Sir Richard Grenville
No ano de 1577, Matthew Baker iniciou em Deptford a construção de um navio que viria a simbolizar a supremacia das armadas inglesas nos mares. Ao contrário dos galeões ibéricos este novo modelo de navio tinha castelos de proa reduzidos e um conjunto de linhas afiladas, o que o tornava não só mais rápido, mas também mais manobrável.
A este novo navio chamaram-lhe
Revenge. Media de quilha 31 metros e tinha um comprimento total de cerca de 45 metros, estando o seu porte compreendido entre as 440 e as 500 toneladas.
Na popa encontrava-se a cabina do capitão e o alojamento dos demais oficiais do navio bem como a casa do leme, a santa-bárbara - ou casa da pólvora - e os outros compartimentos de armazenamento de víveres.
Na proa, encontrava-se o mastro do gurupés logo seguido do mastro do traquete, do mastro grande e do mastro de gata ou mezena.
O
Revenge tinha duas cobertas de fogo, armando 42 canhões, todos em bronze. Na coberta inferior - com as suas escotilhas a cerca de metro e meio da linha de água - estavam localizadas 20 peças de artilharia, das de maior calibre (entre estas contavam-se 2 meios-canhões que disparavam projécteis de 15 quilos de peso e 4 canhões-pedreiros que disparavam balas de pedra com um peso de 12 quilos).
Para além destas armas de grande calibre, o
Revenge armava ainda na sua coberta inferior 10 colubrinas que disparavam projécteis de 9 quilos e 4 meias-colubrinas que disparavam balas de 4 quilos de peso (a relação de número entre as colubrinas e as meias-colubrinas era excepcional já que era o inverso do que se passava com os outros navios da época). Na coberta inferior, as peças distribuíam-se de maneira que os canhões se situavam a meio navio, com as colubrinas alinhadas de igual modo - ficando, no entanto, duas colubrinas à proa, para acções ofensivas, e duas outras à popa, para acções defensivas.
No convés superior, o armamento era mais reduzido, de modo a tornar centro de gravidade mais baixo e, consequentemente, o navio mais estável (no convés estavam 4 meias-colubrinas, 10 quartos de colubrina e vários berços anti-pessoal de pequeno calibre).
Três anos depois da sua construção, o
Revenge combateu na baía de Smerwick como navio almirante da frota inglesa. Combateu igualmente, sob as ordens de Sir Francis Drake, contra a Invencível Armada, no ano de 1588, partindo de Plymouth, no ano seguinte, para atacar Portugal, também sob o mesmo comandante.
Em 1590, o
Revenge foi o navio-almirante da frota de Sir Martin Frobisher, participando no bloqueio da costa espanhola, no intuito de capturar as naus ibéricas provindas da Nova Espanha.
Sir Richard Grenville
Nascido na Abadia de Buckland, no Devon, em 1542, Richard Grenville ficou órfão de pai aos três anos, quando este se afogou num naufrágio célebre, o do
Mary Rose (recentemente escavado e recuperado em Portsmouth). Da sua juventude obscura, sabe-se apenas que matou em duelo um homem chamado Robert Bannester e que foi admitido como estudante no Inner Temple, em 1559.
Grenville foi eleito como membro do Parlamento em 1563, tendo casado com Mary St. Leger em 1565. Depois do casamento partiu em campanha contra os Turcos, tendo-se aliado aos exércitos do Imperador Maximiliano II.
Em 1576 foi eleito xerife da Cornualha sendo investido cavaleiro no mesmo ano devido ao papel preponderante que assumiu no debelar do Catolicismo no oeste da Inglaterra. Em 1585, Grenville fez a primeira de duas viagens à Virgínia, na América do Norte, no que foi ajudado pelo seu primo, Sir Walter Raleigh. É em Roanoke Island que Grenville implanta a primeira colónia inglesa na costa americana, que se veio a perder pouco tempo depois, gorando-se as aspirações colonialistas do cavaleiro inglês (na viagem de regresso, Grenville ataca algumas localidades dos Açores).
Em 1588, Grenville fornece três dos seus navios para o combate contra a Invencível Armada, tendo ele próprio perseguido os navios espanhóis sobreviventes até às águas irlandesas.
A parte da sua biografia que mais nos interessa é, contudo, aquela que teve início em 1591, quando foi nomeado vice-almirante para, sob as ordens de Lord Thomas Howard, se dirigir aos Açores, no intuito de capturar as naus espanholas que regressavam do Novo Mundo, ajoujadas de riquezas.
A expedição aos Açores
É assim que, a 4 de Fevereiro de 1591, o
Revenge embarca cerca de 90 barris de pólvora bem como 110 mosquetes e 70 arcabuzes.
Ainda em Londres, o navio recebeu cerca de 160 tripulantes, número que foi aumentado para 260 quando, em Março de 1591, o navio escalou os portos de Portsmouth e de Plymouth - o único oficial a bordo, para além de Grenville, era o capitão William Langhorn, responsável pela disciplina e comando dos soldados que se encontravam a bordo da embarcação.
O Revenge fazia parte de uma esquadra composta pelo
Defiance, comandado por Lord Thomas, pelo
Nonpareil, comandado por Sir Edward Denny, pelo
Bonaventure do capitão Robert Cross, pelo
Lion do capitão George Fenner, pelo
Foresight, comandado por Thomas Vavascur, pelo
Crane do capitão Duffield e pela barca
Raleigh, capitaneada pelo comandante Thynne.
(Os outros navios de conserva, de reduzida tonelagem, eram o
Pilgrim, o
George Noble, o
Moon, o
Elisabeth, o
Diana, o
Wasp, o
Moonlight, o
Dainty, o
Swallow, o
Vanguard, o
Bellyngham, o
Bostock, o
Disdain e o
Delight).
No final de Agosto, junto às Flores, esta armada de corsários aguardava, impaciente, a vinda da rica armada espanhola, provinda da Nova Espanha. No entanto, para sua surpresa, quem surgiu no horizonte não foi a armada da prata, mas sim a armada de guerra de Alonso de Bázan, que lhes tinha vindo dar caça.
A frota de defesa das ilhas
Com efeito, previamente avisado pelos seus espiões em Inglaterra da preparação da frota inglesa onde se incluía o
Revenge, Filipe II ordenou, simultaneamente, à sua frota das Índias que permanecesse durante o Inverno de 1590 no porto de Havana, em Cuba e a Don Alonso de Bázan - filho do conquistador da ilha Terceira, Álvaro de Bázan - o regresso da sua frota de 40 navios ao porto da Corunha.
Esta frota de defesa (inovadora para a mentalidade conservadora da maior parte dos militares espanhóis da época que ainda acreditavam, na sua grande maioria, na força das galés mediterrânicas e na superioridade da abordagem sobre os combates de artilharia no mar) tornara-se uma componente essencial na defesa do território ibérico e na protecção das armadas provindas das possessões ultramarinas, desde que a Espanha vira derrotada a sua Armada Invencível em 1588.
Com efeito, a partir daquela altura, as incursões militares ingleses tornaram-se mais arrojadas e a Espanha viu declinar a sua supremacia nos mares, em favor da nova potência marítima.
Para defender a sua ligação umbilical com os metais preciosos do Novo Mundo, Felipe II ordenou a construção de galeões de guerra, - conhecidos como os Doze Apóstolos, pelos nomes que vieram a tomar, entre os quais se contavam o
San Felipe, o
San Barnabe, o
San Christobal, o
San Pablo e o
San Martin - a maioria dos quais integrava uma frota de defesa que, com base na costa espanhola, tinha como missão deslocar-se aos Açores anualmente, de modo a comboiar as frotas mercantes que ali se reuniam.
A força sob as ordens de Don Alonso Bázan consistia num grupo comandado pelo general Marcos de Aramburu, que tinha sob as suas ordens onze navios, dos quais sete eram galeões de Castela. Outros dois eram flibotes holandeses - uma embarcação rápida, de linhas ligeiras e afiladas, à semelhança dos galeões ingleses - denominados
León Rojo e
Cavallero de la Mar. Os dois últimos eram navios de avisos, um dos quais era o San Francisco de la Presa.
Na frota espanhola, existiam ainda 8 flibotes, que eram comandados pelo português Dom Luís Coutinho. Os galeões de Biscaia eram capitaneados pelo general Martin de Bretendona, coadjuvado pelos restantes oficiais que comandavam as restantes embarcações da armada: Sancho Pardo, António Urquiola, Bartolomé de Villavicencio e António Manrique.
Em 1591, Felipe II ordenou a partida desta frota do porto de Ferrol para a Terceira de modo a fazer face ao perigo que a armada inglesa representava para a frota da prata.
O corsário inglês Lord Cumberland, que mantinha uma vigilância apertada sobre a movimentação desta frota avisou então Lord Thomas Howard - que permanecia desde Julho na paragem das Flores - da sua partida, através da pinaça
Moonshine, comandada pelo capitão Middleton.
Bázan chegou à Terceira, a 30 de Agosto, e foi imediatamente avisado da presença da frota inglesa no grupo ocidental onde tinha causado toda uma série de desacatos e de pilhagens. O almirante espanhol partiu para Flores mas atrasou-se bastante devido ao tempo desfavorável que se fazia sentir no arquipélago.
No dia 8 de Setembro, Don Alonso de Bázan encontrava-se a cerca de quinze léguas da ilha das Flores. Pretendendo seguir imediatamente para a ilha, Bázan viu frustadas as suas intenções devido à quebra do mastro gurupés no galeão de Sancho Pardo. Alonso de Bázan viu-se assim forçado a mitigar o andamento, encontrando-o a madrugada do dia 9 ainda a cerca de 8 milhas de distância das Flores. O Almirante resolveu então contornar a ilha pelo lado oeste de modo a surgir perante as forças inglesas - que se encontravam ancoradas junto a Santa Cruz - como se viesse do ocidente, fazendo com que os ingleses confundissem a sua armada com a armada das Índias.
O estratagema de Bázan resultou em cheio. Os ingleses rapidamente levantaram ferro e acometeram a frota desconhecida. Para seu espanto, em vez de encontrarem navios mercantes fracamente armados, os ingleses encontraram pela frente quatro dezenas de navios de guerra, sete dos quais de grande tonelagem.