2004/12/30

O IM ou o grau zero do serviço público

Sejamos claros: as declarações feitas hoje ao jornal Público pela chefe de divisão do Instituto Meteorológico (IM), Luísa Senos, são, mais do que alarmantes, inconcebíveis num Estado europeu, que se quer moderno e do século XXI.

Quando Luísa Senos considera que o IM tem “o suficiente para salvaguardar pessoas e bens” está a ser inconsciente. De que meios fabulosos, tecnologicamente avançados, disporá o IM, capazes de proteger pessoas e bens de um sismo ou de um tsunami? Que meios cientificos mirabolante terão sido disponibilizados aos técnicos do IM, para que esta chefe de divisão seja tão categórica nas suas afirmações?

A resposta só pode ser uma: nenhuns.

Não há nada neste mundo capaz de salvaguardar do efeito destruidor de um sismo de grande magnitude pessoas e bens, à excepção de um bom planeamento urbanístico, de uma boa prevenção e de um bom treino, em termos de protecção civil. O resto é colírio para os olhos. Um sismo nunca se prevê. Aliás, um sismo tem sempre o péssimo hábito de se fazer anunciar primeiro com um abalo mais forte e só depois com réplicas de menor intensidade.

A única coisa que poderá ser salvaguardada, neste caso, é a perda de vidas por efeitos de um hipotético tsunami. Até nisto Luísa Senos é negligente, para não dizer criminosa. Dizer que não será assim tão necessário equipamento para se prever maremotos porque, embora haja “uma probabilidade, tal não é normal que aconteça, porque o Atlântico não se compara com o anel de fogo do Pacífico” é da mais completa irresponsabilidade.

Se houve um maremoto em 1755, se Lisboa está situada numa zona de sismicidade activa, num local de confluência de placas, eu diria que basta haver 1% de probabilidade para que esse equipamento seja instalado e já. Ou virá agora Luísa Senos contradizer Hutton e o seu princípio do uniformitarismo?

Dizer-se que não é normal haver um maremoto é daquelas verdade de La Palice que poderão parecer inofensivas na boca do cidadão comum, mas que só podem ser obscenamente irresponsáveis quando ditas pela boca de uma sismóloga - um sismo de grande magnitude é sempre uma ocorrência anormal.

Quando Luísa Senos diz que o controlo da sismicidade é feito regularmente, eu pergunto: e que nos diz ela sobre o caso do recente sismo ocorrido em território português, quando teve de ser Espanha a fornecer todos os dados sobre o mesmo, por o IM não ter contacto telefónico algum com as suas estações no Algarve?

E depois, que nos interessa a nós saber a posteriori onde foi o epicentro e qual a magnitude de um abalo de terra quando o que importa realmente é saber, em tempo real, se o mesmo se deu no mar e, se sim, se haverá lugar à formação de um tsunami?

Recordo que em 1755 entre o primeiro terramoto e a chegada da primeira onda de maré a Lisboa decorreram 40 minutos. Vamos supor que, de hoje para amanhã, se dá um sismo de igual magnitude (8.5 a 9 na escala de Richter), com origem na mesma zona de fractura, a de Gibraltar/Açores.

Que fará o IM assim que o sismo for registado? De acordo com Luísa Senos, o IM – partindo do pressuposto que a linha estará desimpedida… - "comunicará de imediato com o Serviço Nacional de Bombeiros e Protecção Civil (SNBPC) e com o Governo, que decide o que fazer”.

E que acontece a seguir? De acordo com Fernando Curto, o presidente do SNBPC, é então accionado o contacto com o Centro Nacional de Operações de Socorro, que activará então os serviços locais. Estes porão então em funcionamento os meios locais. E então? Quantos minutos se terão esgotado? Cinquenta? Uma hora? Duas?

O tsunami de 1755 foi em tudo idêntico a este que ocorreu agora no Índico. Trinta minutos depois do terramoto, o mar retrocedeu, deixando o leito do Tejo à luz do dia. Dez minutos depois chegou a primeira das grandes ondas que quase varreram Lisboa do mapa. Em Gibraltar o nível do mar subiu dois metros. Em Marrocos, Salé e Rabat foram arrasadas; em Agadir (uma cidade totalmente destruída pelo terramoto de 1960, em cujos escombros estão sepultados cerca de 18 mil mortos, quase a totalidade da sua população), o mar ultrapassou as muralhas da fortaleza e arrebatou centenas de pessoas. O tsunami chegou igualmente, sete horas depois, à costa leste dos Estados Unidos, atingindo países tão distantes quanto a Holanda, a Finlândia, a Inglaterra e a Irlanda. Nas Caraíbas, o mar subiu mais de um metro enquanto que os rios da Noruega e da Suécia saíram dos seus leitos.

À escala geológica, 250 anos são um soluço. Se aconteceu antes, irá acontecer depois – a única dúvida é quando. Hoje? Amanhã? Daqui a dez anos? No próximo milénio? Não sei, a chefe de divisão não sabe, ninguém sabe.

A única coisa que se sabe é que pode acontecer. E, a acontecer, quando acontecer, temos que estar preparados. E isso, preparação, é algo que não vejo nem no IM, nem no SNBPC.

E é pena. Porque podemos aprender muito com quem, cá da casa, sabe da poda. Morei na Região Autónoma dos Açores. Passei por várias crises sísmicas, umas de origem vulcânica, outras de origem tectónica. Mergulhei no banco Dom João de Castro e ajudei a analisar e a monitorizar um vulcão submarino em actividade. Observei no mar, ao largo da Serreta, uma outra erupção submarina. Desci à Caldeira da Graciosa e subi às Furnas do Enxofre. Em São Jorge, vi a torre sineira da Urzelina, o único sinal que prova que, por debaixo da lava emitida aquando da erupção vulcânica de 1808, está uma igreja inteira, juntamente com algumas dezenas de casas engolidas pelo basalto. Comi milho cozido no Vale das Furnas e escalei o cone de bagacina vulcânica dos Capelinhos. Fiz tudo isso e tudo isso é sinal bem presente, para quem lá mora e para quem lá governa, que a Terra não é para brincadeiras.

Lá, as tragédias são mais frequentes. Talvez por isso mesmo, a Protecção Civil e a investigação científica nos Açores fazem-se à séria e não a brincar. Há ou estão a ser elaboradas cartas de ilha, de análise de risco sismo-vulcanológico, com as falhas e as micro-falhas todas assinaladas. Há simulacros, há planos de emergência municipal que funcionam realmente, há gente experiente e capaz, há toda uma envolvência da população nesses planos e uma sensibilização que por cá não acontece. Até ao dia…

Quanto à previsão, como já vimos, não há nada a fazer, pelo menos com a tecnologia disponível à data. Agora, quanto à minimização dos danos, se houver realmente vontade para se fazer algo, a tecnologia existe e está aqui, presente, pronta para ser utilizada. Se o IM quiser, aqui tem uma sugestão minha: faça-se um protocolo com as três redes móveis do país, a TMN, a Vodafone e a Optimus.

Forme-se e mantenha-se, 24 horas sobre 24 horas, uma equipa permanentemente ligada a estações sismológicas, novas e/ou renovadas, que cubram efectiva e eficientemente todo o território nacional e fundos marinhos adjacentes, dotadas dos mais modernos sensores e equipamento informático de simulação e predição.

Ponha-se à frente de cada turno um super-coordenador, alguém capaz de assumir a responsabilidade de, em 5 minutos, decidir qual a acção a tomar perante os dados de que dispõe e as previsões que o equipamento gerou.

Dê-se a esse homem o poder de, com o premir de um botão, fazer chegar aos telemóveis de cada um dos utilizadores associados às antenas das zonas costeiras prestes a ser impactadas, uma SMS curta e sucinta, dizendo o que se passa e qual a acção a tomar (por exemplo, em oitenta e quatro caracteres pode-se escrever: Tsunami esperado em XX mins. Fuja imediatamente para o interior ou refugie-se em zonas elevadas).

Será eficaz? Sendo Portugal um país com tantos telemóveis, mesmo dando de barato que alguns estarão desligados ou não serão verificados pelos seus utentes aquando do recebimento da SMS, de certeza que muitos milhares terão alguns minutos para se precaver, salvaguardando aquilo que de irremediável há em cada país do mundo: a vida dos seus cidadãos.

2004/12/29

sou forte.
sou uma árvore.
sou as minhas mãos-raízes
que te plantam no solo
e te fendem
com a violência
de um beijo.

sou um estame
que te beija,
lentíssimo.
sou o estoma
que te tacteia
sou aquele
que se dessedenta
de ti
em ti
sou a planta
que se fotossintetiza
na cor dos teus olhos
aflitos.
sou a fímbria
que se cose por dentro
do lenho do teu cerne
sou aquele
que germina
polinizando-se
aos espasmos.
sou uma fraqueza,
sou um desvario,
sou o teu rosto
no meu,
para sempre
como uma
árvore
forte
por vezes,
às vezes,
a deslizar
no azul.

2004/12/28

A porca que furou o pico e outras histórias de encantar


Conta-se que, há muitos e muito anos atrás, na freguesia de Água de Pau, ilha de São Miguel, Açores, havia uma família, pobre mas muito querida da povoação, que tinha como único bem de seu uma porca luzidia e anafada. Com as ninhadas de leitões que todos os anos criava, este animal benfazejo conferia aos seus humildes proprietários um nível de vida mais remediado do que os dos seus conterrâneos.

Ora, um belo dia, a porca desapareceu do chiqueiro por debaixo da moradia do casal. E foi um ai-jesus e um Deus me livre como nunca então se vira por aquelas bandas.

A populaça em peso procurou de imediato a porca por vielas e canadas, por entre pastos e cerrados, sempre com a dúvida no espírito: como teria fugido o animal; quem, se alguém fosse, o teria levado, raptado?

Passaram-se as horas, fechou-se um dia e depois outro. Em desespero de causa, as buscas alargaram-se às penedias e às fragas circunvizinhas. Foi então que, para espanto de todos, a porca foi finalmente encontrada, no profundo de uma cratera, sossegada e nutrida.

Sem vislumbrar por que meios o animal teria fugido e ido parar àquele verdadeiro poço em pedra altaneira colocado, o povo ficou confuso. Entre murmúrios e bruáás, as mais diversas teorias foram sendo aventadas e aviltradas. De repente, houve uma voz que se elevou por cima da multidão, oferecendo a explicação perfeita: “a porca furou o pico!”

Sem parar para pensar no absurdo da explicação, não se interrogando sequer como poderia um suíno anafado e luzido escavar uma hipotética galeria em plena rocha, efectivamente atravessando o cone basáltico, o povo imediatamente agarrou na explicação miraculosa, fazendo-a sua.

Foi apenas quando a história extravasou para fora da freguesia e se começaram a ouvir os dichotes e as piadinhas do costume que o povo de Água de Pau se tocou e se fechou em copas, a humilhação a ferver-lhe na alma como se fosse um ferro em brasa.

Ainda hoje, quem passe pela localidade e pergunte a qualquer transeunte, baixando a janela do carro, com o pé prudentemente no acelerador, “eh senhor, foi aqui que a porca furou o pico”, ainda hoje, escrevia eu, esse bravo galhofeiro corre o risco de ser espancado ou apedrejado, se não for rápido o suficiente a fugir rua abaixo.

Aliás, nem é preciso dizer algo: basta espetar o dedo indicador e fazer sinal que se pica algo, para se ser mutilado por uma turba multa em fúria que carrega às costas a vergonha da crendice e ingenuidade original dos seus antanhos.

Recuando ainda mais no tempo, até ao ano de 1755, mas permanecendo ainda nos Açores, mais propriamente na Ilha Terceira, lemos que já Francisco Ferreira Drummond se espantava, nos seus Annaes, com o fenómeno miraculoso que ocorreu na baía de Angra do Heroísmo, o mar a recuar como nunca fora visto, deixando peixes e embarcações em seco - era dia 1 de Novembro, dia de Todos-os-santos. Para Drummond, a intervenção divina foi explicação suficiente e necessária apenas durante dez dias, tantos quantos levou a chegar à ilha a notícia da terrível tragédia que se abatera sobre a cidade de Lisboa. O recuar e o avançar do mar não fora mais do que o espelho e reflexo amortecido do que acontecera na capital do Reino.

Dois fenómenos diferentes estes, o da porca e o do mar, ambos com explicação natural e científica, ambos com explicação miraculosa ou fantasista - duas faces da mesma moeda, cara ou coroa, cabe a cada um de nós saber qual escolher, alicerçados que estamos na nossa cultura científica ou nas nossas crenças e fés.

Certamente que o maremoto que atingiu a Ásia é explicado por cada um dos que o sofreu ou dele ouviu falar de um modo muito seu. Haverá quem, como alguns de entre nós, digam que Deus não existe, ou que, se existe, é mau e vingativo. Há quem, certamente, critique e amaldiçoe Jesus, Vishnu, Alá e Buda. Há quem não acredite em nada e há quem acredite em tudo. Há até quem, ingenuamente, acredite na teoria da tectónica de placas...

No fundo, no fundo, o que se verifica é que a morte é a grande democrata desta Natureza em que vivemos. Assim foi quando, no dia 26, soou a grande trombeta no céu e a terra e o mar estremeceram: a morte levou tudo a eito, nivelando com o seu cajado hindus e católicos, muçulmanos e budistas, protestantes e ateus, pobres e ricos, netos de reis e filhos de prostitutas, turistas obesos e pescadores esquálidos, homens e mulheres, velhos e novos.

Pouco importaram na altura telemóveis 3G e câmaras digitais, de nada serviram os cartões de crédito em platina ou os guarda-costas, tudo foi inútil perante o arrotar da terra e o bolçar do mar.

É a natureza em movimento, dir-me-ão alguns. E respondo eu: pois é. De que se admiram então?

Eu, a mim, já nada me espanta. Não me espanta que a SIC entreviste a Maria Vieira, essa grande sismóloga, para saber como irá a senhora fazer em relação às suas férias de Carnaval.

Não me espanta que a mesma estação de televisão entreviste um tipo qualquer que esteve de férias, cinco anos atrás, em Phuket, e que transmita minutos intermináveis dos seus vídeos de férias.

Não me choca (muito) que o 24 Horas ponha um monte de criancinhas mortas na capa nem que o Correio da Manhã pespegue na primeira página imagens de um maremoto no Japão, de há anos atrás, que nada tem a ver com a tragédia actual.

Não me espanta que, no imaginário dos jornais e das televisões, os pseudo-jornalistas e os editores arrivistas não pensem em mais do que falar dos “paraísos” perdidos, quando de paraíso Phuket tem apenas as águas cristalinas e o sol, escondendo-se por entre os tapumes, os contraplacados e as vias de esgoto a céu aberto a banalidade de um outro sítio qualquer do planeta - se ter putas baratas, bebida e comida ao preço da chuva e haver todas as mordomias possíveis e imaginárias a preço de custo, bem à medida da bolsa portuguesa, é ser paraíso, então a Tailândia é um cantinho celestial à beira-mar plantado.

Não me espanta nada que se fale incessantemente na "bebé portuguesa arrancada pela fúria do mar dos braços da mãe", enquanto que, ao lado, milhares e milhares de outros corpos são devolvidos à costa, anónimos e esquecidos – afinal, há que criar e manter o horror do leitor, do ouvinte e do telespectador à custa da empatia com as vítimas e para isso nada melhor do que uma boa família portuguesa em sofrimento, mesmo a jeito de levar com a sacramental pergunta na cara: atão, como é que se sente?

O que me poderia ainda espantar (um pouco) era saber que em Portugal ainda se poderia seguir o velho ditado do tempo dos Romanos - tunc tua res agitur, paries cum proximus ardet - que nos diz que, quando virmos o nosso vizinho com as barbas a arder, devemos por as nossas de molho.

O que me poderia mesmo espantar era saber que aquando das comemorações (sic) do grande maremoto de 1775, haveria de ficar implementado um plano eficaz, previdente e simples de protecção civil. Porque, quando lemos as descrições do que aconteceu em Lisboa, quando vemos em Rabat o pouco que resta da sua Medina, totalmente destruída no mesmo dia, quando sabemos que a capital portuguesa tem o aspecto que tem hoje em dia porque foi construída de raiz sobre os semivivos e os mortos enterrados no entulho, só podemos dizer: valha-nos Deus, porque os que nos deveriam governar e proteger há muito que desistiram de nos valer.

Entre a seriedade do que aconteceu no Índico e a boçalidade do que por aqui se tem dito, Portugal é assim mesmo: ora oscila entre a zombaria e o dichote – como aconteceu com o estranho caso da “onda gigante” do Algarve, esse fenómeno de alucinação em massa que (apesar das autoridades terem agido prontamente e bem, como deveriam) serviu apenas como barrigada de riso para o restante povoléu do país – ora roça a mais pura incompetência e o mais prosaico deixa-andar-que-logo-choramos-morrendo-a-culpa-solteira.

Tal como o povo de São Miguel, nós, portugueses, temos sempre que fazer a nossa catarse colectiva, seja à custa da porca que furou o pico, seja rindo dos que subiram ao Alto da Cabeça Gorda, no Murtal, à espera do fim do mundo profetizado por uma vidente de trazer por casa e anunciado em grandes parangonas de jornal, seja à boleia do fogo de artificio que falhou na cidade do Porto, seja apontando alarvemente o dedo aos crédulos que ficaram especados nas falésias da praia da Rocha à espera da onda que nunca veio.

O que eu gostaria era, contudo, que a onda viesse mesmo. Não a onda de mar, não o tsunami da desgraça. Essa não.

Do que eu gostava mesmo era que viesse por aí acima uma vaga de fundo que varresse esta tralha toda daqui para fora, que nos lavasse o espírito e a alma e nos deixasse um país um pouco mais limpo e de cara lavada.

Mas isso, meus amigos, é tão fácil de acontecer como a porca furar o pico.

2004/12/27

A baleia dos 52 Hz


Durante a Guerra Fria, um dos segredos mais bem guardados pelos Estados Unidos da América era o da implantação e utilização de uma rede de hidrofones ao longo de todos os mares do mundo, nomeadamente no Atlântico Norte.

Denominado SOund SUrveillance System (SOSUS), este sistema captava as assinaturas sonoras dos submarinos soviéticos, por mais ténues que estas fossem, providenciando à Marinha americana um conhecimento quase que em tempo real das posições de cada uma das plataformas balísticas submersas do inimigo, efectivamente constituindo-se como mais um factor dissuassor no jogo do esconde-esconde nuclear que então estava em vigor.

Caído o Muro de Berlim, enferrujados os submarinos da Rodina, os hidrofones ultra-secretos foram colocados ao serviço de causas bem mais nobres e bem mais prosaicas. Com efeito, o mundo ao qual Costeau colou o epíteto de silêncio é tudo menos silencioso: quem mergulha sabe disso – desde peixes que se alimentam até ao estralejar do plâncton forforescente num mergulho nocturno, passando pelo silvo do nosso próprio respirar no primeiro andar do regulador - o mar tem de tudo menos o silêncio que tanto lhe apregoam os que nunca nele se submergiram.

Muitos são os sons captados - cargueiros lentos e monótonos nas suas travessias oceânicas, levando e trazendo contentores entre continentes, navios de guerra em conserva, de ritmo compassado e letal, sismos de maior ou menor intensidade, libertações em profundidade de gás metano, erupções vulcânicas e, para o caso que nos interessa agora, animais marinhos, entre os quais avultam os grandes cetáceos.

É precisamente na identificação e no controlo das migrações destes mamíferos aquáticos que o SOSUS e os demais sistemas subaquáticos, como os do projecto SIRENA, têm vindo a ser fundamentais para a biologia marinha.

Tal como no caso dos navios – em que os hélices são distintos de embarcação para embarcação, com as suas pequenas imperfeições permitindo por vezes até a identificação individual de um navio pelo som que emite – também as frequências utilizadas pelas baleias são características de cada espécie, variando até de zona para zona. Assim, por exemplo, enquanto que uma baleia azul do Pacífico Nordeste emite sempre sons numa frequência que pode alcançar os 60 Hz, uma baleia da mesma espécie, mas natural do Atlântico Norte emite sons cuja frequência apenas consegue atingir os 50 Hz.

Foi com base neste trabalho de identificação “vocal” que uma equipa de biólogos marinhos isolou, no Pacífico Norte e há doze anos atrás, um único eco, distinto de todos os outros. A operar na frequência dos 52 Hz, este chamado solitário tem vindo a ser seguido desde 1992, naquilo que bem poderá ser a única prova existente de uma espécie até agora desconhecida de baleia, da qual será o único individuo restante.

Sozinha, com o Oceano imenso como única companhia, esta baleia chama, chama e não obtém resposta.

Se soubesse que o faz em vão, calar-se-ia?
que pode o desejo alado
contra o chumbo grosso
da tua ausência lastrado?

2004/12/25

Pensamento natalício

Hoje, passei os olhos pelo Tomb Raider. Como, meu Deus, como é que é possível que alguém ache a Angelina Jolie sexy e gira? A mulher é feia que dói e tem ar de toxicodependente do Intendente.

Outra fêmea hollywoodesca de quem muito se fala, gabando-se-lhe o pretenso good look é a Scarlett Johansson. Peloamordedeus, tenham piedade - que pãozinho sem sal! Se passassem por ela, ao volante de uma caixa registadora de um Mini-Preço, aposto que nem lhe deitariam um primeiro olhar.

Finalmente, e para completar o ramalhete, falemos da Nicole Kidman. Que piada terá este mulher? Que raio de je ne sais quoi lhe encontrarão para que seja alvo de tantos encómios? Sinceramente, não percebo. Afinal, a Holywood das mulheres bonitas já está mais que ultrapassada - terminou, mais precisamente, na década de quarenta do século passado.

2004/12/23

Don't Panic




There is a theory which states that if ever anybody discovers exactly what the Universe is for and why it is here, it will instantly disappear and be replaced by something even more bizarre and inexplicable. There is another theory which states that this has already happened.

Li-o em português, algures na adolescência do século passado. Depois, em 1997, durante uma escala no JFK, comprei a trilogia de cinco reunida num só volume em papel biblia, na língua original.

Entretanto, à semelhança do saco desportivo vermelho perdido algures num aeroporto de Atenas, desencaminhei o Guia. Resolvi-me a ofertar os três primeiros, volume a volume, até que descobri que havia uma caixa com os cinco à venda na FNAC pelo preço de dois. Entretanto, o autor morreu, não sem que eu tenha tido tempo para ler os dois volumes da série Dirk Gently.

Agora, vem aí o filme e, com ele, a dúvida: valerá a pena assistir ao hipotético descalabro de um mito? Quererei eu ver a cara do Arthur Dent e as duas cabeças de Zaphod Beeblebrox?

Que dilema...

Kanimambo


Está triste? Sente-se deprimido? Sofre de insónias?

Quer vencer o concurso anual de ressacas do dia 1º de Janeiro?

Passou um Natal infeliz? Tem saudades duma noitada inesquecível para recordar aos seus netos?

Tem necessidade absoluta de começar o ano na companhia dum parceiro sexual diferente e gozar os malefícios do sexo inseguro?

E música? Gosta de música? E umas boas barrigadas de riso?...

Comece o ano em grande!

Assista a uma cascata caleidoscópica de interpretações cintilantes de canções de sonho e piadas de rebentar a rir, interpretadas por especialistas qualificados e certificados por mais de cem máquinas de lavar.

Vomitar pode ser saudável! Jante, abra o champanhe miserável que lhe impingiram, coma ou cuspa as passas, e dispa-se de formalismos. Chegou finalmente um ano de mudanças e há que entrar com o pé direito.

Nessa noite sobem ao palco do Santiago Alquimista, os Reis do Mambo, os Sultões do Swing, concentrados num só grupo: os inigualáveis IRMÃOS CATITA, a extraordinária Karley Aida, a sensual Miss Suzie e o mítico Phil Mendrix! Traga seus amiguinhos brasilleiros para que mudem de opinião sobre a superioridade da música tupiniquim e venha passar o ano com os indestrutíveis Catita (35 anos a dar alegria a Portugal).

Tristezas não pagam dívidas! Compareça e apareça. Tragam as carteiras (cheias)


CAFÉ TEATRO SANTIAGO ALQUIMISTA, Rua de Santiago,
19, Lisboa

RESERVA DE MESAS: TEL. 218 820 259

BILHETES: 30€ por pessoa, incluindo licor Beirão, champagne, passas para a meia noite e ceia às 03h00 da manhã. Lotação limitada (400 pessoas). Abertura de portas: 21h30, início do espectáculo 22h30.


2004/12/22

Pode ser-se profundamente moderno vivendo nos Açores, assim como pode ser-se profundamente açoriano vivendo noutro sítio qualquer.

Speaker's Corner

Ex.mo Sr. Ministro das Finanças,

Lidas as declarações prestadas pelo seu ilustre colega, o ministro da Presidência Nuno Morais Sarmento, relativas à distribuição, hoje, em vários jornais, sob a forma de encarte, das contas do Orçamento de Estado para 2005, venho por este meio reclamar junto de V.Exa. os seguintes factos:

- sendo leitor quotidiano do jornal Público, verifiquei com surpresa que na edição de hoje não se encontrava apenso o referido encarte;

- ora, tendo o referido encarte custado 100 mil euros - um montante que "não sendo um gasto, é um investimento", justificando O seu Governo este dispêndio do erário público pela importância que o Executivo entende atribuir à divulgação de tão excelso e "importante mas não hermético" documento - sinto que fui defraudado nos meus direitos ao não me ser dado participar na sua leitura;

- com efeito, se todos "os portugueses têm o direito de saber e perceber o que é o OE", então V.Exa deve considerar que os leitores do Público, como este seu criado, devem ser ucranianos ou moldavos; ou então Vossa Eminência Parda, quando considera que é importante que o OE seja "explicado à população em linguagem simples", deu ordem para que o referido encíclica seja encartada apenas com o 24 Horas e com o Correio da Manhã.

- concluo, em qualquer dos casos, que Vossa Alteza Serenissima anda arredada da realidade nacional. Assim sendo, e rematando esta missiva que se pretendia breve mas que já vai longa, aceite Vossa Potentade este meu humilde conselho - não vá em cantigas dos tipos do marketing e da publicidade, que isto de se ler jornais já foi chão que deu uvas. Cem mil euros por um encarte num jornaleco qualquer?

Hoje em dia, se quiser mesmo chegar a cada cidadão, o melhor que tem a realizar é fazer-se distribuir o Orçamento de Estado com o boletim do Euromilhões: afinal, 99% do país vê na lotaria, na taluda e no jogo a única maneira que tem de sair do buraco em que V. Merdosidade e os vossos Antecessores nos meteram.

Atentamente, de V.Exa

Um cidadão e eleitor

Um Inverno para amar e ruminar

Dizias que me amavas. Era mentira, digo-to eu: quando fazíamos amor a tua urgência era tanta que se diria teres um taxímetro acoplado à cama, cega e surda por lá chegares, aonde quer que fosse, a um lugar qualquer ao qual eu não pertencia.

2004/12/21

La procesión del entierro


La procesión del entierro en las calles de la ciudad es ominosamente patética. Detrás del carro que lleva el cadáver, va el autobús, o los autobuses negros, con los dolientes, familiares y amigos. Las dos o tres personas llorosas, a quienes de verdad les duele, son ultrajadas por los cláxones vecinos, por los gritos de los voceadores, por las risas de los transeúntes, por la terrible indiferencia del mundo. La carroza avanza, se detiene, acelera de nuevo, y uno piensa que hasta los muertos tienen que respetar las señales de tránsito. Es un entierro urbano, decente y expedito.

No tiene la solemnidad ni la ternura del entierro en provincia. Una vez vi a un campesino llevando sobre los hombros una caja pequeña y blanca. Era una niña, tal vez su hija. Detrás de él no iba nadie, ni siquiera una de esas vecinas que se echan el rebozo sobre la cara y se ponen serias, como si pensaran en la muerte. El campesino iba solo, a media calle, apretado el sombrero con una de las manos sobre la caja blanca. Al llegar al centro de la población iban cuatro carros detrás de él, cuatro carros de desconocidos que no se habían atrevido a pasarlo.

Es claro que no quiero que me entierren. Pero si algún día ha de ser, prefiero que me encierren en el sótano de la casa, a ir muerto por estas calles de Dios sin que nadie se dé cuenta de mí. Porque si amo profundamente esta maravillosa indiferencia del mundo hacia mi vida, deseo también fervorosamente que mi cadáver sea respetado.


Jaime Sabines

2004/12/17

O medo do escuro

Está escuro. Mas que me importa isso?

Afinal, o que me interessa realmente é saber que me é possível escrever no escuro. Escrever, aqui, neste teclado, escrever-te com dois dedos, amar-te com a vida inteira.

Mesmo que toda tu sejas escuridão, gosto de te escrever. Sei onde estão as teclas, todas as teclas, mesmo quando me faltam as palavras.

Escrevo-te de noite, à noite. Tecnicamente, é como se dormisse: faço-o de olhos fechados.

No escuro.

2004/12/16

Artifex mundi

Quero-te, ouviu-se à meia luz.

Surpreso, ele nada disse. Olhou-a de esguelha, o olhar pousado, como que negligente, sobre o corpo dela, um traço escuro no alvo da cama desfeita, que queres que te diga, não digas nada, ama-me, premente, urgente, como se tudo o que há lá fora se condensasse aqui dentro, no escuro dos teus olhos.

E como queres que te ame, como se entrasses em mim, assim, devagar, olha-me nos olhos que abro de surpresa como se fosse pecado, como se fosse a última vez.

E de quem és, não digo, dizes sim, de quem és, sou tua, és minha, só minha, como agora quando me sinto em ti, e agora, de quem sou, não sei. E quem disse isto não se soube, há ocasiões em que pouco importa quem diz o quê, o que nos importa agora é que os corpos se uniram e a seu tempo se separaram.

O que nos importa agora é que, para além do desejo, para lá da entrega, o tempo é-lhes menos finito e o mundo cabe-lhes todo nas mãos.

2004/12/15

Um adeus português

"Ah, os imortais, os imortais" é a frase que o Rui Unas profere na abertura do filme do mesmo nome e que dá o mote ao respectivo trailer.

Ontem vi-o, pela primeira vez. É, certamente, o melhor filme português que já vi até agora (falta-me ver ainda o último do João Canijo, que não perde pela demora).

Um bom registo sonoro, excelentes interpretações, uma boa fotografia, uma dinâmica trepidante, um guião-enredo bem cosido e entretecido, bons figurantes, tudo concorre para fazer desta obra do António Pedro Vasconcelos um excelente filme - aliás, o melhor elogio que lhe posso fazer é o de Os Imortais não se parecer nada com um filme português. E, isso, diz tudo.

Um Nicolau Breyner que se consegue projectar para fora do seu registo popularucho de Senhor Contente das telenovelas, na sua melhor interpretação de sempre, um Joaquim de Almeida à sua altura e um Rui Unas inexcedível fazem de Os Imortais um filme a não perder, malgré uma Emanuelle Seigner delambida, uma Maria Rueff agressivamente lésbica e um overacting Rogério Samora em roda livre.

E depois, como bónus, há ainda na edição em DVD essa pérola do mesmo realizador que é o Um Adeus Português, realizado em 1974, imortalizando em película as vozes dos mortos que por lá ficaram, nas malhas que o Império teceu.

Porque, como diria o apóstolo, o que é a nossa vida senão um traço de vapor que aparece, para tão logo desaparecer no momento seguinte?

2004/12/14

Para que conste...

... odeio os The Gift. Mas que banda tão parola e irritante! A tipa nem deve saber fazer o bigode e, depois, é só CD's dos gajos por todo o lado. Como diria o Shakespeare, so much ado about nothing.

Em compensação...



... ando que nem um louco à procura dos igualmente portugueses Boite Zuleika e não há modo de dar com um CD que seja destes tipos. Não haverá por aí uma alma caridosa que me dê uma pista?

Al Marvan

E claro, há sempre as saudades de Marvão. Marvão no Inverno. Há sempre as saudades de um quarto aquecido, a humidade condensada nos vidros e as lonjuras de Espanha escondidas pela névoa da manhã.

O Natal é quando o homem e a mulher querem

Todos nós, em qualquer altura das nossas vidas, entrámos de certeza em conflito com uma ou mais pessoas. Com efeito, o conflito é tão parte integrante da vida em comum, que nos é difícil imaginar alguém que nunca tenha estado envolvido - no trabalho, na escola, na família ou no seu círculo de amigos - num qualquer tipo de conflito.

Ora, ser-se parte de um conflito não é pêra doce: destroem-se relações, magoam-se os egos e morre-se um pouquinho mais de cada vez.

Aproveitando a boleia da época natalícia, que se quer de paz e concórdia, tentemos então reflectir um pouco sobre a origem e definição de um conflito, perguntando a nós próprios: seremos capazes de mudar a nossa atitude perante os vários conflitos em que somos intervenientes, de modo a que o seu resultado seja o mais positivo possível, para todas as partes envolvidas?

Ora aqui está uma pergunta paradoxal, capaz de fazer levantar as sobrancelhas ao menos céptico: um conflito, uma oportunidade positiva?

Resolvamos o paradoxo: um conflito é, assim o queiramos nós, uma oportunidade positiva. Afinal, considerarmos que os conflitos são uma oportunidade educativa, uma ocasião de aprender a construir outro tipo de relações, assim como uma forma de nos prepararmos para a vida, aprendendo a fazer valer e a respeitar os nossos direitos de uma maneira não violenta, é o primeiro passo a dar no sentido de se descobrir a perspectiva positiva existente em qualquer conflito.

Fazendo-o, aprendemos a analisar os conflitos e a descobrir a sua complexidade, dotando-nos de ferramentas que nos permitem enfrentar e resolver os conflitos em que nos vemos envolvidos regularmente.

Analisados esses conflitos, encontraremos certamente soluções, capazes de nos permitir enfrentar os conflitos sem violência, sem que tenhamos de nos anular ou de destruir uma das partes, soluções essas que terão a força necessária para nos fazer chegar a situações em que todos ganhem e possam satisfazer de igual modo as suas necessidades.


O conflito visto pela sua perspectiva positiva

A maior parte de nós encara todo e qualquer conflito, discussão, divergência, animosidade e confronto, como uma ocasião negativa, um processo desagradável que devemos evitar, sempre que possível, para que não nos magoemos ou magoemos quem nos rodeie.

Esta visão negativa do conflito tem origem, muito provavelmente, num ou mais dos seguintes motivos:

1) relacionamos os conflitos com as formas habituais como os vemos ser resolvidos: a violência, a anulação ou destruição de uma das partes em confronto, a ausência de uma solução justa e mutuamente satisfatória;

2) todos sabemos que gerir um conflito implica gastar energias e tempo num processo psicologicamente desagradável e desgastante;

3) sentimos que não fomos educados para gerir os conflitos de uma forma positiva, faltando-nos os métodos e recursos para o fazer;

4) temos uma grande resistência à mudança; mesmo que as coisas não estejam bem, e seja evidente que será necessário mudar qualquer coisa, preferimos antes mantê-las assim que assumir o risco de nos envolvermos num processo de transformação.


No entanto, o conflito está inerente a qualquer relação humana, já que interagimos com pessoas que, por vezes, têm necessidades diferentes e mesmo contraditórias das nossas.

Por outro lado, o conflito é algo vivo: por mais que o evitemos, ele continua a sua dinâmica, seguindo o seu curso apesar da nossa fuga, crescendo sempre mais e mais, transformando-se finalmente em algo incontrolável e definitivamente destruidor.

Chegamos assim a este corolário: todo e qualquer conflito, seja ele a que escala for, se não for controlado na sua fase inicial, degenera em três atitudes e comportamentos negativos: violência (física e/ou psicológica), submissão ao oponente ou fuga ao confronto.

Como já vimos, o conflito é inevitável. Há, assim, que aprender a reconhecer nele a sua faceta positiva. Com efeito, qualquer conflito é uma oportunidade para:

1) considerar a diversidade e a diferença de opiniões, hábitos e costumes da diferentes partes em confronto como um valor positivo e não negativo, um valor capaz de contribuir para um enriquecimento e crescimento mútuos.

2) ao se entrar em conflito com as estruturas ou as pessoas injustas que encontramos no dia a dia – a relação amorosa, a família, a escola, a sociedade, etc. – há sempre oportunidade para que se possa avançar no sentido de funcionarmos de acordo com modelos relacionais mais justos e optimizados, funcionando um conflito como uma das principais alavancas de transformação social.

3) se aprender a evoluirmos como pessoas e cidadãos. Se o conflito é algo inevitável, aprender a lidar com ele é um processo fundamental, utilizando essa oportunidade para nos conhecermos a nós próprios e aos que nos rodeiam.


O que é um conflito?

A primeira ideia que convém reter é a que nem todas as discussões ou divergências de opinião implicam conflitos. Com efeitos, existem variadas ocasiões na nossa vida em que, apesar de existirem posições divergentes entre as partes envolvidas, não existem interesses ou necessidades antagónicas ou opostas. Para solucionar estas situações, temos apenas que estabelecer níveis de relação e canais de comunicação efectivos que nos permitam chegar a consensos e compromissos.


Em que situações existem então os conflitos?

Existe um conflito sempre que, numa situação de disputa ou divergência, haja sobreposição dos interesses, necessidades e/ou valores em causa. É aqui que reside o PROBLEMA: a satisfação das necessidades de uma das partes impede a satisfação das necessidades da outra.

Usando esta definição, podemos desde já identificar duas situações que se confundem com os conflitos reais. A primeira situação é a do pseudo-conflito.

Num pseudo-conflito, não há PROBLEMA – embora as partes que discutam, por vezes violentamente, possam crer na sua existência. Nestes pseudo-conflitos existem apenas mal-entendidos, desconfiança e falta de comunicação. A forma de enfrentar estas situações é justamente a de melhorar a confiança e a comunicação para que as partes possam descobrir que o problema não existe e ambas possam satisfazer as suas necessidades ou interesses.

A segunda dessas situações é a do conflito latente. Normalmente, neste tipo de situações não existe discussão ou mal-estar visíveis já que ou uma, ou todas as partes, não se apercebem ou não são capazes de enfrentar a sobreposição de interesses/necessidades ou valores, ela exista.

Esta é a situação mais comum na nossa vida, em que os conflitos existem mas não se abordam, não se enfrentam, nem sequer se reconhecem como tal porque ainda não foram espoletados nem existe violência ou linguagem agressiva. Este não-reconhecimento faz com que estes conflitos latentes prossigam no seu crescimento até que um dia explodem, levando a que os tenhamos de enfrentar na sua pior fase: a fase em que são incomensuravelmente grandes, complexos, na fase em que já destruíram pessoas e relações.


Quais os sinais de um conflito?

Muitas vezes, os sinais de um conflito são muito claros – uma discussão com levantar de vozes, troca de piropos entre elementos da mesma equipa de trabalho, etc.

Outras vezes, esses sinais são menos explícitos: olhares frios, cumprimentos não retribuídos, queixas feitas nas costas dos visados, apatia, desmotivação, ausências frequentes e injustificadas às reuniões, falta de cooperação, tensão no ar, um vocabulário de nós e eles, etc. Outro facto a não esquecer é a de que quanto mais individual for o conflito – mais olhos nos olhos – mais emocionalmente ele será expresso.


Quais as fases de um conflito?

Um conflito, como já vimos, é um processo em crescimento. Como todo o ser que cresce, também ele passa por várias fases:

1) a primeira fase tem origem nas necessidades (económicas, ideológicas, biológicas, sociais, etc.); se todas as necessidades estiverem satisfeitas, se a satisfação de alguma delas não chocar com a de outra pessoa, então não há problema.

2) quando as necessidades de uma parte entram em choque com as de outra, quando ambas são antagónica, então surge o problema. Esta é a segunda fase de um conflito. Se este não for enfrentado e desarmado nesta fase, dar-se-á início à criação de uma dinâmica de conflito. Esta dinâmica alimenta-se de mal-entendidos, de rumores, da desconfiança, faltas de comunicação, etc., num crescendo que culminará quase sempre numa crise.

3) A crise, é assim, a terceira fase de um conflito. Este é sempre o pior momento para se tentar resolver os conflitos de uma maneira criativa e não violenta e o pior momento para se aprender a fazê-lo já que falta o tempo, a paciência, a calma, a tranquilidade, o distanciamento de todas as partes envolvidas; uma crise é, por outro lado, a ocasião em que todo o conflito se torna premente de resolver e em que nos é exigida uma resposta imediata.


Concluindo: tal como todo o conflito é um processo de crescimento, também toda a solução para o mesmo é um processo gradual que deve ser aplicado o quanto antes, especialmente antes que se chegue à fase da crise.


Atitudes a tomar perante um conflito

Existem cinco categorias de atitudes que se tomam, geralmente, perante um conflito:

1) Competição (eu ganho, tu perdes)

É a situação em que, para mim, obter o que eu quero, fazer valer os meus objectivos, as minhas metas, é o mais importante, não importando que para isso tenha que passar por cima seja de quem for. Neste caso, a relação entre as duas partes não interessa muito. Interessa sim, que eu ganhe e que os demais percam. Em determinadas ocasiões, esta competição é tão personalizada que não só queremos que a outra pessoa perca, como também que seja destruída (morta, ferida, despedida, excluída, expulsa, presa, etc.);


2) Submissão (eu perco, tu ganhas)

Eu não quero confrontar-me com a outra parte, nem vou fazer valer os meus objectivos, interesses e/ou valores. Por contraditório que pareça, esta é talvez a atitude mais frequente perante um conflito. Por vezes, mascaramos a boa educação e o respeito com a acomodação e não fazemos valer os nossos direitos porque tal poderia provocar mal-estar e tensão. Geralmente, vamos sofrendo em silêncio e acumulando, acumulando até que não aguentamos e explodimos, destruindo-nos a nós próprios ou destruindo a outra parte.


3) Fuga (eu perco, tu perdes)

Nesta situação, nem os objectivos em jogo das duas partes nema relação entre as duas sai beneficiada. Pelo contrário, ao não seenfrentar os conflitos, ao escondermos a cabeça na areia, podemos pensar que as divergências se resolvem por si próprias. Tal atitude é errada já que, como vimos, os conflitos têm uma dinâmica própria que não pára por si só.


4) Cooperação (eu ganho, tu ganhas)

Com esta atitude, conseguir atingir os seu próprios objectivos é importante, mas manter a relação entres as partes também o é. Cooperar não significa, no entanto, acomodar-se, nem renunciar àquilo que nos é fundamental. Importa, isso sim, negociar de modo a que se possa ceder no supérfluo e ser-se firme no que é crucial.


5) Negociação

É uma atitude em que se tenta fazer com que as partes ganhem no fundamental, mas em qualquer um dos lados não ganha a 100%. É contudo fundamental garantir que uma das partes não se afaste da negociação, a pensar que foi preterida ou que perdeu em algo de crucial.


Olhando para estas cinco atitudes, verificamos algo evidente: quanto mais importantes forem os objectivos e as relações em jogo, tanto mais importante será aprender a cooperar.

Nestas situações, os modelos de Perco/Ganhas e Ganho/Perdes são atitudes que NÃO servirão e que nos levarão, a curto ou a médio prazo a uma situação que em todos perderemos (um exemplo flagrante é a toma de decisões por maioria: se uma das facções for derrotada pela maioria, não sairá da votação contente; se esta situação ocorrer frequentemente, esse grupo será levado a fazer uma de duas coisas: a colocar obstáculos de modo a que não se leve a cabo o que foi decidido ou então a inibir as responsabilidades e as tarefas do grupo).

O que há que fazer, então? Comunicar. Falar uns com os outros. Não ser cobarde nem acomodado. O resto é conversa. Bom Natal.

2004/12/13

Aparentemente...

... a terra tremeu em Lisboa. Se tivesse dado por isso, talvez tivesse tido tempo para ter tido saudades dos Açores.

Talvez.

Afinal, o pior de um sismo não é quando ele se faz sentir - o pior é quando nós esperamos e desesperamos, na antecipação de que venha outro, mais forte, mais intenso, mais destructivo. É sentir a ansiedade que nos mata, aos poucos, devagarinho. É o desespero de nos sabermos mortais, impotentes, perante uma terra que nos treme debaixo dos pés.

Já reparou...

... em como Portugal está mais limpo e arejado?

A árvore de ferro

Compre, gaste, dispenda, torre, coma, beba, vista, ofereça, dê, compre - aproxima-se o Natal e os verbos com que somos cada vez mais bombardeados são estes.

Telemóveis em que mais do que o efeito de comunicar interessa meramente o design e o visual, écrans de plasma para usar com o último sistema de som Dolbi e o DVD da derradeira geração, máquina fotográficas digitais que se tornam obsoletas assim que são compradas - tudo, mas tudo mesmo, é pretexto para que clientes e consumidores se separem o mais abreviadamente possível do subsídio de Natal.

Nada de novo, dir-se-ia. E com razão: nada disto é novo. Nova, apenas, é a maior árvore de Natal da Europa. Tal como o Natal das vendas, esta árvore que não é árvore, mas apenas um andaime de ferro, montado às custas de um banco com o beneplácito de uma Câmara e a cobertura de um canal televisivo, é a imagem perfeita de uma sociedade desorientada, que vive às custas do show-off, do dog and poney show, da - para ser mais expressivamente português - palhaçada, da burla e da intrujice de que vivem as instituições financeiras, as grandes superfícies comerciais e as agências de publicidade que as promovem e as fazem medrar, à custa da iliteracia e da ingenuidade do povo pagante.

The secret lies with Charlotte



Qual Código Da Vinci, qual carapuça. O que vale mesmo a pena ver é o filme que a Disney nos pôs no sapatinho, National Treasure de seu nome. Apesar de ter um Nicolas Cage um pouco deslocado para este tipo de acção-aventura, alguns pormenores inverosímeis e um enredo prêt-a-porter para americanos, este filme é um daqueles do qual não se dá por mal empregue o dinheiro gasto no bilhete - ainda para mais, só 3.5 euros, que isto de se ir para a província não são só desvantagens.

(ainda não me redimi por ainda não ter visto o 2046, mas um dia lá iremos).

2004/12/10

há mil navios em perigo
encalhados nos teus olhos

2004/12/09

A janela

A minha mulher continuava a gritar e eu continuava a não lhe prestar atenção. Estivera assim a noite inteira, aos gritos lancinantes, as mãos brancas de raiva, a boca contorcida de ódio, a saliva a salpicar-lhe de branco o cabelo negro e lustroso.

Fiz como sempre faço: pus-me à janela e fui contando os carros que passavam lá em baixo. Havia noites em que quase batia o meu recorde pessoal. Outras havia em que nem dez por cento do valor médio era atingido. Seria talvez fim-de-semana ou férias, não o poderia dizer. Faz já muitos meses que deixei de olhar para o calendário.

Quando ela grita assim, como hoje, com fúria redobrada, as coisas tornam-se mais complicadas. Para me concentrar ainda mais, reparo igualmente nas marcas dos carros que passam, vertiginosos. Ontem foi um dia bom. Vi, pela primeira vez, um Jaguar e reparei num modelo novo da Renault.

São assim as minhas noites. Passo-as à janela, a sentir o frio do vidro duplo na testa, os olhos encadeados pelas luzes vermelhas e brancas que serpenteiam lá fora, com os gritos da minha mulher como pano de fundo, a embalar-me a tristeza e a monotonia.

Mas hoje, as coisas são diferentes. Oh sim, muito diferentes.

Hoje, não sei o que foi que me fez olhar para trás. O que me fez virar-me. Poderia dizer que foi um sexto sentido. Ou uma alteração na disposição das coisas.

Não. O que me fez virar foi o silêncio.

A minha mulher deixara de gritar. Estava ali, mesmo junto a mim. A olhar-me, demente. E na mão esbranquiçada de raiva trazia a faca com que vinha conversar comigo.

Olá, amor.

2004/12/07

Nó cego

ata-me
desata-me
enovela-me
desfia-me
destrinça-me
entretece-me
deslinda-me
enreda-me
enteia-me
fia-me

fio a fio
nó a nó
como nós
nós cegos


2004/12/04

Piratas, mouros e cativos

O Luís Rainha inseriu, aqui há uns dias atrás e no BdE, um pequeno comentário espantado sobre o número de europeus que foram cativados e escravizados pelos Mouros, Turcos, Magrebinos e demais Islamitas do Renascimento.

Sem deixar de poder simpatizar com os cristãos aprisionados ou martirizados - como o escritor Miguel Cervantes, violado anos a fio no seu cativeiro tunisino pelo seu amo e senhor, Hassan Bajah, "o Sodomita", como também era conhecido inter pares; com os tripulantes da nau portuguesa Nossa Senhora da Conceição, abrasada pelos mouros ao largo da Ericeira; e com a população das ilhas de Porto Santo, Corvo e Canárias, onde as razias muçulmanas levaram a que mais de 90% dos seus habitantes ficasse cativa - há que referir também os milhares e milhares de mouros aprisionados pelos cristãos para servir como escravos da Ordem de Malta ou como remadores nas galés venezianas, espanholas e francesas.

Forjada por séculos de uma proximidade temida, a própria língua portuguesa inclui expressões que ainda hoje utilizamos. Era o medo, nos tempos das piratarias magrebinas, de que houvessem espiões ou denunciantes dos piratas que os informassem sobre a partida e a natureza da carga dos navios, que fazia com que os mercadores observassem cautelosamente: "há mouro na costa".

Haver mouros na costa passou assim, a ser a afirmação que se faz quando estão presentes pessoas que não devem de conhecer determinados assuntos, ou nas quais não se pode confiar, ou ainda pessoas que nos andam a rondar, animadas das piores intenções. Ainda hoje, nas terras mais castigadas, como a Madeira e os Açores, se diz a quem se quer mal ou nos apoquenta, vai-te p'ra Argel enquanto as mães invectivam os filhos mal comportados e irrequietos de cossairo ou corsário.

Mas essas expressões não são as única que sobrevivem desses tempos de terror: trabalhar como um mouro - ou o verbo mourejar - vem dos tempos em os escravos ainda só eram muçulmanos (depois, com a descoberta das vias marítimas esclavagistas, passou-se a poder dizer: "trabalhar que nem um preto"….)


A pirataria berberesca

A história das relações conturbadas entre piratas e cativos é longa e antiga. Com efeito, data de 1260 - ano em que a vila de Salé foi saqueada pelos espanhóis, que levaram também todas as mulheres para a Península Ibérica – a altura em que quase todo o mar Mediterrâneo se tornou palco de acções de pirataria e corso, tanto de muçulmanos como de cristãos, numa dinâmica que atingiu o seu zénite nos finais do século XVI. Com efeito, foi a partir dessa data que ocorreram três factores cruciais para esta nossa história.

Em primeiro lugar, o Estreito de Gibraltar pôs em comunicação uma tradição marítima, de cariz mediterrânico e milenar, com a história recente, animada pelas economias oceânicas e pelo afluxo dos metais preciosos oriundos das Américas.

O encontro das rotas clássicas com as modernas vias transatlânticas do comércio, em razão da nova riqueza em circulação e da disputa dos mercados ultramarinos, veio assim alterar dramaticamente o perfil e alcance das diferentes formas de violência marítima. A área nevrálgica onde se cruzavam essas rotas, que ligavam o mundo mediterrânico à Europa atlântica – e por onde circulavam as mercadorias em direcção ou provenientes das possessões e mercados coloniais – era a definida pelo espaço compreendido ente o Estreito de Gibraltar, Cadiz, o Cabo de São Vicente, Lisboa e arquipélagos das Canárias, Madeira e Açores.

O segundo factor foi a expulsão por Filipe II dos mouriscos de Espanha, iniciada em 1609, e que levou à fixação de muitos dos refugiados – mais de 40.000 - em Tetouan, nas proximidades das praças fortificadas de Melila e Tanger. Ora, esta população europeizada e exímia nas técnicas marítimas dos Europeus (a artilharia marítima, o domínio dos navios de pano redondo) levou consigo, para Marrocos, todo o seu know-how e todo o seu ódio a quem a expulsara. Pobre, espoliada, normal era, como foi, que aplicasse o que sabia fazer – andar no mar – a atacar cristãos.

O abade Pierre Dan, na sua obra de 1649, intitulada Histoire de Barbarie et de ses Corsaires des royaumes, et des villes d'Alger, de Tunis, de Salé, & de Tripoly. Divisée en six livres. Ou il est traité de leur gouvernment; de leur Moeur, de leur Cruautez, de leurs Brigandages, de leurs Sortileges, & de plusieurs autres particularitez remarquables, é de opinião, que os mouriscos de Espanha, em vez de terem sido expulsos, deveriam ou ter sido todos mortos ou todos convertidos, já que todos tinham dado em corsários: ils ont causé depuis une infinité de maux à la Chrestienté, pour avoir apris aux infidéles, l'usage et la fabrique des armes, ensemble plusieurs mestiers, et pareillement la situation et la langue du païs, oú ils avoient trafiqué.

O terceiro e último factor foi o aparecimento do Império Turco Otomano no panorama europeu. O corso foi para os otomanos do século XVII uma resposta ao descalabro monetário da sua economia, face ao afluxo dos metais precioso da América.

Relata o redentor Frei António da Cruz, que os turcos sendo tão enemigos da cruz por ser de Christo são muito amigos dos reais cunhados com a mesma por esta ser de prata fina e de lei. É desse modo que as surtidas em terra ou as tomadias no mar se desenrolaram também no quadro da oposição do Império Otomano às economias marítimas dos países ibéricos, rivais no Mediterrâneo e no Índico – no caso do Magrebe, apesar de os marroquinos não estarem na dependência do Império Otomano, estes operavam sob a sua protecção, funcionando igualmente como intermediários nas transacções dos cativos.


A pirataria como factor religioso e económico

A pirataria, de um fenómeno tradicional, passou então a actividade industrial, como único recurso de toda uma comunidade. Como diria um autor anónimo, em 1757, não era possível ao valor de todos os Catholicos o poder conseguir, que os Mouros não infestem os mares, não perturbem o comércio, e não se atrevão a nos hostilizar, já que, se do lado espanhol estava o valor, e a razão, do outro estava o ódio e a superioridade das forças.

Um bom exemplo da "razão" e do "valor" cristão era o dado pela Ordem de Malta. Com sede, primeiro na ilha de Rodes, que perdeu para os Turcos em 1523, e depois em Malta, a Ordem constituía um estado independente, com exército e marinha próprios, para quem a guerra de corso representava um meio de fazer aos seus Cavaleiros cumprir os estatutos da ordem, em combatendo pela sua glória.

Para a Ordem de Malta, o mar era o único meio onde podia defrontar os infiéis, atacando não só as galeras de guerra barbarescas, como também os navios mercantes de Alger, Tripoli e Tunis, que forneciam o trigo, o gado, os legumes, os tapetes e os escravos para as galeras.

As galeras de Malta estavam num estado de guerra permanente com o Islão, vendo os pertences dos infiéis como passíveis de serem tomados legalmente, - mesmo que seguissem a bordo de navios pertences a nações cristãs (nas capturas, 20% do saque ia para os Cavaleiros, 15% seguiam para os soldados profissionais e para os marinheiros e o resto destinava-se ao cofre da Ordem).

Por vezes, nem era preciso aos cristão ir para a guerra para arranjar alguns escravos: alguns mercadores venezianos usavam como estratagema o organizar de mercados a bordo de navios ancorados ao largo de alguns portos da África do Norte; depois de terem o navio cheio de pessoas, largavam amarras e lá iam eles, para os mercados de escravos de Veneza…

Se a luta contra o Infiel era dever primordial de todo o cristão – haviam perdões régios a homicidas, como os que foram passados aos participantes na armada portuguesa que fora contra os Turcos que se tinham apossado de Otranto, na Itália, em 1481, armada essa comandada pelo Bispo de Évora, Dom Garcia de Meneses – tal nem sempre acontecia.

Por vezes, razões de ordem diplomática sobrepunham-se aos interesses religiosos. Com efeito, apesar do princípio jurídico pacta cum infidebilus estar em vigor na republica christiana de Carlos V, tal não impedia o estabelecimento de tratados, convenções e mesmo acordos de paz. O mesmo o imperador espanhol, por vezes alicerçado em razões de segurança de Estado e de comércio, intensificava as suas relações com os príncipes mouros de religião muçulmana.


Portugal e os piratas mouros

Quanto a Portugal, quase que se pode afirmar que a expansão para Marrocos foi, fundamentalmente, motivada pela pirataria e pelo corso. Com efeito, datam de 1415 os primeiros contactos dos portugueses com a cidade de Ceuta, através de acções de resgate de cativos. A sua posterior conquista foi também devida ao perigo constante que os ataques de mouros faziam às terras do sul da Península Ibérica, havendo mesmo pilhagens frequentes nas costas do Algarve.

E a História é confirmada pelos factos. Afim de proteger os moradores do Algarve das incursões berberescas, desenvolveu-se um cordão de atalaias e fortificações, edificadas no fim do período medieval e mais tarde reforçadas, por D. João III e D. Sebastião, com uma linha de fortalezas, atalaias e baluartes que iam desde o cabo de São Vicente até à foz do Guadiana - como o corso levava a grandes quebras nas pescarias e conduzia a uma diminuição da actividade comercial do Algarve, os monarcas asseguravam-se que os mareantes portugueses tinham a função de guarda à costa, especialmente os que formavam as almadravas, as armações do atum.

Mas os ataques sucediam-se. Em 1517, o próprio Rei D. Manuel pensou em fixar-se no Algarve para melhor enfrentar a ameaça berberesca. Em 1550, os "turcos" destruíram completamente a fortaleza de Alcantarilha. Oito anos depois, 35 a 40 piratas desembarcaram na praia da Galé e cativaram 5 pessoas. Em 1549, uma "armada de Turcos" desembarcou mil corsários perto de Porches-o-Velho.

Nas cortes de 1562 pediu-se a construção de fortalezas na costa algarvia e a proibição de lá morarem mouriscos, para não darem avisos, como se presumia. Em 1573, o próprio Rei D. Sebastião embarcou para dar luta a 13 galés turcas que vogavam ao largo de Sagres, antes de embarcar para a sua perda e o consequente aumento exponencial do número de cativos portugueses no Norte de África em finais do século XVI, a partir do desastre de Alcácer Kibir.

Nem a assinatura de tréguas entre a Espanha e a Sublime Porta afectou a continuidade do corso berberesco, que não só se manteve activo como ganhou autonomia, tornando-se os seus objectivos económicos prioritários. Assim, na década de 80, um ataque de mouros a Vila Nova de Milfontes provocou a debandada da população, o que despovoara a zona.

Os ataques faziam-se igualmente às ilhas cristãs. Em 1585 Murat Arrais nas levou 400 cativos de Lanzarote. Em 1586 e 1593, outras duas incursões muçulmanas nas Canárias fizeram mais 400 cativos.


A expansão da pirataria para o Atlântico

Como ficou já dito acima, foi a partir da expulsão dos mouriscos que o corso muçulmano se espalhou para fora da zona do Magrebe. Em 1616, Sir Francis Cottington, embaixador de Inglaterra em Espanha, escrevia ao Conde de Buckingham notificando-o de que, entre 1609 e 1616, a frota turco-argelina tinha capturado 466 navios ingleses e vendido as suas tripulações como escravos.

Portugal e Espanha eram os mais castigados. Em 1615, alguns corsários argelinos invadiram o Porto Santo, mas foram expulsos de lá pela expedição de Manuel Dias de Andrade. Em Julho de 1616, 500 mouros saíram num navio e dois patachos de Argel para o Atlântico para apresar as naus que regressavam da Índia - como não o conseguiram, assaltaram a ilha de Santa Maria. Em 1617, fizeram o mesmo ao Porto Santo.

Tabac Arrais e Suleiman atacaram Lanzarote em 1618, com 37 navios, 4000 soldados e marinheiros. Saíram de Argel a 6 de Abril e avistaram as Canárias a 30 do mesmo mês. Desembarcaram 3 mil homens perto do porto de Arrecife a 1 de Maio. A capital, Teguise, foi saqueada e incendiada, as imagens religiosas foram quebradas. Os habitantes fugiram para os montes, alguns para Fuerteventura de barco e cerca de mil refugiaram-se dentro da gruta de Los Verdes. A gruta, a que se acedia apenas de gatas, era abastecida por uma outra entrada secreta, entrada essa que foi dada a revelar aos "turcos" pelo escrivão Francisco Amado, sendo feitos 900 cativos.

E o corso prosseguia, para territórios nunca dantes imaginados pelos Europeus. Entre 1616 e 1617, os argelinos chegaram até à Galiza e Astúrias. Em 1627, três navios de Alger, comandados pelo alemão renegado Cure Morat navegaram até à Dinamarca e cativaram 400 pessoas na Islândia. Um pouco antes da meia-noite do dia 19 de Junho de 1631, dois navios de Alger, comandados pelo renegado holandês Morat, ancoraram na baía de Baltimore, a sudoeste de Cork, na Irlanda. Às 2 da manhã, barcos provindos dos dois navios desembarcaram tropas a uma milha a sul da povoação principal e cativaram 109 pessoas. Roubaram ainda alguns bens e incendiaram as casas dos pescadores. O raid causou tal escândalo na corte inglesa, que Carlos I pediu explicações à sua guarda-costeira e exigiu forte acção diplomática (o que é compreensível já que cabia ao Rei da Inglaterra que cabia o resgate dos protestantes ingleses, escoceses, holandeses, escandinavos e alemães).

E tudo isso aumentava ainda mais a sangria de cabedais europeus… Por exemplo, aquando do saque de 1618 a Lanzarote, resultou maior prejuízo pela venda de terras e bens para resgate dos cativos do que propriamente pelo saque em si. Só em1617, haviam mais de 7000 cativos em Argel. Para além da falta que essas pessoas faziam nos seus países de origem, havia ainda o problema do seu resgate conduzir a Argel, a Salé e a Tunis moeda forte. Se o resgate de cada menino custava 60.000 reais, imagine-se o esforço económico que a Coroa e as famílias faziam para os descativar.


O resgate dos cativos

Se resgatar pai ou mãe era obrigação cujo incumprimento poderia originar deserdação, como previam as Ordenações Filipinas e se resgatar um familiar era ainda um dever moral, muitas vezes não havia dinheiro disponível para tal desiderato.

Por exemplo, em Julho de 1618, o rei mostrava-se preocupado com as dividas à Redenção e apelava à população para que contribuísse para a ajuda aos cativos com esmolas em dinheiro, destinando. por outro lado, metade das coimas pecuniárias à redenção. No final do ano, para se diminuir as despesas, deram-se ordens se resgatassem apenas os menores de 14 anos e pessoas em perigo de vida, bem como os muitos pilotos e marinheiros cativos em Tetouan e Ceuta, dos quais poderiam muito bem os turcos se aproveitar em novos saques. Em resultado desse esforço, chegaram a Lisboa, a 8 de Junho de 1620, 350 cativos, dos quais 140 eram mulheres, 85 crianças, e os restantes homens do mar - custaram todos 26.8887.580 reis, soma essa que contribui para que, em 1621, houvesse uma dívida da fazenda Real ao cofre da Redenção de cerca 87.155.883 reis.

E porquê as crianças em primeiro lugar? Porque, como dizia Valério Barbosa em 1757, os catholicos são os que mais sofrem com os Piratas, vendo-se accometidos dos torpes sectarios de Mafoma, os quais não somente os pretendem roubar, tirando-lhes as riqueza, cativar, coorctando-lhes a liberdade, mas tambem (oh astucia diabolica, e engano Luciferino!) Mas tambem intentão, que largando a nossa Santissima, e verdadeira Ley, sigão os seus absurdos, preversos e abominaveis ritos.

Com efeito, apesar de todos os banhos de Argel estarem dotados de capelas cristãs (em 1731, sete padres católicos asseguravam os serviços das 3 capelas, com procissões eram autorizadas desde que a cruz não fosse transportada) e de não se pressionar os escravos a se converter - já que não haveria interesse dos redentores pelos renegados, o que dava menos dinheiro – muitos dos cativos mudavam de religião.


Os renegados

As razões invocadas para a renegação baseavam-se muitas das vezes na administração de maus tratos (embora existisse uma prerrogativa da lei islâmica que proibia expressamente tais maus tratos), na acomodação de uma situação aparentemente imutável, na procura de uma vida melhor e de uma maior liberdade de movimentos e na fuga a castigos por ocasiões do cometimento de crimes. Raramente era feita por consciência religiosa já que quer os conhecimentos do Islão quer os próprios conhecimentos da religião cristã eram muitas vezes parcos e impediam a comparação.

Quando não havia esperança de se obter resgate, os cativos eram forçados a renegar, para que Alá pudesse fazer cair sobre os seus donos as bênçãos devidas pela conversão.

Os renegados eram um subproduto resultante do difícil relacionamento entre a Cristandade e o Islão, já que, após o momento em que caíam cativos, duas opções se colocavam aos cristãos: manterem-se fieis ao Cristianismo e esperar uma ocasião propícia para regressar – através de resgate ou fuga - ou renegar, passando a integrar-se no seio do próprio inimigo (renegados ou elches) traindo a fé e o reino. Na Península Ibérica, por exemplo, a temática dos cristão novos, dos judeus, dos mouriscos, dos cativos e dos elches tinha um maior peso do que a questão dos luteranos e calvinistas.

Os arquivos da Inquisição de Lisboa, Sevilha, Maiorca, Sicília, etc., contêm vários processos do Santo Ofício levados a cabo contra arrais, nascidos na religião cristã e que se encontravam ao serviço do Islão quando foram capturados. Por exemplo, Simão Gonçalves foi feito cativo dos Mouros por volta de 1550. Renegou a fé cristã e assaltou e pilhou para os seus armadores de Argel. Preso em Portugal, arrependeu-se num Auto de Fé e chegou ainda a capitanear uma galera da Mina. Outro exemplo: em 1588, as 35 galés de Argel eram comandadas por 21 renegados, 2 filhos de renegados, e por apenas 4 árabes e 8 turcos - os renegados eram de origem húngara, francesa, genovesa, espanhola, grega, veneziana, corsa, siciliana, napolitana e calabresa.

Em Portugal, os renegados capturados tinham de se apresentar perante a Inquisição e confessar as suas culpas. As penas consistiam geralmente em abjurações, instrução, penitência e pagamento das custas. Alguns, poucos, eram condenados a penas de prisão e um ou outro a degredo ou às galés - se bem que o islamismo fosse um dos delitos mais gravosos, de um modo geral a Inquisição era bastante benevolente para com os renegados: para além de se recuperar as almas perdidas, os renegados eram pessoas ainda muito válidas para a sociedade.

Entre 1536 e 1700, 250 renegados de várias nações compareceram perante os três tribunais da Inquisição portuguesa - destes, 5 eram mulheres e cerca de 50% eram portugueses, tendo entre todos experimentado um cativeiro que terá durado entre 3 e 35 anos.

E era um cativeiro bastante cruel. Apanhados entre os conflitos religiosos, os cativos de um lado e do outro sofriam as piores torturas e sevícias. Conta Frei António de Espínola, em 1688, que, aquando do cerco de Argel, a 26 de Junho desse mesmo ano por uma armada francesa de com 18 navios de guerra, 8 galés, 10 balandras incendiárias e mais embarcações auxiliares, o cônsul francês André Piol foi levado, com mais quatro franceses, para a Ribeira e aí foram atados pelos pés em dous paos, com a cabeça para baixo, defronte da boca do tiro, logo dispararão a peça que os fazia em migalhas. Só o consul escapou. Noutro dia puseram no canhão o Padre Vigário Apostólico D. Miguel Mot-Mafour e mais quatro franceses, a quem cortaram as orelhas e os narizes, após lhes cegarem um olho com um alfange.

Em represália, os franceses das galés expuseram sete mouros mortos, pregados em tábuas, com os narizes, olhos e orelhas cortados e alguns vivos, com pedaços de toucinho na boca. Em resposta de terra, 28 franceses mais foram passados ao tiro de canhão. (No final do cerco quando as munições francesas acabaram, metade das casas argelinas estavam destruídas bem como todos os banhos, as tabernas dos cristão, a casa do rei, a fortaleza, as mesquitas, os 5 hospitais e as igrejas. Cinco navios muçulmanos e um inglês que estava no porto foram afundados).

Não admira pois que houvesse renegados. E era muito fácil renegar o Cristianismo: o cristão deveria declarar querer ser mouro, levantar a mão direita e dizer La ilaha illa Allah Mohammed rezul Allah, a profissão de fé. Implicava também mudar de nome. os mais comuns eram Ali, Mustafá e Mahomet.

Em seguida vinha a circuncisão, o que para além da dor física implicava também uma marca que nunca mais se apagaria e que denunciaria o renegado caso este voltasse a ser capturado na Europa.

A aparência também se alterava, com o corte do cabelo e uso de traje mouro. A oração ritual, a salat, era praticada muito pouco ou se o era, então era apenas dita corrompida, porque muitos dos renegados não sabiam árabe.

Depois haviam os abusos sociais. As mulheres eram violadas e tomadas como concubinas, o mesmo acontecendo a alguns homens. Miguel Cervantes Saavedra, o autor do Dom Quixote, foi um deles, sofrendo um trauma que nunca conseguiu superar e que se lê bem nas entrelinhas de algumas obras que escreveu, como a da Viagen al Parnaso, compuesto por Miguel de Cervantes Saavedra. Dirigido a D. Rodrigo de Tapia, caballero del habito de Santiago: El trato de Argel, escrita em 1582, ainda recém resgatado do cativeiro de Argel, e que tem como tema central o enamoramento entre escravos e amos, explicado por feitiços.

Se os renegados se mantiveram nas franjas sociais de dois mundos em permanente conflito, não inteiramente integrados no Islão e com problemas de índole diversa quando regressavam, constituindo um grupo dividido entre duas sociedades, duas culturas, duas religiões e duas vidas, também nesta questão de conflito de religiões e culturas as questões não são lineares nem maniqueístas.


A pirataria por conveniência das partes

Se muito dinheiro era sangrado à Europa, à conta dos saques de navios e das somas pagas pelos resgates, verdade era também o facto desse mesmo dinheiro regressar à Europa, sob a forma de pagamentos para a aquisição de produtos de luxo e armas produzidas na Europa Setentrional.

Com efeito, as relações comerciais entre as duas bandas do Mediterrâneo não foram interrompidas pelo corso ou pela violência - em determinados momentos, as autoridades viram-se até coagidas a proibir aos mercadores de adquirir, em Argel ou na zona do Magrebe, as mercadorias roubadas aos cristãos sob pena de confiscação das mesmas e da aplicação de castigos corporais –a os delatores capazes de apresentar prova daquele delito era reservado um terço do valor dos bens confiscados.

Muitas vezes, a coberto da chamada "pirataria amigável", davam-se autênticas operações de contrabando, enquanto que os menos escrupulosos vendiam aos infiéis as armas que os haveriam de cometer mais tarde. A Inglaterra trocava salitre, cera, peles e ouro marroquinos por armas e munições, através da companhia Henry St-John & Co.

Os Países Baixos, por um tratado de 1610, forneciam a Marrocos fio de ferro, armas e munições. Os comerciantes judeus adquiriam por baixo preço as mercadorias roubadas e revendiam-nas na Itália, em Livorno e em Genes. Há até canhões fundidos na Holanda, em 1619 e 1632, que têm inscrições em árabe invocando Alá…

Os próprio padres redentores utilizavam intermediários que reclamavam uma percentagem do resgate, enquanto que a sua vantagem, reclamada ao sultão, era a de poderem construir capelas e igrejas em território magrebino.

Havia ainda muita corrupção no "negócio dos resgates", com intermediários europeus e judeus a afastar os religiosos das negociações, resgatando cativos por baixo preço e cobrando aos religiosos preços elevados, muitas vezes por cativos já mortos, não existentes ou mesmo já resgatados.

Ontem, como hoje, a religião andava de braço dado com o vil metal. Ontem, como hoje, quem se tramava era a arraia-miúda. Razão tinha Voltaire quando elencava, no seu Candide, a escravatura às mãos dos Muçulmanos como uma das maiores tragédias que afectavam a Humanidade do seu tempo. Ou, como diria João de Mascarenhas, em 1627, na sua Memorável relaçam da perda da Nao Conceiçam que os Turcos queymarão à vista da barra de Lisboa: "não há pior transe do que esperar o cativo nesta hora o amo que terá, porque um homem não pode chegar a maior desgraça, nem seus pecados o podem trazer a maior miséria, que a ser escravo, mas se a sua má fortuna o trouxe a ser escravo de ruim patrão, não tem que aguardar cousa boa de sua estrela, se não ter-se por desgraçadissimo, porque não há pior inferno nesta vida".
E o que é a noite? É também acordar de madrugada, em pânico, com medo de morrer.

2004/12/01

Polaroids (TM) de Lisboa I

A FNAC do Chiado está mais cheia do que um ovo. Na fila para pagar, a sociedade da informação e da comunicação levanta a cabeça e surge em todo o seu esplendor. Aqui e a ali, pessoas incrédulas mas felizes, atendem o telemóvel ou recebem uma sms: o Governo fora posto na rua.

Por momentos, é como se o Salazar tivesse caído novamente da cadeira ou como se, a toda a mecha, tivesse passado uma Chaimite à porta do Grandella, a caminho do Largo do Carmo. Por momentos, a FNAC foi uma explosão de júbilo e alegria, um ovo mal contido de suspiros de alívio. Por momentos, ainda se acredita que há vida inteligente neste país.