Tudo começou com este
texto da Margarida Ferra no Blogue de Esquerda:
“VINTE ANOS É MUITO TEMPO
Comenta uma mãe, maravilhada, que os livros da Anita fazem as delícias da filha, como fizeram as dela. «São histórias intemporais», conclui, «pena tê-las deitado fora.» A minha pena não vai para o destino que aquela família deu aos livros, antes para o destino daquela filha que repetirá a história da mãe. E assim por aí adiante. O que queremos mudar, quando resistimos a mudar o cliché?”
Ora, a Anita sempre andou lá por casa, um pouco antes da
Enid Blyton, do Jules Verne e do Henry Miller. Eram livros com umas imagens fabulosas, de traço limpo, esterilizado, com títulos e texto ingénuos. Passados vinte e cinco anos, até posso concordar que são obras mal escritas e mal concebidas. Agora, o que eu não engulo é essa história do não ser apropriado para crianças por ser sexista, levando a que as filhas repitam a história da mãe – um mote, aliás dado por outros autores, como a
Inês Pedrosa.
Ainda se a Anita fosse a típica filha abusada, violada, forçada pelos pais a trabalhar nas fábricas de sapatos do Vale do Ave, talvez achasse que a sua leitura – apesar de espelhar algum do país real - fosse perniciosa para a redoma de vidro com que se quer proteger as nossas crianças mais afortunadas.
Se a Anita se masturbasse página sim, página não, fantasiando com um homem bem apessoado mas malandreco, que a desposasse e a levasse ao altar, entre um cigarrito de cannabis e um copo de vodka Bisonte, ou se fosse retratada a orar à Virgem de Fátima, enquanto aconselhava o voto no PP, até compreendia a sanha persecutória contra a personagem.
Mas a Anita dos livros que eu li não é assim.
Qual é então o problema da autora do texto? É o de ter pena que a amiga repita o comportamento da mãe dela, dando a ler à filha os livros da Anita que, na sua opinião, são pequenas narrativas que escondem mecanismos que fazem perpetuar toda a fórmula em que assentam: Anita, dona de casa, cozinha; o irmão, engraxa os sapatos, etc.. No fundo, a autora preocupa-se porque ouve demasiadas vezes: "não ponha um laço azul, ponha o cor-de-rosa que é para uma menina!" ou "pode fazer um embrulho para um rapaz, por favor?".
Ora, isso chateia-me imensamente. Ver na Anita um preconceito ou atitude de discriminação em função do sexo é ver o pior do politicamente correcto a desenvolver-se e a manifestar-se impune.
A formatação cultural está na personalidade de cada um. A mim impressiona-me muito mais a gravidez precoce galopante, os programas "infantis" que passam na TV aos sábados de manhã, ou a história da filha de 15 anos que desculpa o pai micaelense, alegado consumidor de sexo com adolescentes, por "ele ser homem e as miúdas de 15 anos sabem-na toda, olhe, por exemplo, eu fui mãe com 16 anos e nessa altura já sabia muito bem o que queria" do que a questão da Anita.
Dizer que "a formatação cultural dos géneros e das tarefas que supostamente cabem a cada um dos sexos é muitíssimo perniciosa" é um lugar comum que generaliza tudo e explica nada. É perniciosa porquê: faz crescer pêlos nas mãos? Cega? Leva ao suicídio os adolescentes que se descobrem homossexuais?
Será que, como escreve uma outra comentadora, se "as criancinhas não fossem REPETIDAMENTE confrontadas com modelos (imagens, histórias, canções, exemplos) em que as mulheres se confinam ao espaço doméstico e os homens vão arejar para o mundo da aventura" estaríamos num mundo onde as mulheres fariam bungee jumping e os homens cozinhariam? Um mundo onde as mulheres iam à tropa e os homens usavam cremes anti-rugas? Um mundo onde as mulheres podiam ser homens e os homens, mulheres?
Ora esse mundo já está aqui, é "o mundo de hoje".
Se não existem mais mulheres a fazer bungee jumping será talvez porque a nossa classe média - citadina, suburbana, mal paga, aquela de que se fala aqui, porque a classe agrícola de Unhais da Serra foge um pouco a esta discussão.. - que optou por constituir família, se esfalfa para ter um emprego, ir de carro ou de transportes públicos casa-trabalho-casa, manter a casa e os filhos, se os houver, sem ter tempo, ou dinheiro de sobra, para praticar actividades radicais.
Acredito ainda que os maridos dessas mulheres ajudarão no que for preciso em casa, sem que tenham que haver "mulheres formatadas
a la Anita" - afinal, têm os dois de trabalhar com salários de miséria, no seio de uma inflação galopante para manter as prestações da casa, do carro, os filhos, a comida, e um ou outro luxo supérfluo que possam ter.
É claro que há quem pode pagar a uma ucraniana para lhe limpar a casa, há quem consome comida take-out ou jante fora, há quem possa pagar ao jardim-de-infância, ao ATL e/ou ao colégio, ou quem possa engajar os avós maternos ou paternos na educação dos rebentos (sintomático desta dependência é o coro de protestos que se levanta de cada vez que as escolas decidem fazer um período intercalar de reflexão) - há quem possa, no fundo, ter tempo livre e dinheiro para fazer bungee jumping. Serão uma minoria, mas existem. E se calhar, quase que juraria terem lido a Anita quando eram miúdos...
E depois, esta história de que " estes textos podem servir para perpetuar (e tornar intemporais) as histórias de quem as lê" significa que as devemos proibir? Inseri-las num Index qualquer?
Deve-se proibir a "Cabana do Pai Tomás" que promove o paternalismo em relação ao esclavagismo ou os livros da Enyd Blyton porque apoiam a separação de classes e lançam anátemas contra os ciganos e os
negros? Re-escrever e redesenhar o "Tintim no Congo" porque é
racista? Ou interditar a "Alice no País das Maravilhas" porque se suspeita que o autor fosse um pedófilo incipiente e ir por aí fora,
ad aeternum?
A ser assim, daqui a pouco seremos obrigados a suprimir o "Atirei o pau ao gato mas o gato não morreu" do cancioneiro infantil porque o mesmo é apologista da crueldade para com os animais...
Algures nos comentários do BdE surge também o José Mário Silva dizendo que gostaria que as diferenças entre os géneros fossem explicadas não só às crianças aos jovens como também aos supostamente adultos que bem precisam de perceber quais são.
Ora, toda a gente sabe que há uma diferença óbvia entre raparigas e rapazes: são os caracteres sexuais primários e a diferente concentração e produção de hormonas na vida adulta. O resto é produto da nossa sociedade e das idiossincrasias de cada um.
Falho em ver porque é que é tão importante explicar essas diferenças - será para prevenir a opressão da mulher pelo homem? Para evitar que os meninos se confundam e se vistam de menina no Carnaval? Para obviar a que as meninas deixem de usar soutien e fiquem com o peito descaído?
O que há, afinal, de errado em cada sexo ser condicionado por aquilo que a sociedade julga ser as características de cada género? Lembro-me que, quando andei na escola, um rapaz que usasse brincos era é como andar com alvo na testa que dizia "batam-me porque sou paneleiro"; hoje em dia, com a cultura rap/hip-hop que grassa nas nossas escolas, não ter pelo menos dois brincos em cada orelha é que é factor de exclusão.
Se eu passo a roupa a ferro, se cozinho (tartes, estufados, estrugidos, caris), se aspiro o pó, se sei pregar um botão e cholear uma bainha, se faço a minha cama, estarei fora das minhas obrigações masculinas?
Se eu não caço, não pesco, não gosto de bola, não jogo à bisca, não vou ao Passerelle, se o canal 18 me dava bocejos, se não bebo até cair para o lado, se não espanco a cara-metade,estarei a fugir às minhas obrigações masculinas?
Agora, regressando à Anita, é claro que são livros datados. Quase tudo é datado. Não é por no século XVI ser moral e economicamente correcto fazer-se escravos dos guanches, africanos e mouros que nos passavam pelas mãos, que se vai generalizar dizendo que nós, portugueses, somos um povo esclavagista –não se pode, pura e simplesmente, fazer revisionismo histórico e condenar a sociedade dessa altura com os nossos olhos moralistas e moralizantes do século XXI.
Mas, de se constatar que os livros da Anita são datados até se dizer que são livros que perpetuam o cliché dos estereótipos sexuais, vai um grande passo. Daqui a pouco, na colecção que apresenta títulos tão cândidos como "Anita Baby Sitter" e "Anita e o Curso de Culinária" teremos "Anita é desflorada no jardim-de-infância por um dildo da amiga Guidita", "Anita e a primeira tatuagem", "Anita empresária da noite", "Anita pede aos papás uma laqueação das trompas para evitar o martírio futuro da gravidez", "Anita pede ao Governo mais quotas na Administração Pública para as mulheres", "Anita soldadora na Lisnave", "Anita e a sua terceira interrupção voluntária da gravidez".
Será que é isto que o politicamente correcto nos reserva: uma Anita versão Valerie Jane Solanas?