Corria o ano da graça de 1939. Numa noite argentina, num quarto em Buenos Aires, três escritores conspiravam no sentido de compilar o manual perfeito sobre o que
NÃO escrever em literatura.
Silvina Ocampo, Jorge Luis Borges e Adolfo Casares queriam, simplesmente, agradar aos leitores que vêem num livro, não um objecto de prazer, mas sim um objecto de crítica e censura. A lista produzida sistematiza tudo aquilo que qualquer obra que se pretenda literária terá de evitar:
1. As curiosidades psicológicas e paradoxos. Exemplo: assassínios causados por bondade ou suicídios devidos a contentamento;
2. As interpretações demasiado inconformistas de obras ou de personagens famosas. Exemplo: descrição da misoginia de Don Juan, etc;
3. Emparelhar personagens grosseiramente dissimilares ou contraditórias, como, por exemplo as duplas Don Quixote/Sancho Pança, Sherlock Holmes/Dr. Watson, etc;
4. Romances com personagens gémeas, idênticas, como em
Bouvard e Pécuchet. Se o autor inventa um traço particular para uma, é forçado a inventar outro para a outra;
5. O costume de caracterizar a personagens através das suas peculiaridades, como fez, por exemplo, Charles Dickens;
6. Qualquer coisa nova ou espantosa. Os leitores civilizados não se divertem com a descortesia de uma surpresa;
7. No decorrer da narrativa, recorrer a jogos extravagantes com o tempo ou com o espaço, como o fazem, por exemplo, Bioy Casares, Borges e Faulkner;
8. A descoberta de que, num romance, o verdadeiro herói é o mar, a pradaria, a selva, a chuva ou o mercado de capitais;
9. Poemas, situações ou personagens com as quais – Deus não o permita! - o leitor se possa identificar;
10. Frases que se possam tornar provérbios ou citações, já que são incompatíveis com uma obra coerente;
11. As personagens capazes de se converter num mito;
12. As frases, ou descrições intencionalmente ligadas a um determinado lugar ou a determinada época; ou seja, o ambiente local;
13. A enumeração caótica;
14. Um vocabulário rico. Sinónimos.
Le mot juste. Qualquer tentativa de precisão;
15. Descrições muito vivazes, mundos plenos de detalhes físicos, como em Faulkner;
16. Cenário de fundo, ambiente, atmosfera. Calor tropical, embriaguez, a voz no rádio, frases repetidas como refrões;
17. Princípios e finais metereológicos. Falácias patéticas.
Le vent se lève! Il faut tenter de vivre!;
18. As metáforas, em geral e, em particular, as metáforas visuais. Mais concretamente ainda, as metáforas agrícolas, navais ou bancárias. Exemplo absolutamente desaconselhável: Proust;
19. O antropomorfismo;
20. A narrativa de romances cuja trama argumental recorde a de outro livro. Exemplo: o
Ulysses de Joyce e a
Odisseia de Homero;
21. Escrever livros que pareçam menus, álbuns, itinerários ou concertos;
22. Tudo aquilo que possa ser ilustrado. Tudo o que possa sugerir a ideia de poder ser convertido num filme;
23. Nos ensaios críticos, todas a referências históricas ou biográficas. Evitar sempre as alusões à personalidade ou à vida privada dos autores estudados. Sobretudo, evitar a psicanálise;
24. O estranho: cenas domésticas em novelas policiais; cenas dramáticas em diálogos filosóficos;
25. O previsível:
pathos e descrições eróticas nos romances de amor. Puzzles e crimes nas histórias de detectives. Fantasmas nas histórias de fantasmas;
26. A vaidade, a modéstia, a pederastia, a ausência de pederastia e o suicídio.