2009/08/30

Ode a Heráclito



Não se entra no mesmo rio duas vezes; se o fizermos pela segunda vez, nem o rio é o mesmo nem nós somos a mesma pessoa.

Heráclito de Éfeso, 500 a.C.



Hoje, a caminho de ir comprar o Público, apanhei, por entre duas pedras da calçada, um bilas.

É verdade: sem tirar nem pôr, um daqueles berlindes genuínos, de vidro, transparente, com uma espiral convoluta e bi-colorida lá dentro.

Nem sequer sabia que ainda se faziam e muito menos que ainda se usavam. Em todo o caso, o achado deixou-me nostálgico. Não que tenha sido um grande jogador de berlinde, longe disso. Jogava, quando muito, à carica, em pistas de corrida traçadas no saibro das casas em construção daquela rua sem saída, entalada entre a estrada nacional e os trigais.

Será talvez uma nostalgia sem sentido, um sentimento agridoce similar ao arrepio que se sente quando nos imergimos numa banheira de água a ferver, o vapor a desprender-se, em volutas, a pele arrepiada pelo calor.

A nostalgia por tudo o que vi e que experimentei. Pelos livros do Jules Verne, que devorei. Pelo Zx Spectrum que ligava à televisão agora anacrónica e ao gravador de cassetes, numa antevisão perfeitamente surreal dos progressos informáticos que ainda estariam por vir e que agora utilizo sem pestanejar, em tempos em que um mero processador de telemóvel faz mais cálculos por segundo do que os que o computador da NASA fazia quando o homem chegou à Lua.

Pelas séries que via, absorto, na televisão e que fizeram de mim muito daquilo que sou hoje (quem se atreve a dizer que a televisão não educa nem forma mentalidades e consciências?)

Pela estupidez de ceder alarvemente ao mercado da saudade e ficar novamente absorto em frente à televisão a rever os Pequenos Vagabunbos e as peripécias serôdias do Conan, o rapaz de um futuro que, o sendo na altura, já é passado neste momento em que escrevo.

Nostalgia porque a transitoriedade do mundo se faz também assim, de pequenos objectos que o tempo que passa torna inexoravelmente obsoletos. Já não há trigais, o tempo das kapa setes, do betamax e do VHS já lá vai, os berlindes perdem-se e permanecem perdidos, eu procuro-me e não me acho igual.

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9 comentários:

Ana disse...

Isto é porque tudo evolui pelo caminho da direita da espiral do tempo. Contudo, há muita coisa que se repete nesse paralelismo, sempre igual e sempre diferente. E cá estamos,atravessando os ciclos dos circulos que não são. Grande série os Pequenos Vagabundos, mágica e bela: nós eramos eles :)

ma grande folle de soeur disse...

Belo texto.

Only Words disse...

O que foi pode nunca deixar de ser, assim mantenhamos vivas as boas memórias do passado. :)

Anónimo disse...

:) Acho que todos padecemos dessa doença de vez em quando. Eu gosto. Não me sinto presa ao passado... longe disso. Mas... também sabe bem voltar a rever rostos... sitios... momentos... ou até mesmo umas simples "séries". :) Largar o nosso quotidiano por breves instantes. Os bilas nunca se perdem... apenas andam a rebolar pelos seus circuitos. À espera que alguém os encontre... se encontre... :)

besus
heidi

vieira do mar disse...

Acho que tens razão: não devemos voltar ao sítio onde um dia fomos felizes. As memórias que fiquem no lugar delas, a nostalgia sucks. Mas o texto está muito bom, andas inspirado. ;)

Margarida disse...

Vá... desde que não chegues ao ponto de "uma casa na pradaria" está tudo bem (e depois... ninguém se encontra quando se procura...)

marteodora disse...

E eu, a caminho dos 40, que ao ler isto senti um vazio no estômago e uma vontade de fechar os olhos para poder lembar melhor desse tempo.
E um arrepio veio...porque já passo tanto tempo e, para mim, não passou tempo nenhum.
Que raio de condão tem você para nos fazer sentir nostálgicos, mas tão bem?

Blondewithaphd disse...

Eh pá, eu acho que sou desta/dessa geração mas Zx Spectrum?, betamax? bilas? Man, que não me lembro. Eu gostava mesmo era do Love Boat:)
Ah, e trigais... há sim e aqui neste campo bem perto da capital:)

José disse...

Um bilas ou um "guelas" ? :-)

Cumprimentos,

José

P.S. fiquei indeciso entre "gelas" e "guelas", mas como o "g" antes to "e" tem o som "j"...