2004/10/30

O desassossego





Lisboa, Ilford HP5

2004/10/29

IV

enlouqueço, nu, exangue,
sozinho pelos corredores.

procuro o teu corpo,
entre todos os outros,
encontro-o porque só eu
conheço a sua forma.
sei que nunca me dirão o teu nome,
porque nada mais és para além da memória
e da invenção dos sonhos.

confesso-te:
houve vezes em que te desejei,
quando entrar em ti
ainda era um acto sagrado.


2004/10/28

Patetice do dia

E como é que seria se ao Google lhe desse o vento leste?

Brevemente....

... neste blog um texto sobre submarinos, esse símbolo da masculinidade e orgulho de um povo, um outro sobre o pastiche do Castelo de São Jorge e as respectivas entradas pagas a 3 euros e ainda um outro em que se aventa a hipótese de Camões nunca ter existido.

Brevemente, assim se acabe o trabalho, venha a paciência e se descubra inspiração. Até lá, deixo-vos com as cerejas aqui em baixo.

Cerejas




queria dizer-te tantas coisas,
beijar-te, talvez, ou cantar-te
ao ouvido, bem baixinho:
sabes ao que quer que seja,
tens o gosto fresco da cereja.



Óbidos, Fuji Reala 100

2004/10/27

Foi você que pediu um português incompetente?

Depois de termos transmitido a sifílis e a gonorreia aos indígenas América do Sul; após termos dado ao mundo o racismo suave e o mulato; depois de termos criado toda uma geração emigrante de conciérges e senhores manuéis bigodudos degustadores de bacalhau e apreciadores do vira, eis que agora nos dedicamos à exportação da incompetência, do atavismo e do faz-que-faz-mas-não-faz-nem-sabe-como-fazer tão tipicamente lusitano - José Barroso, o homem que conhece o Zé, o ex-maoísta convertido ao mercado de capitais, voltou a dar barraca.

Alguém se admira?

Eu não. O meu único problema é a vergonha que sinto, enquanto compatriota de tal estampa - ao menos, enquanto o Zézito ainda estava por cá, sempre se podia esconder o brutinho das visitas. Agora, não só temos de aturar o ex-presidente do Sporting à rédea da Nação, como ainda nos arriscamos a fazer patinar toda a Comunidade Europeia graças ao prestígio do nosso portugûes do leme.

2004/10/26

Para que conste...

... a melhor ginginha a norte de Lisboa é a que é vendida num pequeno botequim à entrada do castelo de Ourém.

2004/10/25

À margem




Vinhas de uma infância calada, febril, pincelada a cal, de pedra em pedra. E tudo em ti era estranho - quando me amavas, era como se o sumo do rio te escorresse da boca, xaroposo.

E o mais estranho era quando eu te olhava nesses teus olhos azuis riscado de pássaros: era como se tudo o que eu soubesse de ti me ardesse no peito, era como se nada mais houvesse no Mundo para além da lembrança do sol ajustada à tua sombra.


No Tejo, Kodak Tri-X 400

2004/10/24

assim, brancas e cruas,
as gotas de chuva
desaguam na foz,
morrem no lodo das margens,
entram-me pelos poros adentro.

devagar, também o rio e o mar
entrarão por sua vez
até que só fiquem os barcos
descarnados, a quilha assente
em vão, no dorso de peixes
que estrebuchem, aflitos.

2004/10/23

Desmentido

Aqui há uns meses atrás, mais precisamente a 28 de Junho, escrevi um texto de raiva contra o Governo de pacotilha que temos, lamentando o que por aí viria abaixo.

Como é por demais evidente, entre ameaças de central nuclear, actos censórios, desmentidos de sestas e o diabo a quatro, acho que não fui demasiado alarmista - quanto muito, terei até sido soft demais.

Em todo o caso, comecei a notar que, de há uns dias para cá, esse texto tem vindo a dar a volta ao mundo cibernético, num email intitulado "O melhor de Pacheco Pereira", sendo comentado e colocado até em outros blogs, como este, este e este, por exemplo.

Primeiro, não liguei. É um caso esporádico, pensei. Não era. Quando eu próprio recebi de volta o texto, num email provindo de um semi-conhecido qualquer e quando o Filipe, no Texas, insere o malfadado texto no blog dele, julgando que era do Pacheco Pereira, a situação só pode ter uma explicação: está criada uma nova lenda urbana.

Ora, tal como os vírus, o texto é mutante - umas vezes acaba como eu o acabei, outras vezes o final é colado a cuspo por boca alheia. Temo em ver o que está para vir. Resumindo: criei um monstro, cuja paternidade acabou por ser assumida a contragosto por outrém - já não me bastava ter um blog carente de atenção, como ainda me descubro a braços com um cuco que anda a colocar ovos em ninhos alheios.

A que se deveu a confusão? Terá sido por o texto ter sido citado em parte no Abrupto, com uma ligação a apontar para aqui? Terá sido por o ter terminado às 5 da manhã e o ter intitulado Early Morning Blogs, em tom de paródia? Não faço ideia.

Só vos peço duas coisas:

- Não pensem que o pobre do JPP escreveria algo assim. Como ele disse, desmentindo a sua pretensa paternidade autoral, um texto assim, só estando ele no seu pior.

- Deixem-se lá de enviar textos desses para os amigos. Façam-me mas é o favor de, nas próximas eleições legislativas, levantar esse cuzinho gordo da cama e irem botar o vosso votozinho na bela da urna eleitoral para que, todos juntos, possamos correr com esta cambada toda daqui para fora.

Isso sim, é que era um gesto bonito.

Já não

já não gosto dos teus olhos.
já não gosto de ler o que tu lês.
já não gosto da tua camisa azul

(de que tanto gostava).

já não gosto do teu andar,
já não gosto do teu gato,
já não gosto da tua mãe,
já não gosto do teu carro,
já não gosto do teu retrato,
já não gosto de ir ver o mar

(contigo).

já não gosto do teu sorriso.
já não gosto do teu beijo.
já não gosto daquele teu sinal

(já me esqueci onde o tens).

já não gosto de te ver.
já não gosto de te ouvir.
já não gosto de ti.
já não te amo.

já não te amo.

2004/10/22

amar -te
é dar-te razão para existires.

amar-te
é querer que existas porque o amor te faz importante.

amar-te
é dizer-te: tu não morrerás jamais.

e tu, tu existes gratuitamente
porque não tens outra razão para existires.

2004/10/20

Momento Abrupto III

Algures esta semana, e na outra, e na anterior - dependendo a data certa da esquizofrenia dos meus contadores - este blog atingiu as 100 mil visitas e as 500 ligações.

Depois de tanto tempo, ainda não sei se isto é um vício meu ou uma consumição de tempo que bem útil me poderia ser em outras tarefas e actividades.

2004/10/18

em silêncio, o beijo
esvoaçou pela noite fria -
fugia às palavras felinas
que na tua boca descobria.

Inventem-se (alguns) novos psiquiatras!

Todos os sábados.

É assim que respondo à pergunta: “tens algum momento de masoquismo auto infligido?”

Tenho, pois. E é todos os sábados.

É nesse dia da semana que as minhas mãos se movimentam por entre as folhas impressas do Público, pescando de lá de dentro, a estrebuchar em estertores new age, a pasquinada da Xis.

Aberta a capa, sempre decorada com uma fotografia delicodoce da Getty One Images - apresentando amiudadamente um rapaz espadaúdo e loiraço, a arremedar o europeu setentrional, ou uma moçoila sardenta em versão pré-rafaelita de uma camponesa dos Urais - o primeiro choque surge logo de supetão com a leitura do editorial.

As mais das vezes, tenho muita sorte e os danos são minímos - preguiçosa e dolentemente, à Laurinda Alves deu-lhe apenas para transcrever na íntegra um texto qualquer de um autor qualquer, daqueles que dizem sempre "presente!" nas mesinhas de pé de galo de consultório médico e repartição do contencioso. Por vezes, mas muito raramente, é-me dado a contemplar um naco esquálido e requentado da prosa da senhora, a ressumar lamechice e onanismo pseudo-literário pelas costuras da castigada gramática.

Dobrado o cabo do editorial, retomado o fôlego, bebido o galão e deglutido o Xanax, passo dedo a dedo as pagininhas, compostinhas e ilustradinhas com belas estampas masculinas e femininas, que isto do povo português é tudo mulheres sem buço, sem pêlo na venta, sem casca de laranja, sem pés de galinha, ad limine sem as banhas Michelin; e os homens são tudo espécimes viris, sem a unha grande do mindinho, comprida, a extravasar cera otorrínica, sem tártaro nos dentes, sem caspa na lapela e sem a tão lusitana barriga à Super Rock, Super Bock - resumindo, para a Xis, somos todos louros, cheios de tónus muscular, donos de iates, desportistas e adeptos do vegetarianismo e dos montes no Alentejo ao fim de semana, com o jipezinho à porta da herdade e os canitos na traseira da pick-up.

Contudo, como não há bem que sempre dure, nem mal que nunca acabe, chego eventualmente ao fim. Faço-o sempre com um sentimento dúbio, aquilo de chegar ao fim da Xis. Por um lado, o martírio está quase dado por terminado; por outro, o pior vem inexoravelmente com o esfolar do rabo do bicho - é que na última página está sempre acoitada a crónica do inefável Psiquiatra Irmão do Presidente e Autor de Livros, Daniel Sampaio.

Ora, juntamente com o outro pedopsiquiatra de serviço - Pedro Stretch de sua graça, que obra de quando em vez, também no Público, uns poemas inarráveis de enaltecimento às criancinhas desvalidas deste mundo, cuja maior desgraça é de serem apenas compreendidas, em toda a extensão da sua dor, pelo Amável Poetautor Amigo dos Infantes – o Daniel Sampaio é, como ia escrevendo eu, de todos os médicos-guru deste país, aquele que mais me irrita. E porquê?

Porque, petulante, Daniel Sampaio é possidónio, arrivista, perorando ex cathedra sobre os jovens, e as jovens, e as idiossincrasias dos jovens, e as merdas que aparentemente passam pela cabeça dos jovens, e sobre aquilo que o Daniel Sampaio acha que é ser jovem nos dias de hoje, sem que alguém se toque ou lhe faça o favor de, à falta de o ignorar, o contradizer ou contrariar. Muito pelo contrário, naquilo que é mais um dos sintomas de um país doente e esclerosado, em que a culpa morre solteira e o imputável rapidamente se alcandora ao estatuto de inimputável.

Este meu preconceito contra este Sampaio data de 1997, ano em que o Instituto Irene Lisboa organizou um seminário sobre indisciplina no espaço escolar. Perante centenas de docentes, Daniel Sampaio fez tábua rasa de todas as experiências educativas da massa de educadores que estava à sua frente, reduzindo as contribuições emanadas da audiência com a sua proverbial solução all-in-one: o jovem nunca tem culpa de ser malcriado e irresponsável e imaturo e desleixado e preguiçoso, e calão e irreverente, e malcriado, e vândalo, e boçal. A culpa é sempre do pai, do educador, do professor, ao não compreender a linguagem do filho, do educando, do aluno, ao não aceitar que o jovem domina, hoje em dia, outras competências, outros saberes, que não os tradicionais. Fiquei esclarecido. Mas não convencido.

E porquê? Porque, de acordo com esta teoria, se o jovem andar a pichar paredes e a grafitar o Elevador da Bica, a culpa não é dele. Será, talvez, culpa dos pais que não compreendem o quanto significa para esse jovem o E-mule ou o Ipod, e o quanto alienado anda o mesmo jovem pelo uso continuado dos novos meios de comunicação. Esta teoria desculpabiliza igualmente o jovem que sabe tudo sobre a Quinta das Celebridades e os novos códigos de toking da Yorn mas que às equações diferenciais e aos Lusíadas diz nada.

Esta teoria é, contudo e para Sampaio, uma teoria maravilhosa. É como a teoria unificadora da Física: cabe lá tudo, das cordas ao buraco negro, passando pelo gato de Schrodinger.

Só tem um problema, esta teoria do Professor Daniel Sampaio: só funciona para os Morangos com Açúcar; só se aplica quando os pais são gestores da coisa pública e as mães são advogadas ou médicas platinadas, só marcha quando o Mercedes entra na garagem da Quinta da Beloura e o jovem louro e de olho azul, de apelido estrangeiro, está apaixonado pela colega de carteira do Colégio Salesiano, só entra em vigor quando o pai é ausente e joga golfe no Praias d’El-Rei e a mãe é divorciada ou tem um caso com o advogado da fracção E do mesmo condomínio privado em que habita o agregado familiar dos Mellos e Sam Payo - esta teoria, no fundo, só tem razão de ser quando a jovenzita interpela pela primeira vez os prazeres da masturbação na casa da prima Xaxão, filha da tia Bóbi e parenta do Ministro das Cidades em quarto grau, após ter descoberto a sua foto na VIP, ladeado pelo senhor de óculos que até é PR da Casa do Castelo, enquanto se atormenta com o sabor do pecado e a perspectiva medonha de ver os tricomas a crescer a olhos vistos na polpa dos dedos engelhados pelo vício de que o seu confessor privado sempre a preveniu.

Esta é, portanto, uma teoria selectiva. Funciona para os ricos e para a classe média alta segmento A e B, géneros Chivas e Cartier mas não tem cabimento para as Classe T e U, géneros tinto Camilo Alves e Lidl.

Proletários, abstenham-se. Jovens de origem africana, mães da Azinhaga dos Besouros, famílias pobres e sujas dos arrabaldes de Setúbal, afastem-se. Alunos de escolas públicas, especialmente daquelas que teimam em permanecer na cauda do ranking, tirem o cavalinho da chuva: o Daniel Sampaio não falará nunca de vocês. Ainda se arriscava a apanhar piolhos. Ou sarna. Ou tinha. E a tinha é pior, muito, muito pior, do que a sarna.

Com sorte, se forem bem pobres e e provierem de famílias disfuncionais, ainda pode ser que o Stretch fale de vocês. Com muita sorte, até podem vir a ser figurantes num dos seus poemas no Público. Afinal, não há fome que não dê em fartura.

2004/10/17

aflito, o corpo é
um pássaro vago
que nasce da água
e frutifica, amargo.

Seminal

Tinhas o teu corpo como fio de prumo, suspenso sobre a profusão das águas. Talvez algum homem lhe seguisse o rasto, talvez a tua pele escurecesse de prazer quando ele habitava em ti, efémero.

Quando não chovia, desaguavas brusca na voragem dos que te consumiam, fêmea plena a abarrotar de cio e prazer. Quando o mar se esfumava no estio, era como se fosses toda tu transbordante, como se tivesses os olhos fresquíssimos e a terra do teu ventre estivesse toda ela pronta a receber a semente amarga do seu lavrador.

2004/10/14




serei breve;
dir-te-ei apenas que
imito aquelas areias negras
daquela praia antiga
onde o desejo escorria
pelo meu corpo abaixo
como grãos de vidro moído

enlouquecido marrava,
rasgava-me nos dedos
sulcos vermelhos,
escorria de nó em nó,
como sóis opacos
florescia, escondido,
na arca do peito,
inquieto, traiçoeiro
rebentando, depois,
muito depois,
grávido de sal
e de mar.

tal como ele,
desço por ti abaixo
e, de desejo em desejo,
confesso-te hoje
a imitação desses dias
e a espada que me atravessa
o gume acerado
a cortar-me em dois.

Où va ce bateau?

Rugoso. Foi a primeira coisa que sentiu. Era áspero e rugoso o tecido em que repousava, de forma displicente, a sua face esquerda. Não fora a mancha vermelha que alastrava, dolente, por sob a pele, no limite da sua visão periférica e quase que se poderia deixar embalar pelo bater surdo do coração, como se o escutasse no peito de um amante, pronta a adormecer, como se nada daquilo fosse real.

Recorda cavalos brancos a correr numa seara em fogo. Uma gaivota desasada pousada num poste de madeira de uma praia da Normandia, o mar cinzento a esboroar-se de encontro à areia escura e grosseira. Um cão atropelado numa estrada nacional, a arrastar-se para a berma, as pernas partidas em fragmentos, uma víscera mole e húmida a arrastar-se no alcatrão rugoso e sujo, à espera da morte, dolorosa. Uma mulher deitada de borco, um rio de sangue a jusante do ventre, a cara encostada à superfície da terra, uma lágrima a caminho do chão, a mão que se abre e fecha ao ritmo do coração.

Por momentos, a figura estremece, desenraíza-se e é como se se visse do exterior, como se a pessoa ali deitada fosse outra que não ela, como se a morte que se aproxima a galope fosse sentença dada a uma outrem que não ela. Por momentos, durante um punhado de segundos, o corpo hesita entre ser ectoplasma ou carne em agonia, numa luta intestina contra a natureza das coisas, contra a definitude da morte. Vencida, a consciência regressa a casa, retorna à prisão hemorrágica que a sustém e encerra para não mais se escapar. Falta pouco, muito pouco, dois, três minutos, não mais do que isso.

Em frente, uma parede descarnada, obscenamente manchada, nódoas esbranquiçadas orladas pela passagem do tempo, o estuque carcomido a desfazer-se aqui e ali, as ripas de tabuinha da Flandres expostas como costelas ressequidas, uma gota de água que pinga do tecto, pingue, pingue, um gato que passa sorrateiro na linha da meia água do telhado para lá da janela do canto do quarto, aberta de par em par, a escapulir-se, manhoso, da chuva que cai em bátegas grossas, indiferente à vida que se acaba ali mesmo, no chão estendida, a face espojada no chão alcatifado, rugoso, a última coisa que sentiu, rugoso, rugoso.

2004/10/13

Sampaio está preocupado com a retoma

Nos tempos biblícos, havia quatro tipos de pessoas que se consideravam como mortas, embora estivessem bem vivas: os cegos, os leprosos, os pobres e os que não tinham filhos.

Se fosse hoje, os patriarcas judeus acrescentariam uma quinta categoria à lista: a dos preocupados. Para seu patrono, poderiam até, eventualmente, escolher Jorge Sampaio, esse nosso garante da estabilidade das instituições.

Afinal, o nosso Cenoura de estimação preocupa-se com tudo e mais alguma coisa: com a educação; com as Forças Armadas; com a saúde; com o leitão à Bairrada; com a Selecção; com as críticas que Miguel Sousa Tavares lhe faz e às quais responde dos brenhos de um parque natural qualquer, ressabiadíssimo; com o Marcelo; com - para me repetir e só para dar ênfase à coisa - tudo e mais alguma coisa.

Por vezes, preocupa-se tanto que a lágrima, fácil e sentimentalóide, lhe escorre lestamente pelo rosto abaixo. É natural: ser Presidente de Portugal é um cargo enervante e desgastante. Sampaio, no fundo, precisa de descansar - é que, a continuar assim, qualquer dia, com tanta ruga de preocupação, deixamos de ter um Presidente e passamos a ter um Shar Pei em Belém.

Ou talvez não. Se Sampaio se preocupa também se acautela. Como se veio a saber hoje:

Sobre o prémio Carlos V que lhe será hoje entregue pelo Rei de Espanha, Jorge Sampaio confessou-se "muito surpreendido" por o receber e confirmou que os 90 mil euros, desta vez, não vão para nenhuma instituição de caridade.

"Desta vez, vai ser para mim. Os tempos estão maus".




escondo-me nas mais altas ameias e no mais oculto dos silêncios, tudo para que não saibas que te pertenço.

ato-me e desato-me, contrafeito, os dedos ácidos, silenciosos, também eles ocultos, prometidos que estão à mudez breve do esquecimento.

2004/10/12

Cinco razões para se ter esperança que se cumpra Portugal.

Por vezes, levanto a cara da estrumeira que é este país e apetece-me citar exemplos de excelência, só para respirar ar puro e desenjoar. Quais proverbiais flores de monturo, esses exemplos existem. Não abundam, é certo, pero que los hay, los hay. Falemos de cinco deles.


Em primeiro lugar, da opção há umas semanas evocada mas ainda não cumprida - António Lobo Antunes (ALA).

Confesso que pouco li de ALA: Os Cus de Judas, a Memória de Elefante - ambos há tantos anos atrás que deles nada recordo – e um outro que relembro como sendo um livro inquietante, bem escrito, pouco ortodoxo e esotérico quanto baste, A Explicação dos Pássaros.

Como se vê, li os primeiros mas passei ao largo dos restantes. Falta de tempo, de paciência, de uma boca que me soprasse encómios ou de uma mão que me os oferecesse o que é certo é que nada mais li de ALA até me deparar com o seu primeiro livro de contos. E aí, sim, fiquei rendido.

O ALA pode não ser um bom romancista, pode até parecer ser extremamente antipático e afectado, mas é um excelente contista. É, aliás e na minha opinião, o contista mor por excelência de Portugal e arredores. É um facto inegável, algo que se consubstancia todas as semanas na Visão que, graças a Deus, não sofre de miopia na escolha dos seus colunistas.


Outro exemplo de excelência é a novel biblioteca municipal de Lisboa Orlando Ribeiro (BMOR). Sita no núcleo histórico de Telheiras, a BMOR integra dois edifícios, um preexistente, uma antiga casa senhorial do século XVIII, e um outro, construído de raiz, a poente, unidos entre si por um pátio e por uma ligação em ponte coberta.

Com o empréstimo de CD’s PC e áudio, DVD’s de cinema e música, livros, revistas e jornais, acesso à Internet, espaços agradáveis de consulta e pesquisa, a BMOR, dotada de cafetaria, auditório e espaços exteriores de lazer, é o resultado de um casamento feliz entre o projecto do arquitecto Duarte Nuno Simões e uma equipa que se adivinha sólida, bem formada e criativa. O mais e melhor Portugal passa também, forçosamente, por aqui.


Terceiro exemplo: o jornal Público. Falando menos sobre o cercear constante das nossas liberdades de expressão e de opinião e agindo mais no sentido de boicotar cada vez mais as movimentações obscuras, as jogadas de bastidores e as eminências pardas das centrais de intoxicação, resta a cada um de nós um único gesto, simples, discreto, mas eficaz quando executado por muitos: comprar o Público todos os dias é aumentar-lhe a tiragem, é contribuir com o nosso bolso para que alguns se possam manter de cabeça levantada no meio da imundície, da pasquinada e da literatura de cordel que por aí abutreja e volteja. É o que eu faço todos os dias, benditos oitenta cêntimos a favor da causa.


Quarto exemplo, desta vez igualmente uma sugestão gastronómica – o restaurante O Bartidor, na Rua Alexandre Herculano, número 10, na Nazaré, mai-lo seu Arroz de Marisco e Lagosta, com a dita cuja inteira, a sapateira (que dispenso, mas isso são gostos), a amêijoa, a gamba e o cereal, tudo especioso e abastoso, fresquíssimo, confeccionado por duas varinas matronas em casa anódina mas acolhedora, fumegante tacho robusto para duas pessoas, a dar para três com fome, por apenas 21 euros. Recomenda-se e vivamente, especialmente agora que o Outono entra pelo Alcoa abaixo e se desfaz nas rochas da Pederneira e do Sítio (Tel.: 262 551 960)


Finalmente, destaco pela positiva o terminal de infravermelhos com ligação USB e montagem portuguesa que dá pelo nome de código IrDA ES620. De robustez a toda a prova, passa garantidamente pelo teste de resistência de passar um dia inteiro no bolso de uns calções, uma noite na cesta da roupa suja, uma meia hora na máquina de lavar a 40 graus (programa da roupa de cor), uns cinco minutos no programa de centrifugação e umas três horas, dentro do mesmo bolso, a corar ao sol de Outubro.

E, contra todas as expectativas, ainda aqui está, ao meu lado, a funcionar como novo e a cheirar ainda a Persil.

Excelente.

2004/10/11

A boca no trombone

Exsilia, tormenta, bella, morbos, naufragia meditare, ut nullo sis malo tiro perorava há uns milénios Séneca nas suas Epistulae.

Como o latim já nem nas missas se usa, nem o padre celebra já de costas para o rebanho, convém traduzir tão sábias palavras para um português mais escorreito - medita em todos os exílios, suplícios, guerras, doenças e naufrágios que viste ocorrer para que não sejas ingénuo em algum outro mal.

Gosto desta citação. Gosto tanto dela que até a uso para encimar o meu outro blog. E vem mesmo a propósito, no seguimento daquilo a que o Pedro se referia há uns dias atrás, relativamente aos bailes e bailinhos que sofre a arqueologia às mãos dos políticos e dos gestores da coisa pública.

É para que se perca definitivamente a ingenuidade que venho aqui encostar a boca ao trombone e contar o que se passou realmente aquando da construção da Marina de Angra do Heroísmo e das peripécias ocorridas, por entre incompetências, desleixos e deixa-andar que tanto prejuízo causaram ao erário público, à credibilidade científica e ao património cultural da Humanidade.

E, para que a culpa não morra solteira, aponto o dedo a duas figuras gradas da política açoriana: Duarte da Ponte, Secretário Regional da Economia e Carlos César, chefe do Governo Regional da Região Autónoma dos Açores.

Que se passou afinal em Angra?

Passou-se que, entre 1993 e 1995, em plena sanha persecutória das empresas de caça ao tesouro - animadas pela lei do tal Ministro que censurou Marcelo Rebelo de Sousa - em demanda das putativas riquezas afundadas nos Açores (como já aqui deixei dito) começaram a ouvir-se rumores sobre a iminente construção de uma marina na baía de Angra do Heroísmo, cidade Património Mundial.

Ora, mesmo em pleno regime Amaralista - essa coisa atabafada, claustrofóbica e tentacular que asfixiava os Açores há anos e anos – ainda se conseguia encontrar políticos daqueles dos bons, dos inteligentes e dos capazes.

Um deles era o então Director Regional dos Assuntos Culturais, Manuel Duarte, o outro era o Presidente da Câmara Municipal de Angra, Rui Andrade, ambos do PSD-A. Quer um quer outro defenderam e pugnaram pela defesa do património cultural subaquático jazente em águas terceirenses, que à altura se suspeitava rico, variado e abundante – basta referir que se tinham identificado, só na baía de Angra, cerca de 95 ocorrências de naufrágios, a mais antiga das quais datada de 1522.

Ora, constituindo objectivos primários da política de património cultural o conhecimento, a protecção, a valorização e o crescimento dos bens materiais e imateriais de interesse cultural relevante, bem como dos respectivos contextos, necessário se torna, por força de lei, que os serviços da administração do património cultural condicionem a prossecução de quaisquer obras à adopção pelos respectivos promotores, junto das autoridades competentes, das alterações ao projecto aprovado capazes de garantir a conservação, total ou parcial, das estruturas arqueológicas eventualmente descobertas no decurso dos trabalhos.

E de onde vem o dinheiro necessário à implementação de tais alterações?

Vem, forçosamente, do dono da obra. Diz a lei que, no caso de grandes empreendimentos públicos que envolvam significativa transformação da topografia ou paisagem, bem como do leito ou subsolo de águas territoriais, quaisquer intervenções arqueológicas necessárias deverão ser integralmente financiadas pelo respectivo promotor

É exactamente para evitar que só se descubram vestígios arqueológicos no decorrer da obra – ou seja, exactamente no período em que os prazos de execução são mais apertados e há maior perigo de ficarem máquinas e homens parados à espera do estudo e/ou da salvaguarda dos vestígios – que se devem fazer acções de prospecção prévia, nomeadamente no decorrer dos Estudos de Impacte Ambiental (EIA), de modo a que no decorrer da Avaliação de Impacte Ambiental (AIA) se obtenha uma informação integrada dos possíveis efeitos directos ou indirectos do projecto em causa e se avalie os possíveis impactes decorrentes da execução desse mesmo projectos sobre o eventual património localizado na zona de intervenção.

E foi o que se tentou fazer. Quando o Governo PSD perdeu as eleições regionais de 1996, deixou como herança alguns elefantes brancos que custaram a engolir. Entre esses encontrava-se a marina de Angra – apesar de não haver vontade política para a executar, custava mais ao erário público não fazer a obra do que a fazer.

E foi assim que, muito depois de um EIA mal enjorcado e feito às três pancadas estar pronto, conseguimos convencer o dono da obra, a Junta Autónoma do Porto de Angra do Heroísmo (JAPAH) e da sua tutela, a Secretaria Regional da Economia, de que seria melhor fazer-se um estudo prévio da área submersa da baía, assim à cautela, não fosse o Diabo tecê-las.

Decorreu então uma busca sistemática, morosa, chata, monótona, consistindo na prospecção arqueológica subaquática visual e electromagnética integral (através da instalação de eixos pré-definidos, com um espaçamento máximo de 5 metros) das áreas de afectação directa e indirecta do projecto, com a detecção de anomalias visuais e de massas metálicas enterradas representada em cartografia, contendo dados batimétricos bem como a georeferência de cada anomalia detectada com respectiva descrição e confirmação através de sondagem por escavação.

E foi assim que, contra tudo e contra todos, contra a opinião dos expert e dos opinion makers da zona e arredores, a nossa equipa de três pessoas conseguiu pesquisar e sondar 5.000 metros quadrados de leito marinho em quatro invernais meses, de tempestades correntes frias, descobrindo no processo os vestígios de três navios históricos afundados precisamente na zona onde o enrocamento do molhe de protecção à marina deveria ser implantado.

Perante tal facto, três opções se abriam: ou se construía por cima, efectivamente destruindo os naufrágios; ou se desviava o molhe, encarecendo obscenamente a obra, ou se intervinha arqueologicamente sobre as jazidas, assegurando a recolha integral de todos os dados científicos passíveis de ser recolhidos.

E foram exactamente essas as opções que apresentei em Conselho de Governo, directamente a Carlos César e ao seu séquito de Secretários Regionais. Com os todos os dados na mão, o Conselho optou pela terceira hipótese - ora, se a destruição de um sítio for total ou parcial e, assumida no EIA como inevitável, esgotando-se todas as hipóteses de a evitar, deveria ter ficado expressamente garantida a salvaguarda, pelo registo, da totalidade dos vestígios e contextos a afectar, através da sua escavação integral.

Foi-me então pedido que, com carácter de urgência, elaborasse um plano de intervenção, devidamente orçamentado e calendarizado. Passados três dias, o documento pedido estava na secretária do director da JAPAH.

À boa maneira portuguesa, tanta pressa deu em relapso: passado um ano, o documento ainda lá estava! A ganhar pó ou a ver se alguém se esquecia da sua existência. A ver se, qual avestruz enterrando a cabeça na areia, os naufrágios se sumiam ou levantavam âncora, içando velas em direcção à Polinésia Francesa.

E, fatalmente, passado um ano, empregados houve que desembarcaram em Angra, máquinas houve que foram desempacotadas e postas em funcionamento.
Dragas, camiões, betoneiras, camartelos – todo um estaleiro se foi montando na orlda da Baía. Quando, dois dias depois, começaram a ser feitos os aterros de acesso ao mar, o facto consumou-se: a construção da Marina começara e os vestígios arqueológicos iriam desaparecer para sempre dentro de uma semana.

Foi então que Manuel Maria Carrilho, o Ministro da Cultura de então, fez voz grossa. Competindo ao seu Instituto Português de Arqueologia (IPA) estudar e propor a definição das normas a que deviam obedecer, no domínio da sua área de actuação, os Estudos de Impacte Ambiental (EIA) ou outros legalmente previstos, prévios à aprovação ou execução de todas as obras públicas ou privadas envolvendo remoção ou revolvimento substancial de terras (Artigo 3°, alínea e) do DL n.º 117/97, de 14 de Maio) bem como autorizar, fiscalizar tecnicamente e acompanhar a realização de trabalhos arqueológicos (Artigo 3°, alínea a) do DL n.º 117/97, de 14 de Maio) e valendo-se do artigo 15 do Decreto-Lei n. 164/97 de 27 de Junho, relativo a achados fortuitos em obra nova, quando a entidade responsável pela execução dos trabalhos não suspender os trabalhos sem autorização expressa do IPA, este poderia desencadear o embargo administrativo, foi decidido dar um ultimato à JAPAH: ou as obras acautelavam a salvaguarda do material arqueológico ou as obras paravam ali mesmo.

E pararam. Pararam para que, numa semana se pudesse reunir uma equipa capaz de, no mais curto espaço de tempo possível. Pararam para que, numa verdadeira correria de se ir tirar o pai à forca, viessem os arqueólogos subaquáticos que estivessem disponíveis naquela altura, assim do pé para mão. Pararam para que chegassem quinze técnicos oriundos do Canadá, da Catalunha, de França, dos EUA, de Itália e de Portugal.

Pararam para que, durante três meses de autêntica canseira, se desentulhassem milhares de toneladas cúbicas de areia e lodo de sete metros de profundidade e se removessem e fotografassem e desenhassem milhares de peças de madeira de dois navios, um galeão do século XVI – o mais completo encontrado até agora em todo o planeta – e outro do século XVII, ambos únicos no Mundo. Pararam e essa paragem e essa intervenção feita à pressa custaram milhares e milhares de contos ao erário público.

E tudo por culpa de quem?

Do Governo PS dos Açores. Não de todo o Governo, porque o então Director Regional da Cultura, o agora deputado nacional Luiz Fagundes Duarte, um homem bom, se viu de mãos e pés atados, quixotescamente tentando batalhar os moinhos da Economia e dos fundos comunitários.

Não de todo o Governo Regional mas principalmente por culpa dos dois acima citados, Carlos César e Duarte da Ponte, ficou a arqueologia subaquática com a fama de ter sido o principal empecilho na imparável marcha do progresso terceirense. Impulsionados por um jornal da ilha, um exemplo acabado de quão peçonhento e lapuz pode ser o ‘jornalismo’ regional, os cidadãos de Angra acabaram por culpar a arqueologia subaquática por todos os atrasos e gastos faraónicos envolvidos na construção da dita marina.

O caso foi tão grave que houve ameaças de morte aos elementos da equipa – chegou até a vender-se, na lojinha de recuerdos da Rua Direita este belo exemplar de azulejo turístico:


Passados dois anos, os dois navios que tanto custaram a salvar perderam-se por falta de prosseguimento de tratamento científico, por incúria do Governo Regional e por desleixo da Assembleia Regional dos Açores que esteve quatro anos para legislar sobre algo que deveria ter, por lei, ficado legislado em seis meses.

E que conclusões retiro eu disto tudo?

Concluo que não há partidos bons ou partidos maus: há apenas pessoas inteligentes, humanas, cultas, esclarecidas e pessoas trogloditas, arrivistas, incapazes, incompetentes, más gestoras, irresponsáveis e inimputáveis.

E o nosso problema maior, enquanto País, é o de termos cada vez mais políticos pertencentes à segunda classe e cada vez menos pertencentes à primeira.

Eu sou o Homem. O Homem.
Desço ao mar e subo ao céu.
Não há temores que me domem
É tudo meu, tudo meu.

António Gedeão

2004/10/03

Anátema




os lábios. os teus lábios, secos, entreabertos. a boca. a tua boca, breve, carnuda, aberta como um olho.

a respiração. a tua respiração. breve, seca, curta, sincopada, que me está próxima, tão próxima que respiro o ar que exalas, tão perto que exalo o ar que respiras.

o peito. o teu peito ritmado, tenso, que sobe acima e desliza abaixo.

o ventre. o teu ventre elástico, plano, dourado pelo mistério do meu desejo, do meu querer-te.

o sexo. o teu sexo breve e fendido, o teu sexo molhado, maduro que colho às mãos-cheias com a polpa dos meus dedos, que degusto calmamente com as papilas da minha língua.

os pés. os teus pés e os meus pés nos teus pés.

e o meu sexo no teu sexo, e o meu ventre no teu ventre, e o meu peito no teu peito, e a minha boca na tua boca, e os meus lábios nos teus lábios e eu em ti, e tu em mim, e eu, e tu, e nós dois, unos, indivisos, a morrermos lentamente nos olhos um do outro, o corpo de um o corpo do outro, e as nossas mãos engalfinhadas tranquilamente umas nas outras, como se não houvesse mais nada no mundo do que os teus lábios, e os teus olhos e toda tu, soma das partes e dos fragmentos que és toda tu e eu.


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