2004/01/31

Olá, bem vindo ao Arame

Se for um obsessivo-compulsivo, por favor faça-nos repetidamente o mesmo comentário.

Se for um co-dependente, peça a alguém para nos comentar.

Se sofre de múltiplas personalidades, por favor comente-nos com 3, 4 ou 5 nomes diferentes.

Se sofre de paranóia, escusa de nos fazer qualquer comentário: sabemos quem é e o que pretende. Por favor, não saia desta página até conseguirmos localizar o ISP e o IP do computador que está a utilizar.

Se sofre de esquizofrenia, oiça cuidadosamente e uma vozinha irá indicar-lhe qual o comentário a fazer.

Se for maníaco-depressivo, tanto se nos dá que escreva o que quiser: ninguém lhe responderá.

2004/01/30

Imóvel, reconheço-te pelos sons. Cego, escuto-te.

És tu e só tu a responsável pela minha mudez: para quê falar-te se todas as palavras estão a mais?

2004/01/29

O vira-casacas



Marechal e inimigo de Napoleão, acabou os seus dias como Rei de dois países europeus. Quando foi enterrado, descobriu-se que tinha tatuada no peito a traição às suas próprias crenças e ideologias.

Jean Baptiste Bernadotte nasceu no seio de uma família da classe média francesa, a 26 de Janeiro de 1763, e ingressou muito novo no serviço militar. Corria o ano de 1780 e Bernadotte, colocado na Córsega, rapidamente se viu envolvido na comoção da Revolução Francesa. Eram tempos loucos, propícios a que uma carreira militar entrasse em ascensão meteórica - em 1794 era já general de divisão.

O seu ódio à monarquia era tanto que inseriu o nome de Jules – de Júlio César, um dos ídolos do espírito revolucionário - entre os nomes próprios de Jean e Baptiste. Terá sido também nesta altura que se terá feito tatuar no peito com uma frase que terá permanecido escondida até à sua morte.

Em 1797, Bernadotte deixa o Exército do Reno e vai apoiar a campanha de Itália de Napoleão Bonaparte. Depois das campanhas vitoriosas de Theiningen e de Tagliamento, ocupa em 1798 o cargo de Embaixador francês em Viena – um cargo de que se viu obrigado a abdicar quando, inflamado pelo fervor patriótico, resolveu hastear a polémica bandeira tricolor da Revolução Francesa no topo do edifício da embaixada.

Foi também em 1798 que Bernadotte se casou com Desirée Clary, a filha de um comerciante de sabões de Marselha. Desirée era, contudo, uma mulher com um lastro algo perigoso: não só era a antiga noiva de Napoleão Bonaparte, como era também a irmã da esposa de José Bonaparte, irmão de Napoleão, futuro Rei de Espanha.

Apesar de ter uma relação algo atribulada com o pequeno corso, o Directório nomeou-o para Ministro da Guerra, cargo que exerceu durante pouco mais de 3 meses. Datam dessa altura as suas divergências pessoais para com Napoleão: Bernadotte não apoiou sequer o golpe de estado bonapartista do 18 de Brumário, algo que não o impediu, no entanto, de ser nomeado comandante do exército da Vendeia até 1801.

Com a constituição do Império Francês, Jean Bernadotte tornou-se um dos 18 marechais de França, ocupando o cargo de governador de Hanover em 1804 e 1805 – é nesta altura que a sua conduta protectora para com alguns nobres suecos, prisioneiros da guerra com a Dinamarca, se faz notar, naquilo que seria um acto com grandes repercussões tanto para o seu futuro como para o da Europa.

Em Dezembro de 1805, participa com glória na batalha de Austerlitz – é agraciado com o título de Príncipe de Ponte-Corvo – combate ao lado de Napoleão durante a campanha da Polónia em 1807, dando-lhe de bandeja a vitória em Eylau mas sofrendo a desonra nas campanhas da Prússia: falha com a participação do seu exército na batalha de Iena, sendo até desautorizado pelo Imperador. Cada vez mais agastado com o Imperador, regressa então a Paris onde recebe ordens para defender a Holanda dos ingleses.

Entretanto mais a norte, a Suécia perdia em 1809 metade do seu território – toda a província oriental do reino, no que é hoje a Finlândia. O grande responsável por esta perda, o rei sueco Gustav IV Adolf foi então deposto por um golpe de estado, sendo substituído pelo seu tio, que passou a reinar sob o nome de Karl XIII.

Ora Karl XIII não tinha descendentes: urgia, pois, encontrar um sucessor. A Dieta sueca procurou então um pretendente que fosse, simultaneamente alguém popular e versado nas artes marciais, alguém que, no fundo, conseguisse unir o povo contra o inimigo russo que batia às portas de Estocolmo.

Foi então que o barão Karl Mörner, um emissário sueco em França, propôs a Bernadotte, por sua própria iniciativa, a aceitação do trono sueco – uma proposta que causou tanto espanto a Napoleão que este pensou tratar-se de uma proposta provinda da mente fantasiosa de um lunático. E não foi só Napoleão a pensar que Mörner enlouquecera: a Dieta sueca pensou o mesmo e tratou de fazer prender o Barão assim que este entrou na Suécia. No entanto, a carruagem estava já em andamento: a candidatura de Bernadotte caiu no goto dos suecos e o Marechal acabou por ser eleito Príncipe da Coroa Sueca a 21 de Agosto de 1810.

A partir daí, tudo foi muito rápido: Bernadotte entrou na Suécia a 2 de Novembro e a 5 recebeu a vassalagem do Riksdag dos Estados, sendo adoptado pelo rei Karl XIII sob o nome de Karl Johan. Aproveitando a doença do rei e as dissensões comuns dos Estados suecos, Bernadotte renega o catolicismo e converte-se ao luteranismo, iniciando então uma série de hábeis manobras diplomáticas e políticas: anexa a Noruega e declara guerra à Inglaterra. Mais tarde, pensa melhor e acaba por se aliar com esta e com a Prússia numa coligação contra o próprio país em que nasceu!

Aproveitando ao máximo o conhecimento que adquirira ao serviço de Napoleão, o antigo Marechal de França bate sucessivamente dois dos seus antigos camaradas de armas do exército napoleónico: o Marechal Oudinot, em Gross-Beeren, a Agosto de 1813 e o Marechal Ney, no mês seguinte, em Dennewitz. Em 1814, Bernadotte invade a Holanda, a Bélgica e a França, seu país natal, à cabeça do Exército do Norte.

Com a Europa pacificada e a França derrotada, Bernadotte só tem que esperar que Karl XIII morra, o que acontece em 1818. Da crisálida do antigo sargento, alcunhado “Belle Jambe” pelo militares do Exército francês, surge então a borboleta real de Karl Johan Jean Jules Baptiste Bernadotte – ou Carlos XIV João, rei da Suécia, ou ainda Carlos III, rei da Noruega. Dele, e através do seu filho, Óscar I da Suécia descende, em linha directa, a actual família real sueca, bem como muitos outros membros da realeza europeia, algo que é facilmente atestado por quem examinar atentamente as Armas Reais da Suécia: no centro, sumido mas destacado, está o escudo dos Bernadotte e nele, sob a insígnia dos Wasa, está a bandeira tricolor da Revolução francesa.

Mas a tricolor não foi o único legado de Bernadotte à Suécia. Quando morreu, a 8 de Março de 1844, tornou-se finalmente público o teor da tatuagem que o Rei dos Suecos e dos Noruegueses trazia gravada no peito desde os seus tempos de revolucionário jacobino: “Mort aux rois!”

A vida é realmente muito irónica.

2004/01/28

A unidade das coisas

Por vezes, chateia-me a semiótica. O facto de haver uma coisa e depois haver um nome para essa coisa e ainda haver um conceito muito pessoal do que essa coisa é, é tudo muito complicado.

É nestas alturas, em que os entendimentos e a aceitação de um pelo outro falham, que me apetece que o mundo seja realmente dos budistas: há a coisa, o nome da coisa, a percepção da coisa e tudo isso já são duas coisas a mais.

Notas de viagem XXII - Madrid, Espanha



Do Chicote, local de poiso de Hemingway e Ava Gardner mas onde se toma um café execrável - como já é hábito em todo e qualquer sítio do mundo que não seja Portugal - parte-se para o Prado através da Gran Via, no cruzamento com a grande artéria formada pela junção dos Paseos de la Castellana, de los Recoletos e del Prado.

Ao longe, quando os edifícios se afastam, entrevê-se a Sierra de Guadarrama e adivinha-se o Escorial, o local onde morreu, austero e louco, Filipe II de Espanha, o homem responsável pela elevação de um local de origens tão obscuras como Madrid a capital do Império Espanhol.

E como se chega e sai de Madrid? Tirando o avião (ir de avião para Madrid é como ir de avião para o Porto: só se desculpa se falarmos de executivos e técnicos que precisem ir num pé e vir noutro) e as auto-estradas (ir de carro para Madrid só se justifica se for para fazer dela escala intermédia, algures entre Elvas e Durango) só nos restam duas opções: o autocarro e o comboio. Optei pelas duas.

No Arco do Cego apanhei um autocarro direitinho à Ucrânia, com paragens em todas as capitais europeias de permeio, Madrid incluída. A bordo, ajoujados de presentes e víveres, seguia alguns dos nossos operários da construção civil, muito louros, de olho azul, com malares eslavos avinhados e casacos de napa-a-fingir-cabedal. Li durante a viagem toda e, curiosamente, não enjoei.

A mais alta capital da Europa, Madrid é uma cidade incaracterística onde espanhóis de gema convivem com emigrantes oriundos da América Latina e romenos profissionalizados na arte de bem pedinchar. Se há algo que marque Madrid é essa mistura de gente, heterógena e heteróclita . Por todo o lado se ouvem as expletivas dos madrilenos e, por todo o lado, mas muito especialmente no metro, se repara no olhar soturno dos bolivianos e afins que, a conta-gotas, alimentam a corrente constante de sem-abrigo e mendigos.

Madrid vale pelas pessoas que lá moram, pela balbúrdia da Plaza Mayor, pelo charme do Rastro, pelas tapas - salese de copas y vase de pinchos - e, claro, pelos Museus. Antes de partir para Chamartín, onde sou suposto apanhar um Lusitânia Expresso que sai à meia noite e que me reservará uma carruagem-cama infestada de alemães que ressonam teutonicamente a noite toda - penso que todos os personagens deste quadro de Velásquez, o mais humano, o mais real, é definitivamente o cão.


Museo del Prado, Madrid.

o teu corpo é como terreno sagrado; nele, nada se perde do que foi semeado.

"No he podido evitar leer toda la polémica que has desatado con relación a la muerte de ese jugador de fútbol. Me hubiera gustado escribir un comentario directamente en tu blog pero son tantas las cosas que tengo en mi cabeza que preferí enviarte un mail. Si quieres puedes colocar parte de lo que escriba en un post... me da igual.. si quieres ignóralo... da lo mismo.

El tema es que aunque no vivo en Portugal, ni en Hungría.. ni siquiera en Europa, también me he visto bombardeada, quizás en menor medida que ustedes, por las imágenes del fallecimiento de ese chico. ¿Qué no mueren personas todos los días? ¿Acaso la familia y amigos de las personas que fallecen en cada minuto en el mundo no sienten el mismo dolor que pueden sentir quienes conocieron a Fehler?

He leído que te han calificado de insensible.. por qué?? Por decir lo que piensas? Por cuestionar que los medios manoseen las imágenes de la muerte de un ser humano para obtener más rating? No eres insensible... muy por el contrario.. eres más humano y consciente de las desgracias que afronta un ser humano como tu, que cualquiera de los ofendidos por tu post. El calificativo "ad nauseam" no va dirigido al sujeto que murió, tampoco a las circunstancias en que ello ocurrió.. entiendo que va dirigido al morbo de quienes transmiten y lucran con esas imágenes minuto a minuto, aprovechándose del morbo de quienes disfrutan viéndolas cada momento.

Vivo en Perú...me parece triste que muera alguien tan joven de esa manera, sin hacer nada malo.. muy por el contrario, murió un joven deportista cumpliendo con su trabajo. Es triste.. pero no es más triste que la muerte de un niño de un año aplastado por un camión .. ni la de la madre de una conocida animadora de televisión.. ni la muerte de dos policías estrellados en un helicóptero... o de aquel otro oficial que murió arrollado por un camión en la sierra de Lima... ni la de un triste sujeto que se suicidó en un hostal local porque su mujer lo dejó.. no es más triste, la diferencia es que la primera tuvo cobertura mundial y las otras sólo cobertura local. Pero ahí va otra pregunta ¿y a quién le importa lo que sucedió?

¿Puede alguien afirmar que es razonable transmitir en medios de comunicación masiva la noticia de la muerte de una persona, una y otra vez? ¿De qué me sirve tener conocimiento de los detalles e imágenes de esas desgracias en mi vida diaria? ¿Me va a ayudar a hacer mejor mi trabajo? ¿Me va a ayudar a mitigar el dolor de las personas que sufrieron esa pérdida? ¿Ver esas imágenes va a hacer que los deudos sufran menos? ¿o que el sujeto reviva? No.... de ninguna manera.

Pero acaso alguna de esas muertes se sintió más que las que se dan todos los días, a cada minuto, en el mundo??? acaso esas familias sufrieron más que aquellas que no tuvieron frente a sus fallecidos una cámara de tv??? Lo dudo.

He perdido a mi abuela hace menos de un mes. Era anciana, había cumplido su ciclo, pero su pérdida no tiene porque doler menos.. es una madre que ya no está, es una amiga que se fue... Lo que no me gustaría es ver a cada minuto en la tv mundial su imagen en el suelo, con el médico de rodillas encima de su cuerpo tratando de revivirla, mientras sus hijas y nietos lloraban en silencia, atónitos, viendo como se perdía una vida. A mi no me gustaría que transmitan eso una y otra vez. Al ser anciana y no ser famosa, todos lo calificarían de grotesco ¿o me equivoco?

Sé que todos tenemos derecho a expresar nuestro punto de vista.. pero quien te califica de insensible o malo, quizás está pecando de superficial o jamás ha perdido a un ser querido. En fin.. es mi opinión...... pero creo que, excesos aparte, entendí el tono de tus posts, espero no haberme equivocado.

Y tienes razón, no sentí la perdida del jugador más que la de mi perro.. total.. viví con el perro 14 años y aunque no sea un ser humano tuve una relación más cercana con él que con cualquier que esté sentado frente a mi en este momento. ¿También es insensible afirmar eso? ¿o quizás pueda considerarse como una manifestación de zoofilia?

Carla"

2004/01/27

Por vezes, muitas vezes, sou como um relógio de Sol em dias de nevoeiro.

A porta



Bato ou não bato? Subo ou não subo?

Encaro a tua porta com apreensão. Essa porta obscenamente vermelha. Essa porta que tantas vezes me franqueou a entrada e atrás da qual te escondes tu, a tua casa e as tuas coisas.

Bato ou não bato? Subo ou não subo?

Apetece-me tanto subir, de novo, novamente. Repetir os gestos que, de tanto os praticar, se tornaram usuais, maquinais. Ouvir os degraus velhos, carcomidos, a ranger sob o meu peso, dizer ‘bom dia' àquela tua vizinha, velha, cega, surda, perenamente suspensa entre a porta e a soleira do primeiro andar. Ouvir-me entrar em tua casa, ver-me entrar em ti.

Quero ouvir de novo o teu silêncio, sentir o teu calor e o som dos teus lábios húmidos, sôfregos, sentir o teu corpo reptiliano sob o meu, ouvir-te em silêncio enquanto gemes baixinho e me cravas as tuas unhas, pequeninas e certinhas, na pele sacrificada das minhas costas.

Apetece-me ouvir-te de novo dizer ‘beija-me' e obedecer-te, obediente, descruzando-te as pernas, como o fiz vezes sem conta, vezes sem fim, e beijar-te.

Apetece-me. Mas não posso. Não quero. Não és minha, nunca o foste, nem sequer quando entrava e saía de dentro de ti.

Bato ou não bato? Subo ou não subo?


Porto, Fuji Superia 200

2004/01/26

Memento mori, vivere memento

Todas as horas ferem, só a última mata.

Ad nauseam

Olho os escaparates dos jornais, escuto os diversos canais de televisão, ouço as mais díspares ondas da rádio, abro os blogs: por todo o lado só se vê e só se ouve falar de Féher, de "tragédia", de "luto nacional", de "comoção", do "desespero dos adeptos", de frases tão bacocas como "Deus só leva os que mais ama" - é todo um circo de carpideiras e lágrimas de crocodilo, alimentado pelos órgãos de comunicação social e pela guerra de audiências, que vem preencher, por um dia ou dois, a vacuidade do caso Casa Pia ou a indignação pelo aumento dos transportes públicos

Será que há mais vida e País para além desta morte, lamentável para a família e para os amigos, mas tão-só e apenas uma morte, uma entre tantas outras? Será que é assim tão complicado enfrentar a nossa própria mortalidade espelhada na dos outros?

Se não podes com eles, junta-te a eles

Gostava de saber quantos dos que tanto se impressionaram ontem com a morte do jogador do Benfica continuarão:

- a comer alheiras de Mirandela ao jantar e a engurgitar cozido à Portuguesa ao almoço;

- a fumar maço e meio de SG Ventil por dia;

- sem saber as técnicas mais simples do Socorro Básico de Vida, de modo a pelo menos poderem dizer que o tipo que as fez no relvado não sabia o que fazia (são 15 compressões toráxicas e não 5...)

- a ver desporto sentados no sofá ou ao balcão do café, enquanto empurram a sandes de couratos com a Super Bock e o quinto café do dia;

- sem saber quando foi a última vez que controlaram a glicémia, o colesterol ou a pressão arterial;

- a matar-se lentamente, ao volante, de stress e de raiva;

- sem saber quem eram o Nuno Mendes e o Paulo Pinto, e como e quando morreram;

- a ignorar quantos emigrantes do Leste, não tão mediáticos nem tão bem pagos como os atletas do Benfica, ficam meses à espera de serem transladados para os países de origem depois de morrerem anonimamente nas obras e ruas de Portugal.

2004/01/25

Dia, noite e tudo o mais

Vivo a minha vida como se ela fosse composta por mil histórias, todas elas ligeiramente diferentes umas das outras, todas elas únicas e especiais: algumas, poucas, são terrivelmente excitantes; as demais, quase todas, são incrivelmente monótonas.

E o meu drama maior é sempre saber a qual dessas mil histórias corresponde realmente a minha vida - todos os dias me questiono e todos os dias a respostas é ilusória e fugidia, como se quisesse abrir a boca e nada houvesse para dizer.



mais de
dez mil
maneiras
de
respeitar
e
beijar
a
terra

Rumi (c. 1270)

2004/01/24

Amar-te-ei até que tu me morras





Rio Tejo, algures na outra margem. Fuji NPH 400



Última fotografia feita por Robert Capa minutos antes de accionar uma mina na estrada que liga Namdinh a Thai Binh. Indochina, 25 de Maio de 1954.

Traço, ponto, traço

Cenário: um prédio pombalino; um quarto vazio, paredes nuas; uma cama em ferro, branca, de hospital, lençóis amarfanhados, revoltos; a luz que entra pela janela; um cinzeiro no chão, um cigarro que arde, esquecido; uma mulher, nua, deitada na cama, um braço esticado, um pulso cortado, sangrando, os olhos fechados, esquecidos; um telemóvel, ligado, uma voz no éter, que fala:

Voz off: Porquê?

(silêncio)

Voz off: Responde-me.

Mulher: Deixa-me.

Voz off: Se queres que te deixe, porque é que me ligaste?

(silêncio)

Mulher: És um filho da puta. Deixa-me.

(silêncio. Ouve-se o pingar do sangue no chão, ping, pausa, ping, pausa, ping.)

Voz off: Vou ter contigo. Onde estás?

(hesitação)

Mulher: Estou (dois bips frenéticos, perda de sinal, a bateria do telemóvel morre) aqui... onde me deixaste.

(silêncio. Ouve-se o pingar do sangue no chão, ploc, ploc, ploc)

Moral da história: Não só a vida é feita de desencontros, clichés e diálogos idiotas, como também convém ter sempre à mão uma bateria com carga suficiente para o que der e vier.

2004/01/23

Polémica II: a Anita não é bonita?



Tudo começou com este texto da Margarida Ferra no Blogue de Esquerda:

“VINTE ANOS É MUITO TEMPO
Comenta uma mãe, maravilhada, que os livros da Anita fazem as delícias da filha, como fizeram as dela. «São histórias intemporais», conclui, «pena tê-las deitado fora.» A minha pena não vai para o destino que aquela família deu aos livros, antes para o destino daquela filha que repetirá a história da mãe. E assim por aí adiante. O que queremos mudar, quando resistimos a mudar o cliché?”


Ora, a Anita sempre andou lá por casa, um pouco antes da Enid Blyton, do Jules Verne e do Henry Miller. Eram livros com umas imagens fabulosas, de traço limpo, esterilizado, com títulos e texto ingénuos. Passados vinte e cinco anos, até posso concordar que são obras mal escritas e mal concebidas. Agora, o que eu não engulo é essa história do não ser apropriado para crianças por ser sexista, levando a que as filhas repitam a história da mãe – um mote, aliás dado por outros autores, como a Inês Pedrosa.

Ainda se a Anita fosse a típica filha abusada, violada, forçada pelos pais a trabalhar nas fábricas de sapatos do Vale do Ave, talvez achasse que a sua leitura – apesar de espelhar algum do país real - fosse perniciosa para a redoma de vidro com que se quer proteger as nossas crianças mais afortunadas.

Se a Anita se masturbasse página sim, página não, fantasiando com um homem bem apessoado mas malandreco, que a desposasse e a levasse ao altar, entre um cigarrito de cannabis e um copo de vodka Bisonte, ou se fosse retratada a orar à Virgem de Fátima, enquanto aconselhava o voto no PP, até compreendia a sanha persecutória contra a personagem.

Mas a Anita dos livros que eu li não é assim.

Qual é então o problema da autora do texto? É o de ter pena que a amiga repita o comportamento da mãe dela, dando a ler à filha os livros da Anita que, na sua opinião, são pequenas narrativas que escondem mecanismos que fazem perpetuar toda a fórmula em que assentam: Anita, dona de casa, cozinha; o irmão, engraxa os sapatos, etc.. No fundo, a autora preocupa-se porque ouve demasiadas vezes: "não ponha um laço azul, ponha o cor-de-rosa que é para uma menina!" ou "pode fazer um embrulho para um rapaz, por favor?".

Ora, isso chateia-me imensamente. Ver na Anita um preconceito ou atitude de discriminação em função do sexo é ver o pior do politicamente correcto a desenvolver-se e a manifestar-se impune.

A formatação cultural está na personalidade de cada um. A mim impressiona-me muito mais a gravidez precoce galopante, os programas "infantis" que passam na TV aos sábados de manhã, ou a história da filha de 15 anos que desculpa o pai micaelense, alegado consumidor de sexo com adolescentes, por "ele ser homem e as miúdas de 15 anos sabem-na toda, olhe, por exemplo, eu fui mãe com 16 anos e nessa altura já sabia muito bem o que queria" do que a questão da Anita.

Dizer que "a formatação cultural dos géneros e das tarefas que supostamente cabem a cada um dos sexos é muitíssimo perniciosa" é um lugar comum que generaliza tudo e explica nada. É perniciosa porquê: faz crescer pêlos nas mãos? Cega? Leva ao suicídio os adolescentes que se descobrem homossexuais?

Será que, como escreve uma outra comentadora, se "as criancinhas não fossem REPETIDAMENTE confrontadas com modelos (imagens, histórias, canções, exemplos) em que as mulheres se confinam ao espaço doméstico e os homens vão arejar para o mundo da aventura" estaríamos num mundo onde as mulheres fariam bungee jumping e os homens cozinhariam? Um mundo onde as mulheres iam à tropa e os homens usavam cremes anti-rugas? Um mundo onde as mulheres podiam ser homens e os homens, mulheres?

Ora esse mundo já está aqui, é "o mundo de hoje".

Se não existem mais mulheres a fazer bungee jumping será talvez porque a nossa classe média - citadina, suburbana, mal paga, aquela de que se fala aqui, porque a classe agrícola de Unhais da Serra foge um pouco a esta discussão.. - que optou por constituir família, se esfalfa para ter um emprego, ir de carro ou de transportes públicos casa-trabalho-casa, manter a casa e os filhos, se os houver, sem ter tempo, ou dinheiro de sobra, para praticar actividades radicais.

Acredito ainda que os maridos dessas mulheres ajudarão no que for preciso em casa, sem que tenham que haver "mulheres formatadas a la Anita" - afinal, têm os dois de trabalhar com salários de miséria, no seio de uma inflação galopante para manter as prestações da casa, do carro, os filhos, a comida, e um ou outro luxo supérfluo que possam ter.

É claro que há quem pode pagar a uma ucraniana para lhe limpar a casa, há quem consome comida take-out ou jante fora, há quem possa pagar ao jardim-de-infância, ao ATL e/ou ao colégio, ou quem possa engajar os avós maternos ou paternos na educação dos rebentos (sintomático desta dependência é o coro de protestos que se levanta de cada vez que as escolas decidem fazer um período intercalar de reflexão) - há quem possa, no fundo, ter tempo livre e dinheiro para fazer bungee jumping. Serão uma minoria, mas existem. E se calhar, quase que juraria terem lido a Anita quando eram miúdos...

E depois, esta história de que " estes textos podem servir para perpetuar (e tornar intemporais) as histórias de quem as lê" significa que as devemos proibir? Inseri-las num Index qualquer?

Deve-se proibir a "Cabana do Pai Tomás" que promove o paternalismo em relação ao esclavagismo ou os livros da Enyd Blyton porque apoiam a separação de classes e lançam anátemas contra os ciganos e os negros? Re-escrever e redesenhar o "Tintim no Congo" porque é racista? Ou interditar a "Alice no País das Maravilhas" porque se suspeita que o autor fosse um pedófilo incipiente e ir por aí fora, ad aeternum?

A ser assim, daqui a pouco seremos obrigados a suprimir o "Atirei o pau ao gato mas o gato não morreu" do cancioneiro infantil porque o mesmo é apologista da crueldade para com os animais...

Algures nos comentários do BdE surge também o José Mário Silva dizendo que gostaria que as diferenças entre os géneros fossem explicadas não só às crianças aos jovens como também aos supostamente adultos que bem precisam de perceber quais são.

Ora, toda a gente sabe que há uma diferença óbvia entre raparigas e rapazes: são os caracteres sexuais primários e a diferente concentração e produção de hormonas na vida adulta. O resto é produto da nossa sociedade e das idiossincrasias de cada um.

Falho em ver porque é que é tão importante explicar essas diferenças - será para prevenir a opressão da mulher pelo homem? Para evitar que os meninos se confundam e se vistam de menina no Carnaval? Para obviar a que as meninas deixem de usar soutien e fiquem com o peito descaído?

O que há, afinal, de errado em cada sexo ser condicionado por aquilo que a sociedade julga ser as características de cada género? Lembro-me que, quando andei na escola, um rapaz que usasse brincos era é como andar com alvo na testa que dizia "batam-me porque sou paneleiro"; hoje em dia, com a cultura rap/hip-hop que grassa nas nossas escolas, não ter pelo menos dois brincos em cada orelha é que é factor de exclusão.

Se eu passo a roupa a ferro, se cozinho (tartes, estufados, estrugidos, caris), se aspiro o pó, se sei pregar um botão e cholear uma bainha, se faço a minha cama, estarei fora das minhas obrigações masculinas?

Se eu não caço, não pesco, não gosto de bola, não jogo à bisca, não vou ao Passerelle, se o canal 18 me dava bocejos, se não bebo até cair para o lado, se não espanco a cara-metade,estarei a fugir às minhas obrigações masculinas?

Agora, regressando à Anita, é claro que são livros datados. Quase tudo é datado. Não é por no século XVI ser moral e economicamente correcto fazer-se escravos dos guanches, africanos e mouros que nos passavam pelas mãos, que se vai generalizar dizendo que nós, portugueses, somos um povo esclavagista –não se pode, pura e simplesmente, fazer revisionismo histórico e condenar a sociedade dessa altura com os nossos olhos moralistas e moralizantes do século XXI.

Mas, de se constatar que os livros da Anita são datados até se dizer que são livros que perpetuam o cliché dos estereótipos sexuais, vai um grande passo. Daqui a pouco, na colecção que apresenta títulos tão cândidos como "Anita Baby Sitter" e "Anita e o Curso de Culinária" teremos "Anita é desflorada no jardim-de-infância por um dildo da amiga Guidita", "Anita e a primeira tatuagem", "Anita empresária da noite", "Anita pede aos papás uma laqueação das trompas para evitar o martírio futuro da gravidez", "Anita pede ao Governo mais quotas na Administração Pública para as mulheres", "Anita soldadora na Lisnave", "Anita e a sua terceira interrupção voluntária da gravidez".

Será que é isto que o politicamente correcto nos reserva: uma Anita versão Valerie Jane Solanas?

A polémica I: a laparoscopia

Há quem discorde das análises aqui feitas ao humor nacional. Para que conste:

Saudações, Alexandre.

Em primeiro lugar: gosto muito do seu blog. Em segundo lugar, temos rigorosamente as mesmas referências humorísticas, desde o meu profeta Douglas Adams até ao Pão Com Manteiga, passando pelos Monty Python (pena é que, como boa parte dos portugueses, o Alexandre, que escreve de maneira notável, não tenha escrito decentemente o nome destes heróis da comédia. Porque é que toda a gente insiste sempre em pôr um "h" a seguir ao "t", em "Monty"? Ou, em alguns casos, em retirar o "h" a "Python", escrevendo "Pyton"? Ou chamando-lhes "Monty Pythons", no plural? Isto agasta-me.).

No entanto, fiquei a saber que o Alexandre nutre especial ódio por mim, patente na frase: "Até sofrer uma laparoscopia é mais engraçado do que ouvir este bisonho".

Digo-lhe, sem cinismo, sem arrogância, que é dos melhores insultos que ouvi na minha vida. E já ouvi muitos. Mas há aqui requinte, há aqui mestria e é por isso que, se me der permissão, farei questão amanhã mesmo, na minha rubrica radiofónica O Homem que Mordeu o Cão, de divulgar esta pérola. Detesto a unanimidade, adoro uma boa e possante crítica negativa. Se não quiser associar o seu nome ou o nome do seu blog ao meu laparoscópico universo, posso sempre dizer que o autor do insulto é anónimo. Ou posso mesmo não fazer qualquer referência, se o Alexandre assim o decidir. De qualquer forma, se não me responder (o que é possível que venha a acontecer), espero poder tomar o seu silêncio como sinal de consentimento.

Discordo vigorosamente da sua observação sobre o Bruno Nogueira, o tal "puto magro, incensado como a nova promessa do humor nacional". É, de facto, um óptimo stand-up clown, o futuro vai ser dele, e muita gente inteligente "escangalha-se a rir" com a postura dele.

Se por um lado admiro muitas passagens do seu blog, sinto-o preguiçoso em termos de se dar ao trabalho de apreciar o revigorado e bem escrito humor nacional que se faz hoje em dia. Não falo do meu, mas do outro humor de que o Alexandre fala (excluindo a facilidade, estamos de acordo, dos Malucos do Riso): a mim, parece-me que o Alexandre já ataca, amargamente, sem dó nem piedade, tudo o que aparece. O facto de juntar o Levanta-te e Ri (onde se fundem variadíssimos tipos de comédia, desde o subtil ao boçal, sendo impossível julgar esse programa como um todo) aos Malucos do Riso, é prova dessa triste preguicite e preconceito. Tanto mais que termina o seu texto jogando pelo seguro, fazendo o previsível elogio aos Ena Pá 2000 e ao Manuel João Vieira. Que são notáveis, é verdade (e não esqueçamos os Irmãos Catita), mas aqui soam a solução apropriada para o Alexandre.

É claro que posso estar completamente errado e podemos estar simplesmente aqui a debater uma questão de gostos - o que pode ser divertido e interessante, mas nunca nos levará a lado algum. Seja como for, gostei da observação sobre a laparoscopia. Falo a sério.

Cumprimentos e um futuro radioso para o blog. Diga coisas.

Nuno Markl

Pessoas que passam I



Quando se vive, caminha-se sempre de A para B. Por mais pontos intermédios que façamos, a linha é sempre contínua e tem sempre um ponto de partida (A) e um ponto de chegada (B). Por vezes, nesse nosso percurso tão individual, quiçá egoísta, intersectamos outras pessoas. Interagimos com elas e modificamos as nossas trajectórias em função da força de impacto e da rota de colisão de que ambos vínhamos imbuídos.

O José Matos Cristóvão era alguém que, quando colidia, deixava sempre marca de impacto.

Deixava.

Ao José Cristóvão também o coração lhe pregou a partida definitiva, aquela traquinice derradeira que torna inúteis as coordenadas que nos definem, nome, morada, telefone, amigos - mors certa, sed hora incerta.

2004/01/22

Três em um (I)



Sempre que leio descrições de batalhas narradas na primeira pessoa, impressionam-me sempre as referências feitas aos feridos deixados à morte na terra de ninguém. É assim com Fuentes de Oñoro (1811), com Waterloo (1815), com Balaclava (1854), com Gallipoli (1915), com La Somme (1916) e com as batalhas subsequentes ao Dia D (1944).

Daquilo que fora, até pouco tempo antes, um guerreiro armado e equipado para matar e conquistar, fica apenas uma carcaça destroçada, perfurada, eviscerada, que suplica, geme e balbucia "mãezinha, mother, mommy, mutter, maman, mami, anne, mamma" enquanto pressente a vida que se esvai.

É nessa altura que o moribundo se esquece do que Mashall teorizava - "quando um soldado é conhecido dos homens que o rodeiam ele tem razão para temer aquilo que provavelmente para ele tem mais valor do que a própria vida: a sua reputação como homem entre outros homens" - e se deixa morrer como um homem.

Gallipoli, um filme de Peter Weir com um Mel Gibson avant la lettre, se não for talvez o melhor filme que eu já vi até hoje, é pelo menos aquele que tem, definitivamente, o final mais impressionante de todos - nunca o Adagio de Albinioni foi tão pungente nem o proverbial murro no estômago tão contundente.

Três em um (II)



A imagem do post abaixo é da autoria do Quino, o tipo que eu considero ser o mais genial observador e descritor da vida humana e das suas idiossincracias que eu conheci por via indirecta, em qualquer ramo das artes.

Embora a "Mafaldinha" - que eu considero ser uma obra menor - seja a sua produção mais conhecida, são os seus outros livros que realmente me deixam de boca aberta. A não perder.

Três em um (III)



O Menino da sua Mãe Reinaldo Ferreira

No plaino abandonado, que a morna brisa aquece, de balas traspassado - duas, de lado a lado – jaz morto, e arrefece.

Raia-lhe a farda o sangue, de braços estendidos, alvo, louro, exangue, fita com olhar langue e cego os céus perdidos.

Tão jovem! Que jovem era! (Agora que idade tem?) Filho único, a mãe lhe dera um nome e o mantivera: "O menino da sua mãe".

Caiu-lhe da algibeira a cigarreira breve. Dera-lhe a mãe. Está inteira, é boa a cigarreira, ele é que já não serve.

De outra algibeira, alada, ponta a roçar o solo, a brancura embainhada de um lenço... Deu-lho a criada velha que o trouxe ao colo.

Lá longe, em casa, há a prece: "Que volte cedo, e bem!" (Malhas que o Império tece!). Jaz morto, e apodrece, o menino da sua mãe.

Fernando Pessoa


Menina dos olhos tristes

Menina dos olhos tristes, o que tanto a faz chorar, o soldadinho não volta do outro lado do mar.
Vamos senhor pensativo olhe o cachimbo a apagar o soldadinho não volta do outro lado do mar.
Senhora de olhos cansados porque a fatiga o tear o soldadinho não volta do outro lado do mar.
Anda bem triste um amigo uma carta o fez chorar o soldadinho não volta do outro lado do mar.
A lua que é viajante é que nos pode informar o soldadinho já volta está mesmo quase a chegar.
Vem numa caixa de pinho do outro lado do mar desta vez o soldadinho nunca mais se faz ao mar.

Reinaldo Ferreira

2004/01/21

A praia

Não interessa agora o teu nome ou o que fazes, agora, neste momento. Tudo o que interessa é que contigo tudo permanece igual, o mesmo silêncio, a mesma urgência, o mesmo bater descompassado do coração, o mesmo gemido breve a marcar o alvorecer dos dias que caem, assustados, como se fossem gaivotas que vêm morrer ao areal.

O momento Zen

Ontem enviaram-me um email com palavras do Dalai Lama. O texto concluía com a sua receita para se atingir a felicidade:

Atinge-se a paz interior quando se termina tudo aquilo que se começou anteriormente.

Toda a noite ruminei sobre esta frase. Assim que acordei, tomei logo a decisão de terminar tudo o que tinha deixado a meio pela casa: acabei de beber as duas garrafas de Esporão que tinham ficado do jantar de Natal, sequei até ao tutano o Cutty Sark, fumei até ao fim o maço de Marlboro Light, engoli com dois copos de água todos os Prozac e Xanax que tinha em caixas já encetadas e bebi, em chávenas de porcelana Limoges, o meio quilo de café moído que ainda sobrava no pacote.

Hoje sinto-me, definitivamente, zen.


Nicotina

Páro.
Acendo um cigarro.
Acendo um outro cigarro nesse cigarro, quando o termino.
Fumo o maço todo. Fumo o cinzeiro.
Fumo os lençóis da cama.
Fumo os restos da nossa noite.
Fumo-te a ti e expiro-te em volutas de fumo.
Defumo-me. Começo-me pelos pés e termino-me na garganta.
A fumar assim qualquer dia morro do coração.
Páro.
Volto a acender outro cigarro.
Quando o termino, acendo outro. E outro.
Ainda bem que não fumo.


O gato de Schrödinger



À frente dos dias, outros dias estão. E, nas pedras das calçadas, em todas as pedras do chão, estará um nome gravado. Poderá ser o teu. Ou não.


Torres Vedras, Kodak Tri-X 400

2004/01/20

A banda sonora do quotidiano

O que escuto e trauteio agora é uma lista ecléctica de MP3 de música e poesia. É uma lista feita ao sabor dos tempos, com inserções e eliminações, depurada até encontrar aquilo de que gosto realmente. A vermelhop, estão assinaladas as imperdíveis, as que marcaram mesmo e que são eternas. Se somos aquilo que ouvimos, então eu sou tudo isto:

Clã "O Sopro do Coração"; "Conta-me Histórias"
Teresa Salgueiro - "Olhos Negros"
Rolling Stones - "Paint it Black"
Xutos & Pontapés"Para Sempre"
Robert Palmer"Bad Case Of Loving You (Doctor, Doctor)"
Skunk Anansie – "Secretly"
Pedro Abrunhosa – "Beijo"; "Si Fuese un Dia tu Mirar"
David Bowie – "Space Oddity"; "Absolut Beginners"
Sétima Legião – "Por Quem Não Esqueci"; "Sete Mares"
Youssou n'Dour e Neneh Cherry"7 seconds"
Madredeus"Ao Longe o Mar"
Carlos Medeiros – "Chamateia"
Delfins – "Color azul"
Leonard Cohen"Dance Me to the End of Love"; "I'm Your Man (live)"; "The Future"
The Waterboys "Don't Bang the Drum"; "The Whole of the Moon"
Sting – "Fragile"; "Shape of my Heart"
The Stranglers"Golden Brown"; "Always The Sun"
Luís Bettencourt – "Ilhas de Bruma"
Marlene Dietrich"Lili Marlen (deutsch-live)"
Nick Cave – "Mack the Knife"
Chris Isaak - "Wicked Game"
Bob Dylan - "You Belong To Me"
Etienne Daho - "Saudade"
Alphaville – "Forever Young"
Ah Ha – "Take On Me"
Air - "All I Need"
Anne Murray – "You Needed Me"
Annie Lennox – "A Lighter Shade of Pale"; "No More I Love You’s"
Bruce Springsteen - "The River"
Chinese Choral Songs"Da Hai a Gu Xiang"
Baz Luhrmann – "The Sunscreen Song"
Cocteau Twins – "Bluebeard"
Craig Amstrong - "Weather Storm"; "This Love"
David Sylvian – "I Surrender"; "September"
Deep Forest – "Martha’s Song"; "Bohemian Ballet"
Dire Straits"Brothers In Arms (live)"
Sweetbox – "Everything Gonna be Alright"
Fleetwood Mac – "Big Love"
Lamb - "Gabriel"
Gabrielle – "Dreams"; "Rise"
Garbage – "The World Is Not Enough"
James – "One of the Three"
Joan Osborne – "What if God Was One of Us"
Eric Clapton – "Wonderful Tonight (live)"
Soul Coughing"Janine"
K's Choice – "Not an Addict"
Lauryn Hill – "Can't Take My Eyes Off Of You"
Massive Attack – "Karmacoma (Portishead Experience)"
Mazzy Star – "Fade Into You"
Midnight Oil – "Beds Are Burning"
Lou Reed – "Sweet Jane"
Lucinda Williams - "Essence"
Nena "99 Luftballons"
Goldfinger – "99 Red Balloons"
Paralamas do Sucesso e Gal Costa – "Lanterna dos Afogados"
Pink Floyd "Wish You Were Here"
Caetano Veloso - "Cucurucucu Paloma"
Pearl Jam – "Last Kiss"
Roger Waters"The Pros and Cons of Hitch Hiking (extended version)"
Peter Gabriel e Deep Forest- "While the Earth Sleeps"
Prince – "When Doves Cry"
Red Hot Chili Peppers – "Californication"; "“Otherside"
REM – "Strange Currencies"
Richard Anthony – "Aranjuez Mon Amour"
Amália Rodrigues"Aranjuez Mon Amour"
Sade – "By your side"
Soul Asylum – "Runaway Train"”
Suede – "Sleeping Pills"
The Buggles"Video Killed the Radio Star"
The Cure – "Love Song"; "Charlotte Sometimes"; "Pictures of You"
Tindersticks – "If You're Looking For A Way Out"
Whitney Houston – "I Will Always Love You"
Travis – "Why Does It Always Rain On Me"”
Wim Mertens – "Houfnice"
Rui Veloso - "Todo o Tempo do Mundo"; "Não me Mintas (Voar como o Jardel)"; "A Gente Não Lê"; "Logo que Passe a Monção"; "Cavaleiro Andante"
Clã e Sérgio Godinho"Espectáculo"
Sérgio Godinho - "A Noite Passada"; "Balada da Rita"
Stephan Micus – "Desert Poems"
Sirius - "Allah-Huh"; "Call of silence"
Mila"Esperame en el cielo"
Carlos Nuñez e Teresa Salgueiro – "Maria Soliña"
Aguaviva – "Poetas Andaluces II"
Luís Represas – "Tenho Barcos, Tenho Remos"”
Luís Bettencourt – "Ilhas de Bruma"
Cesária Évora – "Besame mucho"
Fausto"Todo Este Céu"
Laurie Anderson"Love Among the Sailors"; "New Jersey Turnpike"; “Night in Baghdad"; "World Without End"
Hector Zazou – "Iacoute Song (Lioudmila Khandi)"; "Oran Na Maigdean Mhara (Catherine MacPhee)"; "She’s like a swallow (Jane Siberry)"; "Visur Vatnsenda-rosu (Bjork)"
Harold Budd – "Poem- Distant Lights of Alancha Recede"; "Albion Farewell"
Harold Budd e Hector Zazou – "Dragonfly"
Adriano Correia de Oliveira"Canção com Lágrimas"; "Menina dos Olhos Tristes"; "Trovas do vento que Passa"
Lisa Ekdahl – "Sakta, Sakta"; "Benen i Kors"; "Genom Dig Ser Jag Ljuset"; "Med Kroppen Mot Jorden"
Bjork – "All Is Full Of Love"
U2 – "One"
Jaime Sabines – "Canciones del Pozo sin Agua"; "Espero Curarme de Ti"; "La Luna"; "La Procesión del Enemigo"; "Los Amorosos"
Rodrigo Leão"Há-de Flutuar uma Cidade (Al Berto)"; "Minha Cabeça Estremece (Herberto Hélder)"; "O Navio de Espelhos (Cesariny)"


Proclamação de princípios

Agora, vou ser herético: não compro o Expresso. Aliás, nem sequer leio o Expresso. Os meus sábados são feitos de Público e, agora de Grande Reportagem. E só são feitos de GR porque, agora que estão lá dois amigos meus - a Mónica Bello e o Joel Neto, excelentes jornalistas - eu, leitor, lhes dou o benefício da dúvida. A GR já foi muito boa, quando era dirigida pelo Sousa Tavares, quando ainda haviam causas e assuntos que só a GR sabia descascar e iluminar. Depois, quando para lá foi o Francisco José Viegas, aquilo ficou assim, a modos de uma sanduíche de Travel, Expresso, Volta ao Mundo e Jornal da Paróquia - foi nessa altura que deixei de a comprar. E de a ler.

Houve também, durante alguns anos, uma época em que os meus sábados eram igualmente feitos de DNa. Foram sábados cujo chão deu uvas; sempre soube que o DNa nunca foi só o enfatuado Pedro Rolo Duarte, mas sim todos aqueles que lá escreviam e que fizeram daquilo um lugar bem frequentado - Sónia Morais Santos, José Mário Silva, Ananela Mota Ribeiro, por exemplo - ao invés do tugúrio que agora deu em surgir nas bancas, para meu desgosto e pena.

Afinal, é sempre triste assistir ao fechar de um ciclo.

Adágio

Diz o povo que, para o Sol e para a morte, não se deve nunca olhar de frente. E tem o povo razão: se um cega, a outra mata.

2004/01/19

Life of Brian



O cenário- em plena época biblíca, o invasor, uma patrulha romana liderada por um centurião, apanha o invadido, o judeu Brian, em flagrante acto de pichagem nocturna.


Centurião romano, irado – O que é isto?! Romanes eunt domus? "Povo chamado Romano, eles ir para casa"?
Brian, apavorado – Não, não, aqui diz "Romanos vão embora".
CR– Não, não diz. Qual é o latim para Romano? ... Vamos!
BRomanes?
CR– Com?!
BAnnus?
CR – Plural vocativo de annus?|
BAnni?
CRRo-ma-ni... Eunt? O que é eunt?!
B – Ir.
CR – Conjuga o verbo ir.
Blre, eo, is, it, imus, itis, eunt.
CR – Então eunt é...
B – Terceira pessoa do plural, presente do indicativo: eles vão.
CR – Mas "Romanos vão-se embora" é uma ordem, por isso deve usar-se o...
B – O imperativo!
CR– Que é?
Bi.
CR – Quantos Romanos?!
B – Plural, plural: lte!
CRlte... Domus? Nominativo? "Vão embora" é uma acção, não é?
B – Dativo! ... Não é dativo, não é dativo. Acusativo! Acusativo! Ad domum, senhor, ad domum.
CR – Excepto quando o que domus aceita é...
B – Locativo.
CR – Que é?
BDomum, Domum.
CR – Percebeste?
B – Sim, senhor.
CR – Agora, escreve isso cem vezes.
B – Sim, senhor. Obrigado, senhor. Avé César.
CR – Avé César. E, se não acabares até ao amanhecer, corto-te os tomates!

2004/01/18

Canção com lágrimas



Há poucas coisas que me comovam. Ouvir este poema do Manuel Alegre, cantado pelo Adriano Correia de Oliveira, é uma delas. Escutá-la, quando era pequeno demais para entender, era ficar com um travo amargo na boca, um travo que passou a saber ainda mais a fel quando passei a compreender que há mortes que se cantam para que ninguém se esqueça que aconteceram - seja a dos soldados em África, seja a do próprio Adriano, morto aos 40 anos de cirrose e de tristeza.

Há mortes assim: comovem-nos até às lágimas.


Canção com lágrimas

Eu canto para ti um mês de giestas
Um mês de morte e crescimento ó meu amigo
Como um cristal partindo-se plangente
No fundo da memória perturbada

Eu canto para ti um mês onde começa a mágoa
E um coração poisado sobre a tua ausência
Eu canto um mês com lágrimas e sol o grave mês
Em que os mortos amados batem à porta do poema

Porque tu me disseste quem em dera em Lisboa
Quem me dera me Maio depois morreste
Com Lisboa tão longe ó meu irmão tão breve
Que nunca mais acenderás no meu o teu cigarro

Eu canto para ti Lisboa à tua espera
Teu nome escrito com ternura sobre as águas
E o teu retrato em cada rua onde não passas
Trazendo no sorriso a flor do mês de Maio

Porque tu me disseste quem em dera em Maio
Porque te vi morrer eu canto para ti
Lisboa e o sol Lisboa com lágrimas
Lisboa a tua espera ó meu irmão tão breve
Eu canto para ti Lisboa à tua espera.

(Canção para um amigo que morreu na guerra de África)


2004/01/17

A parábola

Acto I

Imaginem uma estrada. Uma estrada de terra batida.

Estamos em Agosto, no auge do Verão. E faz calor. Muito calor. Ao longo da berma da estrada de terra, caminha um americano. Está coberto de pó. Vem cansado. E tem sede. Muita sede.

Está farto de andar a pé, no meio de nenhures. De repente, alucinante, passa um Mercedes SLK.

Novo.

Daqueles com ar condicionado e estofos em pele de arminho. E, o americano, coberto de pó e cheio de sede, pensa com os seus botões enquanto observa o carro que ao longe se esfuma:

- um dia, hei-de trabalhar tanto que terei dinheiro suficiente para comprar um carro daqueles!

Acto II

A mesma estrada. O mesmo dia. O mesmo pó. Apenas uns quilómetros mais à frente. Um outro homem caminha. É um português, desta vez. Nado e criado em terras lusas.

Eis que surge o mesmíssimo Mercedes de há pouco. Alucinantemente veloz, de igual modo, lança pó e mais pó por sobre o pobre andarilho. E que diz o nosso herói, enquanto vê o bólide a sumir-se no horizonte longínquo?

- cabrão, oxalá te espetes na primeira azinheira que encontres!


O enigma da esfinge

E quando as quarenta semanas lunares terminaram, onde havia dois, ficaram três.

2004/01/16

Hoje apetece-me fugir para qualquer lado onde eu não esteja.

2004/01/15

O beijo

sempre
que te beijo
há rumores
surdos, pálidos
aromas de verão,
raízes perenes,
crescentes, no
desejo do teu
corpo molhado
sempre que
o beijo.

Nada mais conheço de ti a não ser aquilo que tu fazes de mim.

2004/01/14

Angústia para o Jantar

Para mim, o mais complicado na escrita é o dar títulos a textos, contos ou a quaisquer outros documentos em geral. Descobri já que o modo como escrevo - de rajada, sem reflexão ou revisão de espécie alguma - não se coaduna com o feliz achamento de um bom título com as características que lhe são exigidas: ser apelativo, contundente, simples e perene.

Quando penso em bons títulos, há sempre dois que surgem logo à cabeça. Curiosamente são ambos de 1961, e ambos do mesmo autor, Luís de Sttau Monteiro: o do romance "Angústia para o Jantar" e o "Felizmente há Luar".

Se o primeiro é sublime - uso-o amiúde para descrever aquela vaga sensação que se tem de que há algo que vai correr mal e que somos impotentes para travar seja lá o que for que já se pôs em marcha, contra a nossa vontade e querer - o segundo, também ele muito feliz, requer uma explicação histórica: aquando da repressão de uma hipotética revolta liberal de 1817, executada pelo "protector britânico" de Portugal, o Marechal de Beresford e pela sua amante, a Condessa de Juromenha, os suspeitos foram supliciados no Campo Santana.

No meio da turba, um juiz houve que se saiu com uma frase contundente, um título por excelência: a transcrição, ipsis verbis, da frase literalmente assassina proferida por Miguel Pereira Forjaz, quando confrontado com o facto de a tortura e as execuções serem tão demoradas que se iriam prolongar pela noite dentro - "felizmente há luar!"

Nesta peça de teatro, Sttau Monteiro fabrica, sobre a trama de 1817, uma alegoria ao combate pela liberdade contra a cegueira das razões de Estado, numa paródia ao regime da Velha Senhora que então se vivia. Por razões óbvias, "Felizmente há luar" esteve proibida até 1974 - foi pela primeira vez levada à cena apenas em 1978, no Teatro Nacional, numa encenação do próprio autor.


The writing's on the wall

Vale a pena ir aqui para tentar perceber o porquê da paixão que existe entre os portugueses e as portas das casas de banho garatujadas.

Notas de viagem XXI - Capelinhos, Açores




Em 1957, o Verão nos Açores haveria de terminar com ribombos. Com efeito, entre os dias 16 e 27 de Setembro de 1957 sentiram-se na ilha do Faial mais de 200 tremores de terra de fraca intensidade. A 27 de Setembro, o faroleiro de serviço no farol mais ocidental da ilha do Faial viu com espanto a água do mar a borbulhar, a cerca de 1 quilómetro de distância da Ponta dos Capelinhos. No final do dia confirmou-se o já se esperava: iniciara-se uma erupção submarina de tão grande magnitude que esta acabou por originar uma ilha de escórias e cinzas vulcânicas.

Recordando a afronta feita em a 30 de Janeiro de 1811 pelo capitão Tillard da escuna inglesaSabrina - ao fazer desembarcar uma companhia de marinheiros numa décima ilha vulcânica, surgida nessa altura ao largo de São Miguel, no sentido de a reclamar para Sua Magestade Britânica - o jornalista do "Diário Popular" Urbano Carrasco arriscou a vida num barquinho a remos para colocar uma bandeira portuguesa nas cinzas basálticas da "Ilha Nova", evitando assim que os "estrangeiros" a tomassem - cumprido o desígnio patriótico nada evitou, contudo, que os sismos associados à erupção e a queda contínua de cinzas e materiais de projecção provocassem a destruição generalizada das habitações e campos no oeste do Faial, levando a que muitos dos afectados emigrassem em massa para os Estados Unidos, ao abrigo de um plano de emergência aprovado pelas autoridades americanas.

O vulcão manteve-se em actividade até Outubro de 1958, formando-se um istmo, que acabou por fazer a ligação da ilha à terra. O tremor associado ao vulcão e a queda de cinzas e materiais de projecção provocaram a destruição generalizada das habitações e campos do oeste do Faial.

Ao contrário da ilha Sabrina, que se afundou no mar passados seis meses de existência, levando consigo a Union Jack, o vulcão dos capelinhos ainda por lá continua, um mar de escória e piroclastos, uma paisagem lunar onde muitos teimam ainda em inscrever o seu nome num efémero de pedras soltas e cinza.

SABRINA
A VOLCANIC ISLAND, WHICH APPEARED AND DISAPPEARED AMONG THE AZORES, IN 1811


She of the ocean, say, whence comest thou?
The smoke thy dark throne, and the blaze round thy brow;
The voice of the earthquake proclaims thee abroad,
And the deep, at thy coming, rolls darkly and loud.

From the breast of the ocean, the bed of the wave,
Thou hast burst into being, hast sprung from the grave;
A stranger, wild, gloomy, yet terribly bright,
Thou art clothed with the darkness, yet crowned with the light.

Thou comest in flames, thou hast risen in fire;
The wave is thy pillow, the tempest thy choir;
They will lull thee to sleep on the ocean's broad breast,
A slumb'ring volcano, an earthquake at rest.

Thou hast looked on the isle — thou hast looked on the wave —
Then hie thee again to thy deep, watery grave;
Go, quench thee in ocean, thou dark, nameless thing,
Thou spark from the fallen one's wide flaming wing.


Lucretia Davidson (1808-1825)


Capelinhos, Açores. Fuji Provia 400 F

O pomo da discórdia

já não levantas os olhos como costumavas
nem abres a boca para perguntar: amas-me?
abriste as veias purpurinas, água, células e sais

- como se fosses a fonte da vida eterna
jorraste por uma última vez e nunca mais.

2004/01/13

Santanices




Embora Portugal possua um importante e valiosíssimo (e cobiçado) património cultural subaquático, resultante dos milhares de naufrágios históricos ocorridos nas suas águas só recentemente, com o decreto lei nº16/97, de 21 de Junho, foi regulamentado o regime jurídico da arqueologia subaquática de uma forma harmonizada com o aplicável à arqueologia em meio terrestre, executada por puros critérios científicos.

Até 1980 instalou-se em Portugal nas áreas de arqueologia e estudo do património cultural subaquáticos um vazio e um marasmo quase total, que se ficaram a dever à inexistência de arqueólogos portugueses credenciados na especialidade e à desconfiança do Estado resultante das polémicas explorações submarinas feitas nos arquipélagos dos Açores e da Madeira, no inicio dos anos setenta, por equipas estrangeiras, que se traduziu na decisão sensata, mas politicamente desgastante e onerosa, de evitar a exploração do mar Português enquanto o País não dispusesse de meios e agentes credíveis que lhe permitisse enfrentar situações desse tipo.

O que reinava nos nossos mares era a caça ao tesouro: uma actividade que teve origem na tradição milenar do resgate de salvados marítimos e uma prática cuja lenda e o mito de sonho de riqueza e aventura consagraram.

A caça ao tesouro não tem qualquer afinidade com a Arqueologia, apesar de nos tempos modernos se tentar disfarçar de respeitabilidade social (através da acção de grupos de pressão e "tráfico de influências" nos meios da cultura, jornalismo, política, forças armadas e organismos estatais) e de respeitabilidade científica (através da invocação de pressupostos históricos e arqueológicos como objectivos prioritários das suas explorações e recorrendo à contratação de arqueólogos para camuflagem das suas reais intenções).

A caça ao tesouro tem como principal objectivo a rentabilidade financeira e o lucro, lógica incompatível e inconciliável com puros critérios científicos - na verdade, a investigação cientifica tem tempos de trabalho próprios, que são incompatíveis com a necessidade de rentabilização financeira da exploração, através da perda do mínimo de tempo possível com actividades não lucrativas.

Por outro lado, na caça ao tesouro só interessa recolher os bens possuidores de valor venal. No garimpo não se pode perder tempo com o estudo e a conservação do património cultural que não seja lucrativo financeiramente. Até porque, os interesses comerciais e os investimentos económicos efectuados nestas actividades são de montante elevadíssimo e ... “tempo é dinheiro” - aliás, não é por acaso que, em Portugal , aos caçadores de tesouros apenas interessam trabalhos que incidam sobre bens datados dos séculos XV a XVIII, época em que naufragaram ao longo da costa portuguesa e nos arquipélagos dos Açores e da Madeira numerosas embarcações com cargas valiosíssimas do ponto de vista venal. Tendo em conta esta lógica estritamente lucrativa, na caça ao tesouro tudo aquilo que não possua valor venal é pura e simplesmente destruído ou ignorado na busca ávida e “cega” dos valiosos tesouros.

A partir de 1980, o Museu Nacional de Arqueologia, com o apoio do IPPC (e do IPPAR, até 1993) começou a desenvolver um projecto de actuação global no âmbito da arqueologia subaquática, tornando-se o Centro dinamizador das actividades nesta área em Portugal.

Contudo, interesses obscuros moviam-se nas profundezas. Sob o pretexto de pôr termo à alegada tradição do Estado “não fazer nem deixar fazer”, foi, já na década de 90, publicado o Decreto Lei nº289/93, de 21 de Agosto.

Este diploma legal lançou as bases de um anacronismo jurídico e político - cultural que, entre outras consequências negativas, veio promover e inaugurar a corrida à caça ao tesouro no mar Português - na verdade, o Decreto Lei nº 284/93 contrariava frontalmente os princípios consagrados internacionalmente no âmbito da Arqueologia e do Património Subaquáticos.

A sua entrada em vigor teve como principal consequência imediata a instauração de um defeso que implicou, a partir de 1994, a desactivação e o bloqueamento de todas as iniciativas com exclusivas finalidades cientifico-patrimoniais, e o implícito esvaziamento da capacidade de actuação das raras entidades que nos últimos 15 anos, em Portugal, tinham lançado as bases de uma actuação credível neste domínio (16).

O Dec. Lei 289/93 veio, pois, privilegiar, na exploração do património arqueológico subaquático, as iniciativas de carácter lucrativo e teve como consequência a desactivação de todas as iniciativas com exclusivos pressupostos científicos, culturais e patrimoniais, nomeadamente daquelas que, baseadas na colaboração entre o Museu Nacional de Arqueologia e o IPPC/IPPAR, garantiram, por mais de dez anos, uma efectiva e credível actuação oficial nesta área do património.

O Dec. Lei nº289/93, de 21 de Agosto, foi alvo de violentas críticas por parte da maioria dos arqueólogos portugueses, movimento de contestação onde assumiu especial protagonismo, na acção agregadora e mobilizadora, a associação Arqueonáutica, Centro de Estudos, que elaborou, em Julho de 1995, o Livro Branco «Arqueologia ou Caça ao Tesouro? - Para um debate sobre a legislação do património subaquático em Portugal» e promoveu e organizou várias acções e colóquios com o objectivo de apontar as deficiências e malefícios da legislação então em vigor.

Entre os apoiantes e patrocinadores e investidores das empresas de caça ao tesouro estavam pessoas como os Espírito Santo, Pinto Balsemão, o pretendente ao não-existente trono português Duarte Nuno, o almirante António Sachetti, Henrique Granadeiro da Lusomundo e Gomes da Silva, deputado do PSD. Escandalosamente, Gomes da Silva, que foi um dos mentores deste decreto lei, tornou-se advogado de uma das partes interessadas na “exploração” das nossas águas: o arqui-pirata Robert Marx.

E este decreto lei tão iníquo foi congeminado por quem? Por Pedro Santana Lopes, secretário de Estado da Cultura entre 1990 e 1995.

Espero que hoje, no lançamento do seu livro "Causas de Cultura" dedicado às suas “realizações” no campo da cultura, Pedro Santana Lopes não se esqueça de referir a autêntica catástrofe terceiro-mundista, em termos de atentado ao património nacional, protagonizada por ele e pelo seu compadre Gomes da Silva em 1983, e que pôs Portugal na lista negra da UNESCO.


Baía de Angra do Heroísmo, Kodak Elite 400


Nobody Home

I got a little black book with my poems in.
Got a bag, got a toothbrush and a comb.
When I'm a good dog they sometimes throw me a bone.
I got elastic bands keeping my shoes on.
Got those swollen hands blues.
Got thirteen channels of shit on the TV to choose from.
I got electric light,
And I got second sight.
Got amazing powers of observation.
And that is how I know,
When I try to get through,
On the telephone to you,
There'll be nobody home.

I got the obligatory Hendrix perm,
And the inevitable pinhole burns,
All down the front of my favorite satin shirt.
I got nicotine stains on my fingers.
I got a silver spoon on a chain.
Got a grand piano to prop up my mortal remains.
I've got wild, staring eyes.
And I got a strong urge to fly,
But I got nowhere to fly to (-- fly to... fly to... fly to...).
Ooooo Babe,
When I pick up the phone,
There's still nobody home.

I got a pair of Gohill boots,
And I got fading roots.



Roger Waters

2004/01/12

Oxalá - cap. III

Enquanto o Falcon 100 cruzava as águas em plena escuridão, ao encontro do pequeno cargueiro de pavilhão liberiano, Hassan Al-Fawzan folheava um relatório de uma das suas empresas financeiras. Olhando sem o ver e sentado no amplo sofá de couro da cabina VIP, o saudita sentia através das solas dos pés a ligeira trepidação dos dois motores HP de 1800 centímetros cúbicos a trabalhar à rotação máxima, 3 metros abaixo do salão onde se encontrava. Quando Mohammed o veio avisar de que o navio aparecera já à distância, Hassan atirou displicentemente o espesso relatório para a papeleira e espreguiçou-se. Estava a ficar velho para este género de aventuras. Não só estava velho, como também sentia saudades da aldeia de tendas que há 45 anos deixara para trás.

Um dia, quando a sua missão estivesse cumprida e Deus fosse misericordioso o suficiente para assim o alegrar, Hassan voltaria para junto da família e terminaria os seus dias com os olhos pousados na Jabal al Fara, a fronte refrescada pela água do Qufar, o corpo voltado para Meca. Mas até lá, até mesmo um homem do deserto tinha de cumprir o seu destino e o seu era, neste momento, o de atravessar o Atlântico num iate de 30 metros, de luzes apagadas e com todos os equipamentos a bordo – o GPS, o radar, o EPIRB, o Satcom, o GPRS e a radiotelefonia – desligados. Era a ironia suprema: uma embarcação como o Wave Dancer via-se, por motivos de discrição, reduzida à mais completa cegueira e mudez.

Um pequeno baque anunciou o acostamento. Hassan pegou na Sig Sauer P-226, inseriu uma munição na câmara, destravou-a e foi juntar-se a Mohammed no tombadilho. Havia trabalho a fazer.

Incompetentes, idiotas, criminosos e possivelmente corruptos

Autarcas admitem legalização de central de asfalto em área de Rede Natura

Lusa, PUBLICO.PT

"Os presidentes das câmaras da Batalha e de Porto de Mós admitiram hoje a legalização de uma central de produção de asfalto, localizada numa área de Rede Natura, desde que o processo tenha parecer positivo da administração central.

"Não existe nada no Plano Director Municipal (PDM) que me possa levar a chumbar a obra", explicou António Lucas, presidente da Câmara da Batalha (PSD), reagindo às críticas da população da freguesia de Alqueidão da Serra e dos ambientalistas da Liga para a Protecção da Natureza (LPN), que rejeitam a legalização da central, alegadamente responsável pela destruição de vários carvalhos.

Trata-se de uma "questão de cumprimento da lei", explicou o autarca, salientando que a empresa iniciou a construção da obra de forma ilegal, mas já iniciou o processo de legalização junto do Ministério da Economia e do Instituto de Conservação da Natureza (ICN).

Perante a ilegalidade detectada, "a Câmara moveu um processo de contra-ordenação e notificou a empresa para demolir a obra", mas estes procedimentos foram suspensos depois dos proprietários terem solicitado o licenciamento da infra-estrutura.

Quanto à existência de carvalhos protegidos na zona de implantação da central, António Lucas alegou desconhecer esse facto, remetendo para a Secretaria de Estado das Florestas a responsabilidade de avaliar o eventual corte das árvores.

António Lucas foi mais longe e lamentou que o plano de ordenamento da Rede Natura ainda não esteja concluído, criando dificuldades de gestão aos municípios.

Nos últimos meses, a população local tem multiplicado os protestos contra a construção da central, localizada a poucos metros da localidade de Alqueidão da Serra (Porto de Mós) mas ainda no concelho da Batalha.

Confrontado com as críticas da população, José Ferreira, presidente da Câmara de Porto de Mós, considerou que o seu homólogo da Batalha "tomou as medidas correctas" neste caso, remetendo o processo para a administração central.

Na sua opinião, tão importante como a legalização da obra, é a "fiscalização e controlo apertado das emissões para o exterior" da central, de modo a garantir a inexistência de danos para a população.

Quanto às críticas relativas ao corte de carvalhos protegidos, José Ferreira considerou-as fruto de "ambientalismos excessivos e ortodoxos" que "não querem desenvolvimento" para o território.




Lê-se e não se acredita. Mas que merda de país é este em que um autarca, um cidadão que supostamente deveria ter sido eleito para fazer cumprir com as leis desta República, se permite proferir dislates desta natureza e com este teor, sem CORAR , PIGARREAR ou ter VERGONHA na cara?

Mas que gente é esta, tão estúpida e ignara, que continua a eleger escória desta, igual em teor e em substância aos Avelinos Ferreira Torres, Josés Luís Judas e Fátimas Felgueiras do costume?

E porque é que só se continua a malhar na merda das criancinhas, vitimizadas e vitimizadoras, que foram enrabadas anos a fio sem que ninguém mexesse uma palha enquanto enrabados somos todos nós, a torto e a direito, todos os santos dias do mês, por deputados, autarcas e afins, de todas as cores e de todos os quadrantes, sem que ninguém mexa uma palha?

Porra, também eu exijo ser tratado pelo Pedro Stretch: afinal, nascer e viver português não só é uma experiência traumática, como também alienante!


Prólogo dos navios no mar

Ondas que descansam no seu gesto nupcial
abrem-se caem
amorosamente sobre os próprios lábios
e a areia
ancas verdes violetas na violência viva
rumor do ilimite na gravidez da água
sussurros gritos minerais inércia magnífica
volúpia de agonia movimentos de amor
morte em cada onda sublevação inaugural
abre-se o corpo que ama na consciência nua
e o corpo é o instante nunca mais e sempre
ó seios e nuvens que na areia se despenham
ó vento anterior ao vento ó cabeças espumosas
ó silêncio sobre o estrépito de amorosas explosões
ó eternidade do mar ensimesmado unânime
em amor e desamor de anónimos amplexos
múltiplo e uno nas suas baixelas cintilantes
ó mar ó presença ondulada do infinito
ó retorno incessante da paixão frigidíssima
ó violenta indolência sempre longínqua sempre ausente
ó catedral profunda que desmoronando-se permanece!

O mar, de António Ramos Rosa, "Facilidade do Ar", Caminho (1990)



O navio de espelhos
não navega, cavalga
Seu mar é a floresta
que lhe serve de nível

Ao crepúsculo espelha
sol e lua nos flancos
Por isso o tempo gosta
de deitar-se com ele

Os armadores não amam
A sua rota clara
(Vista do movimento
dir-se-ia que pára)

Quando chega à cidade
nenhum cais o abriga
O seu porão traz nada
nada leva à partida

Vozes e ar pesado
é tudo o que transporta
E no mastro espelhado
uma espécie de porta

Seus dez mil capitães
têm o mesmo rosto
A mesma cinta escura
o mesmo grau e posto

Quando um se revolta
há dez mil insurrectos
(Como os olhos da mosca
reflectem os objectos)

E quando um deles ala
o corpo sobre os mastros
e escruta o mar do fundo

Toda a nave cavalga
(como no espaço os astros)
Do princípio do mundo
até ao fim do mundo

O Navio de Espelhos, de Mário Cesariny, "A Cidade Queimada", Assírio & Alvim (2000)

A pedra filosofal II

Continua a saga das palavras inseridas nos motores de busca da Internet e das pessoas que aqui vêm ter guiadas por elas.

Há quem procure obter a carta de marinheiro para passear na Lagoa de Óbidos. É justo: sempre gozámos da fama de sermos um país de marinheiros, mesmo que de água doce ou salobra. Depois, há quem procure saber como fazer piercings em torres Vedras, quem queira cantar fado brejeiro ou quem procure simplesmente saber onde encontrar cercaduras para páginas no computador. Aliás, o grafismo, a arquitectura e o modelismo são pratos fortes: desde os animais com arame até às fotos de crianças com trissomia 18, passando pelo desenho de dentes, pelas fotos do naufrágio do galeão grande São João, pelos retratos sobre a poluição ambiental em Luanda, pelos emails de amor ilustrados, pelo desenho de renas de natal, por modelos de casas de praia sul africanas, pelo mapa topográfico do Cartaxo, por fotos de motas de corrida de pista e por uma fotografia da Cruz Quebrada, tudo é pesquisável aqui no Arame.

Depois, existem ainda as expressões enigmáticas ou indefinidas - homossexual pais etc. Moçambique, sismo irão bam turistas e caravela portuguesa medusa, por exemplo – ou tão só as inquisitivas - infertilidade da mulher e tratamentos e a discoteca skipper pico.

Há também os latinistas, que pretendem descobrir se realmente se verifica a máxima de que o amori finem tempus, non animus facit e os gastrónomos que desejam saber como fazer estrugidos.

A novidade é que o sexo está em baixa, ultimamente. Os hungy for love deixaram as africanas de parte e dedicaram-se a mulheres mais velhas: velhas despidas e balzaquianas nuas são algumas das jóias do hit parade deste livro de visitas.

Finalmente há os pessoais. A busca daqueles que sabem precisamente o que querem Há quem procure por Alexandre Monteiro ou por Alexandre Monteiro no arame e me encontre aqui. E há também quem queira saber do alexandre-monteiro nu. Assim mesmo, com hífen e tudo. O mundo anda realmente perigoso.

O princípio dos compostos

Quando te abro, quando te entro, quanto te invado, nunca sei que parte de nós os dois és tu ou eu.

2004/01/11

Caro leitor,

Estás com certeza fartinho de receber na tua caixa postal envelopes, cartas, missivas, pacotes e outros volumes postais oriundos das mais diversas empresas de marketing directo, divulgação comercial e actividades quejandas.

Gostarias de saber como fazer para te livrares de toda essa papelada sem teres de a amarrotar e de a enviar para o caixote do lixo - gesto tão mais simples e expedito mas tão singularmente menos requintado?

Gostarias de ter um meio alternativo para, simultaneamente, não só apoiares essa vetusta instituição que dá pelo nome de CTT, Correios de Portugal - hoje em dia em início de crise com a proliferação do correio electrónico - como também o de dares a provar a certos energúmenos um pouco do seu próprio veneno?

Então, caro cidadão, se respondeste afirmativamente a todas as questões que te foram acima colocadas, não procures mais. O Arame, do alto da sua sapiência, tem a resposta para as tuas dúvidas.

Eis o procedimento a tens de seguir, explanado passo-a-passo:

1) Abre o infame envelope.

2) Verifica se contém dentro um outro envelope, de resposta franquiada, mais conhecido por envelope de remessa livre, endereçado à entidade emissora:

a) sim, tem: óptimo, passa ao ponto 3.

b) não tem: estamos com azar. Assumindo que, como bom cidadão que és, executas a separação do lixo em casa, insere o envelope e respectivo conteúdo no caixote dos papéis.


3) Acabaste de fazer bingo, excelso cidadão. Procura, na papelada que te enviaram, o local onde está impresso o teu nome e endereço - corta-o ou rasga-o (afinal, não queres dar à empresa mais informações sobre ti, nomeadamente sobre a tua índole guerrilheira, estarias a fazer exactamente o oposto daquilo que se pretende...)

4) Dobra toda a papelada e insere-a dentro do envelope da livre remessa. Tenta inserir o máximo possível daquilo que te enviaram - afinal, quanto mais grosso e pesado for o envelope, mais dinheiro lhes sai dos bolsos e mais entra no dos CTT.

5) Dirige-te ao marco de Correio mais próximo e insere o envelope na ranhura.

Et voilá!

2004/01/10

A ausência

A ausência tem uma filha
tem uma filha
que se chama saudade
E eu sustento mãe e filha
ai, mãe e filha,
vai contra a minha vontade.

Excerto da Charamba, canção popular açoreana.

Blogs de que gosto muito IV

É, talvez, o diário mais franco e genuíno da blogosfera. É, também, muito bem escrito. Simples, directo, franco, nalguns textos até comovente, como aqui e aqui.

E hoje, a Sofia inseriu um mp3 com a voz do meu poeta preferido a declamar um dos meus poemas favoritos. O ficheiro não se consegue abrir ou gravar, mas o que importância pode ter um mero problema técnico em comparação com um post cheio de boa vontade? Nenhuma, é claro.

2004/01/09

O advento

Se houvesse um português, licenciado em Engenharia Civil, pós-graduado em Restauro de Edifícios Classificados, com um MBA pela Católica e um doutoramente em Arqueologia Náutica, se esse português fosse professor numa Universidade americana, morasse no Texas com a mulher holandesa, se fosse um caso patológico de devoção a certos e determinados fósseis e a matérias tão obscuras e esotéricas como a medição dos codos, se esse português fosse perigosamente anarquista e simultaneamente o tipo mais inteligente, culto e alucinado que eu conheço, então esse português teria este blog.

Senhoras e senhores, Luís Filipe Castro.



O corolário

Se o sentimento que mais nos excita é o medo então o sentimento mais antigo que existe é o medo ao desconhecido.

2004/01/08

Oxalá - cap. II

9 de Novembro de 2002, 03:15.
Ao largo do cabo de São Vicente, Portugal


Assim que a lua se escondeu por detrás das nuvens, Nelson Ramirez deu ordem para se parar as máquinas. Tão cedo não haveria luar. Vestido com um casaco de forro polar e um macacão azul-escuro, o comandante filipino abriu a porta da ponte de comando e desceu até ao convés do pequeno navio mercante, onde alguns homens de oleados amarelos se afadigavam em torno de dois contentores.

De mãos fincadas na amurada ferrugenta, o comandante tentou adivinhar por entre as bátegas de chuva tocada a vento, a rota de aproximação da embarcação que esperava há já mais de dois dias. Mais do que adivinhar, o filipino baixo e atarracado quase que invocava a sua presença – algumas horas mais na mesma paragem e cedo as atenções das autoridades se virariam para si e para o Han Prominence. E isso, com a carga que tinha a bordo nesse momento, não seria nada bom.

De repente, o vento amainou e a chuva aligeirou. Ao longe, por entre a vaga cavada, surgiu como que por magia o casco elegante e afilado de um iate de cruzeiro, a navegar à sua velocidade máxima. Os músculos tensos das costas descontraíram-se e o comandante sentiu uma imensa onda de alívio percorrer-lhe o corpo. A longa espera terminara, finalmente.


Pharos



Dizia Manuel de Castro que:

As tuas mãos - ponte para o deserto
como um perdido farol de vegetais marítimo perante as ruínas de um arco triunfal –
desfazem-se numa lenta poeira de saudade
e são a perfeita indicação topográfica do meu quotidiano reencontro com a morte


Esqueçamos as mãos, o deserto, a saudade e a morte. Olhemos para o farol.

Farol é uma palavra que designa uma construção que tem tanto de mágico como de místico. A sua missão foi, e é ainda, a de guiar e avisar, pela sua referência e posição, a quem no anda mar, de dia e de noite - um farol é, sem dúvida alguma, uma necessidade para os navegadores, seja de dia enquanto marca inconfundível na costa ou de noite com uma luz que avisa e afasta dos perigos ou que denuncia um abrigo das intempéries.

Desde tempos imemoriais, um farol foi sempre ninho de inspiração para poetas, testemunha de salvamentos e reencontros, consolo dos perdidos e esperança nas tempestades. Cada farol é um nodo onde histórias, encontros, incidentes, aventuras, descobertas, contrabandistas ou piratas se cruzam e entrecruzam no fabrico da realidade.

O mais antigo farol de que há notícia ficava na ilha de Pharos defronte de Alexandria, no Egipto. Era uma estrutura em mármore branco, mandada construir perto do ano 300 a.C. por Ptolomeu Filadelfo. Este farol primevo serviu de modelo a muitos outros na antiguidade, tendo sido destruído por um sismo em 1326. Depois dos fenícios e gregos, também os romanos construíram faróis por todo o seu império, desde o farol de Bolonha, na Gália até à torre de Hércules, na Corunha - ainda hoje em funcionamento.

Em Portugal, embora o primeiro farol se tenha acendido em 1520, no alto da torre do Convento do Cabo de São Vicente, a sinalização marítima foi praticamente inexistente até ao reinado de D. José I - a pouca que havia era da responsabilidade de particulares, que ora acendiam fogos nos pontos mais altos ou visíveis para aviso e orientação ora os acendiam de modo a fazer esmagar os navios contra os baixios ou falésias, no intuito de assaltar os náufragos: Ferrel, perto de Peniche, é um exemplo bastas vezes citado.

Hoje em dia, com a automatização da tecnologia de posicionamento e navegação, os faróis tornaram-se quase obsoletos. Agora pouco mais são do que estruturas decorativas, de pé erguidas sobre a rocha, entre o som do vento e o barulho das ondas, o sabor a sal e o cheiro a maresia. É só em alturas de aflição, sempre que tudo o mais falha, que descobrimos que, afinal, o farol sempre esteve lá para nós, monolítico, poderoso, uma ilha de segurança num mar de incertezas e dúvidas.

2004/01/07



Entrega os lábios ao poema. Eu nunca serei o único
pastor do teu silêncio; verás tresmalhados os meus versos
nas páginas de um dicionário, dispersos por nocturnas
paisagens deserdadas. Falo-te da eternidade, mas sei apenas
que habitamos plataformas movíveis em clivagens ontológicas.

Somos, na verdade, realidades imersas numa insónia prolongada
em que coleccionamos coisas obsoletas como cartas de amor.


José Rui Teixeira
Para morrer
Edições Quasi (2004)


Matador



Esperame en el cielo. corazón
si es que te vas primero,
esperame que pronto yo me ire
alla donde tu estas.

Esperame en el cielo, corazón,
si es que te vas primero,
esperame en el cielo, corazón,
para empezar de nuevo.
Nuestro amor es tan grande y tan grande
que nunca termina
y esta vida es tan corta y no basta
para nuestro idilio
Por eso yo te pido, por favor,
me esperes en el cielo.
Y alli entre las nubes de algodon
tendras por fin mi amor.

da banda sonora com touros, rosas, sexo e morte do filme Matador, de Pedro Almodovar.



Já tenho saudades...




... de fazer isto em águas mais límpidas que as de Portugal continental: este Verão, se tudo correr bem e se os caçadores de tesouros não chatearem muito, darei um pulinho ao Panamá.

Angra do Heroísmo. Foto de Miguel Correia

2004/01/06

Aviso à navegação

Para que conste: comentários anónimos que impliquem uma intimidade e privacidade que não existe entre comentado e comentador ou que ofendam terceiros não terão cabimento aqui.

De resto, se quiserem dar largas à verve e à idiotice, vociferem e insultem à vontade. Se tiverem hombridade para tal, assinem com email e nome verdadeiro - entre pessoas de honra é sempre bom sabermos a quem dar umas bengaladas virtuais.

Se não tiverem essa hombridade e desde que respeitem a premissa inicial, bom... ao menos que este espaço vos sirva para terapia de descompressão. ;o)

A epifania

Este Rei de grão primor,
Com furor,
Passará o mar salgado
Em um cavalo enfreado,
E não selado,
Com gente de grão valor


O velho sapateiro de Trancoso, o Bandarra, o versejador que tão notavelmente sabia ler e escrever em tempos de Inquisição e obscurantismo, esse epifenómeno de um país que expulsava os Judeus que se deixavam ir e queimava em lume brando os que teimavam em ficar, esse sapateiro dizia eu, terá de, forçosamente, regressar e com ele o Quinto Império e a Paz na Terra aos portugueses da boa vontade.

É quando se escuta aos velhos dizer o que isto precisava era de um Salazar que se diagnostica logo o país no seu melhor estado catatónico e messiânico. É todo um povo sebastianista, de chinela no pé e calça arregaçada à beira-rio, que espera pelo seu Desejado: tal como depois de Alcácer Quibir, ou aquando das invasões francesas - com os patriotas lusos, desesperados, a passar os dias no Alto de Santa Catarina, a ver os navios no Tejo que pudessem trazer a bordo o Ungido - tal como aconteceu com Cavaco Silva na Figueira da Foz, também agora o povo espera e espera, desesperando

E eu digo: nada temais, bom povo meu.

Há-de certamente chegar um Desejado e com ele será varrido para fora deste país tudo aquilo que o impede de ser europeu e modernaço: os especuladores de pão, os pedófilos encartados, as putas de Bragança, os pretos da Guiné, as bichas do Chiado, os corruptos do costume, as filas de trânsito de desesperar, os créditos mal parados, as empresas espanholas, a chuva que estraga as férias de Verão, as dores de dentes, as listas de espera, a Manuela Ferreira Leite, tudo, mas tudo mesmo, aquilo que anda nas bocas do povo e nas páginas dos jornais.

Esperemos para nosso bem que a espera seja curta, para evitar que tal como em 1533 no advento do Profeta do Porto Santo, também nós todos andemos confusos, e espantados, e desconsolados sem comer; e as mulheres deitem ao mar todas as posturas do rosto, sem tractar dos vestidos preciosos, antes os pobres, que trazem, despem, e fiquem em fralda de camisa, como fazendo penitencia, sem comer senão pouco, e em pee.

Tenhamos fé: do céu do Minho, caíram ontem bolas de fogo. Se isso não é um bom presságio, não sei o que será.

2004/01/05

Oxalá - cap. I

14 de Dezembro de 2003. 15:30
Lisboa.


Era Domingo e por sobre a praça banhada da luz clara daquela tarde de Dezembro, uma televisão debitava baixinho uma voz excitada. O homem moreno, de cabelo curto e com barba de dois dias, mantinha-se absolutamente imóvel, transfixo frente ao televisor. Quando as imagens revelaram finalmente um velho desgrenhado de boca aberta perante os olhos do mundo, o homem levantou-se da cama e cuspiu com ódio contra a televisão e aquilo que ela representava.

As mãos tremiam-lhe. Acendeu um Marlboro e deixou-se ficar à janela. Ao fundo, a língua verde do rio escurecia-se com a chegada das nuvens cinzentas que desciam em castelo desde a Serra de Sintra até à barra do Tejo.

Faltavam pouco mais de seis meses e, se havia coisa que Ahmed al-Misri sabia fazer com perfeição, era esperar. Depois de tantos anos de preparação, também nesta etapa final Ahmed seria tão paciente como o falcão que peneira o deserto à caça da sua presa. Também para ele a sua hora chegaria. In Sha´a Allah. E, quando Deus quisesse e ele, Ahmed, fosse o seu instrumento, o Mundo inteiro arrepender-se-ia do que lhe fizera este dia.

O riso

Falemos de humor, aproveitando um mote dado há muito tempo pelo Guerra e Pás e ao qual fiquei de voltar.

Será Portugal um país de humoristas e de gente que se divirta e ria à conta desses humoristas? Não sei, ainda estou para o descobrir. Mas desconfio que a resposta seja genericamente negativa.

As minhas referências em termos de humor são as usuais para um tipo da minha idade: na rádio, o excelente Pão com Manteiga, no ecrã os britânicos Monty Python e a sua Vida de Brian, as Fawlty Towers, o Benny Hill, em francês a filmografia do Louis de Funès e o Tal Canal em português. Nas letras todos os títulos do Douglas Adams – especialmente a quintologia do Hitchhiker’s Guide to the Galaxy, Tom Sharpe, bem como todos os Terry Pratchet.

E porque vou eu buscar este arrazoado de referências feito? Porque quando se está habituado a carninha do lombo sofre-se bastante mal uma dieta à base de torresmos e ossos esquírolados. Pelo menos é assim que eu me sinto hoje em dia sempre que olho para o panorama do humor em português.

Olha-se para o lado e vê-se um Herman José ancilosado, burguês e decadente, um parolo oxigenado, abichanado e boçal, a debitar patacoadas para as quais já não se tem paciência ou tolerância.

É-se esmifrado em mais vinte cêntimos pelo Público de sexta-feira para se levar para casa um suplemento supostamente humorístico que não é mais do que um plágio descarado a isto e isto, com o ónus de ser nada mais do que lastro de jornal a arremedar ao blog, insonso e insípido. Também isto já foi dito aqui.

Vê-se um puto magro, incensado como a nova promessa do humor nacional, a engasgar-se repetidamente até à náusea com a charla do homem do bolo, convencido que é um óptimo stand-up clown e que nos escangalhamos a rir com a sua postura confrangedora. Depois, há um inarrável Nuno Markl – pelo amor de Deus, até sofrer uma laparoscopia é mais engraçado do que ouvir este bisonho! – e umas produçõezitas bacocas como os Malucos do Riso e o Levanta-te e Ri.

E o que há é isto. O humor em Portugal é o espelho do país: é pobre, confrangedor, brejeiro e comezinho.

Valha-nos os Ena Pá 2000 e o excelso Manuel João Vieira. Afinal, o que nos faz mesmo falta é não nos levarmos (muito) a sério.

2004/01/03

Vita brevis

Se tu me tocares aí se tu me provares com a tua boca sim é quente é preciso que me pressiones mais que me sintas que me toques mais que me cheires viscoso liquído não é sexo não é que pensavas que fosse não é sequer erótico é sangue sangue da minha carne que sabe a cobre que sabe a fel a verdade meu amor é que quando tu me tocares quando tu me provares com a tua boca quero apenas que me devores somente.

2004/01/01

A dissolução

E o que é a vida? A vida não é mais do que o pagamento em prestações cada vez menos suaves da nossa dívida ao tempo que passa.

Viver é ir abatendo, dia a dia, aquilo que no rol dos anos ainda nos falta cumprir, um e mais um e mais outro ano, até que de repente nos descobrimos com a dívida saldada, finalmente solventes.