
cresceram-lhe búzios nas pálpebras algas finas
moviam-se medusas luminosas ao alcance da fala
e o peito era o extenso areal
onde as lendas e as crónicas tinham esquecido
enigmáticos esqueletos insectos e preciosos metais
habitas agora a memória
a memória de todas as coisas
esquecidas, de todas as coisas
não recordadas, das coisas
perdidas pelos cantos,
abandonadas, nómadas,
amargas, putrescíveis.
e não mais nos entregamos
não mais nascemos um no outro
não mais lembramos a pele
na pele incomensurável
o suor que nos cobria
e descobria os corpos
aflitos, quando todas as coisas
ainda eram esse mar azul e verde
que nos subia à boca, a salsugem
das coisas, de todas as coisas
agora desabitadas à beira-mar.
.

6 comentários:
e não mais nos entregaremos às pedras musgosas, mas apenas às palavras que escrevem a memória
Gostei tanto, tanto, tanto. Conheci a obra de Al Berto há pouco tempo, mas gostei de imediato.
ao contrário do efémero, al berto jamais será esquecido.
como também gosta de fotografia
(...) É desse lugar iluminado que, hoje, vos falo. Fui ter com um fotógrafo meu amigo e pedi-lhe para me retratar. Ele acendeu um foco de luz. Sentei-me no centro dele. A máquina disparou sem cessar. Gesticulei, abri os braços, mexi-me muito - como se soubesse que nunca mais o voltaria a fazer. Quando o meu amigo mergulhou o papel fotográfico no revelador, eu também mergulhei. Mas devo ter desmaiado uns segundos, talvez minutos, porque ao retomar consciência senti as pernas e os braços dormentes - e todo o meu corpo estava mole. Um véu de luz toldou-me a visão. Ceguei por instantes, mas não foi uma sensação desagradável. Depois, o corpo começou a ondear, a impregnar-se no papel e a coincidir com o retrato que o meu amigo fizera de mim. Segundos mais tarde uma pinça metálica tirava-me do revelador. Senti, então, a frescura da água - e toda a superfície da folha de papel, o meu novo corpo, brilhou. Em seguida deixei-me entorpecer na temperatura tépida, voluptuosa, do fixador. Tinha encontrado o esconderijo. (...)
AL BERTO
de O esconderijo do homem triste
:))
Alexandre, não respondo por mim, porwue se te falo à Cesariny isto fica mesmo mau!
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