Há muitos, muitos anos atrás, aprendi a ler. E, com a aprendizagem veio a prática. Por entre as obras que se escondiam nas estantes lá de casa, havia de tudo: do Júlio Dinis à Oriana Fallaci. Contudo, o primeiro livro que me lembro de ter lido, assim daqueles de peso, só com letras e sem figuras, era um
thriller: "O Caso Odessa", do Frederick Forsyth, numa edição de capa grossa do Círculo de Leitores.
Li-o, sem exagero, umas dez ou doze vezes.
A acção principia num carro, onde segue ao volante de um Jaguar a personagem principal, o jornalista alemão Peter Miller. É de noite. A rádio interrompe, de repente, a música ligeira que atravessava o éter para transmitir, catatónica, a notícia da morte do presidente americano John F. Kennedy. O autor descreve então, através da estupefacção da personagem, o modo como todos os automobilistas fizeram sinal para encostar e se imobilizaram na berma da auto-estrada, para melhor poder absorver a notícia chocante, diria mesmo fracturante. Morrera o homem que tinha dito
Ich bin ein Berliner.
Esta sexta-feira revi, na minha mente, esse episódio, enquanto conduzia numa auto-estrada, e ouvia o Presidente da República Portuguesa anunciar o Óscar do Governo 2004 para o melhor actor. Desta vez, contrariando a literatura, ninguém se encostou à berma. Afinal, nem todos podem ser JFK’s.
Que disse o Presidente Sampaio?
Disse-nos que a estabilidade política associada ao regular funcionamento das instituições significa em primeiro lugar, que os cidadãos, quando são chamados a eleger os seus representantes na Assembleia da República, têm, por essa via, a possibilidade de escolher, indirectamente, um Governo para os quatro anos seguintes.
O Presidente não nos disse, contudo, que há sempre a real hipótese constitucional de se poder arcar com um governo substancialmente diferente daquilo que pensávamos estar a eleger – como aconteceu, por exemplo, com a coligação que o PSD fez,
a posteriori, com o PP, e que levou Paulo Portas a ministro da Defesa (esta coligação, apesar de constitucionalmente possível, não foi mais do que uma negociata – não duvido que, se ela tivesse sido aventada antes das eleições, o resultado teria sido outro).
Disse-nos ainda o PR que, ao longo dos quatro anos de mandato o Governo, com respeito das regras constitucionais, deve ter a possibilidade de realizar, livre e responsavelmente, o programa sufragado nas eleições.
Contudo, o PR falhou em esclarecer-nos porque é que o Governo fez tábua rasa do seu
programa, um programa pessoal, assinado em pessoa por José Manuel Durão Barroso, cheio de termos e frases bombásticas como esta “ comprometo-me a baixar os impostos sobre quem vive do seu salário e sobre as empresas que investem”.
Durão Barroso mentiu. Durão Barroso quebrou o contrato que assinou com o eleitoral. Durão Barroso demitiu-se do país, dos problemas que herdou, dos que gerou e dos que deixou por resolver e fugiu para Bruxelas, impedindo assim o PR de poder dizer, como disse à boca cheia que, no termo da legislatura, os eleitores julgarão a actividade do Governo.
Já não há Governo. O que há agora é uma coisa nova, uma nova (des)orientação: novas pessoas, novos cargos, novos ministérios, novos locais para ministérios, novas secretarias. O Governo não só fugiu como se tornou inimputável.
Boquiabertos com a benesse, o Zandinga Gabriel Alves e a Catherine Deneuve deram as mãos e colheram de podre a situação. O poder caiu, não na rua, mas no esgoto. Em coro, os
enfants terribles, um ex-dirigente desportivo, o outro ex-jornalista encartado, juraram ao PR que estavam em condições de constituir um novo Governo que permitisse dar continuidade e cumprir o Programa do anterior.
Perante isto, perante o estado deplorável da Oposição, perante os cenários que se lhe apresentavam, que decidiu o PR?
Decidiu não convocar eleições antecipadas, reiterando, no entanto, que teria de ser rigorosamente respeitada a continuidade das políticas essenciais – a Europa, a política externa, a defesa, a justiça, bem como as políticas de consolidação orçamental.
E disse mais o PR.
Disse que ficava claro que é pelas vias de continuidade e pelo rigor indispensável que passarão os critérios permanentes da sua avaliação das condições de manutenção da estabilidade governamental; e que utilizará a plenitude dos seus poderes constitucionais para assegurar que esses critérios serão respeitados, tendo por inaceitáveis viragens radicais nestas políticas, pois foram elas as sufragadas pelo eleitorado.
Ora, a não ter medo o PR de dissolver a Assembleia assim que esta dupla de
clowns ponha o pé em ramo verde, a solução encontrada é a mais airosa.
E porquê? Porque de há muitos anos para cá que a situação tem vindo a degradar-se, lenta mas paulatinamente. Os melhores cidadãos, os mais bem formados ética, moral e intelectualmente, ou morrem de velhos ou então não estão para se afogar no lamaçal em que a política portuguesa tem vindo a sobrenadar, preferindo observar de fora a caixa de Pandora em que as distritais e as concelhias se tornaram.
Hoje em dia, a actividade política dos cidadãos está demissionária. O eleitor demite-se. O militante
desmilita-se. As juventudes partidárias só
juventam se receberem ao dia, em contado ou em espécie. O simpatizante só simpatiza se obtiver alguma sinecura na Câmara lá do sítio. Os populares só popularizam se receberem um brinde, uma canetinha, um postalinho, um beijinho que seja. As acções do partido só accionam nas feiras, nos mercados, nos arraiais, nos estádios de futebol, onde o nosso Presidente é o primeiro a verter a lágrimazinha aos acordes do hino da inclíta geração da bota de ouro.
O centro moderado e liberal esvazia-se porque é preciso ir à praia, ao centro comercial, ao concerto, ao hipermercado e não há tempo ou vontade para se fazer manifestações, para se ir votar, para se reclamar, para se exigir.
Os extremos incham à custa da vacuidade do centro, as posições extremam-se, radicalizam-se as vozes, os comentários, as acções de rua e as contra-reacções de gabinete. E um dia, ontem, hoje, quando se abre o jornal constata-se que o impensável aconteceu.
E ainda bem. Mais vale tarde que nunca. Nada como um bom abanão para voltarmos à realidade. Ao menos, alguma coisa positiva nos trouxe esta palhaçada: muitos de nós acordámos. Estamos assustados, mas acordados.
E é bem acordado, bem lúcido, que penso ser esta a melhor solução, a encontrada pelo PR: a de dar continuidade ao Governo, indigitando Santana Lopes como primeiro-ministro. A bola está agora do lado do Governo. Cabe a ele, e só a ele, apresentar obra.
Por maior que seja este sapo, há que engoli-lo. Há que dar ao sapo a oportunidade de se fazer alegremente estourar. Santana Lopes é uma personagem de opereta de personalidade imatura, é um Peter Pan inseguro que foge sempre para a frente, a cavalo de uma ambição desmedida, procurando reafirmar-se constantemente, tendo na sua vida pública e privada a prova provada da sua inconsequência, da sua trajectória errática, da sua impotência disfuncional como obreiro, da sua incapacidade em se fazer reconhecer como homem merecedor de respeito ou de credibilidade.
Dêem-lhe tempo. Dêem-lhe todos os meios que ele pedir. Retirem-lhe debaixo dos pés a novidade, o desafio, a luta quixotesca, a vitimização e verão como o sapo estoura, sem apelo nem agravo. Ponham os olhos no Paulo Portas e no que ele prometia antes e depois de se ver no Governo e verão o retrato de Santana Lopes daqui a dois anos. Em verdade vos digo: o País estará pior, sem dúvida, mas estará vacinado, imunizado.
Melhores dias virão. Mas só virão se o PR cumprir realmente aquilo com que se comprometeu com os Portugueses, na sexta-feira passada. Só poderemos fazer o sapo estourar se o PR vigiar e controlar as tais “viragens radicais” que todos esperam e prevêem: o populismo, os amigalhaços no poder, o erário público distribuído regiamente aos assalariados do Governo, das autarquias e do Estado, o regabofe na Função Publica, o choque fiscal para inglês ver.
É preciso que o PR esteja, como ele disse, vigilante.
Mas só o PR não basta. É preciso que a Oposição se organize. É preciso que o PS se afaste dos vícios de Matosinhos e de centenas de outros casos similares e ponha a casa em ordem. E que o faça depressa e com tino.
É preciso que apareçam líderes. E que se entendam. São os líderes que lideram. Não são nunca as pessoas cinzentas, como Ferro Rodrigues, que arrastam o País pelos fundilhos. É de líderes, é de homens de acção, de fibra, é de homens ou mulheres carismáticos, que saibam rodear-se das pessoas cinzentas mais acertadas para lhes servir como conselheiros, que o País precisa.
De líderes a sério. Não de imaturos de pacotilha como Santana Lopes.
Retirem a Santana Lopes o dinheiro para prebendas, sinecuras e luvas e veremos então de que fibra é feito o homem. É aqui, neste ponto, que o PR tem de se fazer forte. É aqui, que ele tem o dever, o direito, de zelar pelos nossos interesses.
Embora confie, desconfiando, até lá, dou-lhe o meu apoio. É assim que vejo as coisas. A democracia segue o seu curso, sem novidades fracturantes. Não admira, pois, que ninguém tenha parado na berma da auto-estrada para ouvir o que o PR tinha a dizer. Ouvimos, calamos e aguardamos. Serena, mas vigilantemente.
Porque, se há algo que eu aprendi, na gestão de seres humanos, das suas idiossincrasias, dos seus amuos, dos seus afectos e das suas capacidades é esta lição: mais vale tê-los connosco, dentro do barco, a mijar para fora, do que fora do barco, a mijar para dentro.
Neste momento, Santana Lopes e Paulo Portas estão fora, a mijar para dentro. Basta saber até que ponto da perna vai Sampaio tolerar que lhe chegue o mijo. Esperemos que esteja atento e que a sua tolerância seja mínima. Sob pena de naufragarmos todos, num barco cheio de imundície até à amurada.