apaga-me
tomo-me a temperatura e descubro-me quente. muito quente.
tão quente que tudo o que mais desejo agora é apagar-me na tua liquidez, consumir-te, abrasar o teu corpo com o calor que te tenho.
e, no rescaldo, abraçar as tuas cinzas.
tão quente que tudo o que mais desejo agora é apagar-me na tua liquidez, consumir-te, abrasar o teu corpo com o calor que te tenho.
e, no rescaldo, abraçar as tuas cinzas.
I showed my heart to the doctor
He said I'd just have to quit
Then he wrote himself a prescription
And your name was mentioned in it.
One Of Us Cannot Be Wrong, Leonard Cohen
He said I'd just have to quit
Then he wrote himself a prescription
And your name was mentioned in it.
One Of Us Cannot Be Wrong, Leonard Cohen
2003/12/25
Espírito Natalício
Platão era um chato - Friedrich Nietzsche
Nietzsche era estúpido e anormal - Leon Tolstoy
Nietzsche era estúpido e anormal - Leon Tolstoy
2003/12/24
Notas de viagem XX - Ilha Berlenga

E o que são as Berlengas? São um arquipéago localizado a cerca de 6 milhas de Peniche, formado por três grupos de ilhéus - que englobam a Berlenga Grande e os seus recifes adjacentes, as Estelas e os Farilhões - e que integra a Rede Nacional de Áreas Protegidas, constituindo Reserva Natural desde 1981.
Mas o arquipélago não é só um lugar inóspito onde habitam apenas algumas espécies animais e vegetais. É também um lugar com história tendo sido óbvio ponto de paragem e de abrigo desde a mais remota antiguidade - terá até havido na ilha um santuário fenício dedicado a Baal-Melkart - cenário obrigatório da lendária rota das Cassiterides, cuja tradição remonta à Idade do Bronze.
À semelhança do que ocorre com a ilha do Pessegueiro - em que escavações arqueológicas mostraram uma ocupação romana compreendida entre os séculos I e IV d.C. - é de supor que um território deste tipo, a uma distância confortável da costa e rica em recursos naturais, tenha atraído pescadores que se estabeleceram na ilha de uma forma mais ou menos permanente, à semelhança do que ocorre hoje em dia.
Apesar dos mitos sobre a perigosidade da navegação para além do Estreito de Gibraltar, está implícita nos testemunhos dos geógrafos e historiadores da Antiguidade a evidência de uma navegação de rotina ao longo da costa atlântica da Península Ibérica permitida pelas excelentes qualidades náuticas dos navios de tradição mediterrânica da época romana e que os capacitavam de remontar ao vento, bolinando em condições que os levavam a navegar, vindos do Mediterrâneo, para além do cabo de São Vicente. A Berlenga terá, sem dúvida, servido de marca da navegação e de apoio às frotas romanas
Há um pormenor histórico curioso que, a se verificar, coloca Julio César a desembarcar nas proximidades das Berlengas. Com efeito, no ano de 61 a.C., um contigente de lusitanos revoltosos da Serra da Estrela, ter-se-á refugiado numa ilha da costa Portuguesa.
Uma primeira tentativa de invasão, com o recurso a balsas artesanais construídas pelo exército romano, terá falhado redondamente e apenas o líder da expedição, Publio Escevio, terá escapado à matança infligida pelos lusitanos entrincheirados na ilha. Perante o desastre, César mandou vir de Cádiz uma frota de algumas dezenas de navios mercantes onde fez embarcar, em finais de Agosto, os cerca de 18 mil soldados do então Governador da Hispania Ulterior. Desembarcados na ilha, os romanos submeteram então os revoltosos acossados pela falta de víveres. Esta é, definitivamente, uma boa história - resta a dúvida sobre se a ilha em causa seria a Berlenga ou a própria Peniche (na altura ainda separada do continente) embora a maioria dos investigadores se incline mais para a primeira hipótese.
Em todo o caso, e testemunho irrefutável da presença romana, o mar das Berlengas apresenta actualmente o maior conjunto conhecido de ânforas proveniente do meio marítimo português. Com efeito, entre 1984 e 1988 foram recuperadas cerca de uma dúzia de ânforas romanas, a sudeste do Carreiro do Mosteiro e a cerca de 23 metros de profundidade. Complementarmente aos achados de ânforas, foi localizada uma vintena de cepos de âncora em chumbo. Alguns destes cepos apresentam motivos decorativos, nomeadamente ossinhos em relevo em duas faces alternadas dos braços - alinhados no lance da sorte representam o talus, o jogo mais popular da Antiguidade, com um significado augural e auspicioso - e golfinhos – protectores dos navegantes e salvadores dos náufragos, símbolo por excelência da navegação tranquila.
Não é só no mar que se encontram vestígios da Antiguidade. Na escavação arqueológica conduzida em 2000 pelo Instituto Português de Arqueologia foram encontrados materiais arqueológicos romanos, nomeadamente material de construção - a tão típica tegulae, por exemplo - em quantidade, qualidade e diversidade tipológica e cronológica (República, Alto e Baixo Império) que sugerem uma ocupação, se não continuada no tempo, pelo menos frequente.
Que a ilha era escalada frequentemente por marinheiros e pescadores também não restam dúvidas, tanto mais que, no ano de 1513, os Monges da Ordem de São Jerónimo criaram na ilha - por proposta de Frei Gabriel à sua confessada, a rainha Dona Maria, esposa de Dom Manuel - o Mosteiro das Berlengas, com invocação de Nossa Senhora da Misericórdia - fundado pela lembrança que a rainha teve de que aqueles monges poderiam ser úteis aos navegantes quando estes ali desembarcavam, não só por acharem quem lhes pudesse administrar os sacramentos mas também para poderem ouvir os ofícios divinos.
Pouco tempo se conservaram na ilha os monges. Entre os motivos apontados para a curta permanência da ordem, encontrava-se não só a escassez de alimentos – por a terra produzir pouco e o mar ser muito bravo, estando muitas vezes privados de quem os abastecesse – mas também por, repetidas vezes, a ilha ser acometida por piratas barbarescos e turcos. Mesmo descontando estas ocorrências singulares, os frades morriam amiúde com doenças, sem terem que os curasse e caindo pelos rochedos - curiosamente, os testemunhos orais que davam como certa a existência de despojos humanos associados ao local de implantação do Mosteiro, puderam ser confirmados em 2000 com a recolha de materiais osteológicos humanos descontextualizados.
Não se sabe ao certo em que ano foi o Mosteiro abandonado mas julga-se que foi em 1545, ano em que os doze frades das Berlengas se passaram para Vale Benfeito, no continente. Deixado ao abandono, o Mosteiro caiu em ruínas, sendo a sua cantaria do utilizada mais tarde na construção da fortaleza de São João Baptista.
Esta primeira tentativa de ocupação permanente da ilha poderá ter tido antecedentes com a construção, em 1502 e também por iniciativa de D. Manuel, de uma fortaleza. Esta fortaleza, aparentemente mandada reparar mais tarde por D. Sebastião, não terá assumido grande porte já que, com o incremento das incursões de piratas argelinos comandados por renegados europeus, pelo Atlântico dentro, Filipe II de Espanha ordenou a construção de novas fortalezas costeiras, entre as quais se contava uma na ilha das Berlengas. Aparentemente, a sua construção foi demorada, já que 14 anos após a Restauração, os mesmos piratas derrubaram a tiros de bombarda as muralhas ainda incompletas existentes na ilha.
Em todo o caso, só com D. João IV se terá dado à tarefa a importância devida, com a ida à ilha de João Rodrigues de Sá em 1651. A construção, realizada pelo engenheiro régio Mateus do Couto, desenvolveu-se sobre um ilhéu - ligado à ilha por uma ponte em alvenaria, sobre arcadas - havendo ainda lugar à construção de um pequeno ancoradouro, do lado norte. A planta é octogonal irregular, com as casamatas adossadas à muralha exterior, virada a terra, e com o paiol localizado no corpo prismático central.
Sentinela isolada e solitária, a sua grande hora chegou em 1666, quando quinze navios de uma armada espanhola, sob o comando do almirante D. Diogo de Ibarra, procuraram conquistar a fortaleza e apossar-se das Berlengas, no propósito de interceptar a frota francesa que trazia para Portugal a noiva de D. Afonso VI, D. Maria Francisca Isabel de Sabóia.
Após dois dias de combate, os 22 soldados portugueses comandados pelo cabo António Avelar Pessoa, tinham morto cerca de 500 espanhóis, afundado um navio e danificado seriamente outros dois. Quando os portugueses ficaram sem munições e sem comida, Ibarra conquistou a ilha e mandou destruir o forte. Face ao valor estratégico da Fortaleza, novas obras de beneficiação foram empreendidas, sob a direcção do Marquês da Fronteira, sendo concluídas em 1678. A fortaleza serviu mais tarde como local de desterro e também como pouso secreto de sabotadores ingleses durante as invasões napoleónicas. Descobertos estes, os franceses ripostaram, novamente arruinando o edifício, tendo Dom João VI ordenado a sua reconstrução em 1822. Em 1833, a fortaleza foi ocupada, sem grande resistência, pelas tropas liberais, que fizeram dela o ponto de apoio para a conquista da cidadela de Peniche.
Hoje em dia, a ilha está pacificada e os únicos ataques que temos a temer são os bombardeamentos aéreos feitos pela imensidão de gaivotas que pulula pelas ilhas. E a solidão, que ataca sem remorsos quem lá passar mais de uma semana no Inverno.
Berlenga, Fuji Superia 200
Os palmos
Enquanto contemplo o écran em branco deste computador onde me sento para nele escrever não importa o quê, recordo-me de um facto absolutamente irrelevante e inócuo. Aqui sentado, imóvel, muito quieto, pressinto-lhe a emersão inexorável. Assisto inerme ao seu surgimento à superfície das coisas, constato a tibieza das recordações esquecidas, contemplo as ruínas de uma cadeira de Equinicultura de um longínquo 5º ano de Zootecnia, vejo-o consubstanciar-se nas pontas dos dedos que irão pressionar as teclas seguintes: a altura de um cavalo mede-se sempre a partir do chão até à cernelha - aquela parte do costado que se encontra junto à base do pescoço - através de mãos travessas, equivalendo cada mão a cerca de 10 cm.
A partir deste facto banal emergem igualmente três conclusões: os cavalos medem-se aos palmos; o saber não ocupa lugar; e, por vezes, muitas vezes, até eu me espanto com o superficialidade e a inutilidade daquilo que escrevo.
A partir deste facto banal emergem igualmente três conclusões: os cavalos medem-se aos palmos; o saber não ocupa lugar; e, por vezes, muitas vezes, até eu me espanto com o superficialidade e a inutilidade daquilo que escrevo.
2003/12/23
Notas de viagem XIX - Terceira, Açores
E o que é a ilha Terceira de 1 de Maio a 15 de Outubro?
É uma febre intensa, uma aficción desbragada, uma compita desdemida entre mordomos e freguesias, pelo melhor touro, pela maior afluência, pelos melhores capinhas, pelas tascas mais bem fornecidas e melhor concorridas.
E o que é uma tasca?
É uma carrinha de caixa aberta ou uma velha furgoneta atamancada com um balcão improvisado onde desfilam as frescas e se aviam os copos de vinho de cheiro e se dispõem os pires de lapas bravas, das favas com molho de unha, das batatas cozidas com casca e entremeadas com massa de malagueta, dos bicos das cracas a ressumar mar e espuma, dos torresmos a escorrer banha e óleo e as frescas, sempre as frescas, a saltar das coolas para as mãos, entre um passe ao touro e um bambolear de bícepes às pequenas sentadas nas janelas.
E o que são as janelas?
São as montras onde as pequenas das freguesias são catrapiscadas pelos homens das outras freguesias, onde se fazem e se desfazem namoros, onde as pequenas à janela são aconselhadas pelas mães, também elas à janela, esse não presta, pequena, não sejas tola, olha aquele amaricano, aquele que tem aqueles pastos na Achada, é primo do Ezequiel, ali, ali, no meio daquela canada.
E o que é a canada?
É onde os homens desafiam o touro, onde o touro desafia os homens, sob os olhos das pequenas às janelas, tão escuros que eles são, os olhos, os touros, os homens que fogem dos touros e que desafiam as pequenas às janelas.
Cinco Ribeiras, Terceira, Açores. Digital.
2003/12/22
A trajectória dos olhares
Era um céu de fogo - a imagem era gasta, batida, mas era a que lhe vinha à cabeça sempre que levantava os olhos da estrada e observava o mar, ao longe, à esquerda, por entre as rochas e as penedias - era um céu de fogo e um mar de cinzas e uma estrada à beira-mar e ele nela, na estrada, e ela longe, muito longe, mas sempre adiante, sempre nela, na estrada, no pedal do acelerador, à esquina de cada curva, era ela em cada encontrão rápido nos quilómetros que o carro engolia debaixo de si, nervoso, suicida, na estrada, em direcção ao céu, ao mar, ao fogo.
Era a estrada, era o mar, era o céu de fogo, era o carro na vertigem da velocidade, era a curva, a curva, a trajectória no céu, no mar, no fogo, o fogo no mar, o mar era um céu de fogo.
Era a estrada, era o mar, era o céu de fogo, era o carro na vertigem da velocidade, era a curva, a curva, a trajectória no céu, no mar, no fogo, o fogo no mar, o mar era um céu de fogo.
2003/12/21
Blogs de que gosto muito III
Quando por lá passo, revejo-me em apenas 10% do que está lá escrito. No entanto, de todos os blogs 'da política, da economia e afins', é de todos o que escreve de forma mais convincente e mais escorreita. Só lê-lo dá-me um prazer imenso.
O ficar convencido é que leva um pouco mais de trabalho: por exemplo, diz o Liberdade de Expressão que "nenhum ministro homosexual tem obrigação de defender os chamados 'direitos dos homosexuais (TM)', da mesma forma que nenhum ministro benfiquista tem obrigação de defender os direitos do Benfica'.
E pergunto eu: um ministro social-democrata, não deverá defender a social democracia? E um ministro democrata cristão, não deverá defender a posição da Igreja Católica sobre um assunto qualquer?
Até que ponto é que as convições e as orientações de um ministro são subjectivas e pessoais e até que ponto é que elas são matéria que responsabilize o governante e o comprometa?
O ficar convencido é que leva um pouco mais de trabalho: por exemplo, diz o Liberdade de Expressão que "nenhum ministro homosexual tem obrigação de defender os chamados 'direitos dos homosexuais (TM)', da mesma forma que nenhum ministro benfiquista tem obrigação de defender os direitos do Benfica'.
E pergunto eu: um ministro social-democrata, não deverá defender a social democracia? E um ministro democrata cristão, não deverá defender a posição da Igreja Católica sobre um assunto qualquer?
Até que ponto é que as convições e as orientações de um ministro são subjectivas e pessoais e até que ponto é que elas são matéria que responsabilize o governante e o comprometa?
Empatias XV
Lemos de mais e escrevemos demais
e afastámo-nos demais - pois o preço
era muito alto para o que podíamos pagar-
do silêncio das línguas.
Ficaram estreitas
passagens entre frio e calor
e entre certo e errado
por onde entramos
como num quarto de pensão
com um nome suposto.
E, quanto a
tragédia, e mesmo quanto a drama moral
foi o mais que conseguimos.
Manuel António Pina
e afastámo-nos demais - pois o preço
era muito alto para o que podíamos pagar-
do silêncio das línguas.
Ficaram estreitas
passagens entre frio e calor
e entre certo e errado
por onde entramos
como num quarto de pensão
com um nome suposto.
E, quanto a
tragédia, e mesmo quanto a drama moral
foi o mais que conseguimos.
Manuel António Pina
2003/12/19
Notas de viagem XVIII - Stonehenge, Inglaterra

E como é Stonehenge?
É um dos tantos outros sítios semelhantes que abundam em Inglaterra (a única diferença é que está sempre cheio de turistas japoneses e de neo-hippies que para lá vão meditar), prenhes de história e de inumações saxónicas, romanas, neolíticas, medievais e celtas. E porque abundam estes locais de enterramento e estas jazidas arqueológicas?
Abundam porque a terra é fértil e porque abundam também os rios e as matérias-primas que servem de substrato às sociedades desenvolvidas. Existe sílex, barro, estanho, água, madeira, húmus negro, alcatrão (e poços de petróleo, que muito jeito dão à BP, espalhados um pouco por toda a paisagem mas escondidos de forma muito pouco conspícua – nisto os Ingleses não brincam), fauna em barda, flora abundante sustentável e sustentadora: tudo aquilo que tornou a Inglaterra um terreno apetecido por gerações e gerações de povos.
Stonehenge foi construído por fases, algures entre 3000 e 1600 Antes de Cristo, entre a Idade da Pedra e a do Bronze. A primeira fase consistia numa paliçada de 56 postes em madeira, dispostos de forma circular - curiosamente, a pouca distância daqui existe um outro monumento, também ele datado da primeira fase de Stonehenge: o Woodhenge, um estrutura oval, em madeira, construída de modo a ficar alinhada com o solstício de Verão.
Desaparecidos os postes de madeira de Stonehenge, os povos da zona, por razões ainda ignoradas (por prestígio? devido a razões científicas, astronómicas ou religiosas?) ergueram, também por fases, vários círculos constituídos por pedras aparelhadas, algumas delas provindas de locais distantes de mais de 300 quilómetros, como as pedras azuis das montanhas Preseli do sul do País de Gales. Vale a pena cruzar as planícies da Salisbúria e parar por lá - e já agora, em Old Sarum.
E o que fica de Stonehenge, depois do regresso? Fica o calor seco, inaudito, e a luz crua do Agosto anglo-saxónico. E fica a imagem da auto-estrada que passa a menos de 500 metros deste local que é Património Mundial. Por vezes, ir lá torna-nos mais sóbrios: quase nunca o mundo é aquilo que vem nos livros.
Stonehenge, Salisbury Plains, Inglaterra. Fuji Superia 400
Blogs de que gosto muito II
Dizia o outro que a oeste, nada de novo. Nem sempre, meu caro, nem sempre. O Nuno é outra das minha visitas pendulares. Gosto de lhe visitar o bazar porque, por entre a poesia selecionada - daquela que foge ao lugar comum e que constitui, amiúde, grata surpresa - e aquilo que ele por lá verte, em termos de opinião pessoal, genuína e aberta, há sempre algo de novo a descobrir.
A não perder, também.
A não perder, também.
2003/12/18
A decisão
Ainda pensei em fugir para o Magrebe, Marrocos, sei lá.
Mas depois pensei que viver a vida toda à base de figos, espetadas de borrego e couscous era sacríficio a mais e decidi-me antes ir passar o ano novo à República Dominicana.
Com sorte, ainda consigo ver algumas suecas em topless. Será que há passas nas Caraíbas?
Mas depois pensei que viver a vida toda à base de figos, espetadas de borrego e couscous era sacríficio a mais e decidi-me antes ir passar o ano novo à República Dominicana.
Com sorte, ainda consigo ver algumas suecas em topless. Será que há passas nas Caraíbas?
Posts monótonos III
Parou de chover. Saí da janela e vim postar. Talvez faça o jantar. Agora vou à casa de banho.
Posts monótonos II
Está a chover lá fora. Fico aqui a olhar a chuva. Cai com força. Acho que vou continuar a ver a chuva a cair.
Ainda aqui estou. Chove que se farta. O Inverno está quase aí, é o que é. Quando parar de chover, talvez poste.
Ainda aqui estou. Chove que se farta. O Inverno está quase aí, é o que é. Quando parar de chover, talvez poste.
Blogs de que gosto muito I
De entre os blogs que visito diariamente, há um que se destaca: o dos Matraquilhos. E destaca-se não só porque está fantasticamente bem escrito (aliás, a autora é um dos dedos das duas mãos com que se contam os bons escritores por aí se lêem) mas também porque esse alguém resolveu prescindir de tudo aquilo que constitui o combustível de qualquer blog normal: comentários, endereço de email e contador de visitas.
Em tempos de solidão cibernética, ainda há, afinal, quem escreva e publique porque sim, e não para obter patadinhas nas costas, visitas ou emails solidários.
A não perder.
Em tempos de solidão cibernética, ainda há, afinal, quem escreva e publique porque sim, e não para obter patadinhas nas costas, visitas ou emails solidários.
A não perder.
2003/12/17
2003/12/15
Os pequenos vagabundos
Galapiat: un petit vaurien, un vagabond, terme souvent utilisé dans le sud de la France pour désigner un enfant un peu turbulent.
Hoje tive um encontro imediato com a minha infância televisiva e com a causa directa, juntamente com os livros do Serge Dalens, ilustrados pelo Pierre Joubert, do meu ingresso nos Escuteiros.
Também eu sonhei em ser um Pequeno Vagabundo. Com que sonharão os miúdos de hoje, afogados em Nenucos e Power Rangers?
Hoje tive um encontro imediato com a minha infância televisiva e com a causa directa, juntamente com os livros do Serge Dalens, ilustrados pelo Pierre Joubert, do meu ingresso nos Escuteiros.
Também eu sonhei em ser um Pequeno Vagabundo. Com que sonharão os miúdos de hoje, afogados em Nenucos e Power Rangers?
2003/12/12
Notas de Viagem XVII - Québec, Canadá

Para quem sai dos 11ºC de uma Lisboa em Dezembro, circula pelos corredores climatizados do aeroporto JFK de Nova Iorque e passa 10 horas em dois aviões aquecidos, a abertura das portas do aeroporto de Montreal e o consequente ingresso nos 22ºC negativos da noite canadiana é o equivalente ao proverbial duche gelado com que se costuma simbolizar a surpresa e o ganho de três constatações imediatas que ela acarreta:
- primeiro facto: a -22ºC, o acto de respirar é como inalar microagulhas pelo nariz;
- segundo facto: alguém que me lembre de guardar as calças de ganga até regressar a Portugal;
- terceiro facto: se julgavas estar vestido para o frio, think again (ou melhor, pense a nouveau - para além de ser um autêntico cenário de postais de Natal o Québec é também o local onde se fala o francês mais manhoso que me foi dado a ouvir a Norte da Martinica)
A província do Québec é, por estas paragens, uma imensa planície nevada de onde saem coníferas em abundância e algumas cidadezinhas como Bromont. Com três mil habitantes, Bromont não mudou muito desde que foi fundada. Continua a ser atravessada pela estrada que define o seu eixo – o cemitério e a igreja em madeira rendilhada numa das pontas, as pousadas e as lojas de conveniência a meio e os equipamentos municipais na outra ponta – e vive essencialmente do esqui e da recolha e venda de maple syrup no Inverno e da agricultura de grande extensão no Verão.
Dispender uma semana numa cidadezinha destas é um desafio. Passada a novidade da neve, dos bonecos de neve, da construção em madeira e dos veados selvagens que vão aos quintais das casas lamber os blocos de sal que os proprietários lá deixaram para esse fim, fica apenas o frio da rua (a temperatura mais elevada que experimentei nos 20 dias que lá estive foi de -5º, a mais baixa de -38ºC…), a mistura de sal e lama das estradas nas botas e a monotonia.
Para quem não acha piada alguma ao hóquei no gelo, não gosta de esqui porque odeia sentir os pés apertados num torno e para quem só consegue patinar no gelo com a ajuda de uma cadeira, as opções disponíveis reduzem-se muito rapidamente a zero - em retrospectiva, era como se vivesse num ambiente à Fargo: para além de ficar em casa, confortavelmente aquecido, a ver a neve cair lá fora e a ler um bom livro, havia apenas a alternativa de vestir a camada interior isotérmica, depois as calças de esqui, a seguir o polartec, depois o casacão impermeável, depois as luvas, depois o gorro, a seguir a protecção do pescoço, calçar as botas e sair para a rua, a comprar jornais ou a ir ao café, fazendo aquilo que todos os canadianos evitam fazer de Inverno: andar a pé.
Andar a pé, contudo, é a única forma de conhecer qualquer cidade e a Cidade do Québec não é excepção. Desde o panorama sobre os icebergues do rio Saint Laurent até à mole imensa do Hotel Frontenac que o domina tudo vale a pena ser visitado.
Habituada a ser uma urbe com poder – foi capital da Nouvelle-France de 1608 a 1759 e depois capital da colónia inglesa do Bas Canada de 1763 a 1867 – a cidade do Québec é agora e apenas uma cidadezinha com um certo saveur europeu, tentando capitalizar o seu passado afrancesado na captura de turistas. E vale a pena ser cair na armadilha. De preferência no Inverno.
Quem me tira a neve ao Canadá, tira-me tudo.
Escrever
Eis o que poderia ser um bom lema para este blog:
Fabricando fabricam disces, canendo musicam, militando militarem artem, scribendo disces scribere
Simon Grynaeus
Fabricando fabricam disces, canendo musicam, militando militarem artem, scribendo disces scribere
Simon Grynaeus
2003/12/11
Os coxos dançam sozinhos
E eis que também o Tiago concorda comigo: Os Coxos Dançam Sozinhos, uma narrativa das desventuras do Inspector Porto
Brandão, é do melhor que já li até agora na literatura portuguesa.
Dizem-me "mas isso foge ao choradinho português e ao dramalhão passionalo-pungente tão típico dos nossos escaparates".... Eu sei, eu sei mas este livro do José Prata - que, hélas,só tem como pecadilho ter ficado de ponta pela possidónia da arquitecta-modelo-que-se-julga-grande-contista-e-que-mais-valia-ter-se-ficado-pelas-passereles-e/ou-esquissos- tem tudo para levar o maior elogio que eu posso fazer a qualquer livro: "Porra, gostava de ter escrito isto!"
Excerto de Os coxos Dançam Sozinhos de José Prata (Edições Asa, Colecção Pequenos Prazeres, 2002) picado do Manancial da Noite.
" (…) vou para a fila de táxis das chegadas internacionais. Estamos num dia bom, há pouca gente, não tenho de esperar muito. É melhor deixar esta brasileira idiota passar à minha frente, quero apanhar um Mercedes Benz, são os meus preferidos. Quanto maior a cilindrada mais frustrado o motorista, é uma lei
universal. Entremos pois, já sinto a adrenalina a correr.
- Então chefe, para onde vai ser? - pergunta a besta ao volante.
- Boa noite, já agora! É para a Encarnação.
- Encarnação? Deve estar a mangar comigo! A Encarnação é mesmo aqui ao lado!
- E então amigo, vai haver problema?
(Problemas tenho eu, e neste momento estou a tratá-los. Apanhar táxis no aeroporto é a minha terapia. Entro no primeiro Mercedes que aparece e depois encomendo uma corrida ao calhas, cujo preço total não exceda os quinhentos escudos, aqui não há pão para malucos. Hoje pedi Encarnação):
- Problemas? Claro que vai haver problemas! - exalta-se a besta. - Problemas para mim amigo, problemas para mim! Estou nesta fila vai para quatro horas, nem sequer jantei. E depois aparece-me o senhor e pede-me para ir para o outro lado da rua! Bem podia ter apanhado um avião!
(Fala muito alto, o taxista. Também tem problemas. Fala cada vez mais alto aliás, nem sequer consigo ouvir a bola. Quando saímos do perímetro do aeroporto já ele vai aos berros. Tanto melhor, acabámos de entrar na Zona Sossegada. Ninguém nas ruas, poucos carros. Passemos ao contra-ataque):
- Ó meu amigo, por onde é que pensa que vai? Eu disse Encarnação, está a perceber? Chegado aí à rotunda enfie-me pela direita, que é para a gente não se chatear.
- O senhor pensa que manda aqui ou quê? Vamos lá ver a brincadeira!
Chiam os pneus, travagem brusca, o meu corpo musculado é projectado para a frente, já com o crachá na mão, a reluzir prepotência:
- Parece que és surdo meu cabrão! - (A minha voz é um rugido, sai do fundo da garganta, treinei imenso ao espelho.) - Olha bem para aqui, olha bem para o meu retrato ó caramelo. Queres vir passar a noite à esquadra ou quê?
(A minha cara está encostada à cara dele, o meu bafo na orelha dele, voam perdigotos. É uma cena básica de demarcação de território, aprendi naqueles programas da natureza, com leões e assim. O braço do taxista fora da janela é uma extensão vomitante dele próprio, o ego expande-se para além do táxi, invade a cidade. Os meus dois braços, um a segurar-lhe a cabeça, outro a esfregar-lhe o crachá no nariz, são uma espécie de antivómito. Funciona quase sempre.)
- Tenha lá calma chefe - balbucia. - Tenha lá calma.
- Calmo estou eu paneleirote, calmo de mais! Tu agora metes a mudançazinha, fazes o pisca-pisca como manda a regra, entras devagarinho na rua e vais andando. E já que não querias virar à direita, pois bem, vamos em frente.
- Mas a Encarnação…
- Encarnação uma ova! Tu fica mas é de bico caladinho! Eu dou as ordens e tu obedeces, topas? Vou dar um exemplo: Quando chegares ali ao semáforo viras à esquerda. É básico, não é? Até tu consegues perceber.
- Mas…
- Caluda!
Enfio-lhe o crachá no olho, tipo bandarilha, Olé!, só para acalmar os ânimos. A besta acalma-se, já não era sem tempo. E depois é o costume: "Agora acelera", "agora vira à esquerda", "apanha aquele verde", durante 15 minutos, até chegar à minha casa. Hoje não teve muita piada, às vezes eles dão mais luta."
Brandão, é do melhor que já li até agora na literatura portuguesa.
Dizem-me "mas isso foge ao choradinho português e ao dramalhão passionalo-pungente tão típico dos nossos escaparates".... Eu sei, eu sei mas este livro do José Prata - que, hélas,só tem como pecadilho ter ficado de ponta pela possidónia da arquitecta-modelo-que-se-julga-grande-contista-e-que-mais-valia-ter-se-ficado-pelas-passereles-e/ou-esquissos- tem tudo para levar o maior elogio que eu posso fazer a qualquer livro: "Porra, gostava de ter escrito isto!"
Excerto de Os coxos Dançam Sozinhos de José Prata (Edições Asa, Colecção Pequenos Prazeres, 2002) picado do Manancial da Noite.
" (…) vou para a fila de táxis das chegadas internacionais. Estamos num dia bom, há pouca gente, não tenho de esperar muito. É melhor deixar esta brasileira idiota passar à minha frente, quero apanhar um Mercedes Benz, são os meus preferidos. Quanto maior a cilindrada mais frustrado o motorista, é uma lei
universal. Entremos pois, já sinto a adrenalina a correr.
- Então chefe, para onde vai ser? - pergunta a besta ao volante.
- Boa noite, já agora! É para a Encarnação.
- Encarnação? Deve estar a mangar comigo! A Encarnação é mesmo aqui ao lado!
- E então amigo, vai haver problema?
(Problemas tenho eu, e neste momento estou a tratá-los. Apanhar táxis no aeroporto é a minha terapia. Entro no primeiro Mercedes que aparece e depois encomendo uma corrida ao calhas, cujo preço total não exceda os quinhentos escudos, aqui não há pão para malucos. Hoje pedi Encarnação):
- Problemas? Claro que vai haver problemas! - exalta-se a besta. - Problemas para mim amigo, problemas para mim! Estou nesta fila vai para quatro horas, nem sequer jantei. E depois aparece-me o senhor e pede-me para ir para o outro lado da rua! Bem podia ter apanhado um avião!
(Fala muito alto, o taxista. Também tem problemas. Fala cada vez mais alto aliás, nem sequer consigo ouvir a bola. Quando saímos do perímetro do aeroporto já ele vai aos berros. Tanto melhor, acabámos de entrar na Zona Sossegada. Ninguém nas ruas, poucos carros. Passemos ao contra-ataque):
- Ó meu amigo, por onde é que pensa que vai? Eu disse Encarnação, está a perceber? Chegado aí à rotunda enfie-me pela direita, que é para a gente não se chatear.
- O senhor pensa que manda aqui ou quê? Vamos lá ver a brincadeira!
Chiam os pneus, travagem brusca, o meu corpo musculado é projectado para a frente, já com o crachá na mão, a reluzir prepotência:
- Parece que és surdo meu cabrão! - (A minha voz é um rugido, sai do fundo da garganta, treinei imenso ao espelho.) - Olha bem para aqui, olha bem para o meu retrato ó caramelo. Queres vir passar a noite à esquadra ou quê?
(A minha cara está encostada à cara dele, o meu bafo na orelha dele, voam perdigotos. É uma cena básica de demarcação de território, aprendi naqueles programas da natureza, com leões e assim. O braço do taxista fora da janela é uma extensão vomitante dele próprio, o ego expande-se para além do táxi, invade a cidade. Os meus dois braços, um a segurar-lhe a cabeça, outro a esfregar-lhe o crachá no nariz, são uma espécie de antivómito. Funciona quase sempre.)
- Tenha lá calma chefe - balbucia. - Tenha lá calma.
- Calmo estou eu paneleirote, calmo de mais! Tu agora metes a mudançazinha, fazes o pisca-pisca como manda a regra, entras devagarinho na rua e vais andando. E já que não querias virar à direita, pois bem, vamos em frente.
- Mas a Encarnação…
- Encarnação uma ova! Tu fica mas é de bico caladinho! Eu dou as ordens e tu obedeces, topas? Vou dar um exemplo: Quando chegares ali ao semáforo viras à esquerda. É básico, não é? Até tu consegues perceber.
- Mas…
- Caluda!
Enfio-lhe o crachá no olho, tipo bandarilha, Olé!, só para acalmar os ânimos. A besta acalma-se, já não era sem tempo. E depois é o costume: "Agora acelera", "agora vira à esquerda", "apanha aquele verde", durante 15 minutos, até chegar à minha casa. Hoje não teve muita piada, às vezes eles dão mais luta."
O vazio
Há quem diga que a finalidade da sua escrita é a de preencher o vazio que existe dentro de si. Discordo: se aquilo que se escreve nos sai de dentro, o minímo que nos pode suceder é ficar o vazio ainda maior.
A dúvida
Se tivesse tido tempo, se o tivesse sabido antecipadamente, ter-te-ia perguntado: o que terias feito no sábado de manhã se soubesses ao acordar que estarias morto um pouco antes do meio-dia?
O que terias feito naquelas três horas e meia que decorreram entre o acordar e tomar duche e o estalar das fibras miocárdicas que te matou?
Terias escrito algo de significativo, algo que marcasse definitivamente a tua trajectória por entre nós? Ou terias optado por cometer algum crime espectacular, algum atentado suicida, quiçá assassinado o Primeiro-Ministro ou desferido três facadas na senhora Maria da Retrosaria dos Botões Bonitos?
Será que telefonarias a cada um de nós ou que te recolherias, sozinho, em casa, a cabeça entre braços, à espera, ansioso pelo aperto no coração e a dor surda no peito?
Será que farias amor pela última vez com a tua namorada ou preferirias violar a primeira mulher bonita que te passasse ao alcance do desejo agora impune?
Será que verias uma vez mais o filme de que tanto gostavas?
Será que nada farias? Será que correrias às voltas e voltas, barata tonta de cabeça perdida, à espera da volta final?
E eu, que tenho o tempo que ignoraste e que sei antecipadamente o que descobriste tarde demais, pergunto-me: o que farei no dia em que acordar de manhã sabendo que chegou o dia em que escolhi matar-me?
O que terias feito naquelas três horas e meia que decorreram entre o acordar e tomar duche e o estalar das fibras miocárdicas que te matou?
Terias escrito algo de significativo, algo que marcasse definitivamente a tua trajectória por entre nós? Ou terias optado por cometer algum crime espectacular, algum atentado suicida, quiçá assassinado o Primeiro-Ministro ou desferido três facadas na senhora Maria da Retrosaria dos Botões Bonitos?
Será que telefonarias a cada um de nós ou que te recolherias, sozinho, em casa, a cabeça entre braços, à espera, ansioso pelo aperto no coração e a dor surda no peito?
Será que farias amor pela última vez com a tua namorada ou preferirias violar a primeira mulher bonita que te passasse ao alcance do desejo agora impune?
Será que verias uma vez mais o filme de que tanto gostavas?
Será que nada farias? Será que correrias às voltas e voltas, barata tonta de cabeça perdida, à espera da volta final?
E eu, que tenho o tempo que ignoraste e que sei antecipadamente o que descobriste tarde demais, pergunto-me: o que farei no dia em que acordar de manhã sabendo que chegou o dia em que escolhi matar-me?
Casablanca with a twist

Ilsa: What about us?
Rick: We’ll always have Colares. We didn’t have it, we’d lost it until you came to Casablanca. We got it back last night.
2003/12/10
No man's land
Estou-me nas tintas para a troca de galhardetes que por aí anda relativamente ao semitismo e antisemitismo esgrimidos à esquerda e à direita por defensores dos árabes e paladinos dos judeus.
Estou-me nas tintas também para tentar destrinçar os judeus dos árabes, os árabes dos muçulmanos, os feddayns dos colonos, os ortodoxos dos ultra-ortodoxos (aliás, aproximo-me perigosamente do ponto em que, parafraseando um energúmeno qualquer, quase que me sinto tentado a dizer que se matem todos, entre eles, que Deus se encarregará de os identificar de acordo com o credo e o viver).
O que eu sei é que o Governo Israelita me faz lembrar cada vez mais o daquele senhor Boer, o PW Botha, nos piores dias do Apartheid. Por isso, não me fodam: deixem a religião em paz e falemos de política e políticos.
Estou-me nas tintas também para tentar destrinçar os judeus dos árabes, os árabes dos muçulmanos, os feddayns dos colonos, os ortodoxos dos ultra-ortodoxos (aliás, aproximo-me perigosamente do ponto em que, parafraseando um energúmeno qualquer, quase que me sinto tentado a dizer que se matem todos, entre eles, que Deus se encarregará de os identificar de acordo com o credo e o viver).
O que eu sei é que o Governo Israelita me faz lembrar cada vez mais o daquele senhor Boer, o PW Botha, nos piores dias do Apartheid. Por isso, não me fodam: deixem a religião em paz e falemos de política e políticos.
2003/12/09
Food for thought
Se todos os habitantes do Mundo consumissem como os dos países desenvolvidos, precisariamos de mais 4 planetas Terra para nos sustentar.
Mais de um quarto dos habitantes da Terra tem entre 10 e 24 anos de idade. 86% destes jovens vivem em países do Terceiro Mundo.
A desflorestação e o pastoreio excessivo fazem perder anualmente ao planeta Terra uma área fértil do tamanho da Irlanda.
Todos os dias extinguem-se, em todo o Mundo, 50 espécies de plantas.
O cidadão médio precisa anualmente de 2,3 áreas do tamanho de um campo de futebol para produzir o que consome e para guardar o lixo que produz. Se esse cidadão for europeu precisa do dobro dessa área. Se o cidadão for americano precisa de 25 vezes mais, ou seja, uma área equivalente a 57 campos de futebol.
20% das pessoas mais ricas do planeta consome 75% dos seus recursos naturais.
A riqueza dos 225 cidadãos mais ricos do planeta é igual, em valor, à soma dos rendimentos de 47% da população mundial (2,5 biliões de pessoas).
A Inglaterra envia para o lixo, todos os anos, alimentos no valor de 571 milhões de euros. Na América, um quarto de toda a comida produzida não chega a ser consumida.
Comer carne de frango em vez de carne de vaca significa ter 15 vezes menos impacto ambiental por cada unidade consumida.
Em 2005, existirão mais pessoas a viver na cidade que no campo.
Em Londres, 1 em cada 50 ataques cardíacos são provocados pela poluição atmosférica.
Respirar todos os dias o ar das cidades indianas de Bombaim e Nova Deli é o mesmo que fumar 18 cigarros por dia.
Um condutor de Banguecoque passa o tempo equivalente a 44 dias por ano preso em engarramento de trânsito.
80% dos carros são propriedade de 20% da população do planeta.
Existem mais carros na cidade de Los Angeles do que em toda a Índia, China, Indonésia, Paquistão e Bangladesh.
Num percurso de 5 km, um carro emite, por passageiro, 10 vezes mais dióxido de carbono que um autocarro e 25 vezes mais que um comboio.
Em 2005 existirão 315 milhões de computadores obsoletos em todo o mundo. O lixo gerado por eles terá 600 milhões de quilos de chumbo, 1 milhão de quilos de cádmio e 200.000 quilos de mercúrio – todos metais pesados extremamente tóxicos.
Por cada tonelada de papel que é reciclado, salvam-se 17 árvores, poupam-se 21.000 litros de água, reduz-se em 30 quilos a poluição atmosférica e evitam-se 2.3 metros cúbicos de desperdícios.
Até ao final deste século as temperaturas médias do planeta terão aumentado em 5.8º C e o nível médio do mar terá aumentado 90 cm.
97% da água do planeta é água salgada. De toda a água, apenas 1% é potável e utilizável para se beber e regar na agricultura.
Em 2005, faltará água em algumas áreas criticas do planeta. Em 2025, dois terços da população mundial terás faltas crónicas de água.
Mais de 2 biliões de pessoas não têm acesso a água potável. Mais de 4 biliões não têm água corrente em casa.
Nalgumas partes de África, mulheres e crianças carregam até 20 litros de água por vezes durante mais de 5 horas, de uma nascente até à sua casa enquanto que no mundo industrializado uma casa de 5 pessoas usa em média 640 litros de água por dia.
Em apenas 30 anos, o mar de Aral – antigamente o quarto maior lago de água doce do Mundo – encolheu para menos de metade do tamanho original e ficou tão salgado quanto o oceano.
A água engarrafada – geralmente tão ou mais segura e rica em nutrientes minerais quanto a água da rede pública – custa 1000 vezes mais que esta e gasta 1.5 milhões de quilos de plástico na sua embalagem.
Um campo de golfe na Tailândia gasta 1.500 quilos de fertilizantes, pesticidas e herbicidas por ano e utiliza tanta água quanto a gasta por 60.000 camponeses.
827 milhões de pessoas (1 em cada 4 adultos dos países em vias de desenvolvimento) não sabem ler ou escrever.
Dar a cada criança do planeta a educação escolar primária custaria 6 biliões de euros – tanto quanto o gasto em despesas militares mundiais feitas em 4 dias.
O adolescente americano médio vê aproximadamente 23 horas de televisão por semana. Quando criança, passa mais tempo a ver televisão que na escola. Quando fizer 18 anos, terá assistido a mais de 100.000 actos de violência e a mais de 300.000 anúncios.
Fontes: UNESCO, UNEP, Vaticano, Casa Branca, Bureau Escutista Mundial e Consumers International
Mais de um quarto dos habitantes da Terra tem entre 10 e 24 anos de idade. 86% destes jovens vivem em países do Terceiro Mundo.
A desflorestação e o pastoreio excessivo fazem perder anualmente ao planeta Terra uma área fértil do tamanho da Irlanda.
Todos os dias extinguem-se, em todo o Mundo, 50 espécies de plantas.
O cidadão médio precisa anualmente de 2,3 áreas do tamanho de um campo de futebol para produzir o que consome e para guardar o lixo que produz. Se esse cidadão for europeu precisa do dobro dessa área. Se o cidadão for americano precisa de 25 vezes mais, ou seja, uma área equivalente a 57 campos de futebol.
20% das pessoas mais ricas do planeta consome 75% dos seus recursos naturais.
A riqueza dos 225 cidadãos mais ricos do planeta é igual, em valor, à soma dos rendimentos de 47% da população mundial (2,5 biliões de pessoas).
A Inglaterra envia para o lixo, todos os anos, alimentos no valor de 571 milhões de euros. Na América, um quarto de toda a comida produzida não chega a ser consumida.
Comer carne de frango em vez de carne de vaca significa ter 15 vezes menos impacto ambiental por cada unidade consumida.
Em 2005, existirão mais pessoas a viver na cidade que no campo.
Em Londres, 1 em cada 50 ataques cardíacos são provocados pela poluição atmosférica.
Respirar todos os dias o ar das cidades indianas de Bombaim e Nova Deli é o mesmo que fumar 18 cigarros por dia.
Um condutor de Banguecoque passa o tempo equivalente a 44 dias por ano preso em engarramento de trânsito.
80% dos carros são propriedade de 20% da população do planeta.
Existem mais carros na cidade de Los Angeles do que em toda a Índia, China, Indonésia, Paquistão e Bangladesh.
Num percurso de 5 km, um carro emite, por passageiro, 10 vezes mais dióxido de carbono que um autocarro e 25 vezes mais que um comboio.
Em 2005 existirão 315 milhões de computadores obsoletos em todo o mundo. O lixo gerado por eles terá 600 milhões de quilos de chumbo, 1 milhão de quilos de cádmio e 200.000 quilos de mercúrio – todos metais pesados extremamente tóxicos.
Por cada tonelada de papel que é reciclado, salvam-se 17 árvores, poupam-se 21.000 litros de água, reduz-se em 30 quilos a poluição atmosférica e evitam-se 2.3 metros cúbicos de desperdícios.
Até ao final deste século as temperaturas médias do planeta terão aumentado em 5.8º C e o nível médio do mar terá aumentado 90 cm.
97% da água do planeta é água salgada. De toda a água, apenas 1% é potável e utilizável para se beber e regar na agricultura.
Em 2005, faltará água em algumas áreas criticas do planeta. Em 2025, dois terços da população mundial terás faltas crónicas de água.
Mais de 2 biliões de pessoas não têm acesso a água potável. Mais de 4 biliões não têm água corrente em casa.
Nalgumas partes de África, mulheres e crianças carregam até 20 litros de água por vezes durante mais de 5 horas, de uma nascente até à sua casa enquanto que no mundo industrializado uma casa de 5 pessoas usa em média 640 litros de água por dia.
Em apenas 30 anos, o mar de Aral – antigamente o quarto maior lago de água doce do Mundo – encolheu para menos de metade do tamanho original e ficou tão salgado quanto o oceano.
A água engarrafada – geralmente tão ou mais segura e rica em nutrientes minerais quanto a água da rede pública – custa 1000 vezes mais que esta e gasta 1.5 milhões de quilos de plástico na sua embalagem.
Um campo de golfe na Tailândia gasta 1.500 quilos de fertilizantes, pesticidas e herbicidas por ano e utiliza tanta água quanto a gasta por 60.000 camponeses.
827 milhões de pessoas (1 em cada 4 adultos dos países em vias de desenvolvimento) não sabem ler ou escrever.
Dar a cada criança do planeta a educação escolar primária custaria 6 biliões de euros – tanto quanto o gasto em despesas militares mundiais feitas em 4 dias.
O adolescente americano médio vê aproximadamente 23 horas de televisão por semana. Quando criança, passa mais tempo a ver televisão que na escola. Quando fizer 18 anos, terá assistido a mais de 100.000 actos de violência e a mais de 300.000 anúncios.
Fontes: UNESCO, UNEP, Vaticano, Casa Branca, Bureau Escutista Mundial e Consumers International
2003/12/08
1945
Na berma da estrada, nuns quinhentos metros,
estão quinhentos mortos com os olhos abertos.
A morte, num sopro, colheu-os aos molhos.
Nem tiveram tempo para fechar os olhos.
Eles bem sabiam dos bancos da escola
como os homens dignos sucumbem na guerra.
Lá saber, sabiam.
A mão firme empunhando a espada ou a pistola,
morrendo sem ceder nem um palmo de terra.
Pois é.
Mas veio de lá a bomba, fulgurante como mil sóis,
não lhes deu tempo para serem heróis.
Eles sabiam que o último pensamento
devia estar reservado para a pátria amada.
Lá saber, sabiam.
Mas veio de lá a bomba e destruiu tudo num só momento.
Não lhes deu tempo para pensar em nada.
Agora, na berma da estrada, nuns quinhentos metros,
são quinhentos mortos com os olhos abertos.
António Gedeão
estão quinhentos mortos com os olhos abertos.
A morte, num sopro, colheu-os aos molhos.
Nem tiveram tempo para fechar os olhos.
Eles bem sabiam dos bancos da escola
como os homens dignos sucumbem na guerra.
Lá saber, sabiam.
A mão firme empunhando a espada ou a pistola,
morrendo sem ceder nem um palmo de terra.
Pois é.
Mas veio de lá a bomba, fulgurante como mil sóis,
não lhes deu tempo para serem heróis.
Eles sabiam que o último pensamento
devia estar reservado para a pátria amada.
Lá saber, sabiam.
Mas veio de lá a bomba e destruiu tudo num só momento.
Não lhes deu tempo para pensar em nada.
Agora, na berma da estrada, nuns quinhentos metros,
são quinhentos mortos com os olhos abertos.
António Gedeão
2003/12/06
Pensamento do dia (IX)
Como todas as ondas que morrem à beira-mar, a saudade quer-se calada e desfeita.
2003/12/04

Todos somos mortais até darmos o nosso primeiro beijo ou bebermos a terceira vodka da noite.
Negrito, Terceira. Kodak Tmax 3200
2003/12/03
Nostalgia

Há sempre quem morra de amor ou tão só de velhice.
Praça Alta de Almeida, Fuji Superia 400
2003/12/02
Gambito
Longe vão os tempos em que era federado em xadrez e as minhas leituras eram povoadas por aberturas, defesas e gambitos. Confesso mesmo que não recordo a última vez em que me sentei frente a alguém e abri um jogo como deve de ser - talvez o tenha feito numa simultânea qualquer de umas Sanjoaninas quaisquer.
Continua actual, contudo, a noção de que por vezes a minha vida não é mais do que uma sucessão infindável de tabuleiros e jogos onde vou alternando, à vez, os papéis de peão e rainha.
Continua actual, contudo, a noção de que por vezes a minha vida não é mais do que uma sucessão infindável de tabuleiros e jogos onde vou alternando, à vez, os papéis de peão e rainha.
Empatias XVII
Devias estar aqui rente aos meus lábios
para dividir contigo esta amargura
dos meus dias partidos um a um
- Eu vi a terra limpa no teu rosto,
Só no teu rosto e nunca em mais nenhum
Eugénio de Andrade
para dividir contigo esta amargura
dos meus dias partidos um a um
- Eu vi a terra limpa no teu rosto,
Só no teu rosto e nunca em mais nenhum
Eugénio de Andrade
Pensamento do dia (VII)
Penso em como tudo o que perdemos sempre regressa até nós sob outras formas; quiçá sob a forma de um novo amor, a de um par de sapatos ou, tão só, a de um livro de poemas.
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