2004/04/30

大海





Não gosto nada da minha caligrafia. Pensando bem, acho que é a coisa que mais me desgosta em mim. Desde miúdo que a minha letra é assim, gatafunhada, asmática, torta, feia. Contam-se pelos dedos de muitas mãos as vezes em que me debrucei sobre um escrito qualquer meu, na vã tentativa de deslindar o novelo das linhas erráticas que, em ziguezagues sumidos, teimavam em esconder do próprio autor o seu sentido, o seu significado.

O papelucho pespegado acima é paradigmático: escrito à pressa numa aula de mandarim, apresenta a letra da primeira canção chinesa que tive que aprender a cantar de cor e salteado. É o 大海 - Grande Mar, em português - uma composição tradicional do Império do Meio, interpretada nesta versão por um coro militar feminino (para quem a quiser gravar, pode encontrá-la aqui).

Para além da caligrafia atroz, a própria tradução é francamente má. Como desculpa, poderia alegar a pressa, as costas da cadeira onde anotei a letra enquanto ouvia a gravação, poderia alegar tudo e mais alguma coisa. Mas, sendo o chinês esta língua telegráfica em que mais importantes do que o 'eu' ou as pessoas, são os objectos ou a Natureza, e não me conseguindo mesmo decidir sobre como melhorar a coisa, acabo por concluir que o velho aforismo que nos diz que tradutori, traditori é, afinal, bem verdadeiro.

De qualquer modo, adoro esta canção. Dou bastas vezes por mim a assobiá-la ou a trauteá-la no metro ou no comboio, plenamente inconsciente de que o faço. E, acreditem-me: assobiar isto em público é uma das melhores maneiras de deixar siderados os chineses que se cruzam connosco nas ruas de Lisboa.

amar-me-ias quando estou só?

ou
dar-me-ias
a tua boca violenta,
crua
a tua dor
surda, amarga,
os teus olhos
como borboletas
de asas partidas,
quebradas em duas,
trucidadas
sobre as pedras da calçada,
sob os pés da criança rude,
da criança febril,
faminta?

ensinar-me-ias
a dor, o medo
da loucura,
o medo
da tua ausência
quando me amas,
quando estou só?


2004/04/29

No more I love you's



I used to be lunatic
From the gracious days
I used to be woebegone
And so restless nights
My aching heart would bleed
For you to see
Oh but now...

I don't find myself bouncing round whistling and fortunes to make me cry

No more I love you's
The language is leaving me
No more I love you's
Changes are shifting outside the word

The lover speaks about the monsters

I used to have demons
In my room at night
Desire,despair,desire,
So many monsters
Oh but now...

I don't find myself bouncing round whistling and fortunes to make me cry

No more I love you's
The language is leaving me
No more I love you's
The language is leaving me in silence
No more I love you's
Changes are shifting outside the word

They were being really crazy, they were on the come. And you know what mummy? Everybody was being really crazy. Uh huh. The monsters are crazy. There are monsters outside.


Detesto a Annie Lenox dos Eurythmics mas gosto muito de a ouvir nesta cover dos Lover Speaks.

ou o mar começa
ou a terra se acaba.
hei-de lançar navios

- patachos, barineis
tartaranhas, fragatas
e o mais que te aprouver -

caravelas mexeriqueiras
a desfazer a dúvida
o velame branco,
erecto, adormecido
sobre o desejo.

2004/04/28

amor

digo o teu nome e há instantes, assim, inertes, lívidos.

digo amor e há aves que partem, breves, ansiosas.

2004/04/27

.38 special

Personifico-te no corpo gordo do passageiro à minha frente. Aturdido, vejo nele um sofrimento que podia ser meu.

Digo-lhe 'para a morte e para o sol, não se olha nunca de frente'. Aceno-lhe. Pisco-lhe o olho. Do gesto maquinal resulta a pressão familiar no gatilho. Os estampidos soam fortes no interior da carruagem desabitada. Um, dois, três, quatro, cinco, seis, click, click. O cão do percurtor bate-lhe, seco, no corpo inerte.

Click, click.

Cessaste de ser.

Click, click.

2004/04/26

Down memory lane #1

"Saudai o Sol que desponta sobre um ridente porvir"

Não gosto do hino português.

Nascida no cadinho impotente do Ultimato Britânico e do Mapa Cor-de-Rosa, fruto da verve de Henrique Lopes de Mendonça e da sonoridade de Alfredo Keil, A Portuguesa é uma canção patrioteira, um pot-pourri de termos oitocentistas, a ressumar sentimentalismo, que pouco me diz ou me emociona.

E depois, há aquele romantismo suicidário - em que o "Pela Pátria lutar, contra os canhões marchar, marchar!" cheira a carga da Brigada Ligeira a mais e a pragmatismo a menos - e aquele palavrão - egrégio - que, para quem não sabe, deriva da expressão latina que designa a ovelha selecta do rebanho. São tudo mariquices, emitidas da pena de um tipo que até escreveu, pelo menos, uma coisa de jeito: o "Estudos sobre navios portugueses nos séculos XV e XVI", bem mais ao meu estilo. Por algo devemos estar gratos, contudo: no meio de tanta miséria literária, valeu-nos Deus que, ao iluminar os republicanos de 1910, fez cair no esquecimento as outras duas estrofes que ainda são mais lapuzes do que a primeira.

Não gosto deste hino. E é pena. Se pudesse, escolheria outro. O francês, por exemplo. Há lá coisa mais emocionante do que ouvir os alemães que cantavam o Die wacht am Rhein no Rick's Café do Casablanca a serem progressivamente emudecidos pela Marseillaise, berrada a plenos pulmões pelos habitués du coin?

Ou o russo. Havia lá coisa mais bonita do que ouvir o hino russo, aquele de 1944, enquanto se via a bandeira da CCCP subir no mastro dos Jogos Olímpicos?

Ou o italiano. Como esquecer a vontade de chorar de emoção depois de ouvir o hino italiano, genialmente cantado por 90 escuteiras e escuteiros italianos, numa noite de chuva no meio de uma mata em plenos alpes suíços, com direito a um divinal peron-pom-pom, num final nunca sonhado por Mameli?

O hino português? Não me façam rir. Um hino nascido de um acto falhado, apelando às marchas contra os canhões ingleses, enquanto o Portugal real se ajoelhava e baixava as calças ao ultimato inglês, não passando de vaselina untada à pressa de modo a mitigar a dor, não pode ser um bom hino - infelizmente, a portugalidade serôdia também passa por aí.



iluminados pela noite
os pássaros voltam a casa.
sabem de cor os caminhos,
a cadência das estrelas
guiando-lhes as asas,
rasgando o azul escuro
como foices,
fossando na sombra
como porcos.


Castelo Rodrigo, Fuji Velvia 50

25 de Abril. Sempre?

Aparentemente, as práticas jornalísticas ainda não bateram no fundo. Soube-se esta semana que três jornalistas do jornal "O Primeiro de Janeiro" foram despedidos devido às denúncias que fizeram no seu blog.

Gosto de pensar que ainda existe a chamada justiça poética. Enquanto estavam empregados, os jornalistas detinham um blog que seria, eventualmente, pouco visível. Depois de despedidos, a bola de neve cresceu e engrossou. Não só o blog e o que nele está escrito se disseminou como fogo em estepe seca, como também e por consequência o jornal em causa comeu por tabela.

Aparentemente revelada a perda daquilo a que se um jornal que se pretende de referência mais almeja, a credibilidade e a independência, resta-lhe a eles, administradores, a vergonha; a nós um outro acto de censura: não comprar, em caso algum, o Primeiro de Janeiro. Afinal, o povo (ainda) é quem mais ordena.

Pente dois

Ver os soldados portugueses das décadas de 60 e 70, a preto e branco, com aquele ar de transplantados das berças de Trás-os-Montes, no seio da grande sanzala africana, dizendo, muito hirtos e tímidos, "Adeus até ao meu regresso", faz-me sentir vergonha de, após quatro anos de tropa, tudo o que tenho a apresentar como trauma é a necessidade absoluta que sinto em ter o cabelo eternamente curto.

Já não fui a tempo de ir à guerra. E ainda bem.

2004/04/25

E depois do adeus



Às 22.55 do dia 24 de Abril de 1974, as antenas dos Emissores Associados de Lisboa transmitiam a canção "E depois do Adeus", interpretada por Paulo de Carvalho - estava dado o ínicio das operações militares.

Poucos minutos depois, nascia o dia 25 de Abril e dizia-se adeus ao regime fascista.

2004/04/24

Kill Bill, Volume 2



Ontem, foi noite de ante-estreia da segunda parte do Kill Bill, do Quentin Tarantino.

Facto I: quem não viu o primeiro, escusa de ir ao segundo. Este volume segundo NÃO é uma sequela: é mesmo a metade que falta ao volume primeiro.

Facto II, corolário do Facto I: quem viu o primeiro volume, TEM que ir ver o segundo.

Facto III: à excepção do trecho onde entra em cena Pai Mei, na Montanha do Lótus Branco, esta segunda parte é mais filme do que a primeira parte. As interpretações da Uma Thurman e do David Carradine estão geniais.

Facto IV: os olhos da Uma são soberbos. De resto, é uma mulher por vezes bonita - mas não mais do que isso.

Facto V: o Quentin é um idiota. Matou a Lucy Liu logo na primeira parte, negando-nos agora o prazer da sua companhia.

Conselho I: se for claustrofóbico, EVITE ver a segunda parte. Ou então, treine bem o pulso de encontro a uma porta blindada.

Conselho II: estreia dia 29 de Abril.

2004/04/23

Aromaterapia



Ele há cheiros assim, que nos arrancam da rua conspurcada por onde passamos na altura e nos transportam para longe, para outro país, para outras épocas, para outras idades.

Por exemplo, este cheiro, em particular, nada tem de especial.

Se o tivesse de definir, diria que é uma mistura em partes iguais de água e óleo fino, com um bouquet subliminar, olorífico, a sal requentado e a peixe do rio. É o cheiro do passado, a súbita e plena consciência da minha história, o livro completo ou quase a completar do fecho de contas, a sensação de que nada há para a frente, que o futuro se esgota e amarrota perante o peso cada vez maior do passado.

Cheirei esse cheiro e comecei a pensar em direcção a coisa nenhuma, evitando constantemente a memória do passado, querendo apenas pensar sobre o futuro, como se ele, afinal, fosse ainda uma caixa de surpresas e esperanças recompensadoras, como se as imagens do futuro me insuflassem uma nova vida e esconjurassem a morte.

É o cheiro do dia em que dei início a um processo lento de apagamento de memória. Abandonei a casa e o emprego, mudei de cidade, deixei para trás os livros, o café e os amigos. Abandonei a família. Dei um novo corte ao cabelo e deixei crescer a barba.

Não queria regressar. Nunca tinha andado tanto a pé. Primeiro, hesitava entre os caminhos, quando chegava a um cruzamento, depois deixei de hesitar. Apenas sabia que de manhã queria enfrentar o sol e à tarde queria caminhar a seu favor, sentindo-o a bater nas costas. Nos dias mais cinzentos fazia uma paragem e dormia. O meu único consolo era saber que ia deixando a minha história para trás de mim, como uma cobra que largasse a pele. Sabendo-o, não parava nunca de caminhar.

Conheci gente que apenas conhecia de ouvir dizer. Vi lugares que não vêm no mapa. Por onde passei, deixei apenas um gesto, um aceno ou uma paragem breve. A minha pressa era a minha demora, o corpo a fazer-se de novo à estrada, automático.

Finalmente desfiz-me dos meus documentos pessoais, lançando-os de uma ponte (já vira vezes sem conta essa imagem no cinema; o rio cheirava ao mesmo a que este cheira agora).

Por fim esqueci-me do meu nome. Ninguém precisava do meu nome. Eu próprio já me começara a esquecer de mim mesmo - muitas vezes tinha que me sentar à beira do caminho, quando sentia que se atrasara aquilo que sobrava de mim próprio - até que percebi que o que pretendia era precisamente o inverso.

Percebi que, de tanto esquecer, só algo ficara, imutável, perene. O saber que te quero, hoje, mais do que ontem.


Kachanamburi, Tailândia. Fuji Sensia 100.


A revolução

Camus dizia que qualquer percurso revolucionário terminava sempre em opressão ou em heresia.

De opressão, nada sei. Sei apenas que a heresia costuma ter outro nome: liberdade de expressão.

2004/04/22

Interlúdio

Ando a fazer o test-drive do email do Google, com uma caixa de 1 Gigabyte. Até ver, recomenda-se entusiasticamente.

2004/04/21

O naufrágio nas Flores do Nuestra Señora de las Angustias y San José (1727)



Ainda mal entrara o ano, e já 1727 se apresentava de mau augúrio para o capitão Don Juan Hernandez Arnal. Desde 24 de Janeiro de 1727, dia em que o galeão espanhol Nuestra Señora de las Angustias y San José largara ferro do porto de Santa Cruz de Havana, em Cuba, em conserva da armada do Tenente General Antonio Castañeta, e por mais de uma semana, atrasos vários haviam afligido a frota, complicando as manobras e a navegação.

Para cúmulo, a 5 de Fevereiro, pelas alturas da latitude do estreito da Florida, o mau tempo levara a que o galeão se achasse separado do resto da frota, num prenúncio do que ainda estaria para vir. Com efeito, um pouco antes de atingir as Bermudas, o recrudescer do temporal fez com que o galeão ficasse sem a cabeça da árvore maior, o mastaréu, as enxárcias e a roda do leme. Ajoujado com parte do espólio anual de ouro e prata das minas de Potosí e do México, o Nuestra Señora de las Angustias, manquejou Atlântico adentro, sempre açoitado pelo vento.

Já na paragem dos Açores, o galeão sofreu o golpe final. Cansados de tanto vergar, os mastros do traquete e do gurupés cederam, perdendo-se também as respectivas enxárcias e velas. Movida apenas à custa da vela principal do mastro grande, a embarcação deu o último suspiro, abrindo fendas no cavername e fazendo água aberta. De modo a evitar o afundamento, a tripulação aterrorizada alijou borda fora toda a artilharia e demais objectos pesados, onde se incluíram as âncoras e os projécteis de ferro que traziam a bordo.

Milagrosamente no dia 27 de Fevereiro de 1727- talvez por intercessão directa da Virgem, a quem os 180 passageiros se dirigiram ferverosamente em preces durante a toda a tormentosa viagem - o Nuestra Señora de las Angustias e San José amainou, em pleno temporal, à costa sudoeste da ilha das Flores, pairando defronte da Ribeira do Loureiro. Perante os pedidos de auxilio da parte dos espanhóis, um piloto do porto das Lajes das Flores subiu a bordo, ancorando o navio na baía defronte da vila. No entanto, devido à escassez de âncoras, de que o galeão vinha falto, o mau tempo acabou por fazer derivar o navio para o largo onde acabou por se afundar com quasi todo o precioso da sua carga.

Como reconhecimento pelo milagre divino responsável pela sua salvação, dois passageiros ilustres do galeão, a senhora D. Francisca Alfonso Mogravelo laço de La Veiga, viuva de D. Guilherme de Lavelloes Briga Diez, dos Escritos Reaes de El-Rei Catholico e governador do real castello de S. Juan de Ulva, espector General da Nova Hespanha; e o fidalgo D. José Dias de Quitiana, ambos hespanhoes moradores na cidade de Cadix da provincia d’Andaluzia do reino de Hespanha, resolveram doar duas mil patacas ao convento de São Boaventura de Santa Cruz das Flores, para a construção de uma capela nas Lajes.

A escritura da doação, assinada pelo tabelião Manuel Furtado de Mendonça a 2 de Maio de 1727 em casa do Capitão Mor Diogo Pimentel de Mesquita, teve como testemunhas o Padre Cura António Cardoso Fagundes e o Sargento Mor Roberto Pimentel de Mesquita. Os beneficiados foram representados pelo Sargento Mor da vila de Santa Cruz, João Pimentel de Mesquita, que era simultaneamente síndico do Convento dos religiosos de São Francisco e pelos padres Frei João da Trindade e Frei Dionísio das Angústias.

Como dotação para a futura capela, dedicada a Nossa Senhora das Angústias, os beneméritos entregaram imediatamente uma imagem de Nossa Senhora das Dores, que tinha vindo a bordo do galeão naufragado, comprometendo-se a fazer vir de Espanha as imagens do arcanjo São Miguel, São Francisco Xavier, Santo António, São José e São Francisco de Assis. Em contrapartida, os padres aceitantes da doação comprometiam-se a celebrar quatro missas cantadas todos os anos, uma a 27 de Fevereiro, em honra de São Leandro, arcebispo de Sevilha, outra no dia do Patriarca São José, outra no dia de Nossa Senhora das Dores e a última no dia do Príncipe da Milícia, Senhor São Miguel. Sinal da boa condução do contrato, a edificação da capela da Nossa Senhora das Angústia, nas Lajes das Flores, deu-se por concluída dois anos depois, em 1729.

A administração desta capela coube desde sempre à família Pimentel de Mesquita, tendo sido a sua última proprietária Amália de Mesquita Pimentel. Actualmente patromónio da Câmara Municipal de Lajes das Flores, é possível observá-la do exterior, no pequeno cemitério da vila. Encontra-se encerrada ao público, ostentando uma enigmática placa, orientada a norte, onde se pode ler a seguinte inscrição: “DPDMP 1729” (D[iogo] P[imentel] D[e] M[esquita] P[?]?)

Facto curioso: a crer em certos autores contemporâneos, a chegada do galeão espanhol trouxe não só a referida soma de dinheiro para as obras religiosas da ilha, como também o contágio da sífilis. Com efeito, o capitão Georges Foster, que acompanhou Cook na sua viagem de circum-navegação de 1772 a 1774, refere-se às mulheres florentinas, dizendo delas que, obcecadas pelas riquezas salvadas desembarcadas, teriam mantido contactos demasiado íntimos com os tripulantes espanhóis do Nuestra Señora de las Angustias donde resultou uma enorme epidemia em toda a ilha com as funestas consequências daí advenientes.

A carta aberta à Ministra

Vale a pena ir ao Professorices, ler a carta aberta do JVC à Ministra das Ciências.



Já agora...



... aproveita-se esta ideia, mas sem o trono, e cá está o arame a banhos.

2004/04/20



É óbvio, é cristalino, que desejo o teu corpo, que o desejo como se ele fosse uma seara coalhada de melros negros, como se da raíz de cada caule até à extremidade de cada espiga a sua finalidade última não fosse mais do que a de arder, a cinza rasteira, luminosa, ao sol da manhã.


Guincho, Kodak Tri-X 400



2004/04/19

Para acabar de vez com a literatura

Corria o ano da graça de 1939. Numa noite argentina, num quarto em Buenos Aires, três escritores conspiravam no sentido de compilar o manual perfeito sobre o que NÃO escrever em literatura.

Silvina Ocampo, Jorge Luis Borges e Adolfo Casares queriam, simplesmente, agradar aos leitores que vêem num livro, não um objecto de prazer, mas sim um objecto de crítica e censura. A lista produzida sistematiza tudo aquilo que qualquer obra que se pretenda literária terá de evitar:

1. As curiosidades psicológicas e paradoxos. Exemplo: assassínios causados por bondade ou suicídios devidos a contentamento;

2. As interpretações demasiado inconformistas de obras ou de personagens famosas. Exemplo: descrição da misoginia de Don Juan, etc;

3. Emparelhar personagens grosseiramente dissimilares ou contraditórias, como, por exemplo as duplas Don Quixote/Sancho Pança, Sherlock Holmes/Dr. Watson, etc;

4. Romances com personagens gémeas, idênticas, como em Bouvard e Pécuchet. Se o autor inventa um traço particular para uma, é forçado a inventar outro para a outra;

5. O costume de caracterizar a personagens através das suas peculiaridades, como fez, por exemplo, Charles Dickens;

6. Qualquer coisa nova ou espantosa. Os leitores civilizados não se divertem com a descortesia de uma surpresa;

7. No decorrer da narrativa, recorrer a jogos extravagantes com o tempo ou com o espaço, como o fazem, por exemplo, Bioy Casares, Borges e Faulkner;

8. A descoberta de que, num romance, o verdadeiro herói é o mar, a pradaria, a selva, a chuva ou o mercado de capitais;

9. Poemas, situações ou personagens com as quais – Deus não o permita! - o leitor se possa identificar;

10. Frases que se possam tornar provérbios ou citações, já que são incompatíveis com uma obra coerente;

11. As personagens capazes de se converter num mito;

12. As frases, ou descrições intencionalmente ligadas a um determinado lugar ou a determinada época; ou seja, o ambiente local;

13. A enumeração caótica;

14. Um vocabulário rico. Sinónimos. Le mot juste. Qualquer tentativa de precisão;

15. Descrições muito vivazes, mundos plenos de detalhes físicos, como em Faulkner;

16. Cenário de fundo, ambiente, atmosfera. Calor tropical, embriaguez, a voz no rádio, frases repetidas como refrões;

17. Princípios e finais metereológicos. Falácias patéticas. Le vent se lève! Il faut tenter de vivre!;

18. As metáforas, em geral e, em particular, as metáforas visuais. Mais concretamente ainda, as metáforas agrícolas, navais ou bancárias. Exemplo absolutamente desaconselhável: Proust;

19. O antropomorfismo;

20. A narrativa de romances cuja trama argumental recorde a de outro livro. Exemplo: o Ulysses de Joyce e a Odisseia de Homero;

21. Escrever livros que pareçam menus, álbuns, itinerários ou concertos;

22. Tudo aquilo que possa ser ilustrado. Tudo o que possa sugerir a ideia de poder ser convertido num filme;

23. Nos ensaios críticos, todas a referências históricas ou biográficas. Evitar sempre as alusões à personalidade ou à vida privada dos autores estudados. Sobretudo, evitar a psicanálise;

24. O estranho: cenas domésticas em novelas policiais; cenas dramáticas em diálogos filosóficos;

25. O previsível: pathos e descrições eróticas nos romances de amor. Puzzles e crimes nas histórias de detectives. Fantasmas nas histórias de fantasmas;

26. A vaidade, a modéstia, a pederastia, a ausência de pederastia e o suicídio.

Abril com "R"

Trinta anos depois querem tirar o r
se puderem vai a cedilha e o til
trinta anos depois alguém que berre
r de revolução r de Abril
r até de porra r vezes dois
r de renascer trinta anos depois

Trinta anos depois ainda nos resta
da liberdade o l mas qualquer dia
democracia fica sem o d.
Alguém que faça um f para a festa
alguém que venha perguntar porquê
e traga um grande p de poesia.

Trinta anos depois a vida é tua
agarra as letras todas e com elas
escreve a palavra amor (onde somos sempre dois)
escreve a palavra amor em cada rua
e então verás de novo as caravelas
a passar por aqui: trinta anos depois.

Manuel Alegre

Blogs de que gosto muito VI

É a nova revelação do Portuguese Blog World, ou a prova em como não é preciso espremermo-nos num post de 500 linhas para sermos contundentes ou agitadores q.b.

2004/04/18

se

se fosse mulher, estaria com tpm
se fosse peão, o sinal estaria vermelho
se fosse taxista, o sinal estaria vermelho
se fosse adolescente, teria agora um ataque de acne
se fosse poeta, estaria a ser convidado para ser autarca
se fosse soldado, estaria neste momento sob fogo inimigo
se fosse escritor, estaria às voltas com uma folha em branco
se fosse informático, a minha rede estaria com um vírus novo
se fosse médico, ter-me-ia morrido alguém, há instantes, nas minhas mãos
se fosse polícia, ao virar da esquina estariam três meliantes de arma aperrada
se fosse marinheiro, o scirroco estaria a impelir-me o navio de encontro às rochas
se fosse empregado de mesa, estaria a entrar no turno das seis até à meia noite e meia
se fosse condutor, estaria agora preso no trânsito, com três acidentes gravíssimos à minha frente
se fosse astronauta, a minha nave espacial estaria a cinco segundos de se desintegrar na atmosfera
contudo
como sou apenas quem sou,
tenho o que tenho,
sou como sou.

2004/04/17

Essence

Baby, sweet baby, you're my drug
Come on and let me taste your stuff

Baby, sweet baby, bring me your gift
What surprise you gonna hit me with

Baby, sweet baby, whisper my name
Shoot your love into my vein

Baby, sweet baby, kiss me hard
Make me wonder who's in charge

I am waiting here for more
I am waiting by your door
I am waiting on your back steps
I am waiting in my car
I am waiting at this bar
I am waiting for your essence

Baby, sweet baby, I wanna feel your breath
Even though you like to flirt with death

Baby, sweet baby, can't get enough
Please come find me and help me get fucked up

Lucinda Williams

2004/04/16

Do livro dos provérbios anónimos

Se alguém te ofender, não procures vingar-te. Senta-te na margem de um rio. Em breve verás o seu cadáver a passar, levado pela corrente.

É fácil reconhecer um pioneiro: é sempre aquele que jaz morto, no pó da planície, com uma seta índia embebida nas suas costas.



a máquina dos sonhos em curto-circuito

Carrinhos Matchbox

Chegou também ao quintal o Inverno,
os ramos são raízes no céu de escuridão.
O homem olha o abandono, as ervas altas
e já não sabe se os pássaros voltarão.
Pega nas chaves do Dodge Daytona
e sente nelas o peso quente do Verão.
Irá correr pela noite e voltará numa manhã,
com o Sol dançando na palma da mão.

Vincent Bengelsdorf

2004/04/15

.contraponto.



que ar tão triste
tem esta praia:
primeiro o mar.
só depois,
muito depois,
o vento, ao longe,
a enfunar a crista das ondas.

talvez um dia,
grão a grão,
concha a concha,
a areia regresse
e traga consigo
tudo aquilo que me deixaste levaste.

(não me consigo decidir pelo final a dar a isto...)



São Martinho do Porto, Kodak Tmax 3200

2004/04/14

Não é nada difícil criar um blog.

É até muito fácil vê-lo crescer durante uma ou duas semanas.

Difícil, difícil mesmo, é mantê-lo gordo, anafado e luzidio, mês após mês. Isto, por vezes, nem a golpes de ginginha do Rossio vai lá.

.a mão.

a mão.
é esta a mão.
a mão que se escurece
no escuro do escuro do teu corpo.
é esta a mão, esta pequena mão,
que cheira a giestas, a sal, a suor,
esta fremente e ruborizada mão,
esta mão que cheira a mar
ao mar da tua mão,
da tua mão
desta
mão

A ciência em Portugal - case study II

Enquanto o estado (miserável) da ciência universitária tem sido discutido aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui, o Governo, qual diligente obreiro, não tem parado descansado.

Quando o quadro parecia bem negro - recorde-se que, na semana passada, um parecer do Conselho dos Laboratórios Associados afirmava, preto no branco, que o emprego científico em Portugal não dava sinais de evoluir de forma positiva - eis que se soube hoje que, numa medida aparentemente metida a martelo para resolver o problema da "fuga de cérebros", o Estado português se prepara "optimizar meios humanos e materiais", num verdadeiro "desígnio nacional", de modo a que haja um complemento, para despesas de investigação, atribuído a cientistas portugueses no estrangeiro que regressem a Portugal, desde que estes preencham certos critérios (100 artigos científicos publicados e mais de 200 citações!).

Não me façam rir. Destroem-se por dentro instituições como o Instituto Português de Arqueologia e o Instituto Geológico e Mineiro, duas das entidades das mais crediveís, a nível internacional, na sua área, com iniciativas e publicações verdadeiramente pioneiras, e depois vem-se, com paninhos quentes, calar os amargos de boca de uns poucos e tentar tapar os olhos de muitos.

E depois, 100 artigos??

Razão tem este astrónomo holandês: cem artigos é imenso. Se a ideia é combater a fuga de cérebros, desta maneira vão trazer de volta quem? Estas pessoas já estão muito lançadas na carreira. Quem tem 100 artigos, ou não faz mais nada na vida, ou já está no fim da carreira, e tem emprego fixo. E vêm para Portugal por uma bolsa? Além disso, teriam de encontrar um emprego, mas as universidades não estão a contratar ninguém.

Depois do Circo Roseta, a palhaçada chegou às Ciências.

In memoriam?

Este post é para todos aqueles que choraram baba e ranho aquando da morte do Miki Féher.

Ainda se lembram dele? Sim, daquele tipo alto e loiro, aquele que morreu ainda não se sabe muito bem do quê - ou não estivéssemos nós em Portugal, o país da culpa defuntamente solteira - e que gerou todo aquele sururu e chorrilho de comentários aqui neste blog?

Ainda se lembram dele ou já passaram a grande esponja do esquecimento sobre a coisa e o assunto, seguindo agora em frente, sempre para diante, esquecidas que estão as lágrimas e o choro convulsivo?

Em todo o caso, para além de espicaçador de memórias, este post tem outros dois desígnios: uma consideração e uma pergunta:

- a consideração: já se aperceberam bem que é nesta altura, em que o degelo se instalou definitivamente na tundra húngara, que os processos de decomposição estão no seu máximo esplendor? Adtende homo, quia pulvis es et in pulverem reverteris.

- a pergunta: se, como se escreveu por aí, ad nauseam, Deus só leva os que mais ama, isso significa que nós, aqueles que ainda estamos por cá, somos os menos amados por Deus?

Mais boas notícias

"Os invencíveis e heróicos trabalhadores da nova ordem musical, os honráveis “Ena Pá 2000” vêm agora dar ao povo, como pacotes de coca a dar à costa, um novo disco prenhe das mais saudáveis ideologias.

É o canto do homem novo, da heróica lagosta proletária que nunca desiste nem depois de morta e comida pela burguesia.

Todos sonhamos com um mundo melhor, um lugar na terra; pois bem: Os amanhãs voltaram a cantar. Nas primeira fileiras da longa marcha contra a globalização dos grandes “trusts” multinacionais ainda há os que não se vendem, os que prosseguem a luta para a caramelização das gardénias, o talibanismo de rosto humano e o Estalinismo de rabo humano, combinado com uma tiara de seios de chocolate!"

Lançamento do novo disco no dia 28 de Abril, pelas 22.30, no Café Teatro Santiago Alquimista na Rua de Santiago, 19 (junto ao Castelo de S. Jorge)

Pré-venda dos bilhetes a 10 euros: Tel. 218 820 259 ou para o email santiagoalquimista@iol.pt

Para mais informações: babaloo@enapa2000.com


Boas notícias

Hoje, na RTP 1, pelas 00.45, o Buffalo 66, do Vincent Gallo.

2004/04/12

Posts futuros

Em como se narrará a falta de pachorra que há em ler ou ouvir aquilo que perora o possidónio psiquiatra-da-prole-adolescente-da-pequena-e-média-burguesia Daniel Sampaio, fruto de uma quezília pessoal nos idos do ano da graça de 1998 bem como se irá desmontar a fábula de que a música que o canastrão julga tocar com maestria não passa, afinal, de uma crise de meia idade mal coberta por uma capa rota, costurada a remendos de jovial alegria juvenil.

two suns in the sunset



the final cut, pink floyd


Marginal, São Pedro do Estoril, ontem, digital

Blogs de que gosto muito V

O dia cheirava a terra molhada, ao amanhecer. Há algum tempo que sei que esse perfume rústico é produzido por uma bactéria e que essa bactéria se chama streptomyces. Sabê-lo, porém, não faz de mim um homem mais sábio ou melhor. Preferia sentir mais vezes o cheiro da terra, acordar com ele todas as manhãs e, ignorando a existência das bactérias, absorver o mundo pelas narinas, pelo olhos e pelos ouvidos. Remexer a terra com as mãos e senti-la minha sem que nenhum título de propriedade o atestasse. Saber que existem horas, minutos e dias, mas medi-los apenas pela passagem do sol no céu azul.

Gosto disto. Gosto de saber que existem escritores que conseguem - ao contrário de tantos outros putativos candidatos à qualificação que pululam por aí (São Mateus é que a sabia toda: multi sunt vocati pauci vero electi...) - ser tão bons ou melhores no deve e haver do dia-a-dia do que aquilo que revelam através do que já têm escrito e publicado.

Este blog é muito, muito bom. É, diria mais, imprescindível.

2004/04/10

Esta foto auto-destruir-se-á daqui a 90 minutos.

São 05:30 - em vez de escrever algo e ser produtivo, a minha noite foi feita a jogar isto, online, e a ver isto ad nauseam.

Não me posso esquecer de não dormir até tão tarde para não ficar assim, insomne, catatónico.

2004/04/08

Mais fotografia em português




A fotografia da Joana. A não perder. Aqui.

A vacuidade do umbiguismo

Hoje haveria muito o que escrever: a continuação da saga das massagens, um texto enorme sobre a questão da fuga dos 'cérebros' portugueses para o estrangeiro, com referências várias e citações de partes interessadas, um ou outro conto e, quiçá, dois ou três postbytes.

Um sistema de acesso à internet bloqueado toda a santa manhã, uma intervenção inopinada num daqueles dentes escondidos, cheios de raízes e nódulos, que me deixou a babar sangue e saliva como um pugilista amarrotado em pleno ringue e uma lassidão idiota foram os responsáveis por um 'silêncio postal' que terá, eventualmente, o seu fim mais logo - não que isso interesse a alguém: aprendi há muito que estas explicações, estes textos fúteis, nem a mim me interessam.

Entretanto, fica aqui escrita a verdade do dia: os meus, a mim virão.

Posts futuros

"Será que Portugal precisa de apostar na ciência para se manter competitivo no mercado internacional? Acharão os Portugueses que isso de ciência é para os paises ricos?

O que pensam os portugueses do seus investigadores?

Têm qualidade? Mostram trabalho? São uns parasitas?"

Esta discussão. Brevemente. Aqui.

2004/04/07

As massagens II

Reconfortado o estômago, resta-nos flanar pela cidade dos Anjos. A pé, de tuk-tuk, de samlor ou numa songthae, o que interessa é calcorrear ao máximo as ruas congestionadas por pessoas, carros e elefantes.

Ziguezagueando por entre os polícias de mascarilha na boca – poluição oblige - há que ir aos locais onde corre sem restrições o sanuk - um termo tailandês equivalente ao espanhol la movida. E que melhor lugar para o experimentar do que no bairro chinês de Pahurat?

E é aí que, por entre ruelas esconsas e claustrofóbicas, assomam indivíduos magros e atléticos (agora que me lembro, acho que não topei com mais do que meia dúzia de tailandeses obesos..) puxando-nos pela manga, ciciando por entre dentes manchados de betel a única frase do dia: very good massage, very good.

Escolhido ao acaso um desses lupanares, não há nada como a sensação de se entrar pela porta daquilo que parece ser a entrada para uma garagem, dar três curvas apertadas para a esquerda e descer umas escadas íngremes, até uma pequena salita decorada em tons de fúcsia e vermelho.

Atrás de um vidro perfilam-se umas quantas mulheres, de idade indefinida, aborrecidas ou em vias disso. O cenário é completamente decadente. Na parede uns cartazes de filmes ocidentais rivalizam em espaço com os calendários e as fotografias decoradas com beldades orientais – o gosto extravagante pelos dourados e pelas cores litográficas é comum, aqui por estes lados.

Como o poliglota atarracado ficou lá fora, à superfície, a comunicação agora faz-se por gestos. Depois de um sawadee krap do meu lado e de um sawadee ka, do lado de lá, fico com a sensação que tenho de escolher a massagista. Embora as profissionais não tenham ar de putas (com que se parece uma puta oriental?) o ar vago de bordel sul-americano com que a sala se reveste não deixa de ser ainda mais forte.

to be continued..

2004/04/06

Derrière le mirroir, c'est noir comme des framboises.

Göran Tunström

Notas de Viagem XXIII - Bangkok, as massagens



Se fosse realmente um português dos quatro costados, estaria agora a suspirar por um bom belo bife com batatas e ovo a cavalo ou, em alternativa pascoal, por uma bela posta de bacalhau asa branca, debruada a grão de bico e ovo cozido, a lasca do natatório envolvida por um especioso fio de azeite Gallo extra-virgem, amarelo-gorduroso de tanto lustre.

Como não sou um português dos quatro costados, não suspiro nem me minguo em saudades gastronómicas. Aqui há que comer do que há: uma cozinha à la gardére onde tudo o que há à mão – exceptuando a carne de vaca e de porco – serve para deitar ao tacho.

Por toda a parte, pequenos atrelados estacionados na berma do passeio, meio dentro, meio fora das estradas por onde passam, vertiginosos, automóveis, carrinhas pick-up de marca sul-coreana e motas japonesas, marcam pontos de encontro a pequenos grupos de tailandeses, a qualquer hora do dia ou da noite.

É ali que se vende, por um punhado de bahts – um euro, euro e meio – uma refeição completa, a consumir de faca e colher. Na tigela apresenta-se o arroz, o sempiterno arroz branco – não é de admirar que comida em tailandês se diga ‘gab kao’; literalmente, ‘com arroz’ – à volta do qual se dispõem os seus infinitos acompanhamentos: peixe do rio frito e regado com nam pla ou com nam phrik (o truque aqui é esquecer por completo tudo aquilo que se vê flutuar no rio Chao Praya e aquilo que se imagina lá submergido, passível de servir de alimentação aos peixinhos), ou o pot-pourri de vegetais kuai thia.

Depois, claro, há a sopa, bebida a qualquer hora. A escolha pode recair sobre qualquer uma de três classes: a tom yanh kum, sopa de camarão, temperada com limão e lima; a kaeng chut, parecida com a chinesa a que se dá o nome de ninho de andorinha e, finalmente, a khao tong, uma sopa de arroz, parecida com uma canja, mas temperada com o molho de peixe nam pla.

to be continued..



Bangkok, Fuji Sensia 100

2004/04/05

Afinal...

... ainda não me está a apetecer narrar a história das massagens tailandesas. Aliás, só levantei o assunto porque o que me apetecia mesmo era falar de outra coisa qualquer.

Resumindo e para que conste, o assunto das massagens só veio à baila porque tinha um único e exclusivo propósito: impedir-me de falar sobre essa coisa qualquer. Contudo, como o prometido é devido, massagens serão.

Teaser

E como é ser o recipiente de uma massagem tailandesa, dada por uma senhora do norte do país, num cubículo almofadado, secretivo, dez metros abaixo de uma das vielas esconsas e ruidosas de Bangkok?

Daqui a pouco, neste blog, a descrição a par e passo de uma experiência traumatizante e dolorosa.

Highwayman

I was a highwayman. Along the coach roads I did ride
With sword and pistol by my side
Many a young maid lost her baubles to my trade
Many a soldier shed his lifeblood on my blade
The bastards hung me in the spring of twenty-five
But I am still alive.

I was a sailor. I was born upon the tide
And with the sea I did abide.
I sailed a schooner round the Horn to Mexico
I went aloft and furled the mainsail in a blow
And when the yards broke off they said that I got killed
But I am living still.

I was a dam builder across the river deep and wide
Where steel and water did collide
A place called Boulder on the wild Colorado
I slipped and fell into the wet concrete below
They buried me in that great tomb that knows no sound
But I am still around..I'll always be around..and around and around and
around and around

I fly a starship across the Universe divide
And when I reach the other side
I'll find a place to rest my spirit if I can
Perhaps I may become a highwayman again
Or I may simply be a single drop of rain
But I will remain
And I'll be back again, and again and again and again and again..

Eu e a música country temos uma relação estranha - se a Lucinda Williams é o meu credo, então este hit de 1985 executado a quatro vozes por Willie Nelson, Waylon Jennings, Johnny Cash e Kris Kristofferson, é o meu sanctum sanctorum.

Voltaram os comentários.

2004/04/02

Filme de culto



Quando um violino Bussoti - acusticamente perfeito e esplendidamente vermelho - surge à venda num leilão em Montreal, todos se interrogam quanto à sua origem. Tal como o violino e a sua cor, também este é um filme sui generis, já que tem como foco central, não uma personagem, mas sim um objecto: o violino.

Desde o seu fabrico pelo mestre italiano Bussoti, em plena Cremona do século XVII, até ao Canadá de 1998, traça-se aqui o percurso de um violino que se pretendia perfeito - afinal, tratava-se do presente do mestre violinista ao seu futuro filho.

Quando a mulher de Bussoti morre durante o parto, morre igualmente a criança. Louco de dor e raiva, o italiano mistura o sangue da esposa ao verniz com que termina o instrumento musical - daí a cor rubi escarlate, maldita.

De Cremona, o violino parte para os Alpes, depois para Viena, Inglaterra e, finalmente, para a China maoísta. E em todas essas paragens, o violino é objecto de paixão e desejo, exigindo sempre um preço demasiado alto pela sua posse: a morte violenta de todos os seus proprietários.

O Le Violin Rouge, do canadiano François Girard, é um filme a ver, sem dúvida.


2004/04/01

Está bem, eu confesso: é

1º de Abril!



Teve piada enquanto durou, mas parece que toda a gente teve a mesma ideia. Assim já não tem tanta graça.

(e eu, que não consegui descobrir se o Público publicou, ou não, algum poisson d'avril?)

Estou farto.

Farto dos comentários acintosos, farto das piadinhas, farto dos pseudo-intelectuais que se acham senhores do rei na respectiva barriga, farto de vir aqui todos os dias deixar a minha posta de pescada, quando o sol brilha lá fora e milhares de coisas mais úteis se perfilam, debalde, à espera que eu as faça.

Portanto, por tudo isto, este blog acaba aqui.


Há dias em que, apesar da chuva e do céu cinzento, a vida também se conjuga a cores.


Rua de São Marçal, Lisboa. Fuji Superia 200