Trabalham 22 horas por semana. Têm um serviço de saúde diferente do comum dos cidadãos, melhor e de muito mais rápido acesso.
Quando querem faltar, põem 'artigos'.
Fazem formação para subir na 'carreira', não para se formarem. Fazem mestrados para subir de 'escalão', não para serem mestres de alguma coisa.
Contam acirradamente 'dias de serviço' e mordem nas canelas dos 'colegas' que têm uma semana de 'serviço' a mais do que eles. Muitos não falam português: falam eduquês - uma língua hermética, feita de casca de cebola, às camadas concêntricas de termos espúrios, idiotas e pseudo-científicos.
Têm 15 dias de férias pelo Natal, uma semana pela Páscoa, duas semanas 'intercalares' e três meses de férias pelo Verão (se vos disserem que têm apenas 22 dias de férias, como o comum dos cidadãos, não acreditem - é treta).
Há uns, poucos, que são bons: nasceram para ensinar, para formar, para educar.
Outros, muitos, demasiados, são uns sornas, funcionário públicos que estão ali para ganhar o seu - não dão aulas, vendem aulas. Não querem chatices. Não querem aturar 'os filhos dos outros'. Não sabem transmitir conhecimentos. São pobres de espírito, são mal formados, são mal educados, são ignorantes, são como a maioria dos portugueses - gente que se licenciou, mal ou bem, e que têm competência legal para ser docente. Nada mais. No nosso país, não é professor quem deve - é quem pode apresentar uma nota de conclusão de curso, uns dias de serviço e uma data de nascimento.
Durante 4 anos fui um deles. Vi como o sistema é podre, como os 'programas' que vêm do 'Ministério' são maus, inconsistentes, desadequados. Vi como o que se vive nas escolas é fruto da mente distorcida de uns quantos 'académicos' que nunca na sua vida deram aulas ao segundo ciclo, quanto mais a uma turma do 7º ano com um média etária de 17 anos. Vi como quem faz os programas vive desligado da realidade, vi como as acções de formação são a coisa mais chata e inútil à face da terra, vi como muitos pais depositam os filhos à porta da escola e pedem que não os chateiem com greves inopinadas ou períodos intercalares capazes de os deixar literalmente com a criancinha nos braços.
Vi tudo isso porque durante 4 anos fui um deles. Fui um deles - dos mais insignificantes na cadeia alimentar do ensino português, mas um deles. Um 'colega', com 1346 dias de serviço, com direito a cartão do sindicato e tudo.
Quatro anos de serviço, fora os meses de Agosto. Dois anos mais e seria professor do Quadro de Zona Pedagógica. Uns anos mais e seria Professor do Quadro de Nomeação Definitiva - o PQND, o Santo Graal pelo qual almeja o funcionário público que estrebucha dentro do corpo de cada português que faz pela vida, de preferência sem muito trabalho envolvido e com bastantes benesses, alcavalas e prebendas à mistura.
Durante 4 anos fui um deles.
Adorei dar aulas. Sei a que ponto de cansaço se pode chegar quando se é cumulativamente Director de Turma, Delegado de Grupo, Membro do Conselho Pedagógico, professor de Ciências do 7º e do 8º, de Biologia do 12º e de Técnicas Laboratoriais de Biologia, com 6 turmas, com 27 a 30 alunos cada.
Sei que muitos levam trabalho para casa, que corrigem provas nos comboios, no café. Sei que muitos não aguentam a pressão e ou gritam "Comandos!" ou 'metem baixa' por esgotamento. Sei que muitos têm os carros riscados, os pneus furados, a pele marcada pela bota cardada de algum discente mais 'hiperactivo' ou a roupa chegada ao pêlo numa reunião de pais mais calorosa. Não ignoro tudo isso, como também não ignoro que, no cômputo dos cômputos, a vida de professor é também uma vida santa.
Santa, para os sornas. Só não é fácil para quem quer empenhar-se. Para quem quer dar o litro e correr a proverbial milha extra. Sei que não é fácil porque fui um deles, porque o fui até me ter decidido mudar radicalmente de vida, de emprego, de ocupação, de temática, até algo mais aliciante me ter chamado. Fui-o há muito tempo, mas não há tanto que possa esquecer o bom, o mau e o que não é fácil.
Não é fácil, especialmente, remar contra a corrente e lutar contra um sistema que não castiga os preguiçosos nem afasta os nitidamente incompetentes. Não é fácil para os poucos, muito poucos, que se preocupam, que se incomodam, que se entregam de corpo e alma à honrosa tarefa de ensinar.
Aos outros, a esses muitos outros, eu digo - parafraseando uma ex-colega minha, professora de Português-Francês, que dizia que "dar aulas é muito giro, o pior é ter de aturar os alunos" - que ter um sistema de ensino é muito giro, o pior é ter de aturar os senhores que vêm para a televisão vociferar contra a perda de 'privilégios e direitos adquiridos".
Basta! Estou farto de contribuir para esse peditório. Estou farto de vos dar dinheiro, dinheiro que me custa a ganhar todos os meses para que agora venham fazer a vossa greve de merda na altura dos exames. Estou farto de aturar supostos profissionais que fazem sempre greve quando mais dói, quando sabem que mais podem prejudicar os alunos e fazer mais mossa mediática.
A crise, quando toca, toca a todos. Vamos lá a mexer esse cu e a fazer pela vida, a vossa e dos vossos alunos, aqueles que são a razão da vossa existência. Se não estão satisfeitos, vão bardamerda: há tantos colegas vossos no desemprego que, mais cedo que tarde, alguém vos há-de substituir.
Vá. Façam-me esse favor: despeçam-se do Estado. E vejam se trabalham, por uma vez na vida.