2004/07/29

com calma, muita calma,
abro as veias como se abrisse as páginas de um livro.

verifico, sem surpresas,
que não tenho indíce ou posfácio:
todo eu sou letras, frases, a caminho de um fim.

2004/07/28

Pergunta do dia

Se o limite máximo de velocidade nas estradas portuguesas é de 120 Km/h, porque é que a maioria dos carros à venda em Portugal consegue atingir 200, 250 e até 280 km/h?
 

2004/07/27

O nevoeiro



o nevoeiro levantava-se do rio. nós, 
sentados, olhávamos as árvores seculares.
ao longe, barcos e homens soltavam amarras.
partiam mar fora, sem deixar saudade,
sem a esperança de um dia voltar.
partiam sem que no cais houvesse mulheres
que lhes fossem dizer adeus.  

e as nossas mãos cosiam-se umas às outras
enquanto os barcos se despediam de terra,
lançando uivos lancinantes e singrando rio abaixo
levando os nossos olhares prisioneiros de tanto mar.

e nós, sentados, descalços,
olhávamos as árvores enquanto o nevoeiro não vinha.
e éramos nós e bastávamo-nos um ao outro.
deveria ser sempre assim. sempre.


Baía de Cascais, Kodak Tmax 3200

 

Notas de Viagem XXIV - Texas, USA




A voar pela primeira vez para as Américas, o que me surpreende primeiro é a vasta extensão gelada do Canadá. Nesta rota loxodrómica que me leva de Lisboa a Nova Iorque foge-se primeiro para Norte para só então chegar ao Leste – afinal, nem sempre o percurso mais curto entre dois pontos é uma linha recta.

Sob as asas, engolindo milhas e horas numa corrida pela paragem do tempo, desfila a tundra castanha, branca, pontuada aqui e ali por lagos que vistos daqui parecem charcos mais ou menos extensos.

Depois, é o esperar e esperar pela autorização de aterrar. Abaixo de mim, acima de mim, circulam aviões, em espirais que nunca cessam. Vêem-se-lhes as luzes, que piscam e piscam. Adivinho as faces descontraídas dos pilotos no cockpit, pressinto as mãos tensas dos controladores de aproximação do JFK no desencadear de um xadrez aéreo que não admite erros nem hesitações.

Depois, aterra-se. Passa-se pela linha amarela do Immigration Service e espera-se pelo voo de ligação para Houston, com escala em Saint-Louis. É como se entrássemos num autocarro. É tudo muito prático, muito pragmático: os americanos têm definitivamente uma relação utilitária com os aviões. Mais horas de voo até que se aterra em Saint-Louis, e depois em Houston.

Esperam-me 4 horas de carro. Serão as primeiras 4 horas das muitas que ainda estarão para vir. Nos Estados Unidos todas as distâncias são expressas em tempo de estrada: quanto é de College Station a Corpus Christi? 5 horas. A que distância está a bomba de gasolina mais próxima? 10 minutos. O carro está para os americanos como o telemóvel está para os portugueses: a vida é impensável sem ele. Entra-se nos Bancos de carro, entra-se e sai-se do McDrive de carro, vive-se no carro, namora-se no carro, cresce-se no carro. Não há praticamente transeuntes no Texas.

De dia anda-se de carro, sem destino, que o galão da gasolina sai barato. À noite, param-se os carros nos bares à beira de estrada. São sempre caixotes pré-fabricados, com néons da Budweiser cá fora e avisos nas portas como o Warning: police officers may be posing as store employees; o You must be 21 years old and have a valid ID to buy alcohol ou o meu preferido, No Concealed Guns Allowed Inside these Premisses. No interior, há sempre homens, maiores de 21 anos, bêbados, putas recauchutadas, duas ou três mesas de snooker e uma juke box com um Paul Mateki lá dentro.

A antiga República do Texas, hoje Lone Star State é, na parte esconsa que eu conheci, uma imensidão de monotonia plana, uma estepe imensa polvilhada aqui e ali por small towns e ranchos decrépitos, vacas e plantações a perder de vista. De quando em vez, passam nas estradas pickups ferrugentas, com uma gun-rack na bagageira. São conduzidas por homens de chapéu Stetson, com grandes fivelas de latão no cinto. Estes homens são secos, imaginam-se Malboro Mens ou John Wayne e lançam-nos, quase que por favor e por entre dentes castanhos de tabaco, um Howdy gutural e cuspido. A eles tanto se lhes dá o calor andaluz que se faz sentir no Verão como o frio idiota que se faz sentir em Janeiro: não tanto que caia neve, apenas o suficiente para fazer congelar a chuva na estrada e nos passeios, originando despistes e quedas aparatosas; sei do que falo: muitas e muitas vezes o chão invernoso do Texas entrou violentamente em contacto com algumas partes do meu corpo.

Texas é o tédio, os avisos de tornados no verão, a peregrinação até Waco. O Texas é um espaço imenso, vazio e plano – andam-se centenas de milhas só para se ir ver um viaduto ou uma pontezita. O Texas é um espaço onde as vozes da Dulce Pontes, da Teresa Salgueiro e da Amália ecoam diferentes, ressumando saudade e portugalidade, num clichet de emigrante tantas vezes repetido. O Texas é o protestantismo do peixe colado no carro, é o perigo de se poder ir parar à prisão ou pagar 500 dólares de multa se a vossa namorada se queixar às autoridades por ter sido sodomizada, é o cruzar-se com miúdos de 5 anos de Colt à cintura, é o poder fazer-se parte do Ku Klux Klan sem se ser criticado socialmente, é o local onde saber espanhol é uma vantagem no mundo Tex-Mex.

O Texas é, também ele, a América dos contrastes.


Cedar Creek, Texas




2004/07/26

Ourobouros



e, como a serpente,
a história devora-se
devorando-me-nos-te.


Fotografia de James Natchwey, ou o Ruanda revisitado no Darfur, a sugestão da Rua da Judiaria.
 

O secretário de Estado adjunto do Turismo, Carlos Martins, considera que "há aspectos muito estranhos" na forma como deflagram as chamas nas matas algarvias, mas não quis especular sobre a possível origem criminosa dos fogos. Dois Canadair gregos chegam hoje a Portugal, na sequência do pedido de ajuda à União Europeia. in Público.

Dois comentários:

1) Aspectos estranhos? Que aspectos estranhos? Toda a gente sabe que quem anda a atear os fogos florestais são ex-combatentes da Guerra Colonial. Quem o disse foi o ex-ministro deste Governo, o Figueiredo Lopes. Portanto, não encontrar canisters de napalm e granadas incendiárias nas matas ardidas é que seria muito estranho;

2) Depois de termos perdido o Euro 2004 para a Grécia, ainda temos de sofrer a humilhação de lhes ir pedir, de chapéu na mão e fatinho de ir-ver-a-Deus, um parzinho de Canadair's?

Mais uma vez, mais um ano passado, mais uns milhares de palavras vãs ditas e escritas, mais um livro branco sobre incêndios publicados e o erro persiste: quando se precisa de aviões de combate ao fogo como de pão para a boca, gasta-se o dinheiro que se não tem em submarinos.

Deve ser para vigiar o nível das albufeiras e combater a praga do lagostim vermelho a golpes de torpedo...

procura por ti, o corpo descompassado,
as mãos inquietas, o coração em correria.

escusado nervosismo, medo inútil: afinal,
trazes nos braços a segurança e a calmaria
como os barcos que outrora segredavam
sobre tempestades desfeitas em maresia.
rompe do mar uma mão
nos dedos fechados um peixe
com o seu ar sombrio
ergue-se ao céu longínquo
dá-lhe asas, fá-lo navegar
sem rota nem destino


Pobre país o nosso...

... e pobre do nosso património arqueológico quando é empossado como ministra da Cultura alguém que é consultor de uma empresa de caça ao tesourofamosa pelas suas pilhagens nos países lusófonos.




Não me lembro de quando o escutei pela primeira vez. Sei que vi o video, primeiro. Depois, comprei o LP. Comprei outro quando as espiras se gastaram de tanto ser ouvido. Gravei então três, talvez quatro, K7's e usei-as até à combustão. Muitos anos depois, surgiu o CD.

Sei cada palavra, cada suspiro, cada acorde de cor e salteado. Se tiver algum dia de escolher, direi que Pros and Cons of Hitch Hiking, de Roger Waters, é o álbum da minha vida. Era o que Pink Floyd poderia ter sido e não foi. E ainda bem.

Hoje, em audição aqui ao lado, a extended version da atípica faixa que dá o nome ao álbum.

2004/07/23



Roubada daqui.

Adoro esta foto. O mar. O azul. O vermelho encarnado dos cravos, que serão sempre, mas sempre de Abril, de encontro ao azul escuro do mar. A incongruência que é ver-se um homem vestido a rigor, de sobretudo, gravata e fato de três peças, com os sapatos que se adivinham de cerimónia, displicentemente enterrados na areia, as ondas que refluem de encontro às pernas do homem.

Para mim, mais do que a guitarra, mais do que todas as composições que Carlos Paredes nos deixou, esta foto é o Carlos Paredes.

Nesta foto, este homem, que ali está, no meio do mar, frágil, mas digno, é um homem belo.

 
Adenda: sabe-se por aqui que é possível ouvir o Carlos Paredes aqui.


O Renato era micaelense. Era também um puto calado, de óculos redondos e sotaque fechado.

À noite, quando as festas académicas se aproximavam ou quando o grupo de serenatas que sempre tentámos levar avante se reunia para se afundar mais tarde no ócio, na preguiça, na praia ou na caça submarina, o Renato abria o estojo, retirava de lá de dentro a guitarra portuguesa e tocava.

Tocava, não sem antes afagar as cordas e manipular longamente os parafusos da afinação. Alguém puxava de uma viola, abria-se mais uma cerveja ou bebia-se mais um copo de vinho de cheiro e cantava-se. A Lira. O Afonso. O À Meia Noite ao Luar. Os Olhos Negros. O Rema que Rema. A Chamateira. Os Bravos. O que fosse.

De tudo, o que mais em fascinava não era o mar escuro que se abria defronte da varanda. Nem o azular longínquo da tempestade no mar. O que mais me fascinava era o Renato e a sua guitarra portuguesa.

Nessa altura, todo eu era inveja. Invejava descaradamente quem tinha o saber e a arte de poder tirar os sons que queria daquele instrumento gongórico, barroco, cheio de rócócós e rendilhados.

Nessa altura, daria um braço para poder tocar guitarra. Bem que tentei, uma, duas vezes. Mas, debalde. Descobri apenas que só sou canhoto com uma espingarda e com uma guitarra. E que me falta o ouvido, a paciência, o engenho, para poder praticar, vezes sem conta, a difícil disciplina que se exige a quem uma guitarra quer tocar.

Tenho pena. Custa-me tanto ser assim, imperfeito, incompleto, canhoto, desajeitado, tosco.

Carlos Paredes



1925 - 2004
 
 

A palavra por dentro da guitarra
a guitarra por dentro da palavra.
Ou talvez esta mão que se desgarra
(com garra com garra)
esta mão que nos busca e nos agarra
e nos rasga e nos lavra
com seu fio de mágoa e cimitarra.

Asa e navalha. E campo de Batalha.
E nau charrua e praça e rua.
(E também lua e também lua).
Pode ser fogo pode ser vento
(ou só lamento ou só lamento).

Esta mão de meseta
voltada para o mar
esta garra por dentro da tristeza.
Ei-la a voar ei-la a subir
ei-la a voltar de Alcácer Quibir.

Ó mão cigarra
mão cigana
guitarra guitarra
lusitana.


Manuel Alegre

2004/07/22

Cendrillon




Muito, muito antes de ir ver os Xutos ao Incrível Almadense ou ao Pavilhão do Moscavide, muito antes do 78-82, havia os Téléphone. Ouvi-os pela primeira vez, teria eu quando muito 12, 13 anos, nos álbuns Dure Limite e Serrez. Foi paixão à primeira vista.

Cendrillon


Cendrillon pour ses vingt ans
Est la plus jolie des enfants
Son bel amant,
le prince charmant
La prend sur son cheval blanc
Elle oublie le temps
Dans ce palais d'argent
Pour ne pas voir qu'un nouveau
jour se lève
Elle ferme les yeux
et dans ses rêves

Elle part
Jolie petite histoire

Cendrillon pour ses trente ans
Est la plus triste des mamans
Le prince charmant
a foutu l'camp
Avec la belle au bois dormant
Elle a vu cent chevaux blancs
Loin d'elle emmener
ses enfants
Elle commence à boire
A traîner dans les bars
Emmitouflée dans son cafard
Maintenant elle fait le trottoir

Elle part
Jolie petite histoire

Dix ans de cette vie ont suffi
A la changer en junkie
Et dans un sommeil infini
Cendrillon voit finir sa vie
Les lumières dansent
Dans l'ambulance
Mais elle tue sa dernière chance
Tout ça n'a plus d'importance

Elle part
Fin de l'histoire

Notre père qui êtes si vieux
As tu vraiment fait de
ton mieux
Car sur la terre et dans
les cieux
Tes anges n'aiment pas
devenir vieux


Livrai-nos, Senhor, do mal, do turco e do cometa, assim pedia a oração do Papa Calisto II, a exorcizar o cometa Halley, aquando da sua passagem pela Terra, em 1452.

Assim deve estar Sampaio, El Presidente, depois do circo desta semana em que o número da bala humana foi protagonizado por um cometa platinado, cujo único currículo conhecido na Cultura, nas Artes e nos Espectáculos é o de andar a comer o ex-marido da Alexandra Lencastre. De trajectória errante e excêntrica, este é o cometa que desistiu de ser Governadora Civil de Lisboa para fazer uma perninha como Secretária de Estado da Segurança Social para ser Secretária de Estado da Defesa por meia hora, para depois fazer esperar toda a gente algumas horas mais enquanto a acta de tomada de posse era assinada à pressa, desta vez como cometa das Artes e dos Espectáculos.

A julgar pelo trabalho que (não) deixou feito em qualquer das posições que ocupou até agora, cá estaremos, refastelados, a olhar para o céu, a discorrer sobre fogos fátuos, efemérides e trânsitos interestelares, enquanto o cometa vai ziguezagueando pelo espaço, à procura de mais holofotes, alcavalas e prebendas. Tudo, claro, à custa do patêgo.

Afinal, este Governo pretendia-se ou não de continuidade? Se assim se pretendia, porque mudaram todas as pastas de mão, à excepção da Saúde?

Este governo não era para ter governantes de outros locais que não Lisboa? Então, porque é que só há um do Porto e outro da ilha Terceira?

Este Governo não era suposto ter menos Governantes? Então porque é que tem muitos mais que o anterior?

Não era suposto haver estabilidade governativa? Como poderá ela existir se esta indecorosa dança das cadeiras implica agora uma nova curva de aprendizagem e de marca-passo?

Palavras, leva-as o vento e embrulham o peixe nos jornais. Algumas, poucas, talvez cheguem aos ouvidos de Deus.

Pelo sim, pelo não, eu comecei já a rezar. Pode ser que alguém me escute.

Livrai-nos, Senhor, dos males do mundo, da condição dos homens, dos idiotas, dos possidónios, dos arrivistas, dos homens e mulheres do aparelho, das falsas louras tiazorras, dos fatinhos às risquinhas, dos caracóis com óregãos e do cheiro das sardinhas assadas

Ámen
.


2004/07/21

Variações sobre a Nau Catrineta

Lá vem o Portugal alegrete
Que tem muito que contar!
Ouvide agora, senhores,
Uma história de pasmar.
 
Passava mais de dois anos
Que iam o país a governar,
Já não tinham que vender,
Já não tinham que alienar.
 
Deitaram votos de molho
Para o outro dia continuar;
Mas os votos eram tão poucos,
Que não puderam vitória clamar.
 
Deitaram sortes à ventura
Qual se havia de fugir;
Logo foi cair a sorte
No capitão general.
 
- "Sobe, sobe, Durãozinho,
Àquele palanque real,
Vê se vês terras de Bruxelas,
Foge-te das praias de Portugal!"
 
- "Não vejo terras de Bruxelas,
Nem alvíssaras em Portugal;
Vejo sete cabeças-de-turco
Que estão para me apear."
 
- "Acima, acima, Sampaio,
Acima a Belém real!
Olha se enxergas Governo
E coroa de Portugal!"
 
- "Alvíssaras, capitão Durão,
Meu capitão general!
Já vejo terras de Bruxelas,
Bem longe de Portugal!
Mais enxergo três meninas,
Debaixo de um laranjal:
Uma ambientada a advogar,
Outra num submarino a ver o mar,
A mais formosa de todas
Está num túnel a chorar."
 
- "Todas três são minhas filhas,
Oh! quem mas dera nomear!
A mais incompetente de todas
Contigo a hei-de casar."
 
- "A vossa filha não quero,
Que vos custou a afugentar."
 
- "Dar-te-ei tantos euros
Que os não possas contar."
 
- "Não quero o vosso dinheiro
Pois ao Povo custou a ganhar."
 
- "Dou-te um Jaguar branco,
Que nunca o Portas teve igual."
 
- "Guardai o vosso Jaguar,
Que vos custou a renegar."
 
- "Dar-te-ei o Portugal alegrete,
Para nele navegar."
 
- "Não quero o Portugal alegrete,
Que o não sei governar."
 
- "Que queres tu, meu crocodilo lacrimoso,
Que alvíssaras te hei-de dar?"
 
- "Capitão, quero a sua alma maoísta,
Para comigo a levar!"
 
- "Renego de ti, demónio,
És pior do que os cubanos!
A minha alma é só de Bruxelas;
O corpo dou eu aos americanos."
 
Tomou-o Blair nos braços,
Não no deixou em aflição.
Deu um estouro o demónio,
Cresceram défice e inflação;
 
E à noite o Portugal pobrete
Estava em terra a varar.




 



Algures sobrevoando a Índia. Kodak EPJ 320T
 
Hoje, em audição, aqui à direita: 99 Luftballons, da Nena, talvez a primeira faixa, juntamente com os Fischer Z, que me lembro de gostar.


Hast du etwas Zeit für mich
Dann singe ich ein Lied für dich
Von 99 Luftballons
Auf ihrem Weg zum Horizont
Denkst du vielleicht g'rad an mich
Singe ich ein Lied für dich
Von 99 Luftballons
Und das sowas von sowas kommt

99 Luftballons
Auf ihrem Weg zum Horizont
Hielt man für Ufos aus dem All
Darum schickte ein General
'Ne Fliegerstaffel hinterher
Alarm zu geben wenn's so wär
Dabei war'n dort am Horizont
Nur 99 Luftballons

99 Düsenflieger
Jeder war ein grosser Krieger
Hielten sich für Captain Kirk
Das gab ein grosses Feuerwerk
Die Nachbarn haben nichts gerafft
Und fühlten sich gleich angemacht
Dabei schoss man am Horizont
Auf 99 Luftballons

99 Kriegsminister
Streichholz und Benzinkanister
Hielten sich für schlaue Leute
Witterten schon fette Beute
Riefen: Krieg und wollten Macht
Man wer hätte das gedacht
Das es einmal so weit kommt
Wegen 99 Luftballons

Wegen 99 Luftballons

99 Luftballons

99 Jahre Krieg
Liessen keinen Platz für Sieger
Kriegsminister gibt's nicht mehr
Und auch keine Düsenflieger
Heute zieh ich meine Runden
Seh' die Welt in Trümmern liegen
Hab' 'nen Luftballon gefunden
Denk' an dich und lass' ihn fliegen...





2004/07/20

Onde está o Waldo?

Já devem ter visto, de certeza, os livros infantis da série “Onde está o Waldo?”. Cada página dupla contém o desenho de centenas de figuras de banda desenhada.
 
O nosso objectivo é encontrar o Waldo, uma personagem que se veste sempre do mesmo modo, onde avulta um barrete de lã às riscas brancas e vermelhas e uns óculos.
 
Existem algumas personagens que se parecem muito com ele mas, se se olhar com atenção, vê-se que alguns dos detalhes estão errados - por exemplo, trata-se de uma mulher, ou o barrete é integralmente vermelho, e por aí fora. Por outras palavras, só uma das figuras presentes na página é o verdadeiro Waldo; todos os outros são impostores, sósias ou parecenças muito próximas.
 
Com o Waldo encontramos o problema da autenticidade. Embora um certo número de figuras aparentem ser o Waldo, só uma delas é o Waldo autêntico. Ser autêntico significa, neste caso ser quem ou ser o que nós aparentamos ou dizemos ser.
 
No caso do Waldo, só pode haver uma única resposta correcta, já que estamos a falar de um indivíduo único. Mas, noutros casos, pode haver mais de uma resposta correcta. Tal pode acontecer quando estamos interessados em, por exemplo, associações a um grupo (ser médico) ou a um tipo (ser um Renaul Mégane).
 
É apenas pelo facto de vivermos num mundo de multiplicidades – onde muitas pessoas ou coisas podem aparentar ser o mesmo – que a duplicidade pode ser possível. Os julgamentos de autenticidade, tal como os entendemos, permitem-nos navegar através do mundo distinguindo a multiplicidade genuína da duplicidade.
 
No reino da política– no mundo dos partidos e de outras entidades ou instituições intangíveis – desenvolveram-se, através dos anos, métodos elaborados para controlar a democracia, a transparência e boa gestão da coisa pública.
 
Contudo, no reino da politiquice à portuguesa esse processo inverteu-se. À esquerda e à direita produzem-se cópias de Narcisos Miranda, Luíses Filipe Meneses, Albertos João Jardim, Avelinos Ferreira Torres, Pedros Santana Lopes e Paulos Portas em números a uma escala sem precedentes. É um reino onde, até onde eu possa ver, não existem originais (só cópias – e inúmeras) nem objectos duradouros (pelo menos até agora). Tal faz com que avaliar a autenticidade constitua um desafio.
 
Um desafio com que não vale a pena perder tempo: todas as cópias são Waldos, palhaços de barrete vermelho às riscas cada um a procurar dar nas vistas da forma mais berrante possível.
 





 
imagina-me os dedos aves. 

à noite, em rotas secretas
aprendem a morrer, roucas,
nos trigais do meu país.

hoje, contudo, andam loucas.
buscam onde pousar. agora,
aquela que primeiro te descobrir
será sempre a primeira a ver a aurora.
 
 
Berlenga, Fuji Superia 400
 

2004/07/19

I envy the wind



I envy the wind that whispers in your ear
that howls through the winter, that freezes your fingers
that moves through your hair and cracks your lips
that chills you to the bone, I envy the wind
 
I envy the rain that falls on your face
that wets your eyelashes and dampens your skin
and touches your tounge and soaks through your shirt
and drips down your back, I envy the rain
 
I envy the sun that brightens your summer
that warms your body and holds you in her heat
that makes your days longer and makes you hot
and makes you sweat, I envy the sun
 
I envy the wind, I envy the rain
I envy the sun, I envy the wind
 





Sim, eu também li o Código Da Vinci…


 

... mas não lhe achei grande piada. Confrontado com o preço escandaloso pedido pela tradução portuguesa, comprei um paperback na língua original por metade do preço. E ainda bem. Evitei, assim, cometer o erro de culpar a tradução por aquilo que não passa de um encadear de lugares comuns e de uma fraca capacidade de contar o que poderia, afinal,  ter dado uma boa história.
 
Depois, um paternalismo excessivo em relação ao leitor, uma trama mais do que previsível e algumas obras de Da Vinci utilizadas apenas para funções decorativas, transformam este pretenso thriller, tão badalado por uma imensa máquina de propaganda, num romance sensaborão, a anos-luz de um Clive Cussler, Harold Coyle, Robert Ludlum ou Tom Clancy.
 
Resumindo: um flop. Faz-me lembrar o tão incensado Profecia Celestina, escrita por um tipo que nem sabia conjugar verbos. Este, pelo menos, ainda se lê. Mas pouco mais do que isso.
 
Hoje, em audição, aqui à direita: Lanterna dos Afogados, Gal Costa e Paralamas do Sucesso.

Se a quiserem gravar, encontram-na aqui.




2004/07/16

Não me fodam!!

"Para a pasta dos Assuntos Parlamentares, a escolha de Santana Lopes recaiu em Rui Gomes da Silva, enquanto para a Cultura a escolhida é Maria João Bustorff Silva"
 
 
os mesmos Rui Gomes da Silva, ex(?)-advogado do caçador de tesouros Robert Marx e a ex(?)-presidente da Fundação Ricardo do Espírito Santo Silva, associada à empresa de caça ao tesouro Arqueonautas, SA, que anda a leiloar o património subaquático de  Cabo Verde e de Moçambique????



Dos campos de arroz do Camboja aos arredores de Cabul, das faldas das montanhas de Sarajevo às planícies de Moçambique, um coro de milhões de vozes clama pela eliminação das minas anti-pessoais.

Esta frase foi proferida em 1997 pelo Primeiro-Ministro canadiano, aquando da abertura da Conferência de Ottawa, em que se celebrou o primeiro acordo legal mundial sobre a proibição total das minas anti-pessoal.
 
Seis anos depois, há países que ainda não subscreveram a Convenção Internacional que proíbe a produção, venda e instalação desse tipo de engenhos letais. Entre esses países estão a Rússia, a China, os Estados Unidos da América, a Finlândia, a Turquia bem como a maior parte dos países da antiga União Soviética e do Médio Oriente.

Os efeitos da instalação de minas terrestres prolongam-se para muito além do fim das hostilidades. A maior parte das vítimas das minas são civis inocentes, nomeadamente mulheres e crianças.

Dispositivos como as minas borboleta, por exemplo, utilizadas extensivamente no Afeganistão pela antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, são de um verde brilhante, com duas asas, travestindo-se obscenamente de brinquedos, solicitando a natural curiosidade das crianças.
 
Mais perfidamente ainda, as crianças podem estar tão habituadas às minas terrestres que se esquecem que estas são mortais - no norte do Iraque as crianças usam minas como rodas de camião de brinquedos e, no Camboja, há crianças que não só jogam à malha com minas anti-pessoais B40 como ainda se dão ao luxo de iniciar a sua própria colecção de minas terrestres.

Infelizmente, a explosão de uma mina pode causar maiores danos no corpo de uma criança do que no de um adulto. Como as minas anti-pessoal são concebidas não para matar, mas sim para estropiar, para as crianças que sobrevivem a um encontro com uma mina os problemas médicos relacionados com a amputação são muitas vezes graves, já que os membros de uma criança em crescimento crescem mais depressa do que os tecidos envolventes, exigindo que se repita a amputação por várias vezes. Ao crescer, as crianças precisam também regularmente de novas próteses - para as crianças mais novas, tal pode significar uma prótese nova de seis em seis meses.

Para além do drama humanitário representado pelas perdas de vidas e pelas mutilações, a terra agrícola torna-se improdutiva até que seja inteiramente desminada. Morrem assim, indirectamente, milhares de outras pessoas, acossadas pela fome e pela malnutrição.
 
Hoje em dia, as minas terrestres anti-pessoais fazem mais de 25.000 vitímas por ano. A cada 20 minutos, morre ou fica gravemente mutilada uma pessoa .
 
Milhões de pessoas em 64 países correm o risco de serem mortas ou incapacitadas pelos 100 milhões de minas terrestres que se estima estarem actualmente armadas.

Até quando? 
 

2004/07/15

Um conselho...

.. a todos os que se opõem ao Governo de Santana Lopes. Se o querem ver desistir da cadeira do poder, porque não pagar ao João Baião um bom chachet para que ele volte a fazer uma rábula sobre o nosso indigitado Primeiro-ministro?

Era tiro e queda, não era?

O País da Macieira

Nas tavernas do antigamente - onde se lê antigamente, leia-se aqui há coisa de dez ou quinze anos atrás - os homens dividiam-se em dois grupos: os que bebiam Macieira e os que bebiam copos de três.

Hoje, o mundo mudou: a cerveja é raínha e senhora, as tabernas estrebucham nos estertores da morte e a Macieira vê-se obrigada a fazer campanhas publicitárias anunciando ser "Muito Melhor com Gelo".

O reposicionamento da marca de cognac, brandy, aguardente mais conhecida em Portugal é a machadada final no já tão estilhaçado orgulho nacional.

Dizer que a Macieira se deve beber com gelo porque "fica mais suave" é atraiçoar gerações inteiras de másculos exemplares da portugalidade para quem o conhaque português (fruto da clarividência de José Maria Macieira, filho do fundador da empresa criada em 1865 com o propósito de negociar vinhos, bebidas espirituosas, azeites e vinagres, que convenceu o pai a iniciar o fabrico e comercialização daquela bebida depois de ter regressado de França, onde estudou enologia na região de Cognac) sempre serviu de consolo varonil e atestado de robustez física e psíquica.

Beber Macieira com gelo é como afirmar que Fernando Pessoa - grande apreciador da pomada - era, para além de virgem, maricas.

A Macieira é para homens, não é para efebos efeminados. A Macieira é para os nefelibatas de balcão, não é para os dandies de salão.

Para quem não sabe, a Macieira deve-se beber em copo sujo e lascado, de penalty, com a tripa encostada ao balcão, os pés enterrados nas cascas de tremoço a juncar o chão, os cotovelos apertados por entre camionistas, jornaleiros e oficiais tipógrafos, trocando dois dedos de conversa sobre o Benfica, enquanto os olhos descansam na parede defronte, onde as mamas de uma loura siliconada, que adornam o calendário de um ano qualquer da década passada, alternam entre o cartaz das festas do Barrete Verde e o painel das rifas do presunto de Chaves.

Sinceramente, este mundo em que vivemos está virado do avesso: Macieira com gelo? O que mais virá depois disto? Santana Lopes primeiro-ministro?

Vá lá, seja bom português.

Desenrole a bandeirinha, abra uma garrafa de Macieira e deixe-a ao Sol um bom par de horas. Beba-a assim, do gargalo, em nome da Pátria e da Pernod Ricardi, a multinacional actual detentora da marca. Ou julgavam vocês que a Macieira ainda era portuguesa?

2004/07/14

Provérbio popular adequado ao frenesim e à inacção em torno da ocupação do cargo de Secretário-geral do Partido Socialista:

Quem monta a besta é que sabe o cómodo que ela lhe dá.

2004/07/13

Como pájaros perdidos XXXVI

La policía irrumpió en la casa
y atrapó a los participantes de aquella fiesta.
Se los llevó a la cárcel por lujuriosos y perversos.
Era natural. La policía no puede irrumpir en las calles
y acabar con otros escándalos, como el de la miseria.

Jaime Sabines

Pensándolo bien

Me dicen que debo hacer ejercicio para adelgazar,
que alrededor de los 50 son muy peligrosos la grasa y el cigarro,
que hay que conservar la figura
y dar la batalla al tiempo, a la vejez.

Expertos bien intencionados y médicos amigos
me recomiendan dietas y sistemas
para prolongar la vida unos años más.

Lo agradezco de todo corazón pero me río
de tan vanas recetas y tan escaso afán.
(La muerte también ríe de todas esas cosas.)

La única recomendación que considero seriamente
es la de llevar una mujer joven a la cama
porque a estas alturas
la juventud sólo puede llegarnos por contagio.


Jaime Sabines

2004/07/11

Eu vi um sapo

Há muitos, muitos anos atrás, aprendi a ler. E, com a aprendizagem veio a prática. Por entre as obras que se escondiam nas estantes lá de casa, havia de tudo: do Júlio Dinis à Oriana Fallaci. Contudo, o primeiro livro que me lembro de ter lido, assim daqueles de peso, só com letras e sem figuras, era um thriller: "O Caso Odessa", do Frederick Forsyth, numa edição de capa grossa do Círculo de Leitores.

Li-o, sem exagero, umas dez ou doze vezes.

A acção principia num carro, onde segue ao volante de um Jaguar a personagem principal, o jornalista alemão Peter Miller. É de noite. A rádio interrompe, de repente, a música ligeira que atravessava o éter para transmitir, catatónica, a notícia da morte do presidente americano John F. Kennedy. O autor descreve então, através da estupefacção da personagem, o modo como todos os automobilistas fizeram sinal para encostar e se imobilizaram na berma da auto-estrada, para melhor poder absorver a notícia chocante, diria mesmo fracturante. Morrera o homem que tinha dito Ich bin ein Berliner.

Esta sexta-feira revi, na minha mente, esse episódio, enquanto conduzia numa auto-estrada, e ouvia o Presidente da República Portuguesa anunciar o Óscar do Governo 2004 para o melhor actor. Desta vez, contrariando a literatura, ninguém se encostou à berma. Afinal, nem todos podem ser JFK’s.

Que disse o Presidente Sampaio?

Disse-nos que a estabilidade política associada ao regular funcionamento das instituições significa em primeiro lugar, que os cidadãos, quando são chamados a eleger os seus representantes na Assembleia da República, têm, por essa via, a possibilidade de escolher, indirectamente, um Governo para os quatro anos seguintes.

O Presidente não nos disse, contudo, que há sempre a real hipótese constitucional de se poder arcar com um governo substancialmente diferente daquilo que pensávamos estar a eleger – como aconteceu, por exemplo, com a coligação que o PSD fez, a posteriori, com o PP, e que levou Paulo Portas a ministro da Defesa (esta coligação, apesar de constitucionalmente possível, não foi mais do que uma negociata – não duvido que, se ela tivesse sido aventada antes das eleições, o resultado teria sido outro).

Disse-nos ainda o PR que, ao longo dos quatro anos de mandato o Governo, com respeito das regras constitucionais, deve ter a possibilidade de realizar, livre e responsavelmente, o programa sufragado nas eleições.

Contudo, o PR falhou em esclarecer-nos porque é que o Governo fez tábua rasa do seu programa, um programa pessoal, assinado em pessoa por José Manuel Durão Barroso, cheio de termos e frases bombásticas como esta “ comprometo-me a baixar os impostos sobre quem vive do seu salário e sobre as empresas que investem”.

Durão Barroso mentiu. Durão Barroso quebrou o contrato que assinou com o eleitoral. Durão Barroso demitiu-se do país, dos problemas que herdou, dos que gerou e dos que deixou por resolver e fugiu para Bruxelas, impedindo assim o PR de poder dizer, como disse à boca cheia que, no termo da legislatura, os eleitores julgarão a actividade do Governo.

Já não há Governo. O que há agora é uma coisa nova, uma nova (des)orientação: novas pessoas, novos cargos, novos ministérios, novos locais para ministérios, novas secretarias. O Governo não só fugiu como se tornou inimputável.

Boquiabertos com a benesse, o Zandinga Gabriel Alves e a Catherine Deneuve deram as mãos e colheram de podre a situação. O poder caiu, não na rua, mas no esgoto. Em coro, os enfants terribles, um ex-dirigente desportivo, o outro ex-jornalista encartado, juraram ao PR que estavam em condições de constituir um novo Governo que permitisse dar continuidade e cumprir o Programa do anterior.

Perante isto, perante o estado deplorável da Oposição, perante os cenários que se lhe apresentavam, que decidiu o PR?

Decidiu não convocar eleições antecipadas, reiterando, no entanto, que teria de ser rigorosamente respeitada a continuidade das políticas essenciais – a Europa, a política externa, a defesa, a justiça, bem como as políticas de consolidação orçamental.

E disse mais o PR.

Disse que ficava claro que é pelas vias de continuidade e pelo rigor indispensável que passarão os critérios permanentes da sua avaliação das condições de manutenção da estabilidade governamental; e que utilizará a plenitude dos seus poderes constitucionais para assegurar que esses critérios serão respeitados, tendo por inaceitáveis viragens radicais nestas políticas, pois foram elas as sufragadas pelo eleitorado.

Ora, a não ter medo o PR de dissolver a Assembleia assim que esta dupla de clowns ponha o pé em ramo verde, a solução encontrada é a mais airosa.

E porquê? Porque de há muitos anos para cá que a situação tem vindo a degradar-se, lenta mas paulatinamente. Os melhores cidadãos, os mais bem formados ética, moral e intelectualmente, ou morrem de velhos ou então não estão para se afogar no lamaçal em que a política portuguesa tem vindo a sobrenadar, preferindo observar de fora a caixa de Pandora em que as distritais e as concelhias se tornaram.

Hoje em dia, a actividade política dos cidadãos está demissionária. O eleitor demite-se. O militante desmilita-se. As juventudes partidárias só juventam se receberem ao dia, em contado ou em espécie. O simpatizante só simpatiza se obtiver alguma sinecura na Câmara lá do sítio. Os populares só popularizam se receberem um brinde, uma canetinha, um postalinho, um beijinho que seja. As acções do partido só accionam nas feiras, nos mercados, nos arraiais, nos estádios de futebol, onde o nosso Presidente é o primeiro a verter a lágrimazinha aos acordes do hino da inclíta geração da bota de ouro.

O centro moderado e liberal esvazia-se porque é preciso ir à praia, ao centro comercial, ao concerto, ao hipermercado e não há tempo ou vontade para se fazer manifestações, para se ir votar, para se reclamar, para se exigir.

Os extremos incham à custa da vacuidade do centro, as posições extremam-se, radicalizam-se as vozes, os comentários, as acções de rua e as contra-reacções de gabinete. E um dia, ontem, hoje, quando se abre o jornal constata-se que o impensável aconteceu.

E ainda bem. Mais vale tarde que nunca. Nada como um bom abanão para voltarmos à realidade. Ao menos, alguma coisa positiva nos trouxe esta palhaçada: muitos de nós acordámos. Estamos assustados, mas acordados.

E é bem acordado, bem lúcido, que penso ser esta a melhor solução, a encontrada pelo PR: a de dar continuidade ao Governo, indigitando Santana Lopes como primeiro-ministro. A bola está agora do lado do Governo. Cabe a ele, e só a ele, apresentar obra.

Por maior que seja este sapo, há que engoli-lo. Há que dar ao sapo a oportunidade de se fazer alegremente estourar. Santana Lopes é uma personagem de opereta de personalidade imatura, é um Peter Pan inseguro que foge sempre para a frente, a cavalo de uma ambição desmedida, procurando reafirmar-se constantemente, tendo na sua vida pública e privada a prova provada da sua inconsequência, da sua trajectória errática, da sua impotência disfuncional como obreiro, da sua incapacidade em se fazer reconhecer como homem merecedor de respeito ou de credibilidade.

Dêem-lhe tempo. Dêem-lhe todos os meios que ele pedir. Retirem-lhe debaixo dos pés a novidade, o desafio, a luta quixotesca, a vitimização e verão como o sapo estoura, sem apelo nem agravo. Ponham os olhos no Paulo Portas e no que ele prometia antes e depois de se ver no Governo e verão o retrato de Santana Lopes daqui a dois anos. Em verdade vos digo: o País estará pior, sem dúvida, mas estará vacinado, imunizado.

Melhores dias virão. Mas só virão se o PR cumprir realmente aquilo com que se comprometeu com os Portugueses, na sexta-feira passada. Só poderemos fazer o sapo estourar se o PR vigiar e controlar as tais “viragens radicais” que todos esperam e prevêem: o populismo, os amigalhaços no poder, o erário público distribuído regiamente aos assalariados do Governo, das autarquias e do Estado, o regabofe na Função Publica, o choque fiscal para inglês ver.

É preciso que o PR esteja, como ele disse, vigilante.

Mas só o PR não basta. É preciso que a Oposição se organize. É preciso que o PS se afaste dos vícios de Matosinhos e de centenas de outros casos similares e ponha a casa em ordem. E que o faça depressa e com tino.

É preciso que apareçam líderes. E que se entendam. São os líderes que lideram. Não são nunca as pessoas cinzentas, como Ferro Rodrigues, que arrastam o País pelos fundilhos. É de líderes, é de homens de acção, de fibra, é de homens ou mulheres carismáticos, que saibam rodear-se das pessoas cinzentas mais acertadas para lhes servir como conselheiros, que o País precisa.

De líderes a sério. Não de imaturos de pacotilha como Santana Lopes.

Retirem a Santana Lopes o dinheiro para prebendas, sinecuras e luvas e veremos então de que fibra é feito o homem. É aqui, neste ponto, que o PR tem de se fazer forte. É aqui, que ele tem o dever, o direito, de zelar pelos nossos interesses.

Embora confie, desconfiando, até lá, dou-lhe o meu apoio. É assim que vejo as coisas. A democracia segue o seu curso, sem novidades fracturantes. Não admira, pois, que ninguém tenha parado na berma da auto-estrada para ouvir o que o PR tinha a dizer. Ouvimos, calamos e aguardamos. Serena, mas vigilantemente.

Porque, se há algo que eu aprendi, na gestão de seres humanos, das suas idiossincrasias, dos seus amuos, dos seus afectos e das suas capacidades é esta lição: mais vale tê-los connosco, dentro do barco, a mijar para fora, do que fora do barco, a mijar para dentro.

Neste momento, Santana Lopes e Paulo Portas estão fora, a mijar para dentro. Basta saber até que ponto da perna vai Sampaio tolerar que lhe chegue o mijo. Esperemos que esteja atento e que a sua tolerância seja mínima. Sob pena de naufragarmos todos, num barco cheio de imundície até à amurada.


2004/07/09

我的中国心

Os DVD's de karaoke são dos materiais de estudo de mandarim mais surreais de se utilizar de uma forma didáctica. E porquê? Porque, por entre cenários delicodoces e paisagens feéricas da Grande China, cantam, dançam e deslizam homens e mulheres vestidos de branco e de chita ramada, usando papillons encarnados e flores de plástico no cabelo, como se tivessem saído directamente de uma qualquer feira de província do Portugal profundo.

As letras, simples, patrioteiras ou lamechamente amorosas, não só apelam à lágrima fácil do emigrante e do apaixonado afastado da sua amada, como também provam ser fáceis de fragmentar em palavras e frases corriqueiras, ideais para quem anda a tentar dominar a língua.

Uma dessas canções chinesas chama-se 我的中国心 - O meu Coração é Chinês. Evoca as paisagens do Império do Meio, os seus rios, os quatro cantos da rosa-dos-ventos, os seus mares e as suas gentes - como diz o refrão, o coração do cantor e de quem com ele canta, é chinês.

Ouço-a, à canção. Trauteio-a e questiono-me: será o meu coração português?

Eu, que já vi a neve da tundra canadiana, a selva asiática, os arrozais do Laos, os gelos dos Alpes, as planícies férteis de Salisbury, a chuva dos Açores, a imensidão azul nas Formigas, as areias de Porto Santo, as praias da Normandia, a superfície chata e poeirenta do Texas, eu, que já vi isso tudo, que sei eu da geografia do meu coração?

A resposta é imediata: eu sei que depois de ter escutado o canto ensurdecedor das cigarras da Volubilis, de ter cheirado o rosmaninho da Arrábida, de ter bebido o vinho com resina de Ouinosses e de ter mascado o mástique de Xios, depois de ter observado o voo alto da águia de Bonnelli nos céus vermelhos da Andaluzia, depois de ter crescido por entre a terra argilosa, gretada no Verão mas fértil com os trigais da Primavera de Cascais, por entre as minas da Idade do Ferro de Leião e a quinta romana da Freiria, depois de tudo isso só posso dizer que o meu coração é mediterrânico.

Nem português, nem europeu. Mediterrânico, tão só.


2004/07/07

Night in Baghdad

You know, it's so beautiful
It's like the Fourth of July
It's like a Christmas tree
It's like fireflies on a summer night.

And I wish I could describe this to you better.
But I can't talk very well right now
Cause I've got this damned gas mask on.
So I'm just going to stick this microphone out the window
And see if we can hear a little better. Hello California?
What's the weather like out there now?

And I only have one question: Did you ever really loved me?
Only when we danced. And it was so beautiful.
It was like the Fourth of July.
It was like fireflies on a summer night.


Laurie Anderson

Auto do Regabofe

A situação política portuguesa anda cada vez mais parecida com a Festa que Gil Vicente tão bem retratou no Auto do mesmo nome.

Dizia o Vilão que os homens hão-de seguir a opinião geral, porque já em Portugal quem não costuma mentir, não alcança um só real. Que os homes verdadeiros não são tidos numa palha; os que são mexeriqueiros mentirosos, lisongeiros, esses vencem a batalha.

Como facilmente se depreende, pouca coisa mudou desde 1526. Homens verdadeiros, que não sejam mexeriqueiros mentirosos, lisongeiros, é coisa que não abunda no Portugal dos poderes públicos ou fácticos. Abundam isso sim, na festa do regabofe da Coisa Pública.

E quem diz festa do regabofe, diz Feira, onde mercadores e bufarinheiros cirandam, apregoando a sua banha da cobra aos incautos clientes, mudando a banca ao sabor da corrente mercantil, sempre em busca de mais ceitis, de mais reais, dando o que não têm a quem lhes acredita na lábia impingida à custa de fácies mais ou menos sérios e compungidos.

A bufarinheiro ardiloso me soou Santana Lopes na entrevista concedida à RTP1, num arremedo do Diabo que aparece em cena, de supetão, no Auto da Feira (também ele da autoria do grande Vicente e representado pela primeira vez diante do mui excelente Príncipe El-Rei Dom João, o terceiro em Portugal deste nome, na sua nobre e sempre leal cidade de Lisboa, às matinas do Natal, na era do Senhor de 1527).

E que dizia o chifrudo, ao entrar de penetra na Feira convocada por Mercúrio? Que alegava o demo para poder assentar arraiais naquilo que não lhe pertencia?

Dizia que eu bem me posso gabar, e cada vez que quiser, que na feira onde eu entrar sempre tenho que vender, e acho quem me comprar. E mais, vendo muito bem, porque sei bem o que entendo; e de tudo quanto vendo não pago siza a ninguém por tratos que ande fazendo.Quero-me fazer à vela nesta santa feira nova. Verei os que vêm a ela, e mais verei quem m' estorva de ser eu o maior dela.

E questionado sobre porque não vende ele a Verdade, valor tão mais caro e útil ao Povo, remata o Diabo a questão, assim respondendo: a verdade pera quê? Cousa que não aproveita, e aborrece, pera que é?

Mentiras, enganos, homens que se vendem, homens que se compram, homens mexeriqueiros, homens mentirosos, homens lisonjeiros, assim são os homens do Portugal quinhentista, os homens de merda, os homens putanheiros que em vez de servir a Pátria se serviam a si próprios em primeiro lugar.

Deles se queixava em 1546 o Vice-Rei da Índia, Dom João de Castro em carta ao seu filho, enquanto esperava em vão pelas caravelas que de Portugal tinham sido enviadas para o aliviar do Cerco que sofria em Diu: e estou para me enforcar dessas caravelas lá não serem, e merda para elas e para os que vão dentro, e para Gomes Vidal, porque são homens de merda que não sabem navegar senão para tomarem portos e comerem pão fresco e rabãos e saladas, e andarem às putas; e dizei-o assim ao capitão e a Vasco da Cunha e a Fr. Paulo, porque já não hei-de falar senão desta maneira; e merda para mestre Diogo e para quantos apóstolos vêm de Portugal, porque eu sirvo muito bem El-Rei nosso senhor, e eles são grandes hipócritas, que querem haver bispados para darem renda a seus filhos e terem mancebas gordas.

Era essa a grande maioria da nossa "gesta heróica" dos Descobrimentos, é essa também quase toda a nossa classe dirigente, no dealbar do século XXI. Diz o povo que prefere mil vezes um Diabo que não conhece a um Anjo que conhece de ginjeira. E eu digo que, se, à sua maneira, o Diabo de Gil Vicente era um mercador honesto - vender-vos-ei nesta feira mentiras vinta três mil, todas de nova maneira, cada üa tão subtil, que não vivais em canseira: mentiras pera senhores, mentiras pera senhoras, mentiras pera os amores. Vender-vos-ei como amigo muitos enganos infindos, que aqui trago comigo - já Santana Lopes consegue dizer as coisas que diz sem se rir, parecendo completa e totalmente genuíno.

E isso, meus amigos, senão fosse tão perigoso, seria deveras caricato. Como as peças de Gil Vicente. Que, mais do que comédias, são verdadeiras tragédias portuguesas.

As receitas do arame IV

Esqueçamos a política por uns instantes e façamo-nos novamente à cozinha. Hoje, um tour de force simplista, para as tardes dominicais de Inverno: Crepes à Arame.

1 litro de leite, meio gordo
6 ovos dos grandes (ou 7 dos médios ou 8 dos bem pequenos)
meio quilo de farinha (Branca de Neve, de preferência, por razões afectivas)
uma colher de sopa de óleo vegetal
1 colher de chá de sal fino.



Deite-se a farinha numa tijela, junte-se-lhe a colher de sopa de óleo, o sal fino e os ovos, inteiros. Bata-se vigorosamente, até que todos os ingredientes fiquem incorporados de uma forma homogénea.

O truque, agora, é o de se ir incorporando o leite, em fio, na massa, lentamente, batendo sempre, de modo a que se evitem os grumos. Quando o leite se esgotar, está pronta a massa. Deixe-se descansar meia hora.

Para a confecção dos crepes, escolhe-se uma frigideira bem larga e pouca funda - uma crepière é um must have em qualquer cozinha - e coloque-se ao lume, forte. Encha-se uma chávena de chá de óleo vegetal. Pegue-se em duas folhas de papel absorvente, faça-se uma boneca com elas, e embeba-se q.b. no óleo na chávena.

Com a frigideira bem quente - mesmo bem quente, este ponto é fundamental para prevenir tragédias ao nível da massa "colada" à frigideira.. - espalhe-se uma fina camada de óleo em toda a superfície com a ajuda do papel absorvente. Depois, com uma concha de sopa, mexa-se a massa duas ou três vezes, e deite-se na frigideira, volteando-a de modo a que se forme uma camada uniforme. Espera-se um a dois minutos, até que a massa se comece a descolar da frigideira e com a ajuda de uma espátula, ou com o tão típico movimento de pulso, vire-se o crepe. Deixar cozer a gosto. Repete-se este processo para cada crepe.

Sugestões de apresentação: como açúcar simples (como eu gosto), com doce, com sumo de laranja, com limão e açúcar, com carne picada, com o que quiser. Aqui, a imaginação e o paladar de cada um é o limite.

Sirvam-se, os crepes doces, com chá Lapsang Souchong ou Marriage Fréres Butterscotch.

O muar (reprise, agora com tocata & fuga)




pobre
solípede
solipsista
assolapado.
em solilóquios
abastosamente
faz-se abarroado.
sonhando-se alfaraz
é apenas, por alcançadura,
acurvilhada e alcachinada alimária,
reles abochonhado animal aguachado.

2004/07/06

"A dar está obrigado, a quem ham dado".

Na impossibilidade de me dirigir a cada um de vós, individualmente (é mentira, não é impossibilidade nenhuma, eu é que nunca fui muito adepto do email personalizado), vem o escriba deste blog agradecer às seguintes entidades e personalidades mais ou menos públicas os encómios e as celebrações que lhe foram dirigidos aquando da efeméride de 25 de Junho próximo passado.

Assim, agradeço ao/à (riscar o que não interessa):

M., Jcd, Carla, Márcia, Lique, Sara, Adamastor, Sibylla, Sónia Lemos, Branca, Sara, David, Maxou CC, Duende, Tiago, Mário, G., A Boa Filha, Helena, Catarina, Carla Reyes, Ccc, O parolo, Jorge Mourinha, B.V., Isabel Magalhães, Clandestino, Magnólia, Eugênia, Miguel, Fátima, Nilson, Matahary, Inquieta, Paula, Raquel Pinheiro, Ar de Lua, Luísa, Jamiroo, Ardente_mente, Nibs, Cristina, Betania, Shyznogud, José Santos, Inês, João Pedro, Homem das Neves e A. J. M. Ribeiro

pelos comentários ou referências ao aniversário deste blog.

Votos de parabéns impõem-se igualmente à Natureza do Mal, ao Adufe, ao Terras do Nunca, ao Janela para o Rio, à Memória Virtual, à Praia, à Sebenta, ao Opiniondesmaker, à Bloguítica e ao Retórica.

Se me esqueci de algum, avisem-me.

Quanto às más línguas da terra, que tão frequentemente alheias ao putrefacto não deixam de bacorejar sobre o são, quanto à gente mesquinha, anónima e cobarde, invejosa e dissimulada como bois e vacas de má casta que por aqui assoma de vez em quando, quanto a esses, em que não há um só que morda de frente, mas que se tornam alcateia a ladrar às canelas de cada um, nada digo. Embora me divirtam cabonde, tenho mais do que fazer do que andar em polémicas, ressabiamentos, chicanas e actividades afins.


2004/07/05

E agora...

... que acabou o Euro, vamos ao país real. Vamos aos fogos de Verão, enfrentemos a santanização do Governo, acabemos com as listas de espera na saúde e nos centros de emprego, vamos-nos ao resto que falta fazer cumprir para que aconteça mais e melhor Portugal, como forcados que se façam à cara do touro.




As bandeiras já cá estão; só falta um pouco mais de vigor e ânimo.

2004/07/03

Fisherman's Blues




I wish I was a fisherman
Tumblin’ on the seas
Far away from dry land
And it’s bitter memories
Casting out my sweet line
With abandonment and love
No ceiling bearin’ down on me
’cept the starry sky above
With light in my head
You in my arms
Woohoo!

I wish I was the brakeman
On a hurtlin’ fevered train
Crashing a-headlong into the heartland
Like a cannon in the rain
With the beating of the sleepers
And the burnin’ of the coal
Counting the towns flashing by
In a night that’s full of soul
With light in my head
You in my arms
Woohoo!

Well I know I will be loosened
From bonds that hold me fast
That the chains all hung around me
Will fall away at last
And on that fine and fateful day
I will take me in my hands
I will ride on the train
I will be the fisherman
With light in my head
You in my arms

The Waterboys
a maré está vaza e a praia é um enorme pólipo
de braços estendidos desde a falésia até ao mar.
ao longe, na humidade alapardada, esfumada na bruma,
uma criança chora, pedindo de mamar, faminta.

ao fundo da praia, grupos de homens enovelam-se,
arrastando todos a mesma cruz, murmurando avés-maria,
levam o mundo dentro da algibeira, a abarrotar de saudade,
de ressentimento. a noite é profunda, admirável e cintilante.
as estrelas são as faúlhas do lume cá de baixo que se espelham
e reluzem no escuro lá de cima, enquanto o vento se levanta
e assobia nas casas cariadas, apagando as fogueiras luminosas.

escrevo-te um verso na areia do mar e entro mar adentro.
deixo vir até mim a primeira vaga, um rodilhão de algas
e espuma desfazendo-se em água, volutas de brancura salina.
rolo sobre rolo, procuro o mar alto e os mortos que lá ficaram
um corpo apenas, como náufrago perdido na terrível dimensão do mar.

2004/07/02



Margens inertes abrem os seus braços
Um grande barco no silêncio parte.
Altas gaivotas nos ângulos a pique,
Recém-nascidas à luz, perfeita a morte.

Um grande barco parte abandonando
As colunas de um cais ausente e branco.
E o seu rosto busca-se emergindo
Do corpo sem cabeça da cidade.

Um grande barco desligado parte
Esculpindo de frente o vento norte.
Perfeito azul do mar, perfeita a morte
Formas claras e nítidas de espanto.


Sophia de Mello Breyner Andresen

1919 - 2004

de noite, avista-se ao longe a vontade, como se fosse um farol na noite escura, erguida de pé sobre um promontório rochoso, onde nada cresce a não ser a mole escura do desejo e alguns pássaros nocturnos, as asas negras, voluptuosas.

poucos, muito poucos, quase nenhuns gestos são necessários para te escancarar ao vento - a vela enfuna-se, é um bergantim que parte, às vezes veleiro, outras, velho cavalo de pau cansado a que vento algum consegue acariciar.


Celebrate humanity




Agora que estão a ser disparados os últimos cartuchos, o que fica do Euro 2004?

Para mim, mais do que as vitórias e as derrotas, as jogadas e os jogadores, ficam as imagens. Não todas. Apenas algumas imagens.

A imagem do guarda-redes russo Ovchinikov, incrédulo, desesperado, ao ver o cartão vermelho no jogo Portugal–Rússia.

As quatro imagens inesquecíveis do Portugal–Inglaterra: a senhora de meia idade, lavada em lágrimas, a cantar o hino português no início do jogo; a imagem do rechonchudo miúdo inglês abraçado ao anafado e eufórico pai, celebrando os dois o segundo golo inglês; o penalty por marcado pelo inacreditavelmente displicente Heldér Postiga e, finalmente, a sequência de imagens decorridas entre a defesa de Ricardo e a marcação do golo da vitória de Portugal.

E depois, no Itália - Bulgária, a imagem cruel da alegria explosiva de Cassano a durar apenas os poucos segundos que este levou a aperceber-se que o golo que tinha acabado de marcar não bastava para que os transalpinos pudessem seguir em frente. Imagens efémeras na pantalha, mas duradouras na consciência de quem as viu e as sentiu.

Mais do que futebol, mais do que os patrocínios milionários e os interesses de jogadores, federações e países, são imagens como estas que nos humanizam a todos, que nos levam as lágrimas ao canto do olho, são imagens semelhantes estas as que dão vida a uma das mais comoventes campanhas publicitárias que já vi até agora e que se chama precisamente Celebrate Humanity.

Falo, como é óbvio, do Comité Olímpico Internacional. Falo de Atenas e dos Jogos que se aproximam. Falo de Andrea Bocelli que fala do coração como motor essencial à dignidade do atleta, falo de Christopher Reeve que fala da força que é preciso ganhar quando se é humano e falível, falo da equipa jamaicana de bobsleigh, que tentou e falhou a vitória nos Jogos Olímpicos de Inverno de 2002, falo da queda de Hermann Maier, falo de atletas, de adversários, falo, finalmente, de Humanidade, falo de Esperança.

E é bom poder falar de tudo isto. Muito bom.



2004/07/01

É urgente recordar que Santana Lopes se lançou em 1989 num projecto pessoal de comunicação social que prontamente abandonou a meio, por falta de resultados.

É urgente relembrar que foi Santana Lopes, quando Secretário de Estado da Cultura, o responsável pela lei 289/93 que concedeu aos caçadores de tesouros nacionais e internacionais os direitos da exploração comercial do património cultural subaquático do País, ao arrepio de todas as convenções da UNESCO sobre a matéria, uma lei que, de tão contestada a nível mundial, acabou por felizmente naufragar apenas com a queda do Governo PSD, em 1996.

É urgente evocar o caso da Pala do Estádio do Sporting, quando Santana Lopes entrou em confronto directo com a sua Subsecretária de Estado e com o LNETI, autorizando à revelia de tudo e de todos, essa estrutura baseado apenas na sua opinião pessoal.

É urgente relembrar que Santana Lopes saiu do Governo, em 1994, em ruptura com Cavaco Silva. Importa ainda recordar que, em 1995, concorreu à Presidência do PSD e foi derrotado por José Manuel Barroso e Fernando Nogueira; é preciso não esquecer que, ainda no ano seguinte, concorreu à Presidência do PSD e foi mais uma vez derrotado por Marcelo Rebelo de Sousa.

É preciso recordar que desistiu em 1997 do Sporting para poder concorrer à Câmara da Figueira da Foz.

É urgente não esquecer que Santana Lopes fez em 1998 uma declaração pública em que anunciava desistir da vida política devido a uma caricatura sua transmitida pelo Big Show SIC.

É preciso que se diga que, dois anos depois, ainda na política, Santana Lopes concorreu novamente à Presidência do PSD sendo derrotado por José Manuel Barroso.

Em 2001, Pedro Santana Lopes venceu as eleições para a Câmara Municipal de Lisboa, prometendo mais segurança, mais lazer, um túnel para o Marquês, uma solução para o Parque Mayer e um Monsanto renovado.

Hoje, deixa-nos o cancro do Intendente que não há maneira de ser resolvido, um buraco que serve para lá levar turistas, um casino fantasma que vai rodando por Lisboa, uma vez aqui, outra vez aquilo, qual Flying Dutchman, um arquitecto de renome que cá veio fazer turismo e que ainda está à espera de ser pago, e uma Feira Popular em bolandas e cirandas (aliás, para uma prosa bem mais esclarecida sobre a (in)gestão autárquica de Pedro Santana Lopes, basta ler o artigo do Pacheco Pereira, no Público de hoje).

É urgente recordar tudo isto e muito mais. Recordar a irresponsabilidade. O populismo. O vazio de ideias ou projectos. A impulsividade ao sabor de amores ou ódios de estimação e das sondagens. Importa recordar que este homem é um homem que nunca termina as coisas, que as deixa a meio, deixando-as sempre pior do que as encontrou.

É urgente recordar e perguntar: poderá Santana Lopes - de quem José Manuel [Durão] Barroso disse um dia ser "um misto de Zandinga e Gabriel Alves" – alguma vez ser algum Primeiro-ministro credível?

Se calhar até pode. Afinal, ultimamente, parece que uma das premissas fundamentais para se ser Primeiro Ministro deste País é a de se sair a meio do mandato, deixando Portugal pior do que estava.

Não vá o sapateiro além da chinela

Momento sublime da noite de ontem: o golo de Maniche. A trajectória, a curva, o alcance, o objectivo, o resultado.

Momento confrangedor da noite de ontem: as declarações pós-jogo de Maniche. A incoerência, a ideia ausente, o fio condutor do discurso como se fosse uma fractura múltipla, as patacoadas repisadas dos jornais desportivos, as interjeições, o vazio total e absoluto.

Heróis de Portugal? Sim e não: são heróis do futebol que não passam de reflexos de Portugal ao espelho.

Efeitos colaterais da retoma futebolística

Right now I'm going to party and I'm going to skip work tomorrow. Since I'm a public employee I can justify not going in because Portugal won.

Fernando Tavares, adepto português, em declarações à CNN.