A manhã estava enevoada e o rio lobrisgava-se em fímbrias, apenas, lá longe, por entre o cinzento da cidade. No final da descida, em tropel, um magote de duas ou três dezenas de alunos de arqueologia agrupava-se de encontro às vedações que delimitavam uma vala, em pleno processo da sua mediática abertura, algures numa rua estreita de Alfama.
Por entre o cano de esgoto que se rompia, deixando entrever a merda citadina a caminho do rio acima referido, de pés fincados no areão grosso, já bastamente remexido pela máquina liliputiana que se afadigava à volta do citado cano, a arqueóloga do Museu da Cidade contemplava embevecida uma vala escura, com cerca de dois metros e meio de profundidade, no interior da qual se entrevia um muro romano e uma qualquer superfície pintada, a ele adossada, junto ao alicerce do mesmo.
A voz saía-lhe pausada, triunfante até: isto tem muito material; muito material... e do bom!
Há material? E, não só há material, como é do bom? Isto deve ser do adiantado da hora. Olho para o relógio: são 11:25, já não durmo há mais de 29 horas. Olho para a vala, olho para a arqueóloga, olho para o cano, olho para a merda que corre pelo cano abaixo e tomo a única decisão sensata do dia: regresso a casa. Atrás de mim deixo o magote de aprendizes de arqueólogo de olhos bem abertos perante a perspectiva de haver material, material e do bom!, quiçá umas campanienses, talvez até coisa mais rara, helénica ou púnica, da boa. Afinal, de gustibus non est disputandum.
Por entre o cano de esgoto que se rompia, deixando entrever a merda citadina a caminho do rio acima referido, de pés fincados no areão grosso, já bastamente remexido pela máquina liliputiana que se afadigava à volta do citado cano, a arqueóloga do Museu da Cidade contemplava embevecida uma vala escura, com cerca de dois metros e meio de profundidade, no interior da qual se entrevia um muro romano e uma qualquer superfície pintada, a ele adossada, junto ao alicerce do mesmo.
A voz saía-lhe pausada, triunfante até: isto tem muito material; muito material... e do bom!
Há material? E, não só há material, como é do bom? Isto deve ser do adiantado da hora. Olho para o relógio: são 11:25, já não durmo há mais de 29 horas. Olho para a vala, olho para a arqueóloga, olho para o cano, olho para a merda que corre pelo cano abaixo e tomo a única decisão sensata do dia: regresso a casa. Atrás de mim deixo o magote de aprendizes de arqueólogo de olhos bem abertos perante a perspectiva de haver material, material e do bom!, quiçá umas campanienses, talvez até coisa mais rara, helénica ou púnica, da boa. Afinal, de gustibus non est disputandum.

