Todos os sábados.
É assim que respondo à pergunta: “tens algum momento de masoquismo auto infligido?”
Tenho, pois. E é todos os sábados.
É nesse dia da semana que as minhas mãos se movimentam por entre as folhas impressas do
Público, pescando de lá de dentro, a estrebuchar em estertores
new age, a pasquinada da
Xis.
Aberta a capa, sempre decorada com uma fotografia delicodoce da Getty One Images - apresentando amiudadamente um rapaz espadaúdo e loiraço, a arremedar o europeu setentrional, ou uma moçoila sardenta em versão pré-rafaelita de uma camponesa dos Urais - o primeiro choque surge logo de supetão com a leitura do editorial.
As mais das vezes, tenho muita sorte e os danos são minímos - preguiçosa e dolentemente, à Laurinda Alves deu-lhe apenas para transcrever na íntegra um texto qualquer de um autor qualquer, daqueles que dizem sempre "presente!" nas mesinhas de pé de galo de consultório médico e repartição do contencioso. Por vezes, mas muito raramente, é-me dado a contemplar um naco esquálido e requentado da prosa da senhora, a ressumar lamechice e onanismo pseudo-literário pelas costuras da castigada gramática.
Dobrado o cabo do editorial, retomado o fôlego, bebido o galão e deglutido o Xanax, passo dedo a dedo as pagininhas, compostinhas e ilustradinhas com belas estampas masculinas e femininas, que isto do povo português é tudo mulheres sem buço, sem pêlo na venta, sem casca de laranja, sem pés de galinha,
ad limine sem as banhas Michelin; e os homens são tudo espécimes viris, sem a unha grande do mindinho, comprida, a extravasar cera otorrínica, sem tártaro nos dentes, sem caspa na lapela e sem a tão lusitana barriga à Super Rock, Super Bock - resumindo, para a
Xis, somos todos louros, cheios de tónus muscular, donos de iates, desportistas e adeptos do vegetarianismo e dos montes no Alentejo ao fim de semana, com o jipezinho à porta da herdade e os canitos na traseira da
pick-up.
Contudo, como não há bem que sempre dure, nem mal que nunca acabe, chego eventualmente ao fim. Faço-o sempre com um sentimento dúbio, aquilo de chegar ao fim da
Xis. Por um lado, o martírio está quase dado por terminado; por outro, o pior vem inexoravelmente com o esfolar do rabo do bicho - é que na última página está sempre acoitada a crónica do inefável Psiquiatra Irmão do Presidente e Autor de Livros, Daniel Sampaio.
Ora, juntamente com o outro pedopsiquiatra de serviço - Pedro Stretch de sua graça, que obra de quando em vez, também no
Público, uns poemas inarráveis de enaltecimento às criancinhas desvalidas deste mundo, cuja maior desgraça é de serem apenas compreendidas, em toda a extensão da sua dor, pelo Amável Poetautor Amigo dos Infantes – o Daniel Sampaio é, como ia escrevendo eu, de todos os médicos-guru deste país, aquele que mais me irrita. E porquê?
Porque, petulante, Daniel Sampaio é possidónio, arrivista, perorando
ex cathedra sobre os jovens, e as jovens, e as idiossincrasias dos jovens, e as merdas que aparentemente passam pela cabeça dos jovens, e sobre aquilo que o Daniel Sampaio acha que é ser jovem nos dias de hoje, sem que alguém se toque ou lhe faça o favor de, à falta de o ignorar, o contradizer ou contrariar. Muito pelo contrário, naquilo que é mais um dos sintomas de um país doente e esclerosado, em que a culpa morre solteira e o imputável rapidamente se alcandora ao estatuto de inimputável.
Este meu preconceito contra este Sampaio data de 1997, ano em que o Instituto Irene Lisboa organizou um seminário sobre indisciplina no espaço escolar. Perante centenas de docentes, Daniel Sampaio fez tábua rasa de todas as experiências educativas da massa de educadores que estava à sua frente, reduzindo as contribuições emanadas da audiência com a sua proverbial solução
all-in-one: o jovem nunca tem culpa de ser malcriado e irresponsável e imaturo e desleixado e preguiçoso, e calão e irreverente, e malcriado, e vândalo, e boçal. A culpa é sempre do pai, do educador, do professor, ao não compreender a linguagem do filho, do educando, do aluno, ao não aceitar que o jovem domina, hoje em dia, outras competências, outros saberes, que não os tradicionais. Fiquei esclarecido. Mas não convencido.
E porquê? Porque, de acordo com esta teoria, se o jovem andar a pichar paredes e a grafitar o Elevador da Bica, a culpa não é dele. Será, talvez, culpa dos pais que não compreendem o quanto significa para esse jovem o
E-mule ou o
Ipod, e o quanto alienado anda o mesmo jovem pelo uso continuado dos novos meios de comunicação. Esta teoria desculpabiliza igualmente o jovem que sabe tudo sobre a Quinta das Celebridades e os novos códigos de
toking da Yorn mas que às equações diferenciais e aos Lusíadas diz nada.
Esta teoria é, contudo e para Sampaio, uma teoria maravilhosa. É como a teoria unificadora da Física: cabe lá tudo, das cordas ao buraco negro, passando pelo gato de Schrodinger.
Só tem um problema, esta teoria do Professor Daniel Sampaio: só funciona para os
Morangos com Açúcar; só se aplica quando os pais são gestores da coisa pública e as mães são advogadas ou médicas platinadas, só marcha quando o Mercedes entra na garagem da Quinta da Beloura e o jovem louro e de olho azul, de apelido estrangeiro, está apaixonado pela colega de carteira do Colégio Salesiano, só entra em vigor quando o pai é ausente e joga golfe no Praias d’El-Rei e a mãe é divorciada ou tem um caso com o advogado da fracção E do mesmo condomínio privado em que habita o agregado familiar dos Mellos e Sam Payo - esta teoria, no fundo, só tem razão de ser quando a jovenzita interpela pela primeira vez os prazeres da masturbação na casa da prima Xaxão, filha da tia Bóbi e parenta do Ministro das Cidades em quarto grau, após ter descoberto a sua foto na VIP, ladeado pelo senhor de óculos que até é PR da Casa do Castelo, enquanto se atormenta com o sabor do pecado e a perspectiva medonha de ver os tricomas a crescer a olhos vistos na polpa dos dedos engelhados pelo vício de que o seu confessor privado sempre a preveniu.
Esta é, portanto, uma teoria selectiva. Funciona para os ricos e para a classe média alta segmento A e B, géneros Chivas e Cartier mas não tem cabimento para as Classe T e U, géneros tinto Camilo Alves e Lidl.
Proletários, abstenham-se. Jovens de origem africana, mães da Azinhaga dos Besouros, famílias pobres e sujas dos arrabaldes de Setúbal, afastem-se. Alunos de escolas públicas, especialmente daquelas que teimam em permanecer na cauda do
ranking, tirem o cavalinho da chuva: o Daniel Sampaio não falará nunca de vocês. Ainda se arriscava a apanhar piolhos. Ou sarna. Ou tinha. E a tinha é pior, muito, muito pior, do que a sarna.
Com sorte, se forem bem pobres e e provierem de famílias disfuncionais, ainda pode ser que o Stretch fale de vocês. Com muita sorte, até podem vir a ser figurantes num dos seus poemas no
Público. Afinal, não há fome que não dê em fartura.