2009/09/22

A vantagem de votar branco

Hoje, enquanto aparafusava estantes e dividia os livros lá de casa - Guia dos Arquivos da Alfândega de Lisboa para um lado, Percursos Pedestres em Portugal para o outro; o De Profundis aqui, os 12 primeiros livros do Terry Pratchet acoli - calhei a dar algum uso à televisão que estava ao canto. Durante uma hora, enquanto separava tudo o que tinha a ver com a Civilização Romana de tudo o resto, liguei o white noise do Goucha; e da sua aptidão para fazer crescer no quintal ervas aromáticas; e a tragédia sob a forma de toupeira que lhe assolara os tomates; e o porquê de uma arquitecta que era actriz resolver ser actriz ao invés de arquitecta (ou será que era ao contrário?).

Adiante. Passado com algum pundonor esse meu pequeno momento masoquista, sintonizei um canal de notícias (que, não posso precisar, ou era o da SIC-N ou o da TVI24). Por entre o charivari próprio de um noticiário dominado pela premência eleitoral, uma das peças alinhadas versava a propaganda distribuída pelas várias candidaturas. A palma era entregue ao PS e ao PSD - ele eram chapéus, canetas, aventais, o diabo a quatro.

Depois, surgiu na pantalha uma das novas pragas mediáticas, tão em moda hodiernamente, o auto-denominado politólogo e um outro gajo qualquer, o que aparece sempre de debaixo de uma pedra sempre que se conjura as palavras branding e marca.

Discutiram-se então as verbas dispendidas versus a sua eficácia traduzida em votos. Ou seja, tentou-se apurar mais ou menos isto: quantos votos compra, se é que compra, a oferta de cem canetas e de uma dúzia de chapéus logotipados?

Dando de barato o não se ter chegado a conclusão alguma - afinal, sempre era um politólogo a falar com um brander - proponho aqui o exercício inverso: quantas canetas compra um voto?

Vamos a contas.

Prescreve a LEI DO FINANCIAMENTO DOS PARTIDOS POLÍTICOS E DAS CAMPANHAS ELEITORAIS, de 20 de Junho de 2003, que a cada partido que haja concorrido a acto eleitoral, ainda que em coligação, e que obtenha representação na Assembleia da República é concedida uma subvenção anual, desde que este a requeira ao Presidente da Assembleia da República.

Ora, essa subvenção consiste numa quantia em dinheiro equivalente à fracção 1/135 do salário mínimo mensal nacional por cada voto obtido na mais recente eleição de deputados à Assembleia (mesmo que não eleja deputados, essa subvenção é também concedida aos partidos que, tendo concorrido à eleição para a Assembleia da República e não tendo conseguido representação parlamentar, obtenham um número de votos superior a 50000).

Sabendo que 1/135 do salário mínimo nacional eram, em 2005, 2.70 euros quanto nos custaram então, a nós, contribuintes, as eleições legislativas desse ano?



PS: 45,05% - 2.573.302 votos (vezes 2.70 euros são 6.947.915,40 euros ou seja, quase SETE milhões de euros)

PSD: 28,69% - 1.638.931 (vezes 2.70 euros são 4.425.113,70 euros ou seja, quase QUATRO milhões E MEIO de euros)

CDU: 7,57% - 432.139 (vezes 2.70 euros são 1.166.775,30 euros, mais de UM milhão de euros)

CDS-PP: 7,26% - 414.855 (vezes 2.70 euros são 1.120.108,50 euros, mais de UM milhão de euros);

BE: 6,38% - 364.296 (vezes 2.70 euros são 983599,20 euros, quase UM milhão de euros).

Ou seja, tudo somado, são 13.659.912,90 euros. TREZE MILHÕES E SEISCENTOS E CINQUENTA E NOVE MIL EUROS.


Este ano, cada voto nosso num partido político com assento na Assembleia da República vai valer 3,33 euros.. ora, mais do que o descontentamento pela fraca alternativa que há nestas eleições, este outro argumento - o de que um voto nosso num qualquer partido retira automaticamente dos nossos bolsos €3.33 - é, definitivamente um argumento de peso.

Sinceramente, saber que milhões e milhões de votos vezes três euros e trinta e três cêntimos dá uma pipa de massa - massa essa que irá servir para pagar chapéus, porta-chaves, panfletos, congressos, e cartas ao eleitor, idiotas e inúteis, ao invés de contribuir para o avanço do país ou, vá lá, para colmatar parte do défice gigantesco que nos assola - faz-me pensar seriamente em votar em branco. Ao menos, não sustentaria vícios, sinecuras e demais alcavalas e mordomias, quer dos políticos, quer das agências de marketing e comunicação.

É que quinze milhões de euros compram muitas canetas.

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9 comentários:

vieira do mar disse...

Deixa-te de contas de cabeça e vota mas é PS, por razões óbvias.

Alexandre disse...

Já pensei nisso (lá está, a história do voto útil), mas não voto: quem fez a cama, que se deite nela. Se lá no PS não fossem estúpidos e arrogante, se não entrassem em negociatas como a da Liscont e coisas quejandas, não estariam agora em risco de malbaratar a vitória eleitoral. Para esse peditório já dei em 2005 - não venham agora fazer recair sobre mim o ónus de uma possível vitória do PSD. Se há aqui culpados pela situação em que estamos hoje, não sou eu certamente: é o PS.

Anónimo disse...

Alexandre... tu... eu... e todos aqueles que colocaram a cruz no quadradinho somos culpados. Porquê? acreditamos que algo iria mudar... ou pelo menos, não ficar tão mal. Sou completamente contra o voto util! Não se governa um país dessa maneira. O cartão vermelho será levantado através do voto em branco. Pelo menos do meu lado. Cansei-me de tanta patetice!

besus
heidi

Blondewithaphd disse...

Ou seja, ao votares em branco não gastas caneta! Bem visto!

Lize disse...

E eu? Que não me revejo eu nenhum dos partidos ou se me revejo, não gosto do candidato? Voto em branco na minha primeira eleição? :P
Ainda ando a pensar no assunto :/

Anónimo disse...

mas vocês esquecem-se que votar é um acto de cidadania. Votar em branco é no mínimo uma irresponsabilidade. É furtar-se a tomar uma decisão é arcar com as consequências, boas ou más!
Em Portugal a abstenção não invalida umas eleições, antes pelo contrário, permite que os extremistas (mais fiéis aos seus ideais) se aproximem do poder. E depois de lá estarem não é preciso explicar o que é que acontece. Por isso, deixem-se de paneleirisses, não sejam "prima donas" de birra. O importante é que votem, em consciência, mas votem. Não deixem que os outros, sobretudos os radicais, decidirem por vocês.
Estão zangados com o PS votem noutros. Se não gostam dos outros pensem na lógica do mal menor. Não gostam da "Manela" votem noutros. Mas pelo menos leiam os programas partidários, devassem a vida dos candidatos a deputados. Tentem saber tudo deles e depois pesem tudo e escolham aquele que mais vos convém....

Vocês deviam ser condenados a viver 18 anos num concelho com 80% de votos comunistas. Que se mantêm no poder à tanto tempo como o João Jardim e qualquer dia arriscam a permanecer mais tempo no poder que o botas. Assim, talvez percebessem o que é o poder do voto.

Madrid

Anónimo disse...

Madrid, o voto em branco... por si só, já se encontra no patamar do exercer o nosso dever de cidadania! Não se fica em casa à espera que algo caia do céu. O grande problema é o mal menor. O tal...voto util. Devassamos a vida de cada candidato... lemos atentamente as coordenadas de cada projecto eleitoral... comparamos... ok... e? as duvidas são as mesmas. Os antecedentes são bem fortes para serem ignorados. Damos uma oportunidade a uns... de vez em quando trocamos as escolhas... mas tudo não passa de um ciclo! E nada se altera! Pelo contrário! Piora! Da minha parte, já estou cansada. 35 anos a ser governada por palhaços... chega! Tu tens os tais 80% de comunidade comunista... por aqui... é psd... e digo-te que o tal mal menor... foi a Edite... e mesmo assim, levou o conselho quase à mingua... e antes disso... ah sim... o Gomes da Silva mais os seus sacos azuis estrondosos. Por isso, não vás mais longe. :)
Quanto ao tema abordado... já me deixei enganar demasiadas vezes no que a isto se refere. Talvez seja a maturidade da idade- esperemos que sim, porque já vem sendo hora-... ou então... é falta de esclarecimentos a sério. Acho que vou pela segunda opção... digo eu. lol

heidi

candida disse...

eu tou a cagar-me para as vossas opiniões. eu voto ( ou não) como muito bem entender.

adsensum disse...

Olá Alexandre, pese embora ter uma opinião muito diferente da sua, queria sugerir-lhe o seguinte: nunca vote em branco porque um boletim em branco é ainda passível de ser preenchido...
Há quem diga que quem deseja votar em branco deve votar nulo, i.e., preencher mais do que uma cruz.
Esta é a opinião de quem não confia nas contagens nem na CNE.
Cumprimentos.