2004/06/30

O periclitante fado do adepto laranja



Por esta altura, corre pelo País fora um frémito de antecipação. Alisam-se bandeiras, enrolam-se cachecóis, lêem-se os últimos artigos, sai-se à rua para ver passar o autocarro da selecção e conversa-se com o vizinho do lado, entredesejando-se cada um votos de vitória para logo à noite.

Finalmente, depois de anos e anos de tricas, de suspeitas, de mexericos, de cenas de pugilato, de dramas do agarrem-me-senão-vou-me-a-eles-e-desgraço-me-todo, de lutas intestinas e de críticas ao sistema, finalmente, escrevia eu, vê-se futebol. Onze tipos de um lado, onze tipos do outro, uma bola, duas balizas e uma equipa de arbitragem. Joga-se bem, fantasticamente bem e não se ouve um pio sobre Valentins, Madaíles, Vieiras, Cunhas, Costas e quejandos. É o céu. O céu futebolístico, claro, mas ainda assim um género de céu relativizado.

Corre pelo País um frémito patriótico, futeboleiro. Com sorte e engenho, Portugal estará hoje à noite na final do Euro 2004. E é exactamente nessa antecipação, nesse crer, que quase todo o País se acha. No entanto...

... no entanto, por esses cafés fora, pelas barbearias de bairro, no Metro, no comboio, na rua, nos restaurantes, eu ouço-os. Velhos, novos, de meia-idade, gordos, baixos, magros, abonados, remediados, todos sem excepção, relegaram a conversa do futebol para um canto da arena da tagarelice. Hoje, a conversa é sobre política. Hoje, eu ouvi-os, a todos, sem exclusão, dizer que “assim não pode ser”.

Foi hoje que eu descobri que só pode haver uma resposta por parte do Presidente e essa resposta conterá na sua estrutura duas palavras: eleições antecipadas. Porque, a não ser assim, não sei o que virá por aí. Não sei mesmo.

A única coisa que eu sei é que não haverá hoje adepto mais fervoroso do que Pedro Santana Lopes.

E porquê? Porque, ironia das ironias, o dirigente laranja terá rezar a todas as alminhas para que a equipa laranja perca, de preferência, rotundamente. Porque, a não passar Portugal, amanhã a ressaca será pavorosa. E alguém terá que pagar pela derrota.



Escadinhas da Bica, Lisboa. Digital.

Novo sermão aos peixes com hagiografia de Alexandre O'Neill, esse poeta português mais invocado que o tambor de Drake em alturas como esta




Poderá vir um dia a verificar-se que o máximo que fundam os poetas é a possibilidade prosaica de alguém, muito mais tarde, se vir a lembrar de algumas das sequências das palavras que escreveram. No melhor dos casos, usarão essas sequências de palavras a despropósito, noutras sequências de palavras; no pior, aplicá-las-ão com aquilo que julgarem ser um propósito.

Alexandre O’Neill




Se viver nos Açores tem as suas agruras (receber os jornais do dia apenas quando o avião chega, mesmo que seja às oito da noite, encontrar o Multibanco da Calheta de São Jorge avariado, com o aviso de que o próximo Multibanco operacional está na Praça Velha, ilha Terceira, são exemplos...), também tem as suas vantagens.

Uma delas é de se poder espairecer no Peter’s, na Horta, diante de um belo bife com molho de pimenta e um daqueles gins tónicos que só existem por lado (esqueçam a réplica do Parque das Nações, falta-lhe o Pico defronte para ganhar credibilidade).

Entre a hora do jantar e o toque do sino a anunciar o fecho das portas, logo antes de se tocar o what shall we with the drunken sailor, há todo um período de espaço-tempo que decorre em frenesim total, tocado a copos de gin e açoitado a golpes de conversa com as pessoas que se vão sentando ao sabor das cadeiras que vão vagando ao longo da noite, prontamente ocupadas por suecos de meia-idade, bêbados, suíças desgrenhadas, com o sal do mar das Caraíbas ainda cristalizado no cabelo frisado, portugueses de passagem que só conhecem o mar-oceano de o ver da janela do avião e franceses tatuados que, ou são caçadores de tesouros ou pescam quimeras à força de penalties de vinho branco.

Há também oportunidade para reencontrar a tripulação da lancha de investigação Águas Vivas, do Departamento de Ocenografia e Pescas da Universidade dos Açores. Há tempo para saber da vida da sua equipa de gente portuguesa e americana, do DOP e do South Carolina Departement of Natural Resources, e das tarefas com que se ocupam, há mais de quinze dias.

E que fazem eles, saindo de manhãzinha, ainda o Sol não se ergueu, e regressando – quando regressam, porque por vezes há mais mar sob a popa que sob a proa – à noitinha, a tempo de ouvir o sino do Peter’s?

Navegam em rumo aleatório, à procura de lixo flutuante. Cadeiras em madeira, troncos velhos e carcomidos, bidões de crude, contentores obsoletos e amolgados, tudo, mas tudo mesmo que flutue ao sabor do vento, das correntes e das marés.

E porque procuram eles o lixo flutuante?

Procuram-no porque há dez hipóteses contra uma de haver, por debaixo desses detritos a que os ingleses chamam floatsam, um ou mais chernes.

E é exactamente atrás de chernes que andam estes biólogos marinhos. Querem segui-los para os poder capturar com líquidos anestesiantes. Querem marcá-los, identificá-los e libertá-los, finalmente. É o Wreckfish Project em toda a sua plenitude - ou, mais propriamente, o Stock struture in wreckfish, Polyprion americanus, determined by tagging and molecular genetics techniques.

Para quem não sabe, como eu não sabia, o cherne chama-se em inglês wreckfish – peixe dos destroços – porque procura, quando em mar aberto, os destroços flutuantes para se abrigar, alimentar e vegetar.

É também, um peixe extremamente oportunista. Quando surge nas vizinhanças um monte de lixo mais apetecível – ou porque é maior, ou porque tem mais comida incrustada, ou simplesmente porque é mais atraente - o cherne abandona imediatamente o pouso anterior para procurar a segurança do novo cenário. É a vida. É a lei da sobrevivência. Há que não parar para não morrer mesmo que se tenha de dar outros à morte.

Dizia o O'Neill e papagueava a Sousa Uva que


Em cada um de nós circula o cherne,
Quase sempre mentido e olvidado.
Em água silenciosa do passado
Circula o cherne: traído
Peixe recalcado…

Sigamos, pois, o cherne, antes que venha,
Já morto, boiar ao lume de água



e diziam mal. Porque o cherne não era o traído. Era, sim, o traidor.

E, agora, consumada a sublime traição, que fazemos? Queimamos o passaporte e seguimos o cherne até essa Europa mítica que começa em Badajoz e termina nos Alpes italianos?

Ou comemo-lo, ao cherne, com batatinhas novas, um fio de manteiga e um cheirinho a limão, como se costuma grelhar, excelente, no Beira-Mar de São Mateus da Calheta?

Eu, por mim, é mesmo mais a segunda hipótese.


2004/06/29

Novo sermão aos peixes

Em toda a minha vida de mar, só por uma única vez vi um tubarão. Foi defronte ao ilhéu das Cabras, ao largo da ilha Terceira, nos Açores.

O mar estava estanhado, magnífico. Singrávamos velozes, no semi-rígido, de volta de um mergulho a 40 e tal metros, de regresso ao porto, quando uma barbatana triangular cortou dolentemente as águas. Assim, tal e qual como nos filmes.

Parada a embarcação, deitei-me à água agarrado à Nikonos V, preparado para registar em slide o predador mais fotogénico do planeta azul. Debalde: assustado, o bicho fugiu a sete barbatanas. Icei-me de novo para bordo e iniciámos um jogo de toca e foge de onde resultou um vencedor declarado: o tubarão. Com tanto mar e tanto tubarão e logo me havia de calhar a mim um exemplar dos mais tímidos e timoratos.

No entanto, dizem os documentários da vida selvagem que nem todos os tubarões são assim, envergonhados e circunspectos. Há-os feros e implacáveis, capazes de farejar a milhas de distância a mais pequena molécula de sangue.

Nadam então em círculos cada vez mais apertados, aproximando-se inexoravelmente da presa que se debate, que estrebucha no estertor da morte. Reúnem-se assim tubarões de toda a sorte: os pequenos, os grandes, os de alto mar e os de fundo, os das areias e os das rochas, todos igualmente excitados e todos excitando-se mutuamente, num agitação para a qual não encontro melhor termo do que o anglo-saxónico shark frenzy.

É exactamente essa, a imagem que se conjura na minha mente quando leio as reacções dos baronetes do PSD às declarações desassombradas de Manuela Ferreira Leite.

Cheira-lhes, aos baronetes, aos autarcas, aos presidentes de concelhias e distritais, não a sangue, mas a poder. Poder fácil, poder populista, poder demagogo, cheira-lhes a benesses, a luvas, a prebendas, a jobs for the boys, a tachos, a tachinhos, a panelas e a panelões.

É um fartar vilanagem, esse cortejo de bajuladores, essas rémoras que mais não querem do que um corpo gordo e luzidio onde colar a ventosa, locupletando-se com o sangue do erário público, mastigando, alarves, as migalhinhas que porventura possam cair da mesa do poder.

Mas cuidado. A História repete-se, sempre. Não esqueçam os parasitas aquilo que o padre António Vieira, no seu Sermão de Santo António aos Peixes, tão bem descrevia quando narrava a pesca ao tubarão a bordo das naus portuguesas que iam para Índia, após cruzar a linha do Equador:

(...) vi debaixo dela o que muitas vezes tinha visto e notado nos homens, e me admirou que se houvesse estendido esta ronha e pegado também aos peixes. Pegadores se chamam estes de que agora falo, e com grande propriedade, porque sendo pequenos, não só se chegam a outros maiores, mas de tal sorte se lhes pegam aos costados que jamais os desferram.

De alguns animais de menos força e indústria se conta que vão seguindo de longe aos leões na caça, para se sustentarem do que a eles sobeja. O mesmo fazem estes pegadores, tão seguros ao perto como aqueles ao longe; porque o peixe grande não pode dobrar a cabeça, nem voltar a boca sobre os que traz às costas, e assim lhes sustenta o peso e mais a fome.

Este modo de vida, mais astuto que generoso, se acaso se passou e pegou de um elemento a outro, sem dúvida que o aprenderam os peixes do alto, depois que os nossos Portugueses o navegaram; porque não parte vice-rei ou governador para as Conquistas, que não vá rodeado de pegadores, os quais se arrimam a eles, para que cá lhes matem a fome, de que lá não tinham remédio.

Os menos ignorantes, desenganados da experiência, despegam-se e buscam a vida por outra via; mas os que se deixam estar pegados à mercê e fortuna dos maiores, vem-lhes a suceder no fim o que aos pegadores do mar.

Rodeia a nau o tubarão nas calmarias da Linha com os seus pegadores às costas, tão cerzidos com a pele, que mais parecem remendos ou manchas naturais, que os hóspedes ou companheiros. Lançam-lhe um anzol de cadeia com a ração de quatro soldados, arremessa-se furiosamente à presa, engole tudo de um bocado, e fica preso. Corre meia companha a alá-lo acima, bate fortemente o convés com os últimos arrancos; enfim, morre o tubarão, e morrem com ele os pegadores.

2004/06/28

Tu cuerpo está a mi lado




Hoje, a escrita e a voz do poeta mexicano Jaime Sabines.


Tu cuerpo está a mi lado
fácil, dulce, callado.
Tu cabeza en mi pecho se arrepiente
con los ojos cerrados
y yo te miro y fumo
y acaricio tu pelo enamorado.
Esta mortal ternura con que callo
te está abrazando a ti mientras yo tengo
inmóviles mis brazos.
Miro mi cuerpo, el muslo
en que descansa tu cansancio,
tu blando seno oculto y apretado
y el bajo y suave respirar de tu vientre
sin mis labios.
Te digo a media voz
cosas que invento a cada rato
y me pongo de veras triste y solo
y te beso como si fueras tu retrato.
Tú, sin hablar, me miras
y te aprietas a mí y haces tu llanto
sin lágrimas, sin ojos, sin espanto.
Y yo vuelvo a fumar, mientras las cosas
se ponen a escuchar lo que no hablamos.

E, subitamente...

... como se a mão desse um quarto de volta ao caleidoscópio, o panorama político dá uma volta de 90 graus à direita.

... a putativa ida de Durão Barroso para Bruxelas e a apregoada ascensão de Santana Lopes ao cargo de Primeiro-ministro levam ao inconcebível: um movimento colectivo de indignação pela fuga de um líder político que há poucos dias apenas viu a coligação que liderava levar uma banhada eleitoral. Ironicamente, muitos dos que desejavam a sua queda, rezam agora pelas alminhas para que fique e leve o mandato que os Portugueses lhe deram a termo natural.

... até a ministra que mais ódios extemporâneos suscita, parece ser uma boa escolha como Primeira-ministra por contraponto o que por aí pode vir (diga-se, en passant, que sempre admirei a Manuela Ferreira Leite pelo seu non sense, pelo seu sentido de Estado, pelo sua honestidade. Descontando alguns casos, como o da situação fiscal do Benfica, sempre a tive por pessoa honesta, capaz, competente, frontal).

... um animal político como Santana Lopes encontra apenas defesa pública nas vozes de Luís Delgado, António Capucho (pobre autarca do meu concelho, que acabou assim por perder o voto que esperava eu depositar na sua pessoa nas próximas autárquicas), Paulo Teixeira Pinto e Alberto João Jardim.

... descobre-se que os homens bons deste País já cá não estão ou foram queimados até à medula no fogo brando da chicana partidária, tendo agora mais o que fazer do que vir a correr salvar a face, a honra e o convento.

.... a política portuguesa congrega cidadãos, de todos os quadrantes políticos, à volta de uma causa, de um ideal. Depois das bandeiras do Euro, está o Presidente da República servido daquilo que andava a pedir ao povo há tanto tempo: mais responsabilidade, mais participação. Nós estamos aqui. Oxalá estejam eles para nós.




E pronto. À socapa, à sorrelfa, a administração Bush lá passou a batata quente para as mãos de alguns iraquianos, dois dias antes do prazo previsto, estragando assim a maior parte das edições dos jornais que passaram ao lado deste low-key happening.

Agora, toda e qualquer bomba que rebentar já não é da responsabilidade Bush. As bombas, os atentados serão um problema lá deles, sunitas ou xiitas, tanto se dá à Casa Branca, já que há que pensar nas eleições de Novembro.

É triste que uma guerra que se pretendia libertadora, com os soldados da coligação a ser recebidos com pétalas de rosas, termine em tortura, morte, mutilação e estilhaços de shrapnel a rodos.

É triste que por todo o Iraque haja homens que se façam suicidar ao volante de bombas-relógio (que desespero, que fanatismo justifica este niilismo?).

É triste que por todo o Iraque e em todos os estados americanos existam famílias que choram milhares de mortos. É triste que existam dezenas de milhar de estropiados e mutilados, a carregar na carne, até ao fim da vida, a memória de uma guerra que não queriam (quantos são os feridos norte-americanos? Ninguém sabe, é um segredo de estado. Nem convém que se saiba: afinal, é só em Holywood que os índios se deixam matar aos milhares enquanto a Cavalaria kicks ass).

É triste que o que deveria ser o momento alto deste processo tão atribulado - a transferência de soberania de volta aos cidadãos ocupados - tenha sido feito às escondidas, à revelia do mundo e dos principais interessados, os iraquianos. Melhor confissão do que esta do descontrolo a que chegou a situação não haverá certamente.

É triste que, menos de uma hora após a assinatura do acordo, Paul Bremer tenha embarcado num helicóptero, dando às-de-vila-diogo do atoleiro em que a região se tornou, num remake barato da evacuação de Saigão aquando da Guerra do Vietname. Hoje, como então, cabe aos civis que ficaram para trás pagar a pesada factura do pesadelo criado no Iraque pelos belicistas que não só não tornaram o mundo mais seguro, como também mentiram com quantos dentes tinham quanto às verdadeiras razões pelas quais fizeram soar os tambores da guerra.

EARLY MORNING BLOGS

É bem feito. Os sinais estavam lá. As novelas. As intermináveis e desconchavadas novelas em que todas crianças frequentam colégios da Linha e são louras e precocemente parolas. As Lux e as Flash. O telejornal da TVI. O futebolês e a sua miríade de constelações e estrelas, as maiores, as menores e as anãs, os dirigentes, os agentes, os jogadores, as transferências e os treinadores de bancada e de café.

O 24 Horas e as suas manchetes sanguíneas e colunas rosa-choque. Os três diários desportivos. Os Big Brother’s e as chusmas de indigentes que revelaram, geraram e adularam. Os caciques locais.

Felgueiras. Marco de Canaveses. A justiça, apoucada e achincalhada. A Alexandra Solnado e as conversas de Jesus com a cabritinha. As abstenções, galopantes. A política, trauliteira e lapuz. Os impropérios lançados a esmo, pelos carroceiros e pelas azêmolas que habitam o Parlamento e as autarquias deste país de norte a sul. Os deputados que o são porque dominam as concelhias. O triunfo da demagogia, a vitória fácil do populismo.

A farsa da Madeira, esse espectáculo pornográfico instalado há anos na Casa Vigia, onde perora um senhor anti-democrata e fascista, adulado por um dos dois maiores partidos portugueses.

A lenta agonia da Cultura. A asfixia da Ciência. A sangria, continuada, mortal, dos nossos melhores homens e mulheres, em demanda de melhores países, de outras instituições que os animem, que os reconheçam. A invasão obscena do betão em tudo o que é Parque Natural, zona protegida, Rede Natura, arriba fóssil, rio selvagem, orla costeira.

As oportunidades perdidas. O Alqueva. Os fundos de Coesão. O Fundo Social Europeu.

Os subsídios à agricultura dados de mão beijada a pessoas que não sabem distinguir um cão de uma ovelha. Os jipes. Os condomínios privados. Os montes no Alentejo. As férias no Brasil e as festas no Algarve. Os milhares que provam, provado, o adágio que diz que quem cabritos vende e cabras não tem, de algum lado lhe vem.

Os Ferraris do Vale do Ave. Os processos que prescreveram. Os jornais, as rádios, as revistas, as televisões que estão na mão de apenas três grandes grupos económicos. As campanhas eleitorais, pagas a peso de ouro, a troco não se sabe bem do quê. As negociatas. As promessas. As mentiras. Os impostos que iriam descer e afinal sobem. O emprego que iria subir e afinal desce. O IVA que já foi a 17% e agora é a 19%.

O Santana Lopes que passou do Sporting para a Figueira, da Figueira para Lisboa e de todas as vezes foi eleito. Democraticamente. E que foi alçado a número dois do PSD estando, por esse facto, na linha de sucessão para o cargo de primeiro-ministro.

E, quando tudo isso aconteceu, onde estávamos nós?

Na praia? No café? Na Ler Devagar, a folhear Heidegger? Em Londres, a admirar Buckingham Palace?

Não sei onde estávamos. Sei, apenas, que estávamos calados. E é por isso que é bem feito.

Demitimo-nos do dever de falar, de esclarecer, de protestar, de votar. E, se alguns, poucos, falavam, muitos assobiavam para o ar, como se não fosse nada connosco. Era sempre com eles, com os políticos. E estávamos errados: a política é nossa. A política somos nós que a devemos fazer, participando, votando, reclamando, exigindo.

Abstivemo-nos e as coisas aconteceram. Os factos surgiram e ficaram impunes. Os acontecimentos seguiram o seu curso, o barco singrou desgovernado, com os incapazes ao leme e os arrivistas a bater palmas. Agora que o impensável se acastela no horizonte, assim ficamos, aflitos, o coração nas mãos, a perguntarmo-nos: como foi possível? Como será possível?

E mais aflitos ainda ficamos porque sabemos: é possível. Pode acontecer.

Pode acontecer que Paulo Portas e Santana Lopes, dois parasitas do poder, dois demagogos, dois populistas, se enquistem em São Bento. Mesmo as eleições antecipadas, a ocorrer, poderão não o impedir. Mais: as eleições poderão até ser o impulso que necessita essa associação simbiótica contra-natura para se declarar vitoriosa. Bastam algumas fotografias nas revistas do coração, uns beijinhos nalgumas feiras, uns ósculos nalgumas recepções, três ou quatro discursos ocos, cheios de sonoridade e de impacto televisivo, a aura de salvadores da pátria e dos bons costumes, e lá vai o povinho do futebol, dos morangos com açúcar e do 24 horas a correr às urnas, ungir o Sr. Feliz e o Sr. Contente com os louros do poder.

E, mesmo que não aconteçam eleições, a cartilha está igualmente traçada. Os impostos a cair. As festas para o povo pagas com o erário público, esse erário minguante que à custa de tanto e de tantos foi custosamente aforrado nos dois últimos anos. As promoções em catadupa, os Institutos Estatais criados por decreto, para promover os novos boys e criar novos empregos efémeros. Os gastos à tripa forra para contentar taxistas, sindicatos, peixeiras, comerciantes, função pública.

Os saneamentos. A ostracização dos críticos, dos descontentes, dos que se manifestam.

Tudo isto pode acontecer. Não só por dois anos, mas também por quatro. Ou mais. Até que o dinheiro se acabe ou até que vague o cargo de Presidente de qualquer coisa. Que até pode ser o do País, que a malta nem se importa muito.

Afinal, é fartar vilanagem!



2004/06/27

2004/06/26

Quem sair por último que apague a luz e pague as contas

Porque é que ninguém me disse que isto não era um País, mas sim uma comédia?

Há figuras que são folclóricas na sua verdadeira natureza, dando asas a que o povo ria com gáudio delas e daquilo que elas provocam, com a sua boçalidade e truculência. São figuras de entretém, jocosas, que servem para divertir o povo nos intervalos dos grandes desígnios nacionais.

É assim, que nunca, em tempo algum, alguém dotado de bom senso e de sentido de decoro poderia pensar que figurões como Avelino Ferreira Torres, Narciso Miranda, Fátima Felgueiras, Paulo Portas, Pedro Santana Lopes ou João Jardim (para citar apenas alguns dos muitos exemplos, que pululam pelo País fora) se poderiam alguma vez alcandorar a posições de poder, travestindo-se com a respeitabilidade e o verniz da credibilidade que tais posições, que deveriam ser de serviço à sociedade, implicam.

Repito: ninguém, usando de bom senso, poderia pensar tal coisa.

No entanto, a realidade desmente o bom senso: uns são ministros, outros autarcas em grandes urbes, outros gerem clubes de futebol, outros ainda são presidentes de regiões autónomas ou construtores civis e empresários, outros acumulam tudo isso num mesmo jogo de poder e interesse pessoal. É também por isto, por esta obscenidade, por este reviralho populista que ora faz alternar o jugo do país entre corcundas e malhados, sempre na senda de mais e mais fontanários, num caciquismo que apenas visa servir-se a si próprio e aos seus em detrimento do serviço cívico em prol da sociedade, que a politica portuguesa anda com o prestigio pelas ruas da amargura.

É por isto, também, que ao povo tanto se lhe dá quem está no poleiro; afinal, são todos uns ladrões.

Assim é e não adianta esconder o sol com a peneira ou gritar que o rei vai nu. No entanto, há limites para tudo. A fuga de Durão Barroso para Bruxelas faz perfilar no nosso horizonte mais imediato a maior ameaça que a Democracia portuguesa terá de enfrentar desde o 25 de Abril: um Governo liderado por Pedro Santana Lopes e Paulo Portas.

E escrevo a maior ameaça, sabendo bem a força da expressão. A política portuguesa e a sua credibilidade política estão prestes a bater no fundo, num processo de berlusconização irreversível.

Não me queixo aqui da fuga de Durão Barroso. Não me queixo do hipotético golpe palaciano dado no seio do Governo da Nação. Não me queixo da Manuela Ferreira Leite. Não me queixava de nada, até agora. Afinal, era um Governo que eu não apoiava, com algumas politicas miseráveis, mas era o Governo que os Portugueses tinham escolhido e votado. Quando fossemos a votos, logo se veria o veredicto.

Do que eu me queixo aqui é do processo de sucessão, e da pessoa a quem se quer entregar de bandeja a cadeira de primeiro-ministro de Portugal, como quem julga que o melhor modo de proteger as galinhas é o de se entregar a chave do galinheiro à raposa. Este meu texto é, portanto, um texto ad hominem, com um Pedro Santana Lopes bem cristalino como alvo de toda a indignação que sinto.

Como é possível ter à frente dos destinos do País uma pessoa amoral, sem um pingo de credibilidade, uma pessoa que deixa sempre a meio aquilo em que se mete, que salta do Sporting para a Câmara da Figueira e desta para Lisboa, anunciando aos quatro ventos coisas que nunca faz, que nunca cumpre, que nunca deixa fazer ou tenciona fazer cumprir?

Como é que é possível, alguém que tem como único apanágio a capacidade de lançar soundbytes a propósito de tudo e de nada ser Primeiro-ministro? Como é que é possível, alguém que criou contra si anticorpos em tudo o que é político prestigiado e com gravitas, do PSD ao PS, ocupar semelhante cargo?

Como é que é possível, alguém que quis alienar o património português aos estrangeiros, que deixou Lisboa no estado em que ela está neste momento, que nunca em tempo algum conseguiu cumprir uma promessa ou deixar escrita uma política de intenções, qualquer que ela fosse, poderá alguma vez, num País que se quer europeu e não terceiro-mundista, chegar ao leme da Nação?

Isto, esta ignomínia, só será possível se o processo de degradação e estilhaçamento da política portuguesa estiver realmente completo, num processo que não tem vindo de crescer em alento e magnitude.

Isto só será possível se a politiquice se sobrepuser à Política e aos interesses do Estado e da Nação.

Isto só será possível se o PSD resolver cometer suicídio enquanto partido credível, apoiando a sede imensa de poder de Santana Lopes numa procura fácil por dois anos de circo e pão-de-ló, à custa dos dedos, dos anéis e dos pulsos e dos braços de um país à beira da bancarrota.

Isto só será, finalmente, possível, se Jorge Sampaio resolver apoiar esta loucura, este naufrágio, esta aberração que nos ameaça, enquanto cidadãos e Portugueses e me faz tremer, sinceramente, pelo nosso destino enquanto Povo e País.

E, a acontecer isto, a falhar a válvula de segurança do PSD, a culpa caberá inteiramente a Jorge Sampaio.

E que não venha dizer o Presidente de todos os Portugueses que o seu fim último é o de promover a estabilidade. Essa seria a maior mentira de todas: sufragar Pedro Santana Lopes como Primeiro-ministro em nome da estabilidade é querer apagar o fogo com baldes de gasolina.



2004/06/25

A epifania da efeméride

Este blog faz hoje um ano. Se me o perguntarem, nem sei bem como dizer de onde me surgiu a ideia para criar isto. Pelo que sei hoje, comecei exactamente ao contrário da maioria dos criadores de blogs: criei o meu ainda antes de ter lido qualquer blog, sem saber ao que ia.

Da maneira mais negligente que é possível imaginar, abri o blogger, vindo algures de uma ligação do google, e fui registando o domínio da maneira mais atabalhoada possível, enquanto lia emails e escrevia um texto qualquer (foi exactamente por essa razão que isto acabou por ficar tão possidónio, a chamar-se alexandre-monteiro.blogspot.com ao invés de no-arame.blogspot.com: pensei que estava a registar o utilizador quando, afinal, estava a registar o nome do blog).

Se, de início, o meu desconhecimento sobre as regras do jogo era abissal, a curva ascendente de aprendizagem rapidamente progrediu em bom sentido: devo-o à generosidade dos que por cá andavam na altura e que partilharam comigo as pistas mais básicas sobre tudo e mais alguma coisa que é, hoje em dia, rotina entranhada: technorati’s, contadores, comentários, o diabo a quatro.

Fui feliz também quando fui reconhecido, três ou quatro dias depois de aqui ter entrado, pelo JCD (uma das excelentes pessoas que a fotografia online me deu a conhecer na era pré-blogs), o do Jaquinzinhos, naquele que foi o primeiro blog a ligar-me ao seu (e que acabou por ser responsável primeiro pela cadeia de divulgação boca-a-orelha, tão típica da blogosfera).

Um ano é um ano. Um ano de um blog que, mais do que tudo, é principalmente um instrumento que me obriga a escrever, que me força a experimentar com as palavras e a fazer algo que, por vezes, a preguiça, a inactividade e a falta de tempo me negam: tentar criar ideias, palavras, textos, emoções, sobre aquilo que me der na real gana.

O Arame é um também um processo catártico, uma tribuna, pequenina à sua escala, mas mesmo assim uma tribuna, de posso gritar sobre aquilo que mais me chateia - seja a favor do Sabor livre de barragens, seja contra a extinção do ICN.

Mal ou bem, digo aqui aquilo que me apetece, como me apetece. Em todo o caso, em verdade vos digo: o meu blog não é, nem nunca será, o meu umbigo ou o meu massajador de ego ou de auto-estima. É por isso que não contemporizarei nunca nem com o politicamente correcto nem com aquilo que é simpático ser dito para poder ficar de bem com Deus e o Diabo. Gosto deste blog, mas a minha vida não é nem há-de ser isto que para aqui se escreve.

É, contudo, parte da minha vida, ou pelo menos, ocupa-me algumas horas da minha vida de todos os dias. Gosto de navegar por este poço sem fundo que é a blogosfera. Gosto de pescar nas suas águas turvas, de saber que, bem lá do fundo, tudo pode surgir: peixes graúdos e demais trutas, libelinhas de vida fátua, anfíbios que não são carne nem peixe, parasitas irritantes e até animais peçonhentos e venenosos. Por vezes, a pesca é coroada de sucesso: vêm à tona seres especiais, gente que se destaca da massa anónima, pessoas que criam em mim a curiosidade suficiente para me levar ao seu mundo uma ou mais vezes por dia, quanto mais não seja para que vá lá dizer ‘discordo totalmente do que escreveste’. É também por causa dessas pessoas que eu ando por aqui.

Hoje, com uma média de 320 visitas diárias, com 382 ligações feitas a esta página, 729 textos inseridos, uma boa centena de fotografias e mais de 83.500 visitas (contabilizadas pelo meu contador mais antigo, que isto de contadores é a esquizofrenia total) só me resta dizer: obrigado por estarem aí e por serem quem são. Afinal, não cessarei nunca de me espantar por saber que há quem se dê ao trabalho de vir aqui só para me ler.


Farewell and adieu unto you Spanish ladies

E que cantavam as tropas britânicas na Guerra Peninsular de 1808-1813, quando regressavam de Portugal para Inglaterra?


Farewell and adieu unto you Spanish ladies,
Farewell and adieu to you ladies of Spain;
For it's we've received orders for to sail for old England,
But we hope very soon we shall see you again.

We'll rant and we'll roar like true British sailors,
We'll rant and we'll roar across the salt seas,
Until we strike soundings in the Channel of old England,
From Ushant to Scilly is thirty-five leagues.

Then we hove our ship to the wind at sou'-west, my boys,
We hove our ship to our soundings for to see;
So we rounded and sounded, and got forty-five fathoms,
We squared our main yard, up channel steered we.

Now the first land we made it is called the Deadman,
Then Ram Head off Plymouth, Start, Portland and Wight;
We sailed by Beachy, by Fairlee and Dungeness,
Until we came abreast of the South Foreland Light.

Then the signal was made for the grand fleet for to anchor,
All in the downs that night for to meet;
Then it's stand by your stoppers, see clear your shank-painters,
Haul all your clew garnets, stick out tacks and sheets.

Now let every man toss off a full bumper,
And let every man toss off a full bowl;
And we'll drink and be merry and drown melancholy,
And perhaps never more we shall see you again



E assim é: adieu às spanish ladies, aos british sailors e ao Figo mais as suas birras de prima donna.

2004/06/24



A contrariar o pessimismo instalado, chegam-nos alvíssaras das ilhas, propalando aos quatros ventos a boa nova: já se pode ver Conan, o Rapaz do Futuro, em DVD!

The Kim Sun-il beheading video ou a guerra das imagens

A barbárie continua. Depois de mais uma decapitação mediatizada em video, desta vez a do intérprete Kim Sun-Il - video esse que o Governo sul-coreano tenta a todo o transe impedir de ser transmitido via net pelo seu efeito "na moral dos cidadãos", numa atitude censória, ela sim, obscena - depois de mais uma manhã de ataques coordenados, depois de a situação na Arábia Saudita se tornar cada vez mais complicada, depois de cada vez mais o mundo ser mesmo um local cada vez mais perigoso, só posso dizer que o efeito dominó que se pretendia causar com esta guerra idiota se torna cada vez mais evidente - o único senão é este facto: as peças que caem são soldados, civis e trabalhadores das ONG's, ao invés de serem os governos corruptos e tiranos do Médio Oriente.

Quando soar a trombeta do juízo final, quando vier o 30 de Junho e o Iraque se tornar o vespeiro que cada vez mais se ouve zumbir num horizonte não tão longínquo quanto isso, onde estarão George W. Bush, Tony Blair, José Maria Aznar, Durão Barroso?

Onde estarão as ligações à Al-Qaeda (estão na Arábia Saudita) e as armas biológicas, químicas ou nucleares (estão nos Estados Unidos e na Inglaterra)?

Onde estarão os nossos pretensos opinion makers de serviço, onde estará o José Pacheco Pereira, o Luís Delgado, o José Manuel Fernandes e todos os trigger happy de sofá, onde estarão todos esses enfatuados burguesitos que sempre viram as suas guerras do conforto do sofá, aplaudindo os cowboys e vaiando os índios, onde estarão essas pequenas figuras ridículas, que mais não são do que pequenos ecos do his master's voice, desfazendo-se em esganiçados latidos como se mais não fossem do pequenos e ignóbeis canitos de colo?

Provavelmente estarão nos jornais e nos blogs, a assobiar para o ar e a falar de futebol e de retoma económica.





o nosso amor era
puro, alto e sonoro.
os nossos dedos iam-no moldando
devagarinho, muito devagarinho
e tu rias-te, quando me beijavas,
com risadas brancas e frescas,
eternamente cristalinas,
gargalhadas que se esvaziavam,
quase que de propósito,
quando as acariciávamos com as pontas dos dedos.

o nosso amor perdeu-se
aflige-me pensar que está sozinho,
sozinho, terrivelmente sozinho
e que brevemente irá ser esquecido por todos
sem haver alguém que lhe dê de comer,
que o ajude a atravessar a estrada
ou que o mande para casa ao escurecer.



Lagoa do Fogo, Açores. Fuji Sensia 100

2004/06/23

Prioridades

Qual Euro, qual jogo de Portugal, qual decapitação no Iraque, qual carapuça! O que eu preciso mesmo de saber, ainda hoje, é se vai ou não haver greve do Metro amanhã!

e da escuridão da tua boca nacarada
irrompiam pássaros brancos, aflitos
(desarvorados) fugindo à desgarrada.



não te iludas - sou o braço
sou a mão que colhe a floração
secreta dos corpos sem nome.


2004/06/22

Nas asas de Mercúrio




O mercúrio é o único metal que se encontra no estado liquido à temperatura ambiente. Apresenta-se geralmente na forma de pequenas bolas de cor branco-estanhado, a exsudar sobre o mineral que mais comummente contém este elemento - o cinábrio. É assim chamado em honra de Mercúrio, o mensageiro dos deuses, e tem como símbolo químico Hg, que deriva da sua designação latina, hydragyum - prata liquida.

Apesar da sua conotação divina, o mercúrio é um metal bastante perigoso para o homem: embora tenha uma densidade bastante mais elevada do que o chumbo, dá origem a vapores extremamente tóxicos a temperaturas acima dos 20ºC. É por esse facto que a quebra de um termómetro de mercúrio num recinto fechado é extremamente nociva, tendo por isso vindo a ser banida a sua utilização em detrimento dos termómetros digitais. Refira-se ainda que a ingestão e/ou a inalação continuada de mercúrio origina uma doença gravissima que dá pelo nome de síndrome de Minamata.

O mercúrio ocorre na crosta terrestre com raridade e encontra-se em geral ou em zonas de redução de jazigos de cinábrio ou perto de vulcões - como exemplo de alguns jazigos clássicos temos Moschellandsberg, na Áustria, o Monte Amiata, na Itália e Almadena, em Espanha.

O mercúrio era já conhecido dos Chineses e dos Hindus da Antiguidade, tendo algumas amostras sido recolhidas em túmulos egípcios datados de 1500 aC - um dos usos correntes do mercúrio era o de fazer parte do calamelo, um emplastro que supostamente curava as doenças venéreas tais como a sífilis e a gonorreia.

Com o Renascimento, o seu uso enobrece-se: em 1554, um alquimista alemão descobre que os metais preciosos, como o ouro e a prata, formavam misturas intímas com o mercúrio - as chamadas amálgamas - num processo facilmente reversível. Testemunha da importância desta inovação técnica, o processo, após ter sido aperfeiçoado por Bartolomé de Medina, é imediatamente usado pelos espanhóis para processar todo o minério argentífero do Novo Mundo.

Com a inovação de Medina, os sulfitos de minério, anteriormente desaproveitados, passam a poder ser refinados, o que leva a um acréscimo substancial da recolha de prata pura (que chega a ser de sete vezes mais a quantidade obtida pelos processos antigos). Assim, os recursos em prata americana - quase esgotados desde 1550 - acabariam por ser utilizados por ainda mais três séculos.

Basicamente, neste processo de Medina, o minério argentífero é reduzido a pó e combinado com mercúrio, água, sal gema e barro, sendo a massa resultante agitada durante um dia e deixada a repousar durante dois dias. O processo é então repetido durante cerca de 20 dias, havendo adição de mercúrio à medida das necessidades. Após a remoção da água, do sal e do barro, a amálgama de mercúrio e de prata era colocada em cadinhos e aquecida, para que o mercúrio se evaporasse e ficasse apenas a prata, que voltava ao fogo para posterior refinação. Este método só foi considerado obsoleto em finais do século XIX, altura a partir da qual se passou a utilizar cianeto na extração da prata mineral - o que dá na mesma para os escravos e os nativos utilizados na mineração, já que estes acabam por morrer agora por exposição ao cianeto e já não pela inalação de vapores de mercúrio.

Voltando ao que nos interessa: de onde saía o mercúrio, peça-chave deste processo? Essencialmente de duas minas: a de Almadena, em Espanha, explorada desde o tempo dos romanos, e a de Huancavelica, no Peru, naquilo que não era mais do que um feroz monopólio da Coroa Espanhola.

É assim que a partir de meados do século XVI se começa a embarcar mercúrio a bordo de navios, especialmente do que saía de Almadena em direcção à América Central. E onde há navios, há naufrágios. O primeiro registo arqueológico que se conhece, relativo a mercúrio em naufrágios, ocorre em Padre Island, local onde se perderam 3 navios espanhóis, em 1554. A escavação de um navio, também ele espanhol, da armada de 1559, comandada por Luna, em Emanuel Point, na Florida leva igualmente à descoberta de mercúrio destinado à refinação de ouro.

No século XVIII, vamos mais uma vez encontrar o mercúrio, parte do carregamento dos galeões espanhóis Nuestra Señora de Guadalupe e Conde de Tolosá, naufragados em 1724 na baía de Samana, no que é hoje a República Dominicana (a carga de mercúrio totalizava cerca de 400 toneladas e era destinada às fundições do Novo Mundo; os galeões, com destino em Vera Cruz, México, foram atingidos por uma tempestade a 24 de Agosto de 1724, afundando-se, com toda a carga e cerca de 650 passageiros).

Foi também encontrado mercúrio no local do naufrágio do San Pedro de Alcantara, em Peniche, um navio espanhol naufragado em 1786, bem como nos naufrágios do Lewis, afundado em Duxbury Reef, e do Winfield Scott, perdido na costa norte de Anacapa Island, ambos na segunda metade do século XIX.

Em Angra do Heroísmo, num barco anónimo que se escavou em 1998, a descoberta de um balde de madeira - completo e com a sua alça em corda - conduziu à recuperação de uma pequena quantidade de mercúrio a partir da filtração cuidadosa dos restos orgânicos do interior do balde.

Mais tarde, aquando do desmembramento peça a peça do navio recuperou-se, por entre as cavernas e o tabuado, quase um litro do mesmo metal, das dezenas que ainda por lá havia. Como se tornava difícil recolher um liquido de um outro meio liquido, a solução foi a de se recorrer a seringas, no sentido de se poder aspirar o mercúrio para dentro de frascos de vidro que levávamos posteriormente para a superfície. E que o mercúrio forma amálgamas com os metais preciosos tornou-se evidente demais para uma das nossas mergulhadoras: ao recolher algum mercúrio com as mãos desluvadas, ficou sem metade da aliança de casamento em ouro...


Baía de Angra do Heroísmo, Kodak Elite 400

As receitas do arame III

Hoje, algo rápido, eficaz e económico: Hamburguer à Arame com batatas salteadas.

um quilo de carne de vaca para picar (de preferência do pojadouro)
um ramo de salsa fresca
três cebolas médias
dois ovos
pão ralado
pimenta
noz moscada em pó
sal fino


Pegue-se na carne picada, coloque-se dentro de um recipiente, junte-se-lhe a salsa e as cebolas finamente picadas, uma colher de sopa de noz moscada, uma colher de café de pimenta e sal a gosto. Junte-se-lhe os ovos, já batidos com um garfo, e amasse-se tudo com as mãos. Vá-se posteriormente deitando pão ralado até que a massa não esteja nem liquída nem excessivamente seca, podendo-se moldar facilmente.

Formem-se os hamburgueres com as mãos, em unidades de cerca de 5 cm de diâmetro por 1,5 de altura (cerca de 12 hamburgueres). Levem-se a fritar, em lume brando, em Vaqueiro aplicada liberalmente numa frigideira bem larga.


As batatas salteadas

Descasque-se cerca de meio quilo de batata nova. Cortem-se os tubérculos em cubos com cerca de um centímetro de lado. Levem-se a cozer em água com sal. Quando estiverem no ponto, escorra-se a água, acrescente-se cerca de 3 colheres de sopa de manteiga (manteiga, mesmo!), o sumo de um limão grande e salsa e coentros, finamente picados. Espere-se que manteiga derreta, cubra-se o tacho e agite-se vigorosamente.

Sirva-se com um Quinta da Alorna Rosé 2003, servido a 10ºC.




Acho que...



... nunca me referi ao Bush filho por aqui.

2004/06/21

A pérfida Albion...

e a frase do dia:

O futuro? Prefiro a Inglaterra. É giro esmigalhar bifes. E se, por vingança, eles destruirem o que resta da Oura, é pró lado que durmo melhor (desde que ninguém se magoe, claro). Seria um óptimo gesto de sanidade turística-ambiental.

Peixe voador



E o que é o mar dos Açores? É a água a rebrilhar sob a luz forte do sol, naquela modorra marinha que hesita momentaneamente entre ser azul escura ou anil, é o ar que cheira a sal, que cheira a iodo, que tem o sabor da costa que se aproxima.

É o barco a orçar, leve, sobre as águas, ouvindo-se apenas o chape chape da ondulação no casco, como se não houvesse mais caminho que percorrer, mais rota que lançar.

É o estar o vento de feição, é a água a agitar-se, a fender-se, a dar à luz peixes compridos e finos, alados, peixes esses que saltam, agitados, ao lume da água, é o saber receber de braços aberto esses seres marinhos que não sabem bem onde pertencer, se ao ar, se ao mar.



Baía de Angra do Heroísmo, Kodak Elite 400



Cartas a Mónica, de Paulo Ferreira, seguido de A Memória dos Sentidos, de Jorge Reis-Sá.

Apresentações públicas, por José Luís Peixoto, amanhã, dia 26 de Junho, pelas 15.30, na Biblioteca Municipal de Vila Franca de Xira, e por Jorge Reis-Sá, dia 5 de Julho, pelas 19.00, na Delegação Regional de Lisboa do IPJ, no Parque das Nações.

Foi em pleno Outono que fizeste as malas e partiste.

Talvez tenhas dito: estou cansada, mas não o posso jurar. Há dias em que as percepções se nos embotam, como animais envelhecidos, e tudo o que ocorre à nossa volta é como se fosse nada, como se tudo o que se diz e escreve fosse destinado ao esquecimento, à perdição dos sentidos.

Partiste e os meus olhos partiram com os teus. O teu sabor azedou-se, desfazendo-se nos segredos ácidos, untuosos, que a tua boca cuspia, o teu cheiro foi lavado da almofada onde o deixaste, impregnado, a tua presença começou a morrer, assim, de repente, como se alguém tivesse aberto um ralo silencioso por onde se escoou o Verão, o Sol e o mar.

Partiste e, de tudo o que te rodeava, fiquei eu, preso apenas por um pedaço de pele à saudade do passado. Não mais tacteio os teus passos, não mais ouço os gemidos breves com que assinalavas a posse breve do teu corpo.

Partiste e é tudo tão triste. As tuas mãos. As minhas rugas. O meu corpo nu, só. O nosso amor, passado. O meu desespero, feito de tudo, feito de nada.




Vou fazer-te uma confidência: gostava de rever o sol que te nasceu da boca quando partiste.



2004/06/20

Porque será que nos escandalizamos tanto com os hooligans ingleses quando temos aqui, bem à porta, energúmenos como alguns dos que andam pelo Bairro 6 de Maio a queimar contentores do lixo e a apedrejar a Polícia?

2004/06/19




entre anoiteceres bruscos e dolorosos,
entre a força inusitada de um Sol ardente
e a terra calcinada, existe gente assim,
marcada a ferro com a saudade do futuro.



Pinhão, Linha do Coa. Kodak Tmax 3200

2004/06/18

Lili Marleen

Em 1915, Hans Leip era um soldado alemão prestes a partir para a Frente Russa. Em plena Grande Guerra, a vida era algo de muito precário e o amor uma coisa efémera. Assolado pela saudade, Leip escreveu alguns versos e dedicou-os à namorada, uma tal Lili, filha do merceeiro da terra. Regressado são e salvo, Leip haveria de publicar esses versos em 1937, em edição de autor. Um dos exemplares haveria de ir parar às mãos do compositor Norbert Schultz, então em ascensão meteórica junto do Partido Nazi.

Impressionado pela imagem da amante que se despede do namorado de sentinela, Schultz compõe no ano seguinte uma canção que tem a sua primeira interpretação feita por uma cantora de Bremerhaven, Lale Andersen. A gravação dá origem a 700 exemplares que passam mais ou menos despercebidos.

É apenas com a ocupação da Jugoslávia pela Wermacht e com a consequente criação da Rádio Belgrado que a canção ganha asas: o director da Rádio, o tenente Karl-Heinz Reintgen, difunde-a pela primeira vez a 18 de Agosto de 1941, a pedido de um amigo seu, combatente do Afrika Korps na Líbia. Por mero acaso, a Lili Marleen é ouvida por Rommel. O general alemão, comandante das forças alemãs no Norte de África, gosta tanto da canção que pede à Rádio Belgrado que a emita regularmente. E assim acontece: todos os dias, às 21.55, a emissão da Rádio Belgrado termina a sua emissão com a Lili Marleen, para embevecimento dos militares alemães.

Contudo, o teor nostálgico da canção não agrada a Berlim: o Ministério da Propaganda proibe a sua difusão com o argumento de que a Lili Marleen faz baixar o moral das tropas. Sob uma chuva de protestos, Goebbels tem de retractar-se e a canção passa vezes sem conta nas rádios alemãs, um verdadeiro hit discográfico avant la lettre difundido para uma Europa a ferro e fogo.

A canção torna-se um ícone, não só para os alemães como igualmente para os ingleses. Quando o Exército britânico dá por isso, milhares e milhares dos seus Desert Rats cantam em surdina a Lili Marleen - e, para cúmulo, em alemão!

Preocupados com o efeito subversivo que a canção poderia ter, os britânicos fazem gravar apressadamente uma versão sua, interpretada pela diva da altura, Vera Lynn (a tal que é citada no álbum The Wall, dos Pink Floyd, a fazer uma perninha com o seu We’ll meet again) numa versão de J. J. Phillips e Tommy Connor.

De todas as versões aquela de que mais gosto é, contudo, a interpretada pela Marlene Dietrich. E é esta versão, também ela gravada para as tropas americanas, a que se ouve hoje e se pode ler, aqui, em tradução livre.


ali, junto ao quartel
ao pé da grande porta
havia um candeeiro alto
que ainda hoje se mantém de pé.
era aí que nos queriamos reencontrar
onde ficaríamos os dois, junto ao candeeiro
como antigamente, Lili Marleen
como antigamente, Lili Marleen

as nossas sombras encontravam-se
juntas fundiam-se como se fossem uma só
estávamos tão apaixonados
todos o podiam imediatamente ver
todos podiam contemplar-nos
quando estávamos junto ao candeeiro
como antigamente, Lili Marlen
como antigamente, Lili Marlen

e foi então que a sentinela gritou:
“já tocou a reunir,
podes perder três dias de licença"
"camarada, já estou a caminho"
e foi assim que tivemos que dizer adeus
o que eu preferia ter ido contigo
contigo, Lili Marlen
contigo, Lili Marlen

o candeeiro sabe de cor as tuas passadas
o modo gracioso do teu andar
e, embora se acenda todas as noites
esqueceu-me já há muito.
se algo me acontecer
quem ficará debaixo do candeeiro
contigo, Lili Marlen?
contigo, Lili Marlen?

dos céus acima de nós
das profundezas da terra
os teus lábios, como se eu sonhasse
elevam-se à procura dos meus
e eu, perdido no nevoeiro do entardecer
espero-te junto ao candeeiro, mais uma vez
contigo, Lili Marlen
contigo, Lili Marlen.

2004/06/17

Linhas cruzadas

A casa era simpática: um apartamento pós-moderno, num undécimo andar da Avenida João XXI. À mulher esgalgada que me abriu a porta reconheci-a imediatamente pela voz rouca, agora desprovida do timbre impessoal que os telemóveis costumam habitualmente emprestar às vozes desconhecidas.

Entrei. As velas, acesas (nunca percebi esta moda das velas: devem ser coisas que elas vêem em revistas como a Blue Living ou a Lux Casas), os estores, corridos a meia-haste. Por entre as nesgas dos cortinados, o céu de Lisboa escurecia, plúmbeo, funéreo, como se estivéssemos num mau poema de Alexandre Herculano.

A porta fechou-se e a mulher perguntou-me: vamos ser amigos?

Nem me dei ao trabalho de lhe responder. Uma das minhas mãos comprimiu-a imediatamente contra a parede da sala, enquanto a outra a sentia, amarinhando pela novidade da carne, uma mão exploradora a abrir caminho pelo território privativo daquela mulher não especialmente bonita.

Tinha as mamas pequenas e um soutien grosso, enganador, daqueles que estofam os peitos cabisbaixos das envergonhadas pela escassez das carnes, os olhos fechados, a boca expectante, um frémito imperceptível nos lábios escuros. Disse-lhe: abre os olhos.

Ela respondeu-me prontamente, cravando-me nos olhos as duas pupilas, dilatadissimas. Encolhi os ombros, recolhi as mãos e fui-me embora: detesto mulheres que me abram os olhos por tudo e por nada.


As receitas do arame II

Temos a honra de apresentar, hoje, a segunda parte da Trilogia do Arroz: o inolvidável Arroz de Pato à Arame.


O arroz de pato

1 pato mediano (já morto e depenado para dar menos trabalho)
2 cebolas, grandes
2 dentes de alho, grandes
1 chouriço de boa qualidade, negro como um mouro
1 gema de ovo
2 chávenas e meia, almoçadeiras, de arroz vaporizado
Azeite
Três ou quatro bagas de pimenta
Um cravinho
Pós de perlimpimpim de tomilho
Sal


Pegue-se no marreco, corte-se-lhe o pescoço e a zona do rabo, afeitando-se especialmente nesta zona a gordura em excesso. Parta-se o animal em dois, entre as patas e o peito.

Pique-se a cebola grosseiramente e refogue-se numa dose bem generosa de azeite, em tacho largo e fundo. Com a cebola dourada, acrescente-se-lhe o pato, o tomilho, o cravinho e a pimenta. Refogue-se durante 3 minutos, mexendo bem. Acrescente-se água até cobrir o pato (dando-se dois dedos acima, para margem de segurança), tempere-se de sal a gosto e faça-se cozer o marreco em lume brando, até que a carne se separe facilmente com o garfo.

Retira-se então o pato do tacho e dessossa-se totalmente, desfiando-se a carne em pedaços de cerca três centímetros de comprido.

Utilizando um coador, filtra-se o caldo da cozedura do pato para um outro tacho, levando-o a ferver mansamente em lume brando. Deita-se o arroz, a olho, no caldo e espera-se que coza.

Pegue agora num pirex fundo. Deposite uma camada de arroz no fundo. Cubra com o pato desfiado e volte a colocar uma camada final de arroz. Corte o chouriço em rodelas e disponha-as sobre o arroz, de modo a cobrir toda superfície. Parta o ovo, separe a clara da gema, bata a gema e pincele-a liberalmente sobre o chouriço e o arroz. Leve tudo ao forno, a 200º, durante uns bons 10 minutos.


O vinho aconselhado

Hoje optamos por um Quinta de Cevêr (DOC Douro)
Castas Touriga Franca, Tinta da Barca e Tinta Roriz, de aroma frutado e fresco, servido a 18ºC.

Menos ais

Se não podes com eles, junta-te a eles.

2004/06/16



Começou, há muito, a época dos fogos em Portugal.

Aposto, 10 contra 1, em como este ano arderão mais hectares do que os destruídos o ano passado, apesar das promessas, dos livros brancos e dos 'esforços consideráveis' do Governo.

Aposto ainda que mais uma vez lá andarão os bombeiros e os sempiternos populares a apagar fogos, às mijinhas, de mangueira de jardim na mão.

E, contudo, há um avião anfíbio de combate a fogos florestais, construído de série no Canadá, chamado Canadair Bombardier CL-215. Existem, até, neste preciso momento em que escrevo, nove aviões destes à venda, a preços de ocasião.

Ora, estes aviões, comprados a preços de saldo, evitariam as despesas colossais que se fizeram o ano passado com a requisição do mesmo tipo de aeronaves a países terceiros.

Adstritos à Força Aérea, dariam até oportunidade a que a nossa malta da aviação fizesse as tão ambicionadas horas de voo para progressão na carreira. Quiçá, ajudariam até a dar utilidade às barragens de que se fala mais abaixo.

No entanto, que faz este país merdoso que somos? Compra submarinos em leasing! Para quê, senhores, para quê?



Mais um Alqueva

A EDP quer construir uma barragem no Rio Sabor.

O Sabor é um dos últimos rios selvagens de Portugal.

O Sabor está classificado como sítio Natura 2000.

O impacte ambiental da construção da barragem será extremamente negativo, de acordo com os estudos realizados pelo Instituto de Conservação da Natureza e pelas associações ambientalistas mais credíveis.

Uma barragem só se quer para duas coisas: represar água e produzir energia.

No entanto, não estão previstas utilizações da água represada, quer para abastecimento humano, quer para irrigação agrícola.

Quanto à questão da energia, o próprio presidente da EDP Produção afirmou que "a central não será economicamente viável se se olhar apenas para a sua valia eléctrica".

Ontem, dois dias depois das eleições, o recém nomeado ministro do Ambiente, Arlindo Cunha, deu luz verde à construção da barragem em causa.

Agora pergunto eu: para que raio se vai destruir o Sabor, construíndo uma barragem que represa água que não é utilizada e que produz energia eléctrica que nos sai mais cara do que se não fosse produzida?

A resposta só pode residir nos mistérios que os interesses do betão, as autarquias caciquistas e os construtores civis arrivistas tecem. Portugal, país merdoso e terceiro mundista, mais uma vez no seu pior.

2004/06/15

As receitas do arame I

Ando há tempos com vontade de escrever ficção mas a inspiração e o tempo faltam-me.. sobre o que escrever então? Talvez sobre gastronomia: afinal, há sempre uma primeira vez para tudo, até para se escrever sobre comida, neste blog. É assim que, seguindo o exemplo do José Quitério, vamos ao encontro de um fenomenal Arroz com Lulas à Arame, receita portentosa de autor em que o cefalópode canta em dueto afinado com o cereal, num concerto regido a preceito pelo vinho branco seleccionado pelo escanção de serviço.


As lulas

Meio quilo de lula
4 tomates médios, bem maduros
2 pimentos verdes
Um ramo de salsa fresca
Azeite
Molho picante
2 cebolas médias
2 folhas de louro
Sal q.b.



As lulas devem apresentar-se frescas, sendo limpas em casa (versão mais barata). Evite-se comprar pota ou a lula demasiado grande. Não esquecer de retirar os olhos e o bico cerúleo ao animal.

Pica-se a cebola miudinha e leva-se a refogar no azeite, em lume brando, num tacho largo e medianamente fundo. Quando a cebola estiver dourada e amolecida, juntam-se os pimentos cortados em quadrados do tamanho de um selo, as folhas de louro lavadas e 4 ou 5 gotas de molho picante (ver aviso à navegação mais abaixo). Deixa-se apurar em lume igualmente brando durante cerca de 10 minutos. Adicionam-se então as lulas limpas e lavadas e o tomate cortado em cubos grosseiros, bem como o ramo de salsa. Tapa-se e deixa-se estufar. Tempera-se de sal, a gosto, e serve-se com arroz branco.


O molho picante

Azeite extra virgem
Whisky (fundamental para impedir a rancificação do azeite)
Pimenta malagueta fresca


Junta-se num frasco rolhado a malagueta até cerca de 25% do volume, o azeite até cerca de 80% do volume e whisky até perfazer a totalidade do frasco. Agite-se e guarde-se em local ventilado e à sombra durante um mês, período mínimo de maturação. Vá-se agitando espaçadamente e use-se com extremo cuidado.


O arroz branco

Cubra-se o fundo do tacho com uma fina camada de azeite. Frite-se nele o arroz (vaporizado, de preferência), durante meio minuto, e adicione-se um ou dois grãos de comilho. Por cada medida de arroz, adicione então duas medidas de água morna. Coza-se em lume brando, sem mexer, até que a água desapareça.


O vinho aconselhado

Quinta de Pedralvites 2002 (Bairrada, Sogrape)
Da casta Fernão Pires, é um vinho encorpado, cremoso, de acidez bem equilibrada e de final elegante. Serve-se, de preferência, a 9ºC.


há uma ave ferida
que rasteja pelo céu
pudesse eu, como ela,
alar o corpo à tua altura

2004/06/14



Hesitei muito antes de escrever o que se segue. Primeiro, porque se há assuntos que devem ser discutidos em praça pública, outros há que, pelo melindre da amizade e da proximidade, devem permanecer a recato, entre os interessados e não expostos à devassa dos mirones.

Em todo o caso, aqui vai: o caso Casa Pia é um embuste, uma farsa, um logro, uma chachada judicial sem pés nem cabeça, uma telenovela venezuelana onde há de tudo: jornalistas vingadores, televisões histriónicas, populares histéricos, culpados que não são culpados, vítimas que se confundem com os culpados, acusadores que são acusados e vice-versa.

E porque é que afirmo isto assim, à boca cheia?

Porque uma pessoa que conheço desde 1995, uma daquelas pessoas de quem podemos dizer ter a honra de ser amigo, um daqueles homens que são larger than life, daqueles que se elevam acima da ralé miúda que lhe tenta morder os calcanhares, foi acusado e acossado - com uma sanha persecutória inaudita, sem pés nem cabeça - de vários crimes hediondos. Um homem, um amigo, manchado, maculado, conspurcado nas ruas e vilipendiado nos meios profissionais, sem apelo nem agravo.

E tudo isto para quê?

Para ser apenas acusado de ter em sua posse uma arma que lhe fora dada em herança, daquelas das guerras das Áfricas, e que tinha, desmontada numa caixa, esquecida numa dependência também ela esquecida.

A montanha pariu um rato, como previam, como sabiam, aqueles que privam de perto com ele (as discrepâncias factuais eram, aliás, absurdamente kafkianas, se dúvidas empáticas houvesse).

Pior, a montanha abriu a boca e, em vez do rugido à leão justiceiro, emitiu um guinchar à rato Mickey, deixando sair pouco mais do que flatulências venenosas e inquinantes. E agora pergunta-se: porquê o Francisco Alves?

Se calhar pelas mesmas razões pelas quais eu fui ameaçado de morte várias vezes entre 1995 e 1998, pelas mesmas razões pelas quais ameaçam o Filipe com processos nos tribunais por alegada difamação, pelas mesmas razões pelas quais o Instituto Português de Arqueologia está a funcionar no limbo, pelas mesmas razões pelas quais o Francisco Alves não foi reconduzido como Director do Museu Nacional de Arqueologia pelo Santana Lopes, por ter colocado legitimamente em causa a idoneidade civil do seu compadre Rui Gomes da Silva (personagem de opereta, deputado da Assembleia, autor da lei da caça ao tesouro e, simultaneamente, sem qualquer sentido de decoro, advogado de um caçador de teosouros), recebendo igualmente ameaças telefónicas, pelas mesmas razões pelas quais alguns poderosos deste País tentam controlar os danos causados pelas revelações vindas a público no meu outro blog, no Ma-Schamba e no Oeste Bravio...

... pelas razões do costume ou talvez ainda porque somos o mesmo país merdoso de sempre, o mesmo país em que os patos bravos, os chicos espertos, os arquivamentos expeditos e os afastamentos compulsivos ainda fazem lei.



2004/06/13




Hoje, no Arame, o senegalês Baaba Maal.

2004/06/12



Não jogaram um caralho. O que não é para admirar: já não jogamos um caralho desde 1966. O problema é que os jornais, os criativos publicitários, os políticos e as empresas que se querem colar ao futebol tentam convencer-nos do contrário.

Pode ser que, falhada a qualificação na primeira fase, o país se lembre que ainda tem para resolver os fogos florestais, e a urbanização selvagem, e a Europa, e os dez novos parceiros na CEE, e o desemprego, e as rendas estratosféricas, e os empréstimos à habitação a 40 anos, e o emprego precário, e a ciência inexistente, e a poluição, e a corrupção, e a criminalidade, e a agricultura quase inexistente e obsoleta, e isto e aquilo e tudo o mais que ainda está por cumprir desde que Portugal se fez à Índia em barcos da Coroa.



PS: esta publicidade do Banco Espírito Santo é do pior que já vi; com patrocinadores assim, uma derrota no Euro 2004, mais do que um desaire, é um opróbrio que vem de mãos dadas com a vergonha e o ridículo.



Os meus sábados de manhã têm sido isto. Viajar até à cidade de Macau de 1816 e fazer trabalho de sapa no Arquivo Histórico Ultramarino bate definitivamente aos pontos as filas na Marginal, os parques de estacionamento atulhados à beira-mar, as praias da Linha congestionadas de veraneantes, os miúdos aos berros num qualquer McDonald em estado de sítio, os cães-lulu a cagar nas salsas ondas do mar, os surfistas a competir com os lançadores de papagaio e as demais montras das misérias humanas de um país desnorteado, que só vê fun, sun and sex à sua frente.

2004/06/11

tinhas o teu corpo como fio de prumo,
suspenso sobre a profusão das águas.
talvez algum homem lhe seguisse o rasto,
talvez a tua pele escurecesse de prazer
quando ele habitava em ti, efémero.
tinhas nos braços a invenção do corpo
e nas mãos a assinatura das manhãs claras
os teus braços brancos e secos
esgrimindo um adeus sem palavras.
era como se toda tu fosses transbordante,
como se tivesses os olhos fresquíssimos
de uma mulher debruçada na borda da cama,
os olhos oblíquos ao movimento dos corpos
a escutar os gemidos, breves e secos
com que assinala a posse do seu corpo,
como se nada mais houvesse no Mundo
para além da lembrança do sol ajustada à sua sombra.



rigor mortis




a noite afasta-se, também ela escutando ao longe o rumor surdo do nascer do sol. no horizonte, para além da linha clara das urbanizações, o rio corre, lentíssimo, as águas frescas da manhã sorvendo a humidade depositada em estratos à beira-mar, o delta fértil da terra escura chupando o ar nasalado do amanhecer.

surge, enfim, o sol. galga então a margem uma aragem breve, enquanto asas de pássaros estuarinos se despenham com fragor, os corpos ressequidos empilhados uns nos outros, o estertor da agonia audível para além da compreensão, a morte um facto cruel, incomum, a pontilhar, aqui e ali, a passagem, a travessia, a mudança de estado, a sublimação das almas, a corrente interrompida dos genes, a migração como um epitáfio escrito a custo na areia, a vida uma coisa desconexa, assim, sem sentido, com nomes tão díspares como romã ou asfódelo, quiçá vitrúvio ou albatroz, a etimologia atroz do facto consumado, a revelar o mistério final da revelação das coisas, um génesis improcedente a apontar pistas para coisa nenhuma, gritando-nos de chofre, à queima-roupa, abatam os jacarandás, abatam-nos todos, cortem cerce a cor violácea, violenta, sequem a vida mineral, impoluta, do homem que se afasta na noite, também ele escutando o rumor surdo, fugaz, do ocaso da noite que se escoa, renitente, à invasão da luz imparável do meio-dia.



Coimbra, Kodak EPJ 320T pastilhado a 1600 ASA




Durante a escavação de um naufrágio nos Açores, recuperámos um cachimbo de caulino, talvez o primeiro intacto a ser encontrado em território português.

O cachimbo - provavelmente do início do século XVII - continha ainda restos de tabaco e apresentava-se enegrecido pelo uso, o que nos leva a deduzir que pertencia a algum dos tripulantes do barco naufragado, não fazendo portanto parte da carga.

E que importância tem um cachimbo? Bom, os cachimbos de caulino apresentam-se como as ferramentas ideais para a datação de sítios arqueológicos já que a sua fragilidade, a sua ubiquidade e a rapidez com que o seu desenho evoluiu ao longo dos anos levam a que se possa situar no tempo - e isto com bastante precisão - o momento em que o cachimbo deixou de ter utilidade para o seu dono e passou a integrar um registo arqueológico.

Mas, quem fala de cachimbos, tem logicamente de falar de tabaco.

Por volta de 6000 AC, a planta do tabaco sugiu nas Américas, tendo sido consumida fumada ou utilizada em clisteres pelos habitantes nativos. Entre os anos 600 e 1000 DC, surge em Uaxactun, na Guatemala, a primeira representação de um charuto a ser enrolado (deriva, aliás, da língua Maia a palavra cigarro, já que o termo usado para o acto de fumar era sik'ar).

Em 1492, Colombo chega às Américas, entra em contacto com o tabaco e dá-se uma processo de divulgação que origina, logo em 1531,a plantação da espécie na colónia espanhola de Santo Domingo. O tabaco surge em França em 1556, em Portugal em 1558 e em Espanha um ano depois.

Em Portugal, o tabaco é usado para fins medicinais, tendo as suas propriedades e utilizações sido descritas, em 1560, por Jean Nicot de Villemain, embaixador de França no nosso país, que envia, em 1566, rapé à rainha Catarina de Médicis, para que esta pudesse curar as suas dores de cabeça recorrentes (foi em honra deste embaixador que os quimicos franceses do século XIX deram o seu nome ao principio activo do tabaco, a nicotina).

É apenas em 1565 que é introduzido o tabaco em Inglaterra, também para fins medicinais, facto aliás comprovado pelo cirurgião espanhol Monardes, que organiza uma lista das 36 doenças que o tabaco curaria: cáries, unhas frágeis, parasitas intestinais, mau hálito ou cancro, tudo e mais alguma coisa esta pequena planta pestilenta era capaz de fazer sarar.

Foi igulmente na Europa Setentrional que o consumo do tabaco mais se estendeu às camadas populares, com a importação, por Sir Francis Drake, em 1573, do primeiro grande carregamento da planta - o acto de fumar tornou-se tão comum que as autoridades religiosas do México proibiram a sua prática em lugares sagrados.

O uso alargado do tabaco levou então ao inicio do seu cultivo em Cuba (1580) e à publicação em Antuérpia, sete anos depois, da primeira monografia sobre o tabaco, o De herbe panacea, logo seguido, em 1595, pelo primeiro livro em inglês dedicado ao tema. O tabaco passa a ser usado como moeda - podendo mesmo 150 libras da planta comprar uma esposa, nas colónias inglesas.

Contudo, com o consumo do tabaco apareceram igualmente os seus primeiros detractores: o seu uso foi descrito por Jaime I de Inglaterra, em 1604, como um costume horrendo para o olhar, odioso para o nariz, maléfico para o cérebro, perigoso para os pulmões, com o fumo negro e mal-cheiroso tão negro como o do horrivel poço sem fundo da Stigia (no entanto, ontem como hoje, tal pestilência não o desencorajou de fazer taxar o tabaco em 4% e de com ele encher os cofres reais).

Em 1614, Filipe III de Espanha centralizou toda a importação de tabaco do Novo Mundo em Sevilha, tornando a cidade o maior centro mundial produtor de charutos. É a partir desta data que surgem os cigarros, já que as classes mais baixas enrolavam os restos da folha do tabaco em papeis. O costume foi levado por marinheiros portugueses e espanhóis para a Rússia e para o Levante.

O controlo do tabaco rapidamente passa para as mãos dos ingleses, que o cultivam na Virgina e em Maryland, a partir de 1631. Enquanto alguns cediam ao vício da nicotina, outros abominavam a inovação, decapitando os fumadores (como na China em 1638) ou na Suíça (em 1675) em que os infractores eram submetidos às mesmas penas que os que cometiam adultério.

Ingleses e holandeses fumavam o tabaco em cachimbos, presumindo-se sempre que navios que têm cachimbos a bordo transportavam marinheiros ou passageiros daquelas nacionalidades, o que nos é muito útil para referenciar a origem da embarcação.

Pelo contrário, os espanhóis e os portugueses adoptaram o consumo de tabaco, enrolando-lhe as folhas e fumando-o como charuto. Apesar de ser esta a maioritária forma de consumo, os povos ibérico não deixaram de utilizar o cachimbo, embora o tenham feito em muito menor grau do que os povos da norte da Europa.

O cachimbo mais antigo que se conhece, proveniente de meio subaquático, foi encontrado num naufrágio em Alderney, datado de 1592. Após um estudo aturado das tipologias de cachimbos, determinou-se que o comprimento da haste está directamente relacionado com o preço do cachimbo e com o status que ele concedia ao fumador, já que hastes compridas eram mais difíceis e morosas de fabricar.

Também ontem como hoje, fumar é sempre uma questão de estilo.

no silêncio da noite,
pouco mais eras mais que mulher.
eras apenas sexo:
um besouro
que se retorcia e agonizava
com o meu espinho cravado nele,
um anzol ferrugento
a serpentear por ti acima,
em ziguezague,

marrando contra a tua pele
como se estivesse louco.

2004/06/09



gostava de sentir
as raízes dos teus dedos
a crescer
novamente
no meu corpo.

o meu corpo:
um ferro em brasa,
que te trespassava,
cíclico,
no tempo em que éramos felizes,
genuínos.



Rossio. Ilford Hp5+


e o que é a nossa vida
senão um traço que aparece
por um momento?


O periquito defeituoso ganhou asas. Mas nem assim a malta das notícias ganha decoro.

Com uns, poucos, consternados, e muitos outros envergonhados, embaraçados, a tentar uma saída airosa e a congeminar um plano de contenção de danos, o filão é tentador demais. A julgar pelo teor das breves, daqui a pouco vai-se discutir o impacto que tal terá nas eleições de domingo, se haverá ou não um efeito simpatia a influenciar o voto no partido rosa, quem teve ou não teve a culpa dentro do PS trauliteiro e lapuz do Norte e até que ponto o Governo achincalhou gratuitamente o falecido.

Vai uma aposta?

2004/06/08

não mais te voltarei a percorrer, célere:
o meu desejo é agora esse cavalo urgente
de coração fatigado traído sobre as ervas.


a cada século que passa,
a cidade enche-se de novos vivos.

e eu,
que tantas vezes tive a morte diante dos olhos,
agora que a sinto,
não vejo coisa nova.

afinal
o dia presente,
que passa e não volta,
não é mais do que a água que nos procura,
límpida sobre a terra pura.

2004/06/07

Felícia Cabrita.. quem é? É uma suposta jornalista que não sabe escrever. Pior: é uma suposta jornalista que não sabe, sequer, comunicar, quanto mais informar. Lidas as últimas peças dela na Grande Reportagem, fico sem saber se deva chorar, rir ou desistir de comprar, definitivamente, o jornal que traz a Revista que um dia considerei como sendo o último reduto do jornalismo português de investigação.

Depois de nos tentar demonstrar que, se não houvesse Casa Pia em Portugal, não haveria Sida no país, Felícia Cabrita voltou a atacar, assinando um autêntico folhetim da Corin Tellado tão embrulhado que ainda hoje estou para perceber que raio de história queria a senhora contar-me.

Em contrapartida, na Grande Reportagem desta semana um artigo arrasador, da autoria de uma tal de Adriana Bolito, sobre a gravidez adolescente em Portugal, ao melhor nível das GR's de antanho, quando o Miguel Sousa Tavares ainda lá fazia um pézinho de dança.



Basta ya!

Anda amigo. Bebe Sagres. Abre uma conta no Banco Espírito Santo. Compra o 24 Horas. Partilha as emoções com a TMN. Ganha um Kit Klake bebendo 150 Coca-Colas. Faz a Raspadinha. Joga na Lotaria. Compra um Kinas. Compra um boné do Kinas. Vê as cores da emoção com a Cristal Atlantis. Diz as horas com a Swatch. Parte a louça da Vista Alegre. Enche o depósito do Hyundai na Galp. Vota na Força do Governo. Compra uma bola Adidas na Decathlon. Enche o carrinho no Continente e paga com o Mastercard. Empaturra-te de McMenus. Vê os jogos na TVI, na SIC, na RTP1, na :2, na RTP-I, na RTP-M, na RTP-A e na RTP-África. Grava-os com um JVC. Ouve o relato na RFM, na Antena 2, na TSF, em todo o espectro hertziano. Bebe mais uma cerveja, mas que seja Carlsberg. Fotografa a emoção do futebol com uma Canon. Vai ao estádio do Dragão. E ao da Luz. E ao Alvalade XXI. Vê o Figo. E o Pauleta. E o Scolari.

Anda, compra, vê, respira, come, bebe, emborca, assimila, absorve, vive o futebol, o Euro 2004 e os demais produtos assimilados, copyrightados e brandados.

Faz tudo isto se fores o adepto ideal, aquele que vibra com as cores da Selecção, aquele que mete a bandeirinha à varanda de casa e pespega com o autocolante do “Eu fui convocado” no vidrinho do espada.

Já está?

Então, pega agora no Figozito, na garrafita da Sagres, na bolazinha da Adidas, no 24 Horaszinho, num telemovelzinho 3G da TMN, pega em seis latinhas de Coca Cola, num Kinaszito peluchento e felpudo, numa jarrinha de autêntico cristal de chumbo Atlantis, num escarradorzinho da Vista Alegre, num relogiozito do Euro 2004, num Big Maczinho, num comandito de TV e Vídeo, numa Carlsbergzita, no estadiozito do Draganito, no Pauletazito, no BPNzito, no BESito, numa mangueirita da Galpzita, que supra de preferência 95 sem chumbo que sempre é uma gasolinita mais amiguita do ambiente, e enfia essa merda toda no cu.

Em doses homeopáticas. Para que não te doa. Muito. E não te esqueças:



Notas de Viagem XXIV - Marrocos



Segue texto. Ainda hoje, se o tempo o permitir e se não me demorar muito em Peniche.


Algures nas montanhas do Atlas, a caminho de Al Houceima, com um Kodak qualquer.
quando tu me falavas a cores
eu escutava-te a preto e branco.

quando tu me beijavas,
o espaço entre nós era todo ele
os teus olhos estrábicos de proximidade.

2004/06/06

O logro

Fui à Feira do Livro.

Afinal, mais valia ter ido à FNAC: escusava de ter dado de caras com o Daniel Sampaio e sempre veria livros a preços mais baixos.

2004/06/04

Açores, 1591 (I)


Sir Richard Grenville


No ano de 1577, Matthew Baker iniciou em Deptford a construção de um navio que viria a simbolizar a supremacia das armadas inglesas nos mares. Ao contrário dos galeões ibéricos este novo modelo de navio tinha castelos de proa reduzidos e um conjunto de linhas afiladas, o que o tornava não só mais rápido, mas também mais manobrável.

A este novo navio chamaram-lhe Revenge. Media de quilha 31 metros e tinha um comprimento total de cerca de 45 metros, estando o seu porte compreendido entre as 440 e as 500 toneladas.

Na popa encontrava-se a cabina do capitão e o alojamento dos demais oficiais do navio bem como a casa do leme, a santa-bárbara - ou casa da pólvora - e os outros compartimentos de armazenamento de víveres.

Na proa, encontrava-se o mastro do gurupés logo seguido do mastro do traquete, do mastro grande e do mastro de gata ou mezena.

O Revenge tinha duas cobertas de fogo, armando 42 canhões, todos em bronze. Na coberta inferior - com as suas escotilhas a cerca de metro e meio da linha de água - estavam localizadas 20 peças de artilharia, das de maior calibre (entre estas contavam-se 2 meios-canhões que disparavam projécteis de 15 quilos de peso e 4 canhões-pedreiros que disparavam balas de pedra com um peso de 12 quilos).

Para além destas armas de grande calibre, o Revenge armava ainda na sua coberta inferior 10 colubrinas que disparavam projécteis de 9 quilos e 4 meias-colubrinas que disparavam balas de 4 quilos de peso (a relação de número entre as colubrinas e as meias-colubrinas era excepcional já que era o inverso do que se passava com os outros navios da época). Na coberta inferior, as peças distribuíam-se de maneira que os canhões se situavam a meio navio, com as colubrinas alinhadas de igual modo - ficando, no entanto, duas colubrinas à proa, para acções ofensivas, e duas outras à popa, para acções defensivas.

No convés superior, o armamento era mais reduzido, de modo a tornar centro de gravidade mais baixo e, consequentemente, o navio mais estável (no convés estavam 4 meias-colubrinas, 10 quartos de colubrina e vários berços anti-pessoal de pequeno calibre).

Três anos depois da sua construção, o Revenge combateu na baía de Smerwick como navio almirante da frota inglesa. Combateu igualmente, sob as ordens de Sir Francis Drake, contra a Invencível Armada, no ano de 1588, partindo de Plymouth, no ano seguinte, para atacar Portugal, também sob o mesmo comandante.

Em 1590, o Revenge foi o navio-almirante da frota de Sir Martin Frobisher, participando no bloqueio da costa espanhola, no intuito de capturar as naus ibéricas provindas da Nova Espanha.

Sir Richard Grenville

Nascido na Abadia de Buckland, no Devon, em 1542, Richard Grenville ficou órfão de pai aos três anos, quando este se afogou num naufrágio célebre, o do Mary Rose (recentemente escavado e recuperado em Portsmouth). Da sua juventude obscura, sabe-se apenas que matou em duelo um homem chamado Robert Bannester e que foi admitido como estudante no Inner Temple, em 1559.

Grenville foi eleito como membro do Parlamento em 1563, tendo casado com Mary St. Leger em 1565. Depois do casamento partiu em campanha contra os Turcos, tendo-se aliado aos exércitos do Imperador Maximiliano II.

Em 1576 foi eleito xerife da Cornualha sendo investido cavaleiro no mesmo ano devido ao papel preponderante que assumiu no debelar do Catolicismo no oeste da Inglaterra. Em 1585, Grenville fez a primeira de duas viagens à Virgínia, na América do Norte, no que foi ajudado pelo seu primo, Sir Walter Raleigh. É em Roanoke Island que Grenville implanta a primeira colónia inglesa na costa americana, que se veio a perder pouco tempo depois, gorando-se as aspirações colonialistas do cavaleiro inglês (na viagem de regresso, Grenville ataca algumas localidades dos Açores).

Em 1588, Grenville fornece três dos seus navios para o combate contra a Invencível Armada, tendo ele próprio perseguido os navios espanhóis sobreviventes até às águas irlandesas.

A parte da sua biografia que mais nos interessa é, contudo, aquela que teve início em 1591, quando foi nomeado vice-almirante para, sob as ordens de Lord Thomas Howard, se dirigir aos Açores, no intuito de capturar as naus espanholas que regressavam do Novo Mundo, ajoujadas de riquezas.

A expedição aos Açores

É assim que, a 4 de Fevereiro de 1591, o Revenge embarca cerca de 90 barris de pólvora bem como 110 mosquetes e 70 arcabuzes.

Ainda em Londres, o navio recebeu cerca de 160 tripulantes, número que foi aumentado para 260 quando, em Março de 1591, o navio escalou os portos de Portsmouth e de Plymouth - o único oficial a bordo, para além de Grenville, era o capitão William Langhorn, responsável pela disciplina e comando dos soldados que se encontravam a bordo da embarcação.

O Revenge fazia parte de uma esquadra composta pelo Defiance, comandado por Lord Thomas, pelo Nonpareil, comandado por Sir Edward Denny, pelo Bonaventure do capitão Robert Cross, pelo Lion do capitão George Fenner, pelo Foresight, comandado por Thomas Vavascur, pelo Crane do capitão Duffield e pela barca Raleigh, capitaneada pelo comandante Thynne.

(Os outros navios de conserva, de reduzida tonelagem, eram o Pilgrim, o George Noble, o Moon, o Elisabeth, o Diana, o Wasp, o Moonlight, o Dainty, o Swallow, o Vanguard, o Bellyngham, o Bostock, o Disdain e o Delight).

No final de Agosto, junto às Flores, esta armada de corsários aguardava, impaciente, a vinda da rica armada espanhola, provinda da Nova Espanha. No entanto, para sua surpresa, quem surgiu no horizonte não foi a armada da prata, mas sim a armada de guerra de Alonso de Bázan, que lhes tinha vindo dar caça.

A frota de defesa das ilhas

Com efeito, previamente avisado pelos seus espiões em Inglaterra da preparação da frota inglesa onde se incluía o Revenge, Filipe II ordenou, simultaneamente, à sua frota das Índias que permanecesse durante o Inverno de 1590 no porto de Havana, em Cuba e a Don Alonso de Bázan - filho do conquistador da ilha Terceira, Álvaro de Bázan - o regresso da sua frota de 40 navios ao porto da Corunha.

Esta frota de defesa (inovadora para a mentalidade conservadora da maior parte dos militares espanhóis da época que ainda acreditavam, na sua grande maioria, na força das galés mediterrânicas e na superioridade da abordagem sobre os combates de artilharia no mar) tornara-se uma componente essencial na defesa do território ibérico e na protecção das armadas provindas das possessões ultramarinas, desde que a Espanha vira derrotada a sua Armada Invencível em 1588.

Com efeito, a partir daquela altura, as incursões militares ingleses tornaram-se mais arrojadas e a Espanha viu declinar a sua supremacia nos mares, em favor da nova potência marítima.

Para defender a sua ligação umbilical com os metais preciosos do Novo Mundo, Felipe II ordenou a construção de galeões de guerra, - conhecidos como os Doze Apóstolos, pelos nomes que vieram a tomar, entre os quais se contavam o San Felipe, o San Barnabe, o San Christobal, o San Pablo e o San Martin - a maioria dos quais integrava uma frota de defesa que, com base na costa espanhola, tinha como missão deslocar-se aos Açores anualmente, de modo a comboiar as frotas mercantes que ali se reuniam.

A força sob as ordens de Don Alonso Bázan consistia num grupo comandado pelo general Marcos de Aramburu, que tinha sob as suas ordens onze navios, dos quais sete eram galeões de Castela. Outros dois eram flibotes holandeses - uma embarcação rápida, de linhas ligeiras e afiladas, à semelhança dos galeões ingleses - denominados León Rojo e Cavallero de la Mar. Os dois últimos eram navios de avisos, um dos quais era o San Francisco de la Presa.

Na frota espanhola, existiam ainda 8 flibotes, que eram comandados pelo português Dom Luís Coutinho. Os galeões de Biscaia eram capitaneados pelo general Martin de Bretendona, coadjuvado pelos restantes oficiais que comandavam as restantes embarcações da armada: Sancho Pardo, António Urquiola, Bartolomé de Villavicencio e António Manrique.

Em 1591, Felipe II ordenou a partida desta frota do porto de Ferrol para a Terceira de modo a fazer face ao perigo que a armada inglesa representava para a frota da prata.

O corsário inglês Lord Cumberland, que mantinha uma vigilância apertada sobre a movimentação desta frota avisou então Lord Thomas Howard - que permanecia desde Julho na paragem das Flores - da sua partida, através da pinaça Moonshine, comandada pelo capitão Middleton.

Bázan chegou à Terceira, a 30 de Agosto, e foi imediatamente avisado da presença da frota inglesa no grupo ocidental onde tinha causado toda uma série de desacatos e de pilhagens. O almirante espanhol partiu para Flores mas atrasou-se bastante devido ao tempo desfavorável que se fazia sentir no arquipélago.

No dia 8 de Setembro, Don Alonso de Bázan encontrava-se a cerca de quinze léguas da ilha das Flores. Pretendendo seguir imediatamente para a ilha, Bázan viu frustadas as suas intenções devido à quebra do mastro gurupés no galeão de Sancho Pardo. Alonso de Bázan viu-se assim forçado a mitigar o andamento, encontrando-o a madrugada do dia 9 ainda a cerca de 8 milhas de distância das Flores. O Almirante resolveu então contornar a ilha pelo lado oeste de modo a surgir perante as forças inglesas - que se encontravam ancoradas junto a Santa Cruz - como se viesse do ocidente, fazendo com que os ingleses confundissem a sua armada com a armada das Índias.

O estratagema de Bázan resultou em cheio. Os ingleses rapidamente levantaram ferro e acometeram a frota desconhecida. Para seu espanto, em vez de encontrarem navios mercantes fracamente armados, os ingleses encontraram pela frente quatro dezenas de navios de guerra, sete dos quais de grande tonelagem.

Açores, 1591 (II)

At Flores in the Azores Sir Richard Grenville lay,
And a pinnace, like a fluttered bird, came flying from far away:
"Spanish ships of war at sea! we have sighted fifty-three!"


in The Revenge: A Ballad of the Fleet, by Lord Alfred Tennyson (1809-1892).



Aquando do avistamento da frota desconhecida, provinda de oeste, a maior parte dos navios ingleses estava desguarnecida, com as suas tripulações em terra providenciando a aguada e o lastramento das embarcações.

Desses tripulantes, uma grande parte encontrava-se doente, sendo portanto, inútil para a acção bélica que se avizinhava. Estima-se mesmo que cerca de 90 tripulantes do Revenge se encontrassem nessa situação. Pelo lado espanhol, é de crer que também estivessem incapacitados parte dos seus elementos, visto que estes se encontravam no mar, quase permanentemente, há mais de dois meses.

Confrontados com a frota inimiga, os comandantes ingleses fizeram embarcar à pressa as suas tripulações e ordenaram o corte das amarras. Grenville foi o último a deixar o ancoradouro, porque a sua tripulação demorou bastante a chegar ao Revenge.

Assim que se fez ao mar, Grenville constatou que tinha pela frente uma esquadra de guerra e não uma frota mercante. Com o vento a seu favor, os esquadrões de Sevilha surgiram a estibordo do Revenge, dando-lhe imediatamente caça.

Às cinco da tarde, Marcos de Aramburu iniciou uma troca de salvas com os navios de Lord Thomas Howard e tentou mesmo abordar o Defiance. O mesmo tentaram fazer os galeões San Felipe e San Barnabé, mas debalde.

Uma primeira descarga de artilharia, disparada do Revenge, matou o oficial Jorge Troyano que seguia a bordo do galeão San Felipe, comandado por Don Claudio de Biamonte. Este encostou então a sua amura à do navio inglês e lançou uma corda de abordagem, por onde treparam dez soldados espanhóis.

O Revenge afastou-se e a corda que os unia partiu-se, lançando os soldados que por ela desciam ao mar. Grenville disparou então as suas armas da coberta inferior. Carregadas com balas enramadas, destinadas a destruir o aparelho do inimigo, a descarga ocasionou avultados estragos, quer no velame, quer no cordame do San Felipe, que acabou por se afastar. Imediatamente, Bretandona fez lançar um ferro de abordagem, a partir do San Barnabé.

Entretanto, aproveitando-se do anoitecer, Lord Thomas Howard escapou-se com o resto da sua frota, sendo perseguido pelo galeão San Martin, a bordo do qual seguia um tercio lusitano e o Mestre de Campo, Gaspar de Sousa.

Grenville, preso ao San Barnabé, não o pôde acompanhar. A maior parte dos ingleses subiu então até aos seus castelos de proa e de popa, de onde disparou os arcabuzes e mosquetes, lançando mesmo granadas de mão para o interior do galeão espanhol.

Em ajuda deste, chegou então Marcos de Aramburu, que fez desembarcar homens para a popa do Revenge. Abalroou-o para esse efeito com a sua própria proa, que ficou destruída até à linha de água. Os espanhóis capturaram então a bandeira do navio inglês, matando alguns dos seus tripulantes e atingindo mesmo a zona do mastro principal. Entretanto, Aramburu afastou-se, com a água do mar a entrar às golfadas para o interior do seu navio e pediu ajuda ao resto da frota.

Em seu socorro veio Don António Manrique, a bordo do galeão Ascención, que abalroou igualmente a proa do Revenge, logo seguido pelo português Dom Luís Coutinho, que o secundou nessa acção.

A captura do Revenge

Nesta altura, era já noite cerrada. Don Alonso de Bázan fez reunir a sua esquadra ao redor dos três navios imobilizados. Às onze da noite, o próprio Grenville foi atingido por uma bala de mosquete. Enquanto se submetia a cuidados médicos, uma descarga de arcabuzes matou o cirurgião de bordo e feriu gravemente na cabeça o comandante inglês.

O Revenge tinha perdido toda a sua mastreação, enquanto que o navio de Coutinho se afundava durante a noite. O mesmo sucedia, durante a madrugada do dia seguinte, ao Ascención tendo-se salvo a maior parte dos seus tripulantes no navio de Bretandona. O galeão San Barnabé fora tão atingido que chegou mais tarde ao porto de Vigo quase sem velas nem âncoras.

Pela manhã, quase toda a pólvora do Revenge tinha sido gasta e todas as lanças estavam partidas. Do embate tinham resultado cerca de 40 mortos, estando ferida a restante tripulação com maior ou menor gravidade. Na coberta acumulavam-se cerca de 1.5 metros de água proveniente de três orifícios de bala localizados abaixo da linha de flutuação e atabalhoadamente remendados pelos carpinteiros de bordo. Do lado espanhol contavam-se mais de cem mortos, dois dos quais capitães, um deles Luís de San Juan, capitão de infantaria.

Grenville tentou então convencer o seu mestre artilheiro a fazer explodir o navio. No entanto, o capitão William Langhorn conseguiu persuadir o mestre da embarcação a render-se aos espanhóis. Depois de uma breve conferência a bordo da capitânia espanhola, Don Alonso de Bázan ofereceu então a vida e a liberdade aos ingleses em troca da sua rendição.

A tripulação encerrou o mestre artilheiro numa cabina do navio - impedindo-o mesmo de cometer suicídio - e dirigiu-se então para bordo dos navios espanhóis. Grenville foi levado para bordo do galeão de Alonso de Bázan, onde veio a morrer dos ferimentos recebidos no dia seguinte.

Só quinze dias depois da batalha que dera a vitória a Alonso de Bázan, surgiu junto à ilha das Flores o remanescente da flota de la plata, comandada por Aparicio de Arteaga.

Açores, 1591 (III)


O Revenge, National Maritime Museum


A frota da Nova Espanha partira de San Juan de Ulloa, no México, a 13 de Junho de 1591. Comandada por Ribera, esta frota de 22 navios fora atacada pelo corsário John Watts ao largo de Cuba e perdera dois dos seus navios. Tal já não era novidade, visto que o mesmo corsário tinha feito o mesmo a outros 7 navios espanhóis provenientes de Santo Domingo.

À chegada ao porto de Havana, Ribera juntou-se à armada das Honduras e aos navios mercantes que Felipe II tinha mandado ali invernar. Das 120 embarcações iniciais, apenas 71 sobreviveram aos furacões e os corsários.

A 27 de Julho, a frota partiu finalmente de Cuba em direcção aos Açores. Durante a travessia do Atlântico novas tempestades fizeram naufragar mais 11 navios em alto-mar e ocasionaram avarias substanciais no resto da frota.

A 14 de Setembro, chegaram às Flores os primeiros 11 navios da armada das Índias - comandadas por António Navarro, estas embarcações tinham-se separado do corpo principal da frota cerca de 3 semanas antes. Após terem sido reabastecidos com água e víveres, estes navios juntaram-se à frota de Don Alonso Bázan. No dia seguinte, surgiram no horizonte os restantes 49 navios, sob o comando de Aparicio de Arteaga. Os espanhóis viam com desânimo a sua armada semi-destruída. Velas, cordame, provisões, tudo se encontrava estragado ou avariado.

Entretanto, a bordo do Revenge fora colocada uma tripulação mista de 70 homens, espanhóis e prisioneiros ingleses, comandada pelo capitão basco Landagorrieta. Don Alonso de Bázan resolveu então convocar, a 14 de Setembro de 1591, uma junta para se decidir o caminho a tomar:

- deveria a armada permanecer junto às ilhas e aguardar a chegada das fragatas vindas de Havana, com ouro e prata a bordo, bem como a arribada das naus portuguesas da Carreira das Índias, tal como fora instruído por Filipe II?

- ou deveria a armada partir imediatamente para a Terceira, de modo a que os navios danificados pudessem sofrer as reparações necessárias para fazer face à última etapa da jornada, e partir daí para o continente?

Foi decidido que a armada deveria cumprir o regimento régio, pelo menos até à data limite imposta pelo soberano: 5 de Outubro de 1591. Assim, enquanto que junto às Flores permaneciam algumas zabras e caravelas de sentinela, Don Alonso de Bázan partiu com o grosso da armada - 60 navios vindos da Nova Espanha e 36 da sua própria frota - para a Terceira, onde tencionava permanecer até à data acordada.

A tempestade

No entanto, o Homem põe e Deus dispõe. No dia seguinte, pelo meio-dia, o vento começou a soprar rijo de nordeste. Crescendo em intensidade e rodando para norte, o vento assumia já ao anoitecer características ciclónicas e continuava a piorar pela noite dentro.

Ao amanhecer, Don Alonso de Bázan descobriu que com ele apenas permaneciam 10 navios. Toda a sua frota estava dispersa algures entre as Flores e a Terceira. Na manhã desse dia afundou-se junto ao San Pablo o navio Espiritu Santu, de São Domingo, tendo-se salvo apenas um dos tripulantes.

Por três dias e três noites soprou furiosamente o vento de oeste. Açoitado, Bázan não conseguiu ancorar em Angra, onde parte da armada tinha conseguido chegar miraculosamente, conseguindo apenas aportar à Praia, onde ancorou a 18 de Setembro.

Aí, abrigado no interior da baía, o San Pablo foi inspeccionado e reparado por mergulhadores espanhóis enquanto se tentou, debalde, desembarcar 100 soldados no areal da vila.

Pouco tempo depois, o vento cresceu em intensidade, obrigando Bázan a deixar a Praia e a correr com o tempo ao largo Terceira.

Entretanto Revenge lutava futilmente contra as ondas, no que era acompanhado por Aramburu e Bertendona. Fustigados pelo vento ciclónico de noroeste, muitos foram os navios ancorados em Angra que viram as suas amarras romper-se, uma a uma. Empurrados para o largo, muitos procuraram refúgio em São Miguel.

Bázan acabou por não voltar à Terceira. Navegando à capa dos ventos de sudoeste, Bázan procurou refúgio em Lisboa, onde se reuniu a maioria das embarcações sobreviventes - as restantes foram sendo dispersas pelos portos de San Lucar de Barramena, Cádiz, Setúbal, Porto, Vigo e mesmo Bayonne.

Contudo, em plena tempestade, os ingleses continuavam no corso - os marinheiros do capitão Robert Flicke conseguiram mesmo saquear dois dos navios da Terra Firme, antes que estes se afundassem. Ao mesmo tempo, Manuel Paez, comandante do Caçada, um dos flibotes de Coutinho, recapturava um outro navio não conseguindo fazer o mesmo à Nuestra Señora de los Remedios que acabou por ser levada, como presa de corso, para o porto de Plymouth.

Os naufrágios

O saldo foi de uma autêntica hecatombe. De encontro à costa norte da Terceira desfizera-se a nau-capitânia da frota mexicana, uma das mais ricas a afundar-se nesta tempestade.

A nau Santa Maria del Puerto afundou-se a menos de duas léguas da Terceira, sendo abandonada pela sua tripulação assim que a água no seu interior ultrapassou a capacidade de esgotamento das bombas.

O San Medel y Céledon foi visto, pela última vez, junto às Formigas. A nau Madalena, do esquadrão de Urquiola, deu à costa na Terceira perdendo-se metade da sua tripulação. Um patacho do mesmo esquadrão deu à costa na Graciosa, tendo-se salvo a artilharia e a tripulação. Uma outra nau, a Vegoña de Sevilla, do esquadrão de Sancho Pardo, perdeu-se em mar alto, afogando-se cerca de 70 homens de uma tripulação de 200. Duas outras naus naufragaram junto ao Topo, em São Jorge, tendo-se salvo quase toda a tripulação. Junto a São Miguel naufragaram duas naus das Índias e um galeão biscaínho.

Quanto ao Revenge, deu à costa na Terceira, junto à Serreta num local asperissimo. Da sua tripulação de emergência, apenas sobreviveu um homem, que morreu pouco tempo depois, dos ferimentos sofridos no naufrágio.

(Ainda nesse ano, Suarez de Salazar haveria de aconselhar o Rei a proceder ao salvamento das peças do Revenge. Entre 1592 e 1593, procedeu-se à recuperação de 14 bocas de fogo, recorrendo-se a meios de recuperação subaquática ainda não totalmente esclarecidos. Para trás ficaram 7 peças que foram, em 1603, arrastadas por uma tempestade para uma profundidade menor, junto à costa, conforme o relatado pelo capitão de artilharia Pedro de Lumbieras. No ano seguinte, foram dispendidos cerca de 500 ducados com a recuperação dessas peças, essenciais para o suprimento da fortaleza de São Filipe. Quase 34 anos depois, a 4 de Julho de 1625, foram recuperadas outras duas peças. Para a tarefa, foi escolhido um artilheiro espanhol, Sebastiano Rivero, que participara já nas anteriores recuperações, tendo só ele recuperado 18 canhões. Uma destas peças era um meio canhão de bronze, com cerca de 40 quintais - 2 toneladas - de peso).