O Luís Rainha inseriu, aqui há uns dias atrás e no
BdE, um pequeno comentário espantado sobre o número de europeus que foram cativados e escravizados pelos Mouros, Turcos, Magrebinos e demais Islamitas do Renascimento.
Sem deixar de poder simpatizar com os cristãos aprisionados ou martirizados - como o escritor Miguel Cervantes, violado anos a fio no seu cativeiro tunisino pelo seu amo e senhor, Hassan Bajah, "o Sodomita", como também era conhecido
inter pares; com os tripulantes da nau portuguesa
Nossa Senhora da Conceição, abrasada pelos mouros ao largo da Ericeira; e com a população das ilhas de Porto Santo, Corvo e Canárias, onde as razias muçulmanas levaram a que mais de 90% dos seus habitantes ficasse cativa - há que referir também os milhares e milhares de
mouros aprisionados pelos cristãos para servir como escravos da Ordem de Malta ou como remadores nas galés venezianas, espanholas e francesas.
Forjada por séculos de uma proximidade temida, a própria língua portuguesa inclui expressões que ainda hoje utilizamos. Era o medo, nos tempos das piratarias magrebinas, de que houvessem espiões ou denunciantes dos piratas que os informassem sobre a partida e a natureza da carga dos navios, que fazia com que os mercadores observassem cautelosamente: "há mouro na costa".
Haver mouros na costa passou assim, a ser a afirmação que se faz quando estão presentes pessoas que não devem de conhecer determinados assuntos, ou nas quais não se pode confiar, ou ainda pessoas que nos andam a rondar, animadas das piores intenções. Ainda hoje, nas terras mais castigadas, como a Madeira e os Açores, se diz a quem se quer mal ou nos apoquenta,
vai-te p'ra Argel enquanto as mães invectivam os filhos mal comportados e irrequietos de
cossairo ou
corsário.
Mas essas expressões não são as única que sobrevivem desses tempos de terror:
trabalhar como um mouro - ou o verbo
mourejar - vem dos tempos em os escravos ainda só eram muçulmanos (depois, com a descoberta das vias marítimas esclavagistas, passou-se a poder dizer: "trabalhar que nem um preto"….)
A pirataria berberesca
A história das relações conturbadas entre piratas e cativos é longa e antiga. Com efeito, data de 1260 - ano em que a vila de Salé foi saqueada pelos espanhóis, que levaram também todas as mulheres para a Península Ibérica – a altura em que quase todo o mar Mediterrâneo se tornou palco de acções de pirataria e corso, tanto de muçulmanos como de cristãos, numa dinâmica que atingiu o seu zénite nos finais do século XVI. Com efeito, foi a partir dessa data que ocorreram três factores cruciais para esta nossa história.
Em primeiro lugar, o Estreito de Gibraltar pôs em comunicação uma tradição marítima, de cariz mediterrânico e milenar, com a história recente, animada pelas economias oceânicas e pelo afluxo dos metais preciosos oriundos das Américas.
O encontro das rotas clássicas com as modernas vias transatlânticas do comércio, em razão da nova riqueza em circulação e da disputa dos mercados ultramarinos, veio assim alterar dramaticamente o perfil e alcance das diferentes formas de violência marítima. A área nevrálgica onde se cruzavam essas rotas, que ligavam o mundo mediterrânico à Europa atlântica – e por onde circulavam as mercadorias em direcção ou provenientes das possessões e mercados coloniais – era a definida pelo espaço compreendido ente o Estreito de Gibraltar, Cadiz, o Cabo de São Vicente, Lisboa e arquipélagos das Canárias, Madeira e Açores.
O segundo factor foi a expulsão por Filipe II dos mouriscos de Espanha, iniciada em 1609, e que levou à fixação de muitos dos refugiados – mais de 40.000 - em Tetouan, nas proximidades das praças fortificadas de Melila e Tanger. Ora, esta população europeizada e exímia nas técnicas marítimas dos Europeus (a artilharia marítima, o domínio dos navios de pano redondo) levou consigo, para Marrocos, todo o seu know-how e todo o seu ódio a quem a expulsara. Pobre, espoliada, normal era, como foi, que aplicasse o que sabia fazer – andar no mar – a atacar cristãos.
O abade Pierre Dan, na sua obra de 1649, intitulada Histoire de Barbarie et de ses Corsaires des royaumes, et des villes d'Alger, de Tunis, de Salé, & de Tripoly. Divisée en six livres. Ou il est traité de leur gouvernment; de leur Moeur, de leur Cruautez, de leurs Brigandages, de leurs Sortileges, & de plusieurs autres particularitez remarquables, é de opinião, que os mouriscos de Espanha, em vez de terem sido expulsos, deveriam ou ter sido todos mortos ou todos convertidos, já que todos tinham dado em corsários: ils ont causé depuis une infinité de maux à la Chrestienté, pour avoir apris aux infidéles, l'usage et la fabrique des armes, ensemble plusieurs mestiers, et pareillement la situation et la langue du païs, oú ils avoient trafiqué.
O terceiro e último factor foi o aparecimento do Império Turco Otomano no panorama europeu. O corso foi para os otomanos do século XVII uma resposta ao descalabro monetário da sua economia, face ao afluxo dos metais precioso da América.
Relata o redentor Frei António da Cruz, que os turcos sendo tão enemigos da cruz por ser de Christo são muito amigos dos reais cunhados com a mesma por esta ser de prata fina e de lei. É desse modo que as surtidas em terra ou as tomadias no mar se desenrolaram também no quadro da oposição do Império Otomano às economias marítimas dos países ibéricos, rivais no Mediterrâneo e no Índico – no caso do Magrebe, apesar de os marroquinos não estarem na dependência do Império Otomano, estes operavam sob a sua protecção, funcionando igualmente como intermediários nas transacções dos cativos.
A pirataria como factor religioso e económico
A pirataria, de um fenómeno tradicional, passou então a actividade industrial, como único recurso de toda uma comunidade. Como diria um autor anónimo, em 1757, não era possível ao valor de todos os Catholicos o poder conseguir, que os Mouros não infestem os mares, não perturbem o comércio, e não se atrevão a nos hostilizar, já que, se do lado espanhol estava o valor, e a razão, do outro estava o ódio e a superioridade das forças.
Um bom exemplo da "razão" e do "valor" cristão era o dado pela Ordem de Malta. Com sede, primeiro na ilha de Rodes, que perdeu para os Turcos em 1523, e depois em Malta, a Ordem constituía um estado independente, com exército e marinha próprios, para quem a guerra de corso representava um meio de fazer aos seus Cavaleiros cumprir os estatutos da ordem, em combatendo pela sua glória.
Para a Ordem de Malta, o mar era o único meio onde podia defrontar os infiéis, atacando não só as galeras de guerra barbarescas, como também os navios mercantes de Alger, Tripoli e Tunis, que forneciam o trigo, o gado, os legumes, os tapetes e os escravos para as galeras.
As galeras de Malta estavam num estado de guerra permanente com o Islão, vendo os pertences dos infiéis como passíveis de serem tomados legalmente, - mesmo que seguissem a bordo de navios pertences a nações cristãs (nas capturas, 20% do saque ia para os Cavaleiros, 15% seguiam para os soldados profissionais e para os marinheiros e o resto destinava-se ao cofre da Ordem).
Por vezes, nem era preciso aos cristão ir para a guerra para arranjar alguns escravos: alguns mercadores venezianos usavam como estratagema o organizar de mercados a bordo de navios ancorados ao largo de alguns portos da África do Norte; depois de terem o navio cheio de pessoas, largavam amarras e lá iam eles, para os mercados de escravos de Veneza…
Se a luta contra o Infiel era dever primordial de todo o cristão – haviam perdões régios a homicidas, como os que foram passados aos participantes na armada portuguesa que fora contra os Turcos que se tinham apossado de Otranto, na Itália, em 1481, armada essa comandada pelo Bispo de Évora, Dom Garcia de Meneses – tal nem sempre acontecia.
Por vezes, razões de ordem diplomática sobrepunham-se aos interesses religiosos. Com efeito, apesar do princípio jurídico pacta cum infidebilus estar em vigor na republica christiana de Carlos V, tal não impedia o estabelecimento de tratados, convenções e mesmo acordos de paz. O mesmo o imperador espanhol, por vezes alicerçado em razões de segurança de Estado e de comércio, intensificava as suas relações com os príncipes mouros de religião muçulmana.
Portugal e os piratas mouros
Quanto a Portugal, quase que se pode afirmar que a expansão para Marrocos foi, fundamentalmente, motivada pela pirataria e pelo corso. Com efeito, datam de 1415 os primeiros contactos dos portugueses com a cidade de Ceuta, através de acções de resgate de cativos. A sua posterior conquista foi também devida ao perigo constante que os ataques de mouros faziam às terras do sul da Península Ibérica, havendo mesmo pilhagens frequentes nas costas do Algarve.
E a História é confirmada pelos factos. Afim de proteger os moradores do Algarve das incursões berberescas, desenvolveu-se um cordão de atalaias e fortificações, edificadas no fim do período medieval e mais tarde reforçadas, por D. João III e D. Sebastião, com uma linha de fortalezas, atalaias e baluartes que iam desde o cabo de São Vicente até à foz do Guadiana - como o corso levava a grandes quebras nas pescarias e conduzia a uma diminuição da actividade comercial do Algarve, os monarcas asseguravam-se que os mareantes portugueses tinham a função de guarda à costa, especialmente os que formavam as almadravas, as armações do atum.
Mas os ataques sucediam-se. Em 1517, o próprio Rei D. Manuel pensou em fixar-se no Algarve para melhor enfrentar a ameaça berberesca. Em 1550, os "turcos" destruíram completamente a fortaleza de Alcantarilha. Oito anos depois, 35 a 40 piratas desembarcaram na praia da Galé e cativaram 5 pessoas. Em 1549, uma "armada de Turcos" desembarcou mil corsários perto de Porches-o-Velho.
Nas cortes de 1562 pediu-se a construção de fortalezas na costa algarvia e a proibição de lá morarem mouriscos, para não darem avisos, como se presumia. Em 1573, o próprio Rei D. Sebastião embarcou para dar luta a 13 galés turcas que vogavam ao largo de Sagres, antes de embarcar para a sua perda e o consequente aumento exponencial do número de cativos portugueses no Norte de África em finais do século XVI, a partir do desastre de Alcácer Kibir.
Nem a assinatura de tréguas entre a Espanha e a Sublime Porta afectou a continuidade do corso berberesco, que não só se manteve activo como ganhou autonomia, tornando-se os seus objectivos económicos prioritários. Assim, na década de 80, um ataque de mouros a Vila Nova de Milfontes provocou a debandada da população, o que despovoara a zona.
Os ataques faziam-se igualmente às ilhas cristãs. Em 1585 Murat Arrais nas levou 400 cativos de Lanzarote. Em 1586 e 1593, outras duas incursões muçulmanas nas Canárias fizeram mais 400 cativos.
A expansão da pirataria para o Atlântico
Como ficou já dito acima, foi a partir da expulsão dos mouriscos que o corso muçulmano se espalhou para fora da zona do Magrebe. Em 1616, Sir Francis Cottington, embaixador de Inglaterra em Espanha, escrevia ao Conde de Buckingham notificando-o de que, entre 1609 e 1616, a frota turco-argelina tinha capturado 466 navios ingleses e vendido as suas tripulações como escravos.
Portugal e Espanha eram os mais castigados. Em 1615, alguns corsários argelinos invadiram o Porto Santo, mas foram expulsos de lá pela expedição de Manuel Dias de Andrade. Em Julho de 1616, 500 mouros saíram num navio e dois patachos de Argel para o Atlântico para apresar as naus que regressavam da Índia - como não o conseguiram, assaltaram a ilha de Santa Maria. Em 1617, fizeram o mesmo ao Porto Santo.
Tabac Arrais e Suleiman atacaram Lanzarote em 1618, com 37 navios, 4000 soldados e marinheiros. Saíram de Argel a 6 de Abril e avistaram as Canárias a 30 do mesmo mês. Desembarcaram 3 mil homens perto do porto de Arrecife a 1 de Maio. A capital, Teguise, foi saqueada e incendiada, as imagens religiosas foram quebradas. Os habitantes fugiram para os montes, alguns para Fuerteventura de barco e cerca de mil refugiaram-se dentro da gruta de Los Verdes. A gruta, a que se acedia apenas de gatas, era abastecida por uma outra entrada secreta, entrada essa que foi dada a revelar aos "turcos" pelo escrivão Francisco Amado, sendo feitos 900 cativos.
E o corso prosseguia, para territórios nunca dantes imaginados pelos Europeus. Entre 1616 e 1617, os argelinos chegaram até à Galiza e Astúrias. Em 1627, três navios de Alger, comandados pelo alemão renegado Cure Morat navegaram até à Dinamarca e cativaram 400 pessoas na Islândia. Um pouco antes da meia-noite do dia 19 de Junho de 1631, dois navios de Alger, comandados pelo renegado holandês Morat, ancoraram na baía de Baltimore, a sudoeste de Cork, na Irlanda. Às 2 da manhã, barcos provindos dos dois navios desembarcaram tropas a uma milha a sul da povoação principal e cativaram 109 pessoas. Roubaram ainda alguns bens e incendiaram as casas dos pescadores. O raid causou tal escândalo na corte inglesa, que Carlos I pediu explicações à sua guarda-costeira e exigiu forte acção diplomática (o que é compreensível já que cabia ao Rei da Inglaterra que cabia o resgate dos protestantes ingleses, escoceses, holandeses, escandinavos e alemães).
E tudo isso aumentava ainda mais a sangria de cabedais europeus… Por exemplo, aquando do saque de 1618 a Lanzarote, resultou maior prejuízo pela venda de terras e bens para resgate dos cativos do que propriamente pelo saque em si. Só em1617, haviam mais de 7000 cativos em Argel. Para além da falta que essas pessoas faziam nos seus países de origem, havia ainda o problema do seu resgate conduzir a Argel, a Salé e a Tunis moeda forte. Se o resgate de cada menino custava 60.000 reais, imagine-se o esforço económico que a Coroa e as famílias faziam para os descativar.
O resgate dos cativos
Se resgatar pai ou mãe era obrigação cujo incumprimento poderia originar deserdação, como previam as Ordenações Filipinas e se resgatar um familiar era ainda um dever moral, muitas vezes não havia dinheiro disponível para tal desiderato.
Por exemplo, em Julho de 1618, o rei mostrava-se preocupado com as dividas à Redenção e apelava à população para que contribuísse para a ajuda aos cativos com esmolas em dinheiro, destinando. por outro lado, metade das coimas pecuniárias à redenção. No final do ano, para se diminuir as despesas, deram-se ordens se resgatassem apenas os menores de 14 anos e pessoas em perigo de vida, bem como os muitos pilotos e marinheiros cativos em Tetouan e Ceuta, dos quais poderiam muito bem os turcos se aproveitar em novos saques. Em resultado desse esforço, chegaram a Lisboa, a 8 de Junho de 1620, 350 cativos, dos quais 140 eram mulheres, 85 crianças, e os restantes homens do mar - custaram todos 26.8887.580 reis, soma essa que contribui para que, em 1621, houvesse uma dívida da fazenda Real ao cofre da Redenção de cerca 87.155.883 reis.
E porquê as crianças em primeiro lugar? Porque, como dizia Valério Barbosa em 1757, os catholicos são os que mais sofrem com os Piratas, vendo-se accometidos dos torpes sectarios de Mafoma, os quais não somente os pretendem roubar, tirando-lhes as riqueza, cativar, coorctando-lhes a liberdade, mas tambem (oh astucia diabolica, e engano Luciferino!) Mas tambem intentão, que largando a nossa Santissima, e verdadeira Ley, sigão os seus absurdos, preversos e abominaveis ritos.
Com efeito, apesar de todos os banhos de Argel estarem dotados de capelas cristãs (em 1731, sete padres católicos asseguravam os serviços das 3 capelas, com procissões eram autorizadas desde que a cruz não fosse transportada) e de não se pressionar os escravos a se converter - já que não haveria interesse dos redentores pelos renegados, o que dava menos dinheiro – muitos dos cativos mudavam de religião.
Os renegados
As razões invocadas para a renegação baseavam-se muitas das vezes na administração de maus tratos (embora existisse uma prerrogativa da lei islâmica que proibia expressamente tais maus tratos), na acomodação de uma situação aparentemente imutável, na procura de uma vida melhor e de uma maior liberdade de movimentos e na fuga a castigos por ocasiões do cometimento de crimes. Raramente era feita por consciência religiosa já que quer os conhecimentos do Islão quer os próprios conhecimentos da religião cristã eram muitas vezes parcos e impediam a comparação.
Quando não havia esperança de se obter resgate, os cativos eram forçados a renegar, para que Alá pudesse fazer cair sobre os seus donos as bênçãos devidas pela conversão.
Os renegados eram um subproduto resultante do difícil relacionamento entre a Cristandade e o Islão, já que, após o momento em que caíam cativos, duas opções se colocavam aos cristãos: manterem-se fieis ao Cristianismo e esperar uma ocasião propícia para regressar – através de resgate ou fuga - ou renegar, passando a integrar-se no seio do próprio inimigo (renegados ou elches) traindo a fé e o reino. Na Península Ibérica, por exemplo, a temática dos cristão novos, dos judeus, dos mouriscos, dos cativos e dos elches tinha um maior peso do que a questão dos luteranos e calvinistas.
Os arquivos da Inquisição de Lisboa, Sevilha, Maiorca, Sicília, etc., contêm vários processos do Santo Ofício levados a cabo contra arrais, nascidos na religião cristã e que se encontravam ao serviço do Islão quando foram capturados. Por exemplo, Simão Gonçalves foi feito cativo dos Mouros por volta de 1550. Renegou a fé cristã e assaltou e pilhou para os seus armadores de Argel. Preso em Portugal, arrependeu-se num Auto de Fé e chegou ainda a capitanear uma galera da Mina. Outro exemplo: em 1588, as 35 galés de Argel eram comandadas por 21 renegados, 2 filhos de renegados, e por apenas 4 árabes e 8 turcos - os renegados eram de origem húngara, francesa, genovesa, espanhola, grega, veneziana, corsa, siciliana, napolitana e calabresa.
Em Portugal, os renegados capturados tinham de se apresentar perante a Inquisição e confessar as suas culpas. As penas consistiam geralmente em abjurações, instrução, penitência e pagamento das custas. Alguns, poucos, eram condenados a penas de prisão e um ou outro a degredo ou às galés - se bem que o islamismo fosse um dos delitos mais gravosos, de um modo geral a Inquisição era bastante benevolente para com os renegados: para além de se recuperar as almas perdidas, os renegados eram pessoas ainda muito válidas para a sociedade.
Entre 1536 e 1700, 250 renegados de várias nações compareceram perante os três tribunais da Inquisição portuguesa - destes, 5 eram mulheres e cerca de 50% eram portugueses, tendo entre todos experimentado um cativeiro que terá durado entre 3 e 35 anos.
E era um cativeiro bastante cruel. Apanhados entre os conflitos religiosos, os cativos de um lado e do outro sofriam as piores torturas e sevícias. Conta Frei António de Espínola, em 1688, que, aquando do cerco de Argel, a 26 de Junho desse mesmo ano por uma armada francesa de com 18 navios de guerra, 8 galés, 10 balandras incendiárias e mais embarcações auxiliares, o cônsul francês André Piol foi levado, com mais quatro franceses, para a Ribeira e aí foram atados pelos pés em dous paos, com a cabeça para baixo, defronte da boca do tiro, logo dispararão a peça que os fazia em migalhas. Só o consul escapou. Noutro dia puseram no canhão o Padre Vigário Apostólico D. Miguel Mot-Mafour e mais quatro franceses, a quem cortaram as orelhas e os narizes, após lhes cegarem um olho com um alfange.
Em represália, os franceses das galés expuseram sete mouros mortos, pregados em tábuas, com os narizes, olhos e orelhas cortados e alguns vivos, com pedaços de toucinho na boca. Em resposta de terra, 28 franceses mais foram passados ao tiro de canhão. (No final do cerco quando as munições francesas acabaram, metade das casas argelinas estavam destruídas bem como todos os banhos, as tabernas dos cristão, a casa do rei, a fortaleza, as mesquitas, os 5 hospitais e as igrejas. Cinco navios muçulmanos e um inglês que estava no porto foram afundados).
Não admira pois que houvesse renegados. E era muito fácil renegar o Cristianismo: o cristão deveria declarar querer ser mouro, levantar a mão direita e dizer La ilaha illa Allah Mohammed rezul Allah, a profissão de fé. Implicava também mudar de nome. os mais comuns eram Ali, Mustafá e Mahomet.
Em seguida vinha a circuncisão, o que para além da dor física implicava também uma marca que nunca mais se apagaria e que denunciaria o renegado caso este voltasse a ser capturado na Europa.
A aparência também se alterava, com o corte do cabelo e uso de traje mouro. A oração ritual, a salat, era praticada muito pouco ou se o era, então era apenas dita corrompida, porque muitos dos renegados não sabiam árabe.
Depois haviam os abusos sociais. As mulheres eram violadas e tomadas como concubinas, o mesmo acontecendo a alguns homens. Miguel Cervantes Saavedra, o autor do Dom Quixote, foi um deles, sofrendo um trauma que nunca conseguiu superar e que se lê bem nas entrelinhas de algumas obras que escreveu, como a da Viagen al Parnaso, compuesto por Miguel de Cervantes Saavedra. Dirigido a D. Rodrigo de Tapia, caballero del habito de Santiago: El trato de Argel, escrita em 1582, ainda recém resgatado do cativeiro de Argel, e que tem como tema central o enamoramento entre escravos e amos, explicado por feitiços.
Se os renegados se mantiveram nas franjas sociais de dois mundos em permanente conflito, não inteiramente integrados no Islão e com problemas de índole diversa quando regressavam, constituindo um grupo dividido entre duas sociedades, duas culturas, duas religiões e duas vidas, também nesta questão de conflito de religiões e culturas as questões não são lineares nem maniqueístas.
A pirataria por conveniência das partes
Se muito dinheiro era sangrado à Europa, à conta dos saques de navios e das somas pagas pelos resgates, verdade era também o facto desse mesmo dinheiro regressar à Europa, sob a forma de pagamentos para a aquisição de produtos de luxo e armas produzidas na Europa Setentrional.
Com efeito, as relações comerciais entre as duas bandas do Mediterrâneo não foram interrompidas pelo corso ou pela violência - em determinados momentos, as autoridades viram-se até coagidas a proibir aos mercadores de adquirir, em Argel ou na zona do Magrebe, as mercadorias roubadas aos cristãos sob pena de confiscação das mesmas e da aplicação de castigos corporais –a os delatores capazes de apresentar prova daquele delito era reservado um terço do valor dos bens confiscados.
Muitas vezes, a coberto da chamada "pirataria amigável", davam-se autênticas operações de contrabando, enquanto que os menos escrupulosos vendiam aos infiéis as armas que os haveriam de cometer mais tarde. A Inglaterra trocava salitre, cera, peles e ouro marroquinos por armas e munições, através da companhia Henry St-John & Co.
Os Países Baixos, por um tratado de 1610, forneciam a Marrocos fio de ferro, armas e munições. Os comerciantes judeus adquiriam por baixo preço as mercadorias roubadas e revendiam-nas na Itália, em Livorno e em Genes. Há até canhões fundidos na Holanda, em 1619 e 1632, que têm inscrições em árabe invocando Alá…
Os próprio padres redentores utilizavam intermediários que reclamavam uma percentagem do resgate, enquanto que a sua vantagem, reclamada ao sultão, era a de poderem construir capelas e igrejas em território magrebino.
Havia ainda muita corrupção no "negócio dos resgates", com intermediários europeus e judeus a afastar os religiosos das negociações, resgatando cativos por baixo preço e cobrando aos religiosos preços elevados, muitas vezes por cativos já mortos, não existentes ou mesmo já resgatados.
Ontem, como hoje, a religião andava de braço dado com o vil metal. Ontem, como hoje, quem se tramava era a arraia-miúda. Razão tinha Voltaire quando elencava, no seu Candide, a escravatura às mãos dos Muçulmanos como uma das maiores tragédias que afectavam a Humanidade do seu tempo. Ou, como diria João de Mascarenhas, em 1627, na sua Memorável relaçam da perda da Nao Conceiçam que os Turcos queymarão à vista da barra de Lisboa: "não há pior transe do que esperar o cativo nesta hora o amo que terá, porque um homem não pode chegar a maior desgraça, nem seus pecados o podem trazer a maior miséria, que a ser escravo, mas se a sua má fortuna o trouxe a ser escravo de ruim patrão, não tem que aguardar cousa boa de sua estrela, se não ter-se por desgraçadissimo, porque não há pior inferno nesta vida".